Mostrar mensagens com a etiqueta Crise. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crise. Mostrar todas as mensagens

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O DIA MUNDIAL DA PAZ


Resumo do número 6
Um ponto importante brota da reflexão sobre as origens da crise económica que domina o mundo atual. Apesar dos alertas lançados ao longo dos tempos — disso são testemunha as palavras de João Paulo II (em 1979): o «perigo de que, enquanto progride enormemente o domínio do ser humano sobre o mundo das coisas, ele perca os fios essenciais deste seu domínio e, de diversas maneiras, submeta a elas a sua humanidade, e ele próprio se torne objeto de multiforme manipulação, se bem que muitas vezes não diretamente percetível» —, a verdade é que muitas pessoas procuraram e continuam a procurar «o bem-estar, a felicidade e a segurança no consumo e no lucro fora de toda a lógica duma economia saudável». Por isso, é preciso despertar para «a redescoberta da fraternidade na economia». Até porque a origem das crises está profundamente relacionada com o «progressivo afastamento do ser humano de Deus e do próximo, com a ambição desmedida de bens materiais, por um lado, e o empobrecimento das relações interpessoais e comunitárias, por outro». O caminho para uma solução eficaz passa pelo repensar dos «modelos de desenvolvimento económico», pela mudança dos «estilos de vida», pela recuperação das «virtudes da prudência, temperança, justiça e fortaleza». Estas podem ajudar a «redescobrir os laços fraternos» para além da «maximização do próprio lucro individual», ajudando assim a «construir e manter uma sociedade à medida da dignidade humana».

© Laboratório da fé, 2014



  • Texto completo da Mensagem > > >



Fraternidade, fundamento e caminho para a paz, Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.1.14 | Sem comentários

Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa


No contexto da crise mundial que se atravessa e que teima em não desaparecer, a Conferência Episcopal Portuguesa publicou uma Nota Pastoral sobre a família, intitulada «A força da família em tempos de crise».
Os bispos portugueses descrevem a família como um projeto duradouro (número 5) e como um bem social (número 1): «Só a família concebida a partir do compromisso definitivo entre um homem e uma mulher pode desempenhar esta função social». O último número (6) volta a acentuar a relevância da família para a construção da sociedade. Na verdade, este parece ser o objetivo central que perpassa todo o documento: «que a família seja reconhecida e apoiada na missão social que só ela pode desempenhar». 

Ainda no primeiro ponto são apresentados os outros aspetos desenvolvidos ao longo da Nota.
«As razões da insubstituível importância da família» ocupam o número 2: respeito pela dignidade humana; escola de sociabilidade; solidariedade espontânea (o número 3 desenvolve esta mesma temática); autoridade como serviço; comunhão intergeracional; «riqueza da dualidade sexual, da unidade e complementaridade dos dois sexos».
«A família abre-se, por desígnio natural, à vida» — dizem os bispos no quarto ponto. Neste tema, a Conferência Episcopal Portuguesa acentua a crise demográfica agravada pela falta de políticas capazes de promover a vida e a família. Por isso, «torna-se uma necessidade social, e mesmo económica, continuar a propor às novas gerações a beleza da família e do matrimónio».

© Laboratório da fé, 2013




A força da família em tempos de crise
  • Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa


A família, um bem social

1. Consideramos da maior oportunidade, no atual contexto da sociedade portuguesa, atravessada por uma crise social e económica de particular gravidade, que se traduz para muitos em desalento e falta de perspetivas de futuro, colocar em relevo o bem insubstituível que representa a instituição familiar, «origem e património da humanidade» (Bento XVI).
A família representa um bem público, um bem social. Podemos encará-la na perspetiva do seu relevo privado, como um bem para a realização pessoal, no plano afetivo, espiritual ou outros, de cada um dos seus membros. Mas devemos também encará-la na perspetiva do seu relevo social, do bem que representa para a sociedade no seu todo. Podemos caracterizá-la como a fonte básica do capital humano, social e espiritual de uma sociedade, a que assegura o seu futuro e o seu crescimento harmonioso. A saúde e coesão de uma sociedade dependem, por isso, da saúde e coesão da família.
Só a família concebida a partir do compromisso definitivo entre um homem e uma mulher pode desempenhar esta função social. As alterações legislativas que, entre nós como noutros países, vêm redefinindo o casamento de forma a nele incluir uniões de pessoas do mesmo sexo, esquecem esta verdade fundamental.
A família é a primeira e mais básica das instituições sociais, antes de mais porque assegura a renovação das gerações, sendo a primeira função de qualquer comunidade a de assegurar a sua própria sobrevivência e renovação. E cumpre essa função porque representa o contexto mais adequado e harmonioso para a educação das novas gerações.
A família é o santuário da vida e do amor, lugar da manifestação de «uma grande ternura, que não é a virtude dos fracos, antes pelo contrário denota fortaleza de ânimo e capacidade de solicitude, de compaixão, de verdadeira abertura ao outro, de amor. Não devemos ter medo da bondade, da ternura» (Papa Francisco).

Razões da insubstituível importância da família

2. Na família respeita-se a dignidade da pessoa humana, esta é encarada como ser único e irrepetível. Nela não há lugar para o anonimato. Nela a pessoa é acolhida e amada pelo que é, não pelo que faz ou pelo que produz. Por isso, o contexto familiar é aquele em que os mais vulneráveis, incluindo os doentes e portadores de deficiência, não deixam de ser valorizados.
A família é a primeira e mais básica escola de sociabilidade. Nela se aprende a convivência com o outro e o diferente; o homem é diferente da mulher, os irmãos nunca são iguais, e os filhos nunca são o reflexo da imagem dos pais.
Na família a solidariedade não é imposta, é espontânea e calorosa. Ela é o campo privilegiado da gratuidade, do dom desinteressado, onde espontaneamente se dá sem esperar nada em troca e com a maior das alegrias.
Na família a autoridade é exercida como serviço e por amor.
A renovação das gerações no seio da família também permite a mais harmoniosa aliança entre a tradição e a novidade. As gerações mais velhas transmitem às gerações mais novas, como a sua mais preciosa herança, aqueles valores perenes que não estão sujeitos à usura do tempo e não passam com as modas. As gerações mais novas representam a abertura ao novo, ao dinamismo e à criatividade, que tornam vivos esses valores perenes.
Num outro aspeto a família representa o contexto mais adequado e harmonioso para o crescimento e educação das novas gerações. A família nasce da unidade e complementaridade das dimensões masculina e feminina, que cooperam, nessa unidade e complementaridade, para a integridade da educação humana.
O casamento, como união entre um homem e uma mulher, tem representado nas sociedades e culturas mais diversificadas um símbolo dessa riqueza que representa a dualidade sexual, da unidade dessa diversidade. A mensagem bíblica exprime-o com as palavras do Génesis: «Deus os criou homem e mulher … e viu que a sua obra era muita boa…». Esta riqueza da dualidade sexual, da unidade e complementaridade dos dois sexos, está presente na família e, por seu intermédio, deve penetrar em toda a sociedade. Todos os âmbitos da vida social ganham com o contributo simultâneo, diversificado e harmónico das especificidades masculina e feminina, que são complexas, não são rígidas e uniformes, mas são uma insubstituível riqueza.

A família e a crise económica e social

3. A crise económica e social que o nosso país atravessa vem evidenciando, precisamente, a riqueza que representa a família. Tem sido a solidariedade familiar, que se traduz em solidariedade entre gerações, em muitos casos, o primeiro e mais seguro apoio de quem se vê a braços com o desemprego, ou a queda abrupta de rendimentos, com a consequente incapacidade de fazer face a compromissos assumidos que se destinam à satisfação de necessidades familiares essenciais, como a da habitação.
Mas esse apoio não é suficiente. A crise também evidencia que a comunhão e solidariedade que se vivem no seio da família não pode limitar-se ao seu âmbito interno. A família não pode fechar-se sobre si. Esse espírito de comunhão e solidariedade deve partir da família e alargar-se à sociedade inteira. Deve traduzir-se na entreajuda entre várias famílias. As experiências de muitas comunidades cristãs são já disso testemunho, mas não é demais salientar a necessidade de se multiplicarem essas experiências de partilha entre famílias.
Na raiz da crise que atravessamos estão fracassos de um modelo económico assente na maximização do lucro e do consumo. Afirma Bento XVI na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano (n. 5): «O modelo que prevaleceu nas últimas décadas apostava na busca da maximização do lucro e do consumo, numa ótica individualista e egoísta que pretendia avaliar as pessoas apenas pela sua capacidade de dar resposta às exigências da competitividade. Olhando de outra perspetiva, porém, o sucesso verdadeiro e duradouro pode ser obtido com a dádiva de si mesmo, dos seus dotes intelectuais, da própria capacidade de iniciativa, já que o desenvolvimento económico suportável, isto é, autenticamente humano tem necessidade do princípio da gratuidade como expressão de fraternidade e da lógica do dom».
A gratuidade típica das relações familiares deve servir de modelo para este novo paradigma de desenvolvimento económico.

A família e a abertura à vida

4. Talvez o mais eloquente sinal de que a crise da instituição familiar se traduz em malefícios sociais seja o da crise demográfica, que muitos consideram o mais grave dos problemas sociais das sociedades europeias, numa perspetiva do seu futuro mais ou menos próximo. As últimas estatísticas apontam Portugal como um dos países com mais baixa taxa de natalidade em todo o mundo.
A família abre-se, por desígnio natural, à vida.
Poderá parecer irrealista salientar a importância desta abertura à vida no atual contexto social, em que o desemprego e a precariedade laboral atingem de modo particular os jovens. Este facto deve levar-nos a não nos resignarmos com esta situação, como se ela fosse inevitável, como se a economia não devesse estar ao serviço da pessoa humana, e fosse a pessoa humana a dever sujeitar-se às exigências da economia. Salienta Bento XVI na encíclica Caritas in veritate (n. 25), a propósito da instabilidade laboral, que quando «se torna endémica a incerteza sobre as condições de trabalho, resultante dos processos de mobilidade e desregulamentação, geram-se formas de instabilidade psicológica, com dificuldade a construir percursos coerentes na própria vida, incluindo o percurso rumo ao matrimónio».
Mas, por outro lado, a crise que atravessamos também é reflexo da crise demográfica. Numa sociedade em envelhecimento, as despesas públicas serão cada vez maiores em pensões, saúde, etc., e as receitas cada vez menores. Assim, o financiamento do Estado há de ser cada vez mais problemático.
É claro o bem que representa hoje a maior longevidade, o facto de os idosos viverem mais tempo do que noutras épocas. O que é problemático não é isso; não há idosos “a mais”, porque estes são sempre uma riqueza, e nunca um peso. O que é problemático e causa desequilíbrios é que não nasçam crianças.
Afirma ainda Bento XVI na encíclica Caritas in veritate (n. 44): «A abertura moralmente responsável à vida é uma riqueza social e económica. (…) A diminuição dos nascimentos, situando-se por vezes abaixo do chamado “índice de substituição”, põe em crise também os sistemas de assistência social, aumenta os seus custos, contrai a acumulação de poupanças e, consequentemente, os recursos financeiros necessários para os investimentos, reduz a disponibilização de trabalhadores qualificados, restringe a reserva aonde ir buscar os “cérebros” para as necessidades da nação. Além disso, as famílias de pequena e, às vezes, pequeníssima dimensão correm o risco de empobrecer as relações sociais e de não garantir formas eficazes de solidariedade. São situações que apresentam sintomas de escassa confiança no futuro e de cansaço moral. Deste modo, torna-se uma necessidade social, e mesmo económica, continuar a propor às novas gerações a beleza da família e do matrimónio, a correspondência de tais instituições às exigências mais profundas do coração e da dignidade da pessoa. Nesta perspetiva, os Estados são chamados a instaurar políticas que promovam a centralidade e a integridade da família, fundada no matrimónio entre um homem e uma mulher, célula primeira e vital da sociedade, preocupando-se também com os seus problemas económicos e fiscais, no respeito da sua natureza relacional».
Ajudam a combater a crise da natalidade medidas fiscais, que promovam o emprego juvenil, ou que facilitem a conciliação entre o trabalho e a vida familiar. Mas o contributo decisivo para vencer a crise demográfica situa-se no plano da cultura e da mentalidade. Há que superar o “cansaço moral” e a “falta de confiança no futuro” a que alude a encíclica Caritas in veritate. Saber que a vida é sempre um dom que compensa todos os sacrifícios – só com esta consciência pode ser vencida a crise da natalidade.
Qualquer mensagem de desvalorização da vida humana acarreta consequências negativas a este respeito. Uma delas – sem dúvida a mais grave – é o aborto e sua banalização a que vimos assistindo entre nós com a cobertura da lei vigente. Afirma, ainda, sobre esta questão, a Caritas in veritate (n. 28): «Quando uma sociedade começa a negar e a suprimir a vida, acaba por deixar de encontrar as motivações e energias necessárias para trabalhar ao serviço do verdadeiro bem do homem. Se se perde a sensibilidade pessoal e social ao acolhimento duma nova vida, definham também outras formas de acolhimento úteis à vida social. O acolhimento da vida revigora as energias morais e torna-nos capazes de ajuda recíproca».

A família, um projeto duradouro

5. Para vencer a crise demográfica, como em relação a muitos outros aspetos relativos à sua função social, há que acreditar na família como um projeto duradouro, assente num compromisso de doação total e não na volatilidade dos sentimentos. Só nesse contexto é razoável a decisão de ter filhos. Se a saúde e coesão da sociedade dependem da saúde e coesão da família, esta está estritamente ligada à sua estabilidade.
Vai-se generalizando, porém, a opção por formas de convivência marital precária, que recusam esse compromisso; tal como é cada vez mais frequente o recurso ao divórcio, o que a legislação vigente também não deixa de facilitar em extremo.
Salienta, a este respeito, a exortação apostólica Familiaris consortio (n. 11), de João Paulo II, que «a sexualidade diz respeito ao núcleo íntimo da pessoa humana» e se realiza «de maneira verdadeiramente humana, somente se é parte integral do amor com o qual homem e mulher se empenham totalmente um para com o outro até à morte». A doação física total é verdadeira só na medida em que envolve toda a pessoa, também na sua dimensão temporal, com a comunhão de projetos para o futuro: «se a pessoa se reservasse alguma coisa ou a possibilidade de decidir de modo diferente para o futuro, só por isto já não se doaria totalmente». Esta totalidade corresponde também às exigências de uma fecundidade responsável, a qual supõe o contributo contínuo do pai e da mãe para o crescimento harmonioso dos filhos. 
Por isso, ainda segundo essa exortação apostólica (n. 11), «o “lugar” único, que torna possível esta doação segundo a sua verdade total, é o matrimónio». Este «não é uma ingerência indevida da sociedade ou da autoridade, nem a imposição extrínseca de uma forma, mas uma exigência interior do pacto de amor conjugal que publicamente se afirma como único e exclusivo, para que seja vivida assim a plena fidelidade ao desígnio de Deus Criador». Esta fidelidade não mortifica a liberdade da pessoa, «põe-na em segurança em relação ao subjetivismo e relativismo, fá-la participante da Sabedoria Criadora».
A esta luz, não é demais lembrar a responsabilidade que representa a preparação, mais remota e mais próxima, para o casamento. Uma preparação que envolve as famílias, as instâncias educativas e a Igreja.
Importa, ainda, salientar como, também neste aspeto, deve evitar-se que cada família se veja sozinha a enfrentar dificuldades que possam conduzir à rutura. A experiência de um casal que soube superar as suas dificuldades de relacionamento pode servir de ajuda para outros que se confrontam com essas dificuldades. Experiências de entreajuda entre famílias neste campo também devem multiplicar-se no âmbito das comunidades cristãs.
E se é verdade que a Igreja nunca deixará de proclamar a indissolubilidade do casamento, antes de mais perante quem se prepara para o contrair, tal não pode significar insensibilidade ou indiferença perante o sofrimento de quem experimentou um fracasso matrimonial, independente de qualquer juízo de culpa, que até pode nem existir. A Igreja acolhe e acompanha com solicitude essas pessoas.
Olhamos com simpatia e apreço os movimentos e instituições que se preocupam e dedicam à família, encarnando o amor de Deus e manifestando-lhe o rosto amável da Igreja.

A sociedade à imagem da família

6. Muitas vezes a família é encarada como um refúgio que protege de um ambiente hostil da sociedade que nos rodeia, um oásis de harmonia no meio do deserto, um espaço de humanização no meio de um mundo desumanizado. E é assim de facto. Mas também podemos encarar a família de outra perspetiva: como a fonte e o fermento de onde parte a renovação da sociedade. É assim através dos filhos, que se devem proteger das más influências da sociedade, mas que também a esta podem dar muito do que recebem na família.
Os valores que se vivem na família – a pessoa amada e acolhida como ser único e irrepetível, o amor gratuito, a solidariedade espontânea, a autoridade como serviço, o valor do doente e do idoso, a aliança da tradição e da inovação, a unidade e complementaridade das dimensões masculina e feminina, a fidelidade e o compromisso – devem estender-se, por seu intermédio, a toda a sociedade: às empresas, aos serviços públicos, às escolas e hospitais, às comunidades eclesiais, às associações. A família é o modelo, o dever ser de qualquer convivência humana.
Num contexto de crise económica e social, que para muitos se traduz em desalento e falta de perspetivas de futuro, é esta a mensagem que queremos transmitir, como antídoto a esse desalento e como ajuda à superação dessa crise: que a família seja reconhecida e apoiada na missão social que só ela pode desempenhar.

Fátima, 11 de abril de 2013

Postado por Anónimo | 27.4.13 | Sem comentários

— Mensagem quaresmal em Quarta Feira de Cinzas de 2013 —


Caríssimos irmãos a caminho da Páscoa: 
1.Começamos esta Quaresma particularmente necessitados dela, por nós e por todos, na Igreja e na sociedade que integramos. Na sociedade portuguesa, antes de mais, onde dificuldades persistentes como que reduziram a cinzas muitas viabilidades que pareciam seguras e muitas previsões que se criam certas. Com maior ou menor inadvertência nossa, com maior ou menor inadvertência alheia, o resultado não foi o esperado e ainda há muito a resolver no âmbito particular e público, para que os inegáveis esforços de quem pode e deve e a notável persistência de quem não se resigna deem o resultado pretendido. Lá chegaremos, decerto, se formos todos a chegar, com justiça e solidariedade reforçadas. 
E, no entanto, perdura o sentimento de que não se trata de algo episódico, nem que episodicamente se resolva. Entre más notícias e outras mais esperançosas, poderíamos cair numa relativa indiferença, que apenas se aguentasse porque, ao fim e ao cabo, alguma entidade nos seguraria em casos extremos, a raiar a penúria. Entretanto, quem pudesse partiria e outros ficariam, vendo a marcha da história passar ao lado, muito ao lado. 
Não é justo este sentimento, nem faz jus a muito trabalho de quem não cruza os braços. Mas é ainda assim um sentimento que aflora em comentários recorrentes, na praça e nos media, qual negativismo de raiz, que desmotiva à partida. Ora, quando falamos de realidades assim, indicamos uma “crise” mais profunda do que meramente económica ou política que fosse. Estamos a falar de humanidade, estamos a falar de nós, onde mal nos sondamos e certamente sofremos. 
A Quaresma é do calendário cristão e aos cristãos primeiramente interessa e incumbe. Lembrando ao vivo os quarenta anos do Povo de Deus no deserto, em duríssima libertação que só poucos alcançaram, lembrando ainda mais os quarenta dias de Jesus, no deserto em que venceu todas as tentações principais, é oportunidade maior para fazermos nossa a sua vitória sobre quanto nos afasta de Deus, dos outros e do melhor de nós mesmos. 
Os exercícios quaresmais são a obra e o fruto duma fé verdadeira. Oração, esmola e jejum, na designação tradicional, podem traduzir-se por exercício espiritual de filiação autêntica, aproximação concreta das necessidades alheias e domínio de apetites vários que nos distraem do essencial. Conjugam-se aliás e muito bem, porque quem procura antes de mais o reino de Deus e a sua justiça, compreende melhor o que deve aos outros e consequentemente partilha do que tem e do que poupa. 
Não precisamos de grandes cogitações para concluir da oportunidade redobrada de Quaresmas sérias. Os discípulos de Jesus Cristo admiram-lhe a plena liberdade sobre si próprio, percorrendo a estreita senda que, nele mesmo, Deus abria ao mundo. Estreita senda, que a sua Ressurreição transformou em viabilidade garantida para quem a queira percorrer, no mesmo Espírito e com a sua graça. Se olharmos em redor, para outras possibilidades que porventura nos apresentem, continuaremos a responder com as palavras de Pedro, apesar de tudo e até apesar de nós: «A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna!» (Jo 6, 68). 
Irmãos caríssimos, diocesanos do Porto: Acolhamos de coração entregue as palavras de Paulo, no trecho que ouvimos: «Como colaboradores de Deus, nós vos exortamos a que não recebais em vão a sua graça. […] Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação!». 

2.Porque é de acolher que efetivamente se trata. Aquele sentimento pesado e difuso, atrás referido, que tanto desmotiva socialmente, pode igualmente expandir-se na vida eclesial que levamos. Tal não deve acontecer de modo algum, porque os discípulos de Cristo hão de ser, especialmente agora, sinais vivos de esperança certa, nos mais diversos ambientes e setores em que a coexistência decorra. Assim o concluímos por nós, mas sobretudo o ganhamos de Cristo e do que nos oferece. 
Leva-nos este ponto a uma consideração maior e mais exigente. Leva-nos ao que propriamente se chama conversão e quase rendição à graça e à justiça de Cristo, que só elas nos recriam e habilitam para o que importa sermos, para Deus e para o mundo. 
Algumas décadas de otimismo apressado tentaram-nos a considerar mais “horizontalmente” as coisas, o que acabou por nos desencantar de nós mesmos, como pretendeu desencantar o mundo. Tudo estaria ao nosso alcance, dizia-se, mas nem sempre se atingiram novos patamares de humanidade livre e solidária - e muito pelo contrário, nalguns casos mais gritantes. De facto, temos de nos ver de mais alto para nos abarcarmos a todos. 
Ao invés de tal horizontalismo, Jesus, de pés bem assentes na terra que foi sua, apresentou-se inteiramente “vertical”, em si mesmo abrindo tanto a terra ao céu como o céu à terra. Lembremos, por exemplo, como se apresentou segundo o antigo sonho do patriarca Jacob: «Em verdade, em verdade vos digo: vereis o Céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo por meio do Filho do Homem» (Jo 1, 51). 
Por meio d’ Ele, e nunca doutro modo. Os discípulos de Cristo, que verdadeiramente o queiram ser, sabem-se resgatados dum imenso peso, que só Ele suportou. Há cativeiros de alma que nem conseguimos esclarecer, quanto mais quebrar… Oiçamos de novo e guardemos melhor as palavras de Paulo: «A Cristo, que não conhecera o pecado, identificou-O Deus com o pecado por amor de nós, para que em Cristo nos tornássemos justiça de Deus». 
Reparemos que a iniciativa é divina, desvendando-nos o próprio modo de ser e agir de Deus. É Deus Pai que nos oferece em Cristo a reconciliação que por nós não atingiríamos nunca, como a não conseguiríamos agora. É essa a deslumbrante justiça de Deus, como se nos devesse o que gratuitamente nos oferece. Adianta-se no perdão, quase substituindo o ofensor. E tal acontece porque, em Deus, a justiça tem outra raiz, que se chama propriamente “amor”. 
O Papa Bento XVI, a quem ficamos devedores de oito anos de luminoso pontificado, escolheu para a sua primeira encíclica o título “Deus é amor”, plenamente acertando com a revelação cristã. Na sua última mensagem quaresmal, diz-nos agora, entre muitas outras coisas oportunas: «O cristão é uma pessoa conquistada pelo amor de Cristo e, movido por este amor […], está aberto de modo profundo e concreto ao amor do próximo. Esta atitude nasce, antes de tudo, da consciência de sermos amados, perdoados e mesmo servidos pelo Senhor, que Se inclina para lavar os pés dos Apóstolos e Se oferece a Si mesmo na cruz para atrair a humanidade ao amor de Deus» (Mensagem do Papa para a Quaresma de 2013. Crer na caridade suscita caridade, nº 1). 
Retiremos deste trecho duas consequências maiores, a nós referentes, como Igreja de Cristo, e ainda a nós mesmos, como Igreja no mundo e para o mundo, na nossa sociedade e circunstância:
Primeiramente, caríssimos irmãos e condiocesanos, retomemo-nos diante de Deus como permanentes devedores dum resgate que não mereceríamos. É surpreendente deveras que todos os que mais tentaram corresponder ao amor de Deus – de Paulo de Tarso a Francisco de Assis ou a Teresa de Calcutá – sentissem tanto a desproporção absoluta entre o dom de Deus e a capacidade humana de se retribuir inteira… Por nós, não podemos nem queremos considerar-nos outra coisa senão pobres pecadores, constantemente carecidos do perdão de Deus. Seremos até a única comunidade humana que, ao reunir-se, começa por se confessar pecadora, diante de Deus e dos homens, «por pensamentos e palavras, atos e omissões», e insistindo cada um «por minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa». 
Esta a verdade de que partimos nós, condição indispensável e assumida para acolhermos a verdade maior da misericórdia divina. Juntando uma e outra, continuamos a ser - como já antigamente se dizia - «a santa Igreja dos pecadores». Dos pecadores que assim nos confessamos e da santidade divina que nos é oferecida, pela mediação eclesial que Cristo não dispensa. Como outrora mandou aos discípulos que distribuíssem o pão com que só Ele alimentava o povo, como os mandou perpetuar a eucaristia em sua memória, como lhes confiou o serviço do perdão e da paz… E como nos envia todos a todos, caríssimos irmãos e irmãs, para que chegue a cada um a vida divina que só assim se expande. 
Nada sucede por nós, mas porque em nós atua o amor divino, que só “merecemos” porque a ele nos rendemos, sem a mínima presunção da nossa parte. E o próprio Jesus Cristo o esclareceu na conclusiva parábola do fariseu e do cobrador de impostos, quando foram ao templo para orar. O primeiro, mais propriamente para afirmar a sua suposta impecabilidade, ali de pé e gabando-se de cumprir o preceituário completo. O segundo, nem levantava os olhos do chão e só conseguia repetir: «Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador». Sabemos a conclusão da parábola, como Cristo a tirou: «Este último voltou justificado para casa, e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado» (cf. Lc 18, 9-14). 
Mas, se a humildade religiosa é a primeira consequência a reter, a humildade diante dos outros é a segunda e igualmente necessária. Aquele fariseu cheio de si e da sua suposta grandeza, no próprio orgulho com que se apresentava diante de Deus, transportava um profundo desprezo pelos seus semelhantes. Pois assim mesmo dizia: «Ó Deus, dou-te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros…». Assim blasfemava ele, mas assim não blasfemaremos nós, atribuindo-nos uma impecabilidade que só a Deus pertence. Como o próprio Jesus o afirmou, para não restarem dúvidas: «Ninguém é bom senão um só: Deus» (Mc 10, 18).
Em suma, caríssimos irmãos: Acolhamos esta Quaresma como oportunidade concreta de libertação de raiz. Por nós, não somos melhores do que outros, mas queremos substituir qualquer auto-convencimento pela conversão sem reservas à misericórdia divina. 

3.Só assim ficaremos aptos para servirmos a sociedade que integramos, com disponibilidade oferecida e reforçada. Quem se sabe recuperado pela graça de Cristo, confessa um Deus que não desiste de nenhuma das suas criaturas e mantém constantemente a vontade criadora que subjaz a toda a existência. 
Sobretudo por isso, estamos com todos os outros nas inevitáveis fronteiras da justiça, da solidariedade e da paz. É ainda Bento XVI a dizer-nos: «Quando damos espaço ao amor de Deus, tornamo-nos semelhantes a Ele, participantes da sua própria caridade. Abrirmo-nos ao seu amor significa deixar que Ele viva em nós e nos leve a amar com Ele, n’Ele e como Ele» (Mensagem, nº 2). 
Nas nossas comunidades cristãs, certamente, e por elas no espaço em redor. Mas também nas escolas, nos hospitais, nas empresas, na sociedade em geral, estaremos com todos e para todos, com as competências que tivermos ou ganharmos, iguais entre iguais; e como “sal da terra”, que não perde a força que Deus sempre garante, para que tudo alcance melhor gosto e sobretudo não se corrompa e degrade. 
Porque é magnífica a declaração mas tremenda a advertência que Jesus Cristo nos faz: «Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens» (Mt 5, 13). Lembremos a advertência, mas apliquemo-nos na declaração. E que aqueles que connosco não desistem de resolver todas as crises, das famílias ao Estado, da economia à sociedade, da escola à cultura, possam confirmar que, ali mesmo onde está um discípulo de Cristo, não há desistência prévia, não há pessimismo paralisante, não há cansaço insuperável. - Ofereçamos esta exercitação quaresmal de crentes como incentivo nacional de esperança! 

Manuel Clemente 
Sé do Porto, Quarta Feira de Cinzas, 13 de fevereiro de 2013



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.2.13 | Sem comentários
  • Recentes
  • Arquivo