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Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [11]
A Comunidade Internacional
Tendo como meta o «bem comum universal» é urgente que «a comunidade dos povos se dê a si mesma uma estrutura à altura das tarefas atuais [...]. Para obter tais fins, as instituições da comunidade internacional devem prover, cada uma por sua parte, às diversas necessidades humanas, no domínio da vida social — a que pertencem a alimentação, saúde, educação, trabalho — como em certas circunstâncias particulares, que podem surgir aqui ou ali, tais como a necessidade geral de favorecer o progresso das nações em vias de desenvolvimento, de obviar às necessidades dos refugiados dispersos por todo o mundo, ou ainda de ajudar os emigrantes e suas famílias» (GS 84). E também «é preciso abolir o apetite de lucros excessivos, as ambições nacionais, o desejo de domínio político, os cálculos de ordem militar bem como as manobras para propagar e impor ideologias» (GS 85).Algumas normas oportunas
A GS sugere algumas orientações para assegurar o acesso de todos aos bens necessários para viver: que «a plena perfeição humana dos cidadãos» seja a finalidade expressa das nações; que os povos desenvolvidos ajudem os que estão em vias de desenvolvimento; que se estabeleça uma Comunidade Internacional com autoridade e poder para coordenar e estimular o desenvolvimento, bem como «regular as relações económicas no mundo inteiro»; que se revejam as atuais estruturas sociais e económicas, tendo em conta as necessidades materiais, mas também as de ordem cultural e espiritual (GS 86). A Igreja aponta também para a necessidade de auxílio educacional e tecnológico aos «povos que, além de muitas outras dificuldades, sofrem especialmente da que deriva dum rápido aumento da população» e aos que não têm acesso a técnicas modernas de produção ou não possuem adequada formação educacional e profissional. Entretanto, «o Concílio exorta todos a que evitem as soluções, promovidas privada ou publicamente ou até por vezes impostas, que sejam contrárias à lei moral» (GS 87). Com estas indicações, pretende despertar os cristãos para a sua responsabilidade: «Não se dê o escândalo de haver algumas nações, geralmente de maioria cristã, na abundância, enquanto outras não têm sequer o necessário para viver e são atormentadas pela fome, pela doença e por toda a espécie de misérias» (GS 88). Por isso, é «absolutamente necessário que a Igreja esteja presente na comunidade das nações, para fomentar e estimular a cooperação entre os humanos» (GS 89). Entre as possibilidades, «uma das melhores formas de atuação internacional dos cristãos consiste certamente na cooperação que, isoladamente ou em grupo, prestam nas próprias instituições criadas ou a criar para o desenvolvimento da cooperação entre as nações» (GS 90).Conclusão
A GS pretende fazer com que todas as pessoas tornem «o mundo mais conforme à sublime dignidade humana, aspirem a uma fraternidade universal mais profundamente fundada e, impelidos pelo amor, correspondam com um esforço generoso e comum às urgentes exigências da nossa era» (GS 91). Impõe-se, assim, que a fraternidade e a caridade impulsionem o diálogo, o entendimento e o respeito pela legítima diversidade entre as nações, as raças, as culturas e religiões, sem excluir ninguém. «Por isso, chamados pela mesma vocação humana e divina, podemos e devemos cooperar pacificamente, sem violência nem engano, na edificação do mundo na verdadeira paz» (GS 92). Os cristãos «nada podem desejar mais ardentemente do que servir sempre com maior generosidade e eficácia os homens e mulheres do mundo de hoje. [...] ‘Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros’ (João 13, 35). Essa é «a vontade do Pai» (GS 93).Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —
Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [10]
Natureza da paz
«A paz não é ausência de guerra; nem se reduz ao estabelecimento do equilíbrio entre as forças adversas, nem resulta duma dominação despótica. [...] É um fruto da ordem que o divino Criador estabeleceu para a sociedade humana [...]. A paz nunca se alcança duma vez para sempre, antes deve estar constantemente a ser edificada. [...] Absolutamente necessárias para a edificação da paz são ainda a vontade firme de respeitar a dignidade dos outros e a prática assídua da fraternidade. A paz é assim também fruto do amor, o qual vai além do que a justiça consegue alcançar. A paz terrena, nascida do amor do próximo, é imagem e efeito da paz de Cristo, vinda do Pai. Pois o próprio Filho encarnado, príncipe da paz, reconciliou com Deus, pela cruz, todos os seres humanos; restabelecendo a unidade [...], extinguiu o ódio e, exaltado na ressurreição, derramou nos corações o Espírito de amor» (78).Evitar a guerra
«Apesar de as últimas guerras terem trazido tão grandes danos materiais e morais, ainda todos os dias a guerra leva por diante as suas devastações em alguma parte da terra. Mais ainda, o emprego de armas científicas de todo o género para fazer a guerra, ameaça, dada a selvajaria daquelas, levar os combatentes a uma barbárie muito pior que a de outros tempos. Além disso, a complexidade da atual situação e o intrincado dos relações entre países tornam possível o prolongar-se de guerras mais ou menos larvadas, pelo recurso a novos métodos insidiosos e subversivos. Em muitos casos, o recurso aos métodos do terrorismo é considerado como uma nova forma de guerra. Tendo diante dos olhos este estado de prostração da humanidade, o Concílio quer, antes de mais, recordar o valor permanente do direito natural internacional e dos seus princípios universais» (79). Daí a necessidade de fazer valer os acordos e as convenções internacionais que exigem o respeito pela dignidade humana. «Saibam os homens e mulheres de hoje que darão grave conta das suas atividades bélicas. Pois das suas decisões atuais dependerá em grande parte o curso dos tempos futuros». Reafirmando a tradição de condenar sempre a guerra, declara que qualquer ação bélica genocida «é um crime contra Deus e o próprio ser humano, que se deve condenar com firmeza e sem hesitação» (80). Lembra, também, que «a corrida aos armamentos, a que se entregam muitas nações, não é caminho seguro para uma firme manutenção da paz; e de que o pretenso equilíbrio daí resultante não é uma paz segura nem verdadeira. [...] É preciso escolher outros caminhos, partindo da reforma das mentalidades, para eliminar este escândalo e poder-se restituir ao mundo, liberto da angústia que o oprime, uma paz verdadeira» (81). Neste contexto, é função das autoridades nacionais e internacionais buscar os meios mais aptos para assegurar a vida, garantir o direito e a justiça. É função de todos promover uma cultura que seja capaz de suplantar aquilo que divide a humanidade. Pouco adiantarão os esforços daqueles que buscam edificar a paz, «enquanto os sentimentos de hostilidade, desprezo e desconfiança, os ódios raciais e os preconceitos ideológicos dividirem os seres humanos e os opuserem uns aos outros. Daqui a enorme necessidade duma renovação na educação das mentalidades e na orientação da opinião pública. [...] Todos nós temos de reformar o nosso coração, com os olhos postos naquelas tarefas que podemos realizar juntos para o progresso da humanidade. [...] A Igreja de Cristo, no meio das angústias do tempo atual, não deixa de esperar firmemente. À nossa época quer ela propor, uma e outra vez, oportuna e importunamente, a mensagem do Apóstolo: ‘eis agora o tempo favorável’ para a conversão dos corações, ‘eis agora os dias da salvação’» (82).Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —
Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [9]
Natureza e fim da comunidade política
A comunidade política existe em vista do bem comum. «Os indivíduos, as famílias e os diferentes grupos que constituem a sociedade civil, têm consciência da própria insuficiência para realizar uma vida plenamente humana e percebem a necessidade duma comunidade mais ampla, no seio da qual todos conjuguem diariamente as próprias forças para cada vez melhor promoverem o bem comum. E por esta razão constituem, segundo diversas formas, a comunidade política. A comunidade política existe, portanto, em vista do bem comum; nele encontra a sua completa justificação e significado e dele deriva o seu direito natural e próprio. Quanto ao bem comum, ele compreende o conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição. [...] O exercício da autoridade política, seja na comunidade como tal, seja nos organismos representativos, deve-se sempre desenvolver e atuar dentro dos limites da ordem moral, em vista do bem comum» (GS 74). Ora, faz parte da natureza humana participar politicamente na sociedade através do voto livre, que é tanto um direito quanto um dever. «É plenamente conforme com a natureza do ser humano que se encontrem estruturas jurídico-políticas nas quais todos os cidadãos tenham a possibilidade efetiva de participar livre e ativamente, dum modo cada vez mais perfeito e sem qualquer discriminação, tanto no estabelecimento das bases jurídicas da comunidade política, como na gestão da coisa pública e na determinação do campo e fim das várias instituições e na escolha dos governantes. Todos os cidadãos se lembrem, portanto, do direito e simultaneamente do dever que têm de fazer uso do seu voto livre em vista da promoção do bem comum. A Igreja louva e aprecia o trabalho de quantos se dedicam ao bem da nação e tomam sobre si o peso de tal cargo, em serviço dos seres humanos». E pede que «todos os cristãos tenham consciência da sua vocação especial e própria na comunidade política». Além disso, valoriza a importância da educação política: «deve atender-se cuidadosamente à educação cívica e política, hoje tão necessária à população e sobretudo aos jovens, para que todos os cidadãos possam participar na vida da comunidade política» (GS 75).A comunidade política e a Igreja
É fundamental que haja clareza sobre as relações da comunidade política e a Igreja; e «que se distingam claramente as atividades que os fiéis, isoladamente ou em grupo, desempenham em próprio nome como cidadãos guiados pela sua consciência de cristãos, e aquelas que exercitam em nome da Igreja e em união com os seus pastores». Contudo, a Igreja e comunidade política estão ao serviço da sociedade: façam-no em mútua cooperação. «Ambas servem a vocação pessoal e social [...]. E tanto mais eficazmente exercitarão este serviço para bem de todos, quanto melhor cultivarem entre si uma sã cooperação». Mas sem pôr em causa a autonomia e independência. «A Igreja que, em razão da sua missão e competência, de modo algum se confunde com a sociedade nem está ligada a qualquer sistema político determinado, é ao mesmo tempo o sinal e salvaguarda da transcendência da pessoa humana». Por isso, não devem servir-se uma da outra e tampouco usufruir de vantagens advindas desta relação. Até porque a Igreja tem por missão ensinar e denunciar o que não estiver de acordo com os direitos humanos. «Aderindo fielmente ao Evangelho e realizando a sua missão no mundo, a Igreja — a quem pertence fomentar e elevar tudo o que de verdadeiro, bom e belo se encontra na comunidade humana — consolida, para glória de Deus, a paz entre os seres humanos» (GS 76).Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —
Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [8]
O desenvolvimento económico
«Hoje, mais do que nunca, para fazer frente ao aumento populacional e satisfazer às crescentes aspirações do género humano, com razão se faz um esforço por aumentar a produção agrícola e industrial e a prestação de serviços. [...] Mas a finalidade fundamental da produção não é o mero aumento dos produtos, nem o lucro ou o poderio, mas o serviço do ser humano; do ser humano integral, isto é, tendo em conta a ordem das suas necessidades materiais e as exigências da sua vida intelectual, moral, espiritual e religiosa» (GS 64). Por isso, «o desenvolvimento não se deve abandonar ao simples curso quase mecânico da atividade económica» (GS 65). E «é necessário esforçar-se para que [...] se eliminem o mais depressa possível as grandes e crescentes desigualdades económicas atualmente existentes, acompanhadas da discriminação individual e social» (GS 66).Alguns princípios orientadores de toda a vida económico-social
O que sustenta a economia é o trabalho humano. «É com o seu trabalho que o ser humano sustenta de ordinário a própria vida e a dos seus; por meio dele se une e serve aos seus irmãos, pode exercitar uma caridade autêntica e colaborar no acabamento da criação divina» (GS 67). Assim, mais que um dever, o trabalho é um direito que deve ser assegurado pela lei, pois todo o ser humano tem direito ao salário, a condições humanizantes de trabalho e ao justo descanso para viver e dar vida digna aos seus. Além disso, «entre os direitos fundamentais da pessoa humana deve contar-se o de os trabalhadores criarem livremente associações que os possam representar autenticamente e contribuir para a reta ordenação da vida económica» (GS 68). A Igreja recorda também a importância do destino universal dos bens. Por isso, «sejam quais forem as formas de propriedade, [...] deve-se sempre atender a este destino universal dos bens» (GS 69). E «tenham-se sempre também em conta as necessidades urgentes das nações ou regiões economicamente menos desenvolvidas» (GS 70). É certo que a Igreja defende a propriedade privada: «A propriedade privada ou um certo domínio sobre os bens externos asseguram a cada um a indispensável esfera de autonomia pessoal e familiar, e devem ser considerados como que uma extensão da liberdade humana» (GS 71). Mas considera-a um direito relativo em relação ao bem comum e universal: o conjunto das condições de vida de uma sociedade que favorecem o bem-estar e o desenvolvimento humano de todos. «De resto, a mesma propriedade privada é de índole social, fundada na lei do destino comum dos bens. O desprezo deste carácter social foi muitas vezes ocasião de cobiças e de graves desordens, chegando mesmo a fornecer um pretexto para os que contestam esse próprio direito» (GS 72). Assim, a Igreja considera que a propriedade privada só é licita quando produz e propicia o trabalho e, somente nesta perspetiva ela pode ser defendida, pois as propriedades privadas improdutivas não permitem que outros, nomeadamente os pobres, nelas se fixem e delas tirem o seu sustento. A terminar este capítulo recorda-se que «os cristãos que desempenham parte ativa no atual desenvolvimento económico-social e lutam pela justiça e pela caridade, estejam convencidos de que podem contribuir muito para o bem da humanidade e paz do mundo. Em todas estas atividades, quer sozinhos quer associados, sejam exemplo para todos. Adquirindo a competência e experiência absolutamente indispensáveis, respeitem a devida hierarquia entre as atividades terrenas, fiéis a Cristo e ao seu Evangelho, de maneira que toda a sua vida, tanto individual como social, seja penetrada do espírito das bem-aventuranças, e especialmente do espírito de pobreza» (GS 73).Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —
Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [7]
Condições da cultura no mundo atual
Os novos estilos de vida provocados pelas mais diversas transformações ocorridas nos últimos tempos permite «falar duma nova era da história humana» (GS 54), de «um novo humanismo, no qual o ser humano se define antes de mais pela sua responsabilidade com relação aos seus irmãos e à história» (GS 55). «Nestas condições, não é de admirar que o ser humano, sentindo a responsabilidade que tem na promoção da cultura, alimente mais dilatadas esperanças, e ao mesmo tempo encare com inquietação as múltiplas antinomias existentes» (GS 56).Alguns princípios para a conveniente promoção da cultura
Apesar de reconhecer que alguns métodos podem «dar aso a certo fenomenismo e agnosticismo», a Igreja destaca aspetos positivos: «o gosto das ciências e a exata objetividade nas investigações científicas; a necessidade de colaborar com os outros nas equipas técnicas; o sentido de solidariedade internacional; a consciência cada vez mais nítida da responsabilidade que os sábios têm de ajudar e até de proteger os seres humanos; a vontade de tornar as condições de vida melhores para todos e especialmente para aqueles que sofrem da privação de responsabilidade ou de pobreza cultural. Tudo isto pode constituir uma certa preparação para a receção da mensagem evangélica» (GS 57). A Igreja lembra que entre a mensagem da salvação e a cultura humana existem muitos laços, pois Deus «falou segundo a cultura própria de cada época». E a própria Igreja «empregou os recursos das diversas culturas para fazer chegar a todas as gentes a mensagem de Cristo», além de «entrar em comunicação com as diversas formas de cultura, com o que se enriquecem tanto a própria Igreja como essas várias culturas» (58). Por conseguinte, «a Igreja lembra a todos que a cultura deve orientar-se para a perfeição integral da pessoa humana, para o bem da comunidade e de toda a sociedade» (GS 59).Alguns deveres mais urgentes dos cristãos com relação à cultura
Afirmando que a cultura exige respeito, liberdade e autonomia para se desenvolver, a Igreja exorta as autoridades públicas a favorecerem e a colaborarem para o desenvolvimento cultural. A Igreja apregoa que todos têm o direito à cultura e ao pleno desenvolvimento conforme as qualidades e tradições próprias de cada um, independentemente de raça, sexo, nação, religião ou situação social. «É preciso, além disso, trabalhar muito para que todos tomem consciência, não só do direito à cultura, mas também do dever que têm de se cultivar e de ajudar os outros nesse campo» (GS 60). E «cada ser humano continua a ter o dever de salvaguardar a integridade da pessoa humana, na qual sobressaem os valores da inteligência, da vontade, da consciência e da fraternidade, valores que se fundam em Deus Criador e por Cristo foram admiravelmente restaurados e elevados» (GS 61). Neste contexto, «os teólogos são convidados a buscar constantemente, de acordo com os métodos e exigências próprias do conhecimento teológico, a forma mais adequada de comunicar a doutrina aos homens do seu tempo [...]. Na atividade pastoral, conheçam-se e apliquem-se suficientemente, não apenas os princípios teológicos, mas também os dados das ciências profanas [...]. A Igreja deve também reconhecer as novas formas artísticas [...]. Vivam os fiéis em estreita união com os demais do seu tempo e procurem compreender perfeitamente o seu modo de pensar e sentir, qual se exprime pela cultura. Saibam conciliar os conhecimentos das novas ciências e doutrinas e últimas descobertas com os costumes e doutrina cristã, [...] e sejam capazes de apreciar e interpretar todas as coisas com autêntico sentido cristão» (GS 62).Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —
Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [6]
O Matrimónio e a Família no mundo atual
A pessoa humana nasce no seio de uma família, querida pelo Criador a partir da união do homem e da mulher, colaboradores na obra da Criação. E cada família deve ser construída sobre a comunhão e o amor, tal qual a Santíssima Trindade, sendo considerada a primeira manifestação da comunidade humana, cuja expressão do amor maior se manifesta na geração de uma nova vida. Com Jesus Cristo, a família alcança nova dimensão no Sacramento do Matrimónio, marcado pela entrega, renúncia e doação que o próprio Jesus Cristo dedicou à humanidade. Neste sentido, Jesus Cristo é o esposo, cuja esposa é a Igreja. Jesus Cristo, aquele que ama, redime e cuida da Igreja, torna-se modelo de relação matrimonial. «Por isso, a família cristã, nascida de um matrimónio que é imagem e participação da aliança de amor entre Cristo e a Igreja, manifestará a todos a presença viva do Salvador no mundo e a autêntica natureza da Igreja, quer por meio do amor dos esposos, quer pela sua generosa fecundidade, unidade e fidelidade, quer pela amável cooperação de todos os seus membros» (GS 48). Por conseguinte, para a Igreja, o Matrimónio e a Família são instituições fundamentais para a preservação da vida e para a constituição e a manutenção da sociedade, por isso se compromete na defesa contra a poligamia, o divórcio, o egoísmo, o hedonismo, e quaisquer «práticas ilícitas contra a geração». E afirma, ainda, que as condições económicas, sociais e políticas também causam diversas perturbações na família e na sociedade. «Por tal motivo, o Concílio, esclarecendo alguns pontos da doutrina da Igreja, deseja ilustrar e robustecer os cristãos e todos os que se esforçam por proteger e fomentar a nativa dignidade do estado matrimonial e o seu alto e sagrado valor» (GS 47).O amor e a fecundidade
«A Palavra de Deus convida repetidas vezes os noivos a alimentar e robustecer o seu noivado com um amor casto, e os esposos a sua união com um amor indiviso. [...] Este amor tem a sua expressão e realização peculiar no ato próprio do matrimónio» (GS 49). Ora, «os filhos são, sem dúvida, o maior dom do matrimónio e contribuem muito para o bem dos próprios pais. No entanto, o matrimónio não foi instituído só em ordem à procriação da prole. A própria natureza da aliança indissolúvel entre as pessoas e o bem da prole exigem que o mútuo amor dos esposos se exprima convenientemente, aumente e chegue à maturidade. E por isso, mesmo que faltem os filhos, tantas vezes ardentemente desejados, o matrimónio conserva o seu valor e indissolubilidade, como comunidade e comunhão de toda a vida» (GS 50).O amor e o respeito pela vida
«Quando se trata de conciliar o amor conjugal com a transmissão responsável da vida, a moralidade do comportamento não depende apenas da sinceridade da intenção e da apreciação dos motivos; deve também determinar-se por critérios objetivos, tomados da natureza da pessoa e dos seus atos; critérios que respeitem, num contexto de autêntico amor, o sentido da mútua doação e da procriação humana. Tudo isto só é possível se se cultivar sinceramente a virtude da castidade conjugal» (GS 51).O progresso e a promoção do Matrimónio e da Família
A Igreja entende a família como uma escola de humanização que orienta os filhos para serem capazes de seguir com responsabilidade a sua vocação. Por isso, exorta a sociedade, os cientistas, e especialmente todos os cristãos a promoverem a dignidade do Matrimónio e da Família, a fim de garantir que a sociedade possa se perpetuar segundo os valores da vida. «Protejam-se também e ajudem-se convenientemente, por meio duma previdente legislação e com iniciativas várias, aqueles que por infelicidade não beneficiam duma família» (GS 52).Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —
Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [5]
A Igreja ajuda o ser humano
A Igreja entende que, apesar do desenvolvimento humano e da afirmação dos seus direitos, os quais não só proclama como apoia os que os promovem, existe para ajudar o ser humano na busca pelo «significado da sua vida, da sua atividade e da sua morte». Neste auxílio prestado ao ser humano, destaca-se o Evangelho de Jesus Cristo, pois «nenhuma lei humana pode salvaguardar tão perfeitamente a dignidade pessoal e a liberdade do homem como o Evangelho de Cristo, confiado à Igreja» (GS 41).A Igreja ajuda a sociedade
A Igreja sabe que a missão que lhe foi confiada por Jesus Cristo não é de ordem política, económica ou social, mas de ordem religiosa. «Mas desta mesma missão religiosa deriva um encargo, uma luz e uma energia que podem servir para o estabelecimento e consolidação da comunidade humana segundo a lei divina». Por isso, coloca-se ao serviço da humanidade como promotora, orientadora e colaboradora das instituições, pessoas e associações que procuram preservar a dignidade e bem estar de todos, nomeadamente no apoio aos mais necessitados (GS 42).A Igreja ajuda a atividade humana
Sem esquecer o papel dos bispos e dos presbíteros, o principal destaque está na afirmação de que a Igreja se faz presente no mundo através da ação dos leigos que conscientemente assumem a sua vocação de serviço no mundo como um serviço religioso. Assim, para a Igreja não pode existir oposição entre a fé professada e a vida quotidiana. «Este divórcio entre a fé que professam e o comportamento quotidiano de muitos deve ser contado entre os mais graves erros do nosso tempo». Cabe, pois, aos leigos, evangelizar onde exercem as suas atividades. Porque «o cristão que descuida os seus deveres temporais, falta aos seus deveres para com o próximo e até para com o próprio Deus, e põe em risco a sua salvação eterna». Assim, são testemunhas de Jesus Cristo exercendo no mundo a sua função como membros da Igreja. Quanto aos bispos e presbíteros, além do testemunho que lhes compete nos vários âmbitos da sua missão específica, ressalta-se a importância de anunciarem a mensagem cristã «de tal maneira que todas as atividades terrenas dos fiéis sejam penetradas pela luz do Evangelho. Lembrem-se, além disso, os pastores que, com o seu comportamento e solicitude quotidianos, manifestam ao mundo o rosto da Igreja com base no qual os seres humanos julgam da força e da verdade da mensagem cristã. [...] tornem-se capazes de tomar parte no diálogo com o mundo» (GS 43).A Igreja recebe a ajuda do mundo
A Igreja não ignora o contributo que recebe «da história e evolução do género humano [...]. Ela aprendeu, desde os começos da sua história, a formular a mensagem de Cristo por meio dos conceitos e línguas dos diversos povos [...]. Tudo isto com o fim de adaptar o Evangelho à capacidade de compreensão de todos e às exigências dos sábios. Esta maneira adaptada de pregar a palavra revelada deve permanecer a lei de toda a evangelização». Por isso, para continuar a sua missão e manter a sua mensagem sempre atual, a Igreja necessita «da ajuda daqueles que, vivendo no mundo, conhecem bem o espírito e conteúdo das várias instituições e disciplinas, sejam eles crentes ou não. É dever de todo o Povo de Deus e sobretudo dos pastores e teólogos, com a ajuda do Espírito Santo, saber ouvir, discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo, e julgá-las à luz da palavra de Deus, de modo que a verdade revelada possa ser cada vez mais intimamente percebida, melhor compreendida e apresentada de um modo conveniente» (GS 44).Jesus Cristo, Alfa e Ómega
O bem que a Igreja presta ao mundo deriva do facto de ser «sacramento universal da salvação». Pela Igreja, «o próprio Senhor o diz: ‘Eis que venho em breve, trazendo comigo a minha recompensa, para dar a cada um segundo as suas obras. Eu sou o alfa e o ómega, o primeiro e o último, o começo e o fim’» (GS 45).Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —
Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [4]
O sentido e valor da atividade humana
Graças à inteligência, à técnica e à ciência, o ser humano alcançou muitos bens que contribuíram para melhorar a qualidade da vida. Todavia, isto parece ter também contribuído para a perda do significado antropológico do trabalho e da própria vocação humana. Desta realidade brotam perguntas tais como: «Qual o sentido e valor desta atividade? Como se devem usar estes bens? Para que fim tendem os esforços dos indivíduos e das sociedades?». A Igreja, à luz da Palavra de Deus, quer dar o seu contributo para ajudar a responder a estas e outras questões relacionadas com o trabalho humano (GS 33). Para os que têm fé, a atividade humana, individual ou coletiva, corresponde à vontade de Deus, pois decorre do mandato de cultivar e guardar a terra (cf. Génesis 2, 15). Logo, é como um prolongamento da atividade divina na construção do mundo. «Isto aplica-se também às atividades de todos os dias. Assim, os homens e as mulheres que, ao ganhar o sustento para si e suas famílias, de tal modo exercem a própria atividade que prestam conveniente serviço à sociedade, com razão podem considerar que prolongam com o seu trabalho a obra do Criador, ajudam os seus irmãos e dão uma contribuição pessoal para a realização dos desígnios de Deus na história» (GS 34). Pelo trabalho, o ser humano transforma o mundo e a sociedade, mas também se constrói enquanto pessoa humana e descobre a sua vocação integral. Neste sentido, de forma profética, a GS afirma que, aquilo que o ser humano faz para promover a justiça, a fraternidade e o bem comum é muito superior a qualquer progresso técnico (GS 35).A autonomia das realidades terrestres
A Igreja reconhece a «justa autonomia das realidades terrestres», sem contudo aceitar que «a íntima ligação entre a atividade humana e a religião constitua um obstáculo para a autonomia dos humanos, das sociedades ou das ciências». Tanto a religião como a ciência têm origem em Deus; por isso, não são incompatíveis. «A investigação metódica em todos os campos do saber, quando levada a cabo de um modo verdadeiramente científico e segundo as normas morais, nunca será realmente oposta à fé». Ora, a dita autonomia não significa afastar Deus da atividade humana, «pois, sem o Criador, a criatura não subsiste» (GS 36).A lei do amor para um novo céu e uma nova terra
O progresso é um grande bem, mas também pode fazer esquecer a importância de fazer do mundo «um lugar de verdadeira fraternidade». Por isso, a Igreja «ao mesmo tempo que reconhece que o progresso humano pode servir para a verdadeira felicidade», lembra «que todas as atividades humanas, constantemente ameaçadas pela soberba e amor próprio desordenado, devem ser purificadas e levadas à perfeição pela cruz e ressurreição de Cristo» (GS 37). De facto, todo o esforço em construir um mundo novo e fraterno adquire um novo sentido pela fé em Jesus Cristo. «Ele revela-nos que ‘Deus é amor’ (1João 4, 8) e ensina-nos ao mesmo tempo que a lei fundamental da perfeição humana e, portanto, da transformação do mundo, é o novo mandamento do amor». Isto reflete-se «nas coisas grandes, mas, antes de mais, nas circunstâncias ordinárias da vida». Hoje, o Ressuscitado, pelo Espírito Santo e pelos Sacramentos, alimenta «o desejo da vida futura», mas «anima, purifica e fortalece também aquelas generosas aspirações que levam a humanidade a tentar tornar a vida mais humana» (GS 38). Por conseguinte, a certeza do Reino não deve acomodar os cristãos, mas «ativar a solicitude em ordem a desenvolver esta terra, onde cresce o corpo da nova família humana, que já consegue apresentar uma certa prefiguração do mundo futuro» (GS 39).Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —
Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [3]
Vocação humana e sociedade
A Igreja sabe que a vocação à comunidade é inerente ao ser humano, pois a vida tem origem em Deus que colocou, no coração dos homens e mulheres, a vocação a ser membro da família humana. E Jesus Cristo ensinou que o amor a Deus não pode ser separado do amor ao próximo (GS 24). Neste sentido, cada pessoa é chamada a participar nas mais variadas instituições sociais com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento das outras pessoas. E, como membro, também tem o direito a ser beneficiada pelas ações dessas instituições. «No nosso tempo, devido a várias causas, as relações e interdependências mútuas multiplicam-se cada vez mais; o que dá origem a diversas associações e instituições, quer públicas quer privadas. Este facto, denominado socialização, embora não esteja isento de perigos, traz, todavia, consigo muitas vantagens, em ordem a confirmar e desenvolver as qualidades da pessoa humana e a proteger os seus direitos» (GS 25). Contudo, devido a problemas de vária ordem nem todas as sociedades têm condições para dar aos seus membros as condições básicas para uma vida verdadeiramente humana, tais como: «alimento, vestuário, casa, direito de escolher livremente o estado de vida e de constituir família, direito à educação, ao trabalho, à boa fama, ao respeito, à conveniente informação, direito de agir segundo as normas da própria consciência, direito à proteção da sua vida e à justa liberdade mesmo em matéria religiosa» (GS 26).Respeito pelo ser humano
Coerente com o Evangelho, o Concílio defende o respeito por todo e cada ser humano e denomina como «infame» o seguinte: «tudo quanto se opõe à vida, como seja toda a espécie de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio voluntário; tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as mutilações, os tormentos corporais e mentais e as tentativas para violentar as próprias consciências; tudo quanto ofende a dignidade da pessoa humana, como as condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o comércio de mulheres e jovens; e também as condições degradantes de trabalho; em que os operários são tratados como meros instrumentos de lucro e não como pessoas livres e responsáveis» (GS 27). Todavia, os Padres conciliares lembram a necessária caridade e o esforço para dialogar com todos, mesmo com aqueles que defendem ideias contrárias, pois também esses são seres humanos (GS 28).Igualdade
A igualdade entre todos deve ser sempre reconhecida. É inaceitável que haja desigualdades económicas e sociais, pois são obstáculo à justiça social, à equidade, à dignidade e à paz social e internacional. O Concílio lembra que compete às instituições, privadas ou públicas, estar ao serviço da dignidade humana, combatendo qualquer forma de sujeição política ou social, e salvaguardando, sob qualquer regime político, os direitos humanos fundamentais (GS 29). Afirma, também, que a justiça e a caridade devem imperar em favor do bem comum e, em função disso, são superiores a uma ética puramente individualista (GS 30).Participação social
Para que todos cumpram a sua função social é necessário que a educação seja uma prioridade. Neste sentido, dizem os Padres conciliares, «podemos legitimamente pensar que o destino futuro da humanidade está nas mãos daqueles que souberem dar às gerações vindoiras razões de viver e de esperar» (GS 31). A terminar, recorda-se que «esta índole comunitária aperfeiçoa-se e completa-se com a obra de Jesus Cristo. Pois o próprio Verbo encarnado quis participar da vida social. Tomou parte nas bodas de Caná, entrou na casa de Zaqueu, comeu com os publicanos e pecadores. Revelou o amor do Pai e a sublime vocação humana, evocando realidades sociais comuns e servindo-se de modos de falar e de imagens da vida de todos os dias» (GS 32).Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —
Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [2]
O ser humano criado à imagem de Deus
Desejando construir um diálogo com o mundo, a Igreja coloca como premissa cristã que a dignidade da pessoa humana deriva da afirmação de que o homem e a mulher foram criados à imagem de Deus (GS 12) e redimidos por Jesus Cristo que a todos liberta das cadeias do pecado (GS 13). Depois, afirma que o ser humano é um ser uno, composto de corpo e alma, pelo que não pode «desprezar a vida corporal; deve, pelo contrário, considerar o seu corpo como bom e digno de respeito [...]. «É, pois, a própria dignidade humana que exige que o ser humano glorifique a Deus no seu corpo, não deixando que este se escravize às más inclinações do próprio coração» (GS 14).A dignidade do entendimento e da consciência moral
«Participando da luz da inteligência divina», o ser humano passou a dominar o universo através das ciências, das técnicas e das artes, o que lhe permitiu grandes avanços na conquista do mundo material. «Mas buscou sempre, e encontrou, uma verdade mais profunda», que na linguagem cristã é conhecida como vocação: o chamamento que Deus dirige a cada ser humano para que se realize enquanto pessoa no serviço ao próprio Deus, através do serviço aos irmãos (GS 15). E, usando os dons que Deus lhes deu, é chamado a promover e a defender a vida. No fundo da consciência humana, o ser humano descobre e vive uma lei escrita pelo próprio Deus no seu coração, que o chama a viver o amor e a fugir do mal, que é a consciência moral. Assim, a dignidade reside na singular consciência que Deus imprimiu em cada ser humano, que nem mesmo o pecado pode diminuir (GS 16).A liberdade humana
Uma das afirmações significativas do primeiro capítulo é sobre a liberdade humana: «é um sinal privilegiado da imagem divina no ser humano» que lhe exige que «proceda segundo a própria consciência e por livre adesão» (GS 17). Nesta afirmação, a Igreja coloca-se contra todas as tentativas de controle das consciências.A morte
«É em face da morte que o enigma da condição humana mais se adensa. [...] Mas a intuição do próprio coração fá-lo acertar, quando o leva a aborrecer e a recusar a ruína total e o desaparecimento definitivo da sua pessoa. O germe de eternidade que nele existe, irredutível à pura matéria, insurge-se contra a morte» (GS 18).O ateísmo
O Concílio refere-se aos múltiplos rostos do ateísmo presentes no mundo moderno que tentam de todas as formas negar a importância da religião, afirmando que a autonomia humana deve ser plena. Alerta para o facto de que «os crentes podem ter tido parte não pequena na génese do ateísmo» (GS 19). Os que o professam entendem que a liberdade consiste em que o ser humano seja o próprio fim e autor único da sua história. E pensam que isso é incompatível com o reconhecimento de Deus. Por isso, quando alcançam o poder, atacam violentamente a religião, difundindo o ateísmo, sobretudo na educação da juventude (GS 20). Apesar de rejeitar o ateísmo, a Igreja espera que todos, crentes e não crentes, contribuam para a construção do mundo, a partir de um prudente e sincero diálogo, deplorando qualquer tipo de discriminação (GS 21). Vemos, pois, a abertura da Igreja que convoca todos os «homens de boa vontade» para a transformação do mundo com um profundo desejo de diálogo com a sociedade. Para a Igreja, agir e emprestar a voz aos que não têm voz, e chamar todas as pessoas, independentemente da religião, para transformar o mundo, deriva da fé no Espírito Santo que renova todas as coisas e na certeza de que a incarnação, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo «abriu um novo caminho, em que a vida e a morte são santificados e recebem um novo sentido» (GS 22).Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —
Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [1]
Constituição Pastoral
A GS é denominada «Constituição Pastoral» porque o seu conteúdo demonstra a clara intenção de apresentar uma nova autocompreensão da vocação da Igreja como serviço («diaconia») ao mundo e à humanidade. E, embora na primeira parte trate de questões doutrinárias, na segunda, vai tratar de vários aspetos da vida atual e da sociedade humana, enfatizando os problemas mais urgentes que atingem a humanidade, ou seja, questões pastorais.«Aggiornamento»
De fundamental importância para o «aggiornamento» — palavra italiana que se pode traduzir por «atualização» — preconizado pelo papa João XXIII e assumido por Paulo VI, a GS trouxe uma nova visão da Igreja para o mundo e do mundo para a Igreja. Na sua abertura ao diálogo com toda a humanidade, a Igreja («Povo de Deus») faz-se presente na história humana procurando a reformulação das estruturas pecaminosas que são causadoras de injustiça e exclusão social. Esta Constituição Pastoral continua a ser um documento eclesial imprescindível para refletir sobre as transformações que caracterizam a sociedade atual.Proémio
O II Concílio do Vaticano, colocando-se em completa solidariedade com a humanidade (GS 1), dirige a sua palavra a todos os homens e mulheres com o intuito de expor o seu modo de conceber a presença e a atividade da Igreja no mundo atual (GS 2). Demonstra a sua solidariedade, respeito e amor para com a família humana, estabelecendo com ela um diálogo iluminado à luz do Evangelho, na perspetiva da salvação da pessoa humana e da renovação da sociedade. E, embora seja a humanidade a destinatária destas palavras, a Igreja dirige-se principalmente à sua parcela mais sofredora, a exemplo de Jesus Cristo (GS 3).Introdução
Na introdução, a GS descreve o seguinte: alguns problemas que afetam a humanidade e a própria condição do homem e da mulher no mundo atual (GS 4); as profundas mudanças ocorridas nos últimos tempos; os avanços da ciência e da técnica (GS 5); as mudanças sociais (GS 6); as mudanças psicológicas, morais e religiosas (GS 7); os desequilíbrios pessoais familiares e sociais do mundo moderno (GS 8). Elabora ainda uma síntese das aspirações mais universais da humanidade, convencida de que o género humano pode e deve dominar mais intensamente as coisas criadas para estabelecer uma ordem política, social e económica que sirva para o bem de toda humanidade. Observa, todavia, o aumento da dependência económica das nações mais pobres em relação às mais ricas, que as mulheres reivindicam a igualdade de direito e de facto com os homens, que os trabalhadores almejam não apenas o necessário para sobreviver, mas desenvolver, pelo trabalho, as próprias qualidades e participar na organização da vida económica, social, política e cultural. Sob todas estas reivindicações lateja uma aspiração mais profunda e universal: as pessoas e os grupos desejam uma vida plena e livre, digna do ser humano, colocando ao seu próprio serviço tudo quanto o mundo moderno lhes pode oferecer com tanta abundância. Além disso, as nações esforçam-se cada vez mais para edificar uma comunidade universal. Diante do mundo moderno que se apresenta simultaneamente poderoso e débil, capaz de realizar o melhor e o pior, ao ser humano abre-se o caminho da liberdade ou escravidão, do progresso ou do regresso, da fraternidade ou do ódio. Em face deste conflito entre a busca de um mundo melhor por uma parte da humanidade e ambição desenfreada de outra parte, os homens e mulheres de boa vontade interrogam-se sobre a sua vocação (GS 9). No final da introdução, a GS confirma a convicção de que, somente à luz da opção evangélica de vida, a humanidade encontrará a chave para a solução dos problemas que a afetam, pois os desequilíbrios que atormentam o mundo moderno estão vinculados ao desequilíbrio mais fundamental radicado no coração do ser humano (GS 10).Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —
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