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CELEBRAR O DOMINGO DA EPIFANIA


É Natal, plenamente Natal! Com a Epifania — palavra que significa «manifestação» — o Natal recebe toda a sua plenitude: «os gentios recebem a mesma herança» (segunda leitura). Jesus Cristo não veio à terra apenas para os cristãos, mas para todos os seres humanos, homens e mulheres, para todas as nações, ricas e pobres, como recorda a profecia de Isaías (primeira leitura). Tal é a amplitude do mistério, «uma grande paz até ao fim dos tempos» (salmo): maravilha da salvação oferecida aos que, na noite, sabem levantar os olhos para ver a estrela e decidem pôr-se a caminho (evangelho). Para eles (e para nós), «uma grande alegria»!

«A sua glória te ilumina»
A primeira leitura proposta para o domingo da Epifania, retirada do profeta Isaías, expressa o mistério do dia com uma espécie de pregão: «Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz e brilha sobre ti a glória do Senhor. […] As nações caminharão à tua luz e os reis ao esplendor da tua aurora». A luz como sinal de salvação volta a ser o tema dominante. Em estreita sintonia com esta palavra usam-se termos como resplandece, brilha, ilumina, esplendor, aurora.
A terceira parte do livro de Isaías («Terceiro Isaías») serve-se da imagem de Jerusalém, símbolo da presença de Deus, para afirmar que todos os povos hão de ir ao encontro da cidade, o mesmo é dizer, de Deus. Apesar de humilhada ao longo da história (um dos principais exemplos dessa humilhação foi a destruição levada a cabo por Nabucodonosor e o consequente exílio para a Babilónia), agora, com a presença de Deus, Jerusalém atrairá a si todos os povos, todas as religiões, todas as culturas, todas as pessoas. E trazem consigo os seus melhores dons. A cidade de Deus voltará a ser o orgulho dos povos e nela reinará a justiça e a paz; nunca mais haverá noite, pois será iluminada pelo próprio Deus: «A sua glória te ilumina».
No contexto litúrgico, o trecho exprime o sentido da festa: a universalidade da salvação. O centro não é propriamente a cidade em si mesma, mas o facto de nela se manifestar a presença de Deus. A luz de Deus é para todos!
As palavras do profeta, carregadas de esperança, convidam os seus ouvintes a levantar o ânimo e a experimentar a misericórdia de Deus. Hoje, a profecia converte-nos em testemunhas do movimento de Israel da escuridão para a luz; do desespero para a esperança; da consternação para o bem-estar; da violência para a paz; do ódio para o amor.

Neste Ano Santo, Deus quer fazer brilhar a luz da sua misericórdia em cada pessoa. E quer precisar da nossa colaboração comprometida e alegre. Assim, o Natal desafia-nos a gerar amor. Jesus Cristo é Deus connosco, é o amor de Deus presente na nossa carne. O Natal é a revelação da gratuidade e da misericórdia, do amor e da alegria do Evangelho. «Quando dizemos ‘é Natal’ estamos a dizer: Deus disse ao mundo a sua última, mais profunda e formosa palavra numa Palavra feita carne [...]. E esta Palavra significa: eu amo-vos, a ti, mundo, e a vós, seres humanos» (Karl Rahner).

© Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.1.16 | Sem comentários

VIVER O DOMINGO QUARTO DA QUARESMA


A morte de Jesus na cruz não é um fracasso. A sua morte traz vida. Mais ainda: vida sem fim, vida eterna. A vida, a pregação, mas, sobretudo, a morte de Jesus Cristo é o ato supremo de amor de Deus. Deus Pai não quer que se perca nem sequer um de nós. Ama-nos de forma individual, personalizada, não de maneira coletiva. Cada ser humano é objeto pessoal do amor de Deus. O período da Quaresma prepara-nos para apreciar em toda a sua intensidade o ato sublime do amor de doação de Jesus.
A escuridão da morte, em Jesus, converte-se em luz. Ele é «a luz que veio ao mundo». Mas há o perigo de preferirmos «as trevas à luz». A causa de Jesus vale a pena: é luz. O mundo está cheio de escuridão, de injustiças, de atentados à dignidade da pessoa, de mal. Mas outro mundo é possível. A cruz, a morte e a ressurreição de Jesus anunciam-no, inauguram-no. O imenso amor de Deus, feito carne em Jesus, mostra-nos o único caminho possível: o do amor. Um amor que nos impulsiona a lutar para que seja respeitada a dignidade de cada pessoa, a reconhecer no outro um irmão ou uma irmã, a fazer nossos os sofrimentos e as necessidades de cada pessoa. É mais fácil, é verdade, uma vida soporífera, na qual só conta o meu ego, eu e o meu ambiente mais próximo, o sentir-me bem, o não complicar-me a vida. Mas essa não foi a opção de Jesus; não é luz; não é vida inesgotável.

© Javier Velasco-Arias
© La Biblia compartida — blogue de Javier Velasco-Arias y Quique Fernández
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2015
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor


Viver o domingo quarto da Quaresma (Ano B), no Laboratório da fé, 2015



La biblia compartida — www.laboratoriodafe.net


Javier Velasco-Arias, nasceu no ano de 1956, em Medina del Campo (Espanha); atualmente, vive em Barcelona (desde os onze anos de idade). É biblista, professor de Sagrada Escritura no «Instituto Superior de Ciências Religiosas de Barcelona» e no «Centro de Estudos Pastorais» das dioceses da Catalunha. É responsável e membro de várias associações bíblicas, em Espanha. Na área bíblica, é autor de diversas publicações, além de artigos de temas bíblicos em revistas especializadas e na internet.
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.3.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DOMINGO DA EPIFANIA


A Epifania dá a plenitude ao Natal. A Luz atinge a sua máxima intensidade! Esta luz, a luz do Natal, é para todos os povos (primeira leitura), pois a realização das promessas diz respeito a todos (segunda leitura), a estrela que brilha na noite pode pôr a caminho quem quer que levante os olhos e se deixe conduzir por ela (evangelho). Se, como os Magos, observamos o sinal da salvação, se estamos dispostos a deixar-nos inquietar pelos apelos de Deus, escutemos a sua Palavra: ela revela-nos o seu amor por todos os homens e mulheres; e recorda-nos a nossa missão de anunciar aos fracos e aos pobres (salmo) que Deus vem para nos salvar.

«Quando o vires ficarás radiante, palpitará e dilatar-se-á o teu coração» 
A Liturgia da Palavra abre com uma maravilhosa visão do profeta Isaías. Desde o primeiro momento, a proclamação do texto tem de levar o ouvinte a perceber o entusiasmo do profeta!
Israel, ao longo da história, passou por profundos períodos de escuridão (o exílio na Babilónia, por exemplo). Agora, chega a época da luz. Uma luz que é um dom de Deus.
Num primeiro momento, os verbos pertencem ao campo semântico da luz: a aurora e o amanhecer impõem-se à noite e à escuridão. Depois, aparecem as imagens dos peregrinos em direção à cidade, não para fazer aumentar a pobreza, mas para encher a cidade de tesouros. O texto é um hino à esperança na restauração de Jerusalém, ainda desolada, mas convidada a olhar para um futuro cheio de prosperidade: «Quando o vires ficarás radiante, palpitará e dilatar-se-á o teu coração».
O profeta Isaías apresenta a vinda de Deus como a vinda da Luz: uma luz que brilha no meio do mundo. Jerusalém e os seus habitantes transformam-se em sinal da presença de Deus. A profecia proposta para o domingo da Epifania (popularmente designado como «dia de Reis») faz de nós — ouvintes e destinatários — testemunhas do extraordinário movimento realizado em Jerusalém: da escuridão para a luz, do desespero para a esperança, da consternação para a tranquilidade, da tristeza para a alegria.
A Luz de Deus põe fim ao exílio. Israel, ao longo da história, tinha sido sempre um povo de segunda categoria, entre vizinhos ricos e poderosos. A partir de agora, as coisas vão mudar: as riquezas excêntricas das nações, com as quais antes nem sequer podia sonhar, são agora oferecidas ao povo de Deus. Jerusalém tornar-se o lugar da luz que brilha sobre o mundo. Contudo, convém recordar que o centro não é o «lugar» mas a própria luz: as riquezas levadas a Jerusalém são para adorar o Senhor, para proclamar «as glórias do Senhor».

No anúncio do acontecimento cristão, mantém-se a centralidade da Luz (estrela), mas dá-se uma deslocação do «lugar» e do «conteúdo»: os tesouros do oriente não se dirigem para Jerusalém, mas para Belém; a riqueza trazida não é tanto a material («tesouros do mar… riquezas das nações»), quanto a que «revela» o mistério do Menino diante do qual se hão de prostrar os Magos (a profecia refere ouro e incenso; falta a mirra do evangelho).

© Laboratório da fé, 2014

Celebrar o domingo da Epifania (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.1.15 | Sem comentários

VOU FAZER DE TI A LUZ DAS NAÇÕES


A segunda parte do Tempo Comum começa na segunda-feira a seguir ao Pentecostes (último dia de Páscoa) e prolonga-se até ao sábado da trigésima quarta semana (dia anterior ao primeiro domingo de Advento). Contudo, o ritmo dominical é «perturbado» pelas solenidades da Santíssima Trindade, Corpo e Sangue de Cristo e, neste ano, São Pedro e São Paulo. Desta forma, apesar de, no ritmo ferial, já se estar a viver o Tempo Comum, a verdade é que a celebração contínua do domingo só é retomada com a liturgia do décimo quarto domingo (primeiro domingo de julho). Entretanto, a nossa caminhada será alterada com um novo ano pastoral (dedicado à fé vivida) a partir do primeiro domingo de outubro (vigésimo sétimo domingo). É, agora, o momento para retomar a proposta do «Laboratório da fé» apresentada na primeira parte do Tempo Comum: «Vou fazer de ti luz a luz das nações»!

Tempo Comum: vou fazer de ti a luz das nações!

Uma palavra luminosa com um envio missionário: «Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra». Deixemo-la ecoar dentro de nós e não hesitemos em «mastigá-la» para a saborear e para nos deixarmos alimentar por ela. Esta é a nossa missão! O momento presente é uma extraordinária oportunidade para ser «luz das nações», para ser um ponto de luz a apontar a salvação que Deus nos oferece através de Jesus Cristo. «O grande problema surge quando a luz (cristãos) se recusa iluminar em casa, no local de trabalho ou nos momentos de lazer. O problema surge quando queremos esconder a luz que já está em nós (isso é insanidade e acabará por queimar-nos), ou quando aceitamos iluminar mas de uma forma tímida. A Luz deve iluminar ousadamente! Essa é a identidade do cristão» (Cláudia NG Deep, «Sal e luz. Viver em assertividade», Paulus Editora, Lisboa 2010, 20).
Um dos obstáculos ao desafio a ser «luz das nações» é a rotina, o hábito. Mas é o que fazemos por rotina, por hábito, que configura o nosso caráter, a nossa identidade. Aquilo em que realmente acreditamos, que habita o nosso coração, é o que fazemos em cada dia. É o que realizamos dia a dia, o nosso modo de agir quotidiano, que nos faz simpáticos, afáveis, amigos, coerentes, cristãos. Não tenhamos dúvida: é a nossa rotina, os nossos hábitos, que definem o nosso ser. Por isso, este tempo que nos é dado viver não tem nada de «comum»: é também um «tempo forte» para continuar a olhar o mundo com os olhos de Jesus Cristo; é um tempo para deixar que as propostas da Páscoa se tornem ainda mais claras.
«A fé nasce do encontro com o amor gerador de Deus que mostra o sentido e a bondade da nossa vida; esta é iluminada na medida em que entra no dinamismo aberto por este amor, isto é, enquanto se torna caminho e exercício para a plenitude do amor. A luz da fé é capaz de valorizar a riqueza das relações humanas, a sua capacidade de perdurarem, serem fiáveis, enriquecerem a vida comum» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «A luz da fé» — LF], 51). Completamos o itinerário com as reflexões apresentadas no segundo e quarto capítulos da Carta Encíclica sobre a fé. Assim, concluímos a leitura do referido documento conscientes de que «como luz que é, a fé convida-nos a penetrar nela, a explorar sempre mais o horizonte que ilumina, para conhecer melhor o que amamos» (LF 36).

Laboratório da Fé celebrada

«O Ano Litúrgico constitui o alimento principal e a melhor pedagogia para crescer na incorporação em Cristo» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga). Domingo após domingo, luz após luz, respondemos ao convite que o Senhor Jesus Cristo nos faz para estar com ele e com as irmãs e os irmãos que celebram a mesma fé. «Além disso, como boa parte deste tempo coincide com o verão, pode acontecer que este encontro dominical o façamos com gente de outros lugares, porque vamos de férias ou porque, onde vivemos, chegam turistas e veraneantes, e isto faz-nos experimentar que esta convocatória abarca gente muito diversa, crente como nós» (Josep Lligadas, «Celebrar o Ano Litúrgico», Paulinas, Lisboa 2001, 51). Por outro lado, esta época assume condições propícias para potenciar o tempo de oração, de encontro com Deus: «Tomar consciência da presença de Deus que nos habita, descobrir a sua ação em nós» (Programa Pastoral).

© Laboratório da fé, 2014

Vou fazer de ti a luz das nações

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.6.14 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


O Secretariado de Liturgia da diocese do Porto, num artigo do jornal «Voz Portucalense» (19 de março de 2008), apresenta a importância e a simbologia do Círio Pascal, benzido e apresentado solenemente na celebração da Vigília Pascal; e aceso e visível a toda a assembleia em todo o tempo de Páscoa (desde a Vigília Pascal até ao Pentecostes). O Círio Pascal é «símbolo de Cristo»: «O Círio está gravado com um alfa e ómega, primeira e última letra do alfabeto grego (vestígio do tempo em que a liturgia era em grego). O sentido é que Cristo compendia tudo, abarca o tempo todo, nada se exime a Ele. Além disso, o ano indica que a Páscoa é sempre nova, isto é, única e atual, a mesma. Estes símbolos são enquadrados na Cruz: o mistério pascal supõe a morte e a ressurreição (é passagem, não ilude a nossa condição). Tais pormenores não são visíveis, mas permitem uma aproximação, uma informação, despertam a curiosidade e envolvem-na, como complementos enriquecedores, numa expressividade forte».

Durante os cinquenta dias de Páscoa, acende-se o Círio Pascal, em todas as celebrações.
Numa civilização da luz artificial que sentido poderá ter a luz de velas ou lamparinas? Se o motivo fosse meramente utilitário, não passaria de uma medida de recurso pouco eficaz. Mas, mais que no passado, em que desempenhava essa nobre função, hoje a luz da vela evidencia melhor outra. Apresenta-se com um simbolismo expressivo de alguma coisa ou de alguém que consideramos importante na nossa vida e que desejamos lembrar, comemorar, celebrar.
Por isso, a luz de uma vela, de um círio, de uma lamparina remete-nos para um contexto misterioso, para um acontecimento profundo e intenso, para uma realidade secreta ou escondida, para um feito cuja eficácia não se pode avaliar assim integralmente. Não se acende uma vela que se coloca num bolo de aniversário? Não se organiza uma procissão noturna com velas acesas? Não brilha uma lamparina diante do sacrário de uma igreja? Somos, deste modo, arrancados a uma praxe funcional e utilitária para entrar inesperada e subliminarmente num outro âmbito vital de significação!
A Vigília Pascal inicia-se com um jogo simbólico de luz. O povo, congregado na escuridão, vê como surge um fogo novo (com efeito, nesta noite tudo é novo). Nele se acende o Círio Pascal, símbolo de Cristo. Atrás dele marcha uma comunidade que lembra e incarna as suas palavras: «Quem me segue, não andará nas trevas…». Por três vezes, aclama-O, superlativamente, com alegria: «Luz de Cristo». À medida que se aproxima do altar, esta luz vai-se contagiando, por determinada ordem, entre os fiéis. Não há outras luzes (artificiais ou funcionais), o clarão depende, neste caso, do número dos participantes (menos luz, mais luz: trata-se de outra avaliação e de outro realismo). A fragilidade e a individuação desta luz, perante a escuridão envolvente, falam por si (tudo é muito eloquente). Surge o canto do Precónio, pelo diácono que (preconiza) apregoa os louvores da feliz noite que se ilumina com a Luz de Cristo.
Não serão necessárias, devem mesmo evitar-se muitas explicações (racionais) que podem apenas perturbar a experiência profunda, a compreensão íntima e a vivência abrangente, cativante e contagiante do símbolo. Para tal, basta apenas a adesão, a entrega ao movimento simbólico proporcionado, oferecido. É a noite da Páscoa, da qual se diz que «a noite brilha como o dia e a escuridão é clara como a luz».
Contudo, uma coisa é necessária: que o rito seja bem realizado, com a reta sucessão de sinais. Escuridão da noite (não o fim da tarde), o fogo (não um isqueiro ou um fósforo), um Círio belo (não uma simples vela) e novo (não um miserável aproveitamento do Círio do ano anterior), a procissão bem ordenada (o Círio, à frente, apenas precedido pelo turíbulo fumegante, o presidente da celebração, os outros ministros ou ministrantes, o povo), a progressiva comunicação da luz, o pregão… Após a larga preparação quaresmal, a Esposa sai, nesta noite, ao encontro do Esposo, com lâmpadas acesas. O mundo criado (o círio de cera produzido pelas abelhas) une-se à oferenda da Igreja e entra neste assombroso encontro entre o Céu e a Terra, entre Deus e o ser humano: o já encontra-se com o todavia não.
O Círio está gravado com um alfa e ómega, primeira e última letra do alfabeto grego (vestígio do tempo em que a liturgia era em grego). O sentido é que Cristo compendia tudo, abarca o tempo todo, nada se exime a Ele. Além disso, o ano indica que a Páscoa é sempre nova, isto é, única e atual, a mesma. Estes símbolos são enquadrados na Cruz: o mistério pascal supõe a morte e a ressurreição (é passagem, não ilude a nossa condição). Tais pormenores não são visíveis, mas permitem uma aproximação, uma informação, despertam a curiosidade e envolvem-na, como complementos enriquecedores, numa expressividade forte.
Terminado o tempo pascal, o Círio será entronizado no batistério. Aí é aceso para que nele se acendam as velas dos batizados (feliz tradição que se vem fazendo, de adquirir um pequeno círio para cada baptizado), como recordação do seu batismo (gravando o nome e a data do batismo), dando corpo às palavras do ministro: «A vós, pais e padrinhos, se confia o encargo de velar por esta luz, para que os vossos pequeninos, iluminados por Cristo, vivam como filhos da luz, perseverem na fé e, quando o Senhor vier, possam ir ao seu encontro com todos os Santos, no reino dos céus».
O Círio Pascal também se acende nas Exéquias, a fim de dar um tom pascal a este momento culminante da vida cristã. Tendo começado o seu caminho na luz de Cristo glorioso, assim o conclui: o batismo incorporou-o na Páscoa e a morte introdu-lo na Luz sem ocaso.
Eis a riqueza de todo este simbolismo do Círio que exercitamos na Vigília Pascal. O rito da luz é apenas a introdução da Vigília, mas não um mero começo ou uma antecipação: dar-lhe-á tom e imprimir-lhe-á o ritmo genérico e secreto.

© SDL | Voz Portucalense
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014



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Laboratório da fé celebrada, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.4.14 | Sem comentários

ENVOLVIDO NUMA LUZ INTENSA


Quando o lume novo ilumina a escuridão da noite, o cristão é convidado a deixar-se penetrar pela intensidade dessa luz que anuncia a vitória da vida. A luz vence as trevas! Nunca mais haverá noite! A luz que brilha na noite de Páscoa é demasiado grande para se encerrar nas vinte e quatro horas de um dia. Por isso, a festa da Páscoa perdura ao longo de cinquenta dias vividos como «o grande domingo», preenchido por uma luminosidade sem fim. «Cinquenta dias são sete semanas mais um dia: sete vezes sete na Bíblia é um número simbólico que indica a plenitude absoluta, a perfeição, e um dia a mais indica um excesso, encaminha para um amanhã, para alguma coisa que não se cumpre neste mundo, mas que evoca a eternidade» (Alberto Vela).

Páscoa: envolvido numa luz intensa!

Celebrar e viver a Páscoa é atualizar a alegria da Ressurreição, a festa da Luz e da Vida. O mistério pascal de Jesus Cristo é o coração do ano litúrgico, o coração da fé cristã. Jesus Cristo está no centro da vida para sempre. Ele é a estrela da manhã que não tem ocaso. «A escuridão dos dias anteriores dissipou-se no momento em que Jesus ressuscita do sepulcro e Se torna, Ele mesmo, pura luz de Deus. Isto, porém, não se refere somente a Ele, nem se refere apenas à escuridão daqueles dias. Com a ressurreição de Jesus, a própria luz é novamente criada. Ele atrai-nos a todos, levando-nos atrás de Si para a nova vida da ressurreição e vence toda a forma de escuridão. Ele é o novo dia de Deus, que vale para todos nós» (Bento XVI). A partir da Ressurreição, o ser humano é «envolvido numa luz intensa», a começar pelas mulheres, as primeiras discípulas, passando por Pedro, João e todos os outros; por Paulo e pelas primeiras comunidades cristãs, de geração em geração, até ao nosso tempo, até ao fim dos tempos. Assim se constitui a Igreja, reunida em nome e à volta de Jesus Cristo («Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles»: Mateus 18, 20).
O livro dos Atos dos Apóstolos — os seus textos constituem a primeira leitura dos domingos de Páscoa — oferece uma leitura teológica dos primeiros passos cristãos: as dificuldades, o dom do Espírito Santo, o anúncio do Evangelho, as primeiras comunidades cristãs, o «nascimento» da Igreja. Hoje, como naquele primeiro dia da semana, Jesus Cristo, pelo dom do Espírito Santo, torna-se «presente», para transformar a tristeza em alegria, para transformar a intranquilidade em paz, para transformar as portas fechadas em espaços abertos a todos, para transformar o medo em ousadia de testemunho.
Os discípulos têm de ser testemunhas. «Quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz, não pode guardar este dom para si mesmo. […] A luz de Jesus brilha no rosto dos cristãos como num espelho, e assim se difunde chegando até nós, para que também nós possamos participar desta visão e refletir para outros a sua luz, da mesma forma que a luz do círio, na liturgia de Páscoa, acende muitas outras velas. A fé transmite-se por assim dizer sob a forma de contacto, de pessoa a pessoa, como uma chama se acende noutra chama» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «A luz da fé» — LF], 37). Ao longo deste tempo de Páscoa, o terceiro capítulo da Carta Encíclica sobre a fé (números 37 a 49) dar-nos-á as coordenadas necessárias para que cada um se sinta sempre «envolvido numa luz intensa».

Laboratório da Fé celebrada

A Páscoa é, por excelência, o tempo mistagógico, isto é, o tempo que aprofunda a união com Jesus Cristo presente, pelo Espírito Santo, na sua Igreja. «É o Espírito que torna possível a presença atual de Cristo na sua Igreja e a continuidade da sua ação salvadora entre nós. A Igreja é fruto do Espírito. Sem Espírito, a Igreja é impossível. O Espírito é a alma da Igreja, a fonte de toda a sua vida. É o Espírito que envia os crentes pelo mundo e os impulsiona para dar testemunho da vida cristã e para evangelizar. […] Sem Espírito, não é possível a liturgia. Sem Espírito ninguém pode dizer ‘Jesus é o Senhor’, nem celebrar o Seu mistério. Todo o nosso culto é espiritual e celebra-se na força vivificadora do Espírito. Os gestos litúrgicos não são ritos que se cumprem para conservar uns costumes religiosos ou para ser fiéis a uma disciplina eclesial, mas são realidades cheias do Espírito» (Programa Pastoral). O fruto «será uma liturgia simples e bela, sinal da comunhão entre Deus e os seres humanos».

© Laboratório da fé, 2014

Envolvido numa luz intensa
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.4.14 | Sem comentários

BRILHARÁ NA ESCURIDÃO A TUA LUZ


«Ponham-se em maior realce, tanto na Liturgia como na catequese litúrgica, os dois aspetos característicos do tempo quaresmal, que pretende, sobretudo através da recordação ou preparação do Batismo e pela Penitência, preparar os fiéis, que devem ouvir com mais frequência a Palavra de Deus e dar-se à oração com mais insistência, para a celebração do mistério pascal» (Constituição Conciliar sobre a Liturgia — «Sacrosanctum Concilium», 109). A Quaresma não é um tempo «arqueológico» de práticas avulsas, mais ou menos com sentido. A Quaresma é um tempo novo, um tempo dito no presente, que faz mergulhar no mistério pascal de Jesus Cristo. «A celebração do mistério pascal de Cristo é celebração da salvação do ser humano que se faz realidade na morte e ressurreição de Jesus Cristo» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga). O acento não se coloca tanto nas práticas ascéticas, mas mais na ação purificadora e santificadora de Jesus Cristo na nossa vida. As dinâmicas penitenciais são úteis na medida em que se tornam sinal da participação na Páscoa de Jesus Cristo, que se há de tornar na nossa própria páscoa.

Quaresma: brilhará na escuridão a tua luz!

«São 40 oportunidades (40 dias) para mudarmos o significado dos hábitos […]. Não pretendemos que a Quaresma seja apenas mais um tempo do calendário litúrgico, mais um tempo de carácter penitencial ou mais um tempo inútil, mas que seja, acima de tudo, um tempo e um teste de conversão progressiva» (Mensagem do Arcebispo de Braga, Dom Jorge Ortiga). Este «teste de conversão» não se esgota no tempo da Quaresma. É um desafio para todo o ano, para toda a vida.
A Quaresma torna-se «o ‘tempo exemplar’ para todo o ano: ou seja, fornece as linhas de fundo para uma vida cristã que, inspirando-se na Páscoa do Senhor, se coloca em atitude de ‘conversão permanente’. É preciso ter muito cuidado, então, para não isolar a Quaresma da Páscoa. […] Toda a vida do cristão é sempre uma caminhada na luz da Páscoa e em direção à luz da Páscoa, por isso requer um dinamismo de conversão permanente: a Quaresma, sinal sacramental da nossa conversão, torna-se momento de referência e de reabastecimento necessário para todas as estações da vida do cristão» (Mario Chesi).
Então, a Quaresma não pode ser vista como um tempo de «trevas» ou «escuridão». Também na Quaresma há uma luz, a luz da fé, que permite ver com mais clarividência o caminho. «A fé desvenda-nos o caminho e acompanha os nossos passos na história. Por isso, se quisermos compreender o que é a fé, temos de explanar o seu percurso, o caminho dos homens crentes» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «A luz da fé» [«Lumen Fidei» — LF], 8), desde o patriarca Abraão até ao apóstolo Paulo, culminando com «a forma eclesial da fé»: «O crente aprende a ver-se a si mesmo a partir da fé que professa. A figura de Cristo é o espelho em que descobre realizada a sua própria imagem. E dado que Cristo abraça em Si mesmo todos os crentes que formam o seu corpo, o cristão compreende-se a si mesmo neste corpo, em relação primordial com Cristo e os irmãos na fé» (LF 22). Ao longo desta Quaresma, percorrendo o primeiro capítulo da Carta Encíclica sobre a fé (números 8 a 22), queremos que se abra para nós um novo modo de ver, que a fé se torne luz para os nossos olhos (cf. LF 22). E com toda a propriedade poderemos dizer que, assim transformados, «brilhará na escuridão a tua luz».

Laboratório da Fé celebrada

Na liturgia, «não celebramos uma mera doutrina teórica, mas o acontecimento concreto da nossa salvação realizada em Jesus Cristo. […] A liturgia é, assim, um lugar privilegiado onde Cristo se torna presente na comunidade cristã e a Quaresma, um tempo privilegiado para meditarmos nos principais momentos da Sua vida pública, que culminou no alto da Cruz. Nesta consciência, gostaria apenas de deixar-vos uma pergunta a ser interiorizada durante este tempo: será que as nossas celebrações convidam realmente a um encontro pessoal e comunitário com Cristo, concretizado num encontro com os mais carenciados? […] Desejo uma boa caminhada quaresmal a todos nós, na certeza de que da Cruz de Cristo radiará uma luz carregada de sentido para as nossas vidas!» (Mensagem do Arcebispo). A Cruz, enquanto parte do mistério pascal, apresenta-se como um sinal luminoso no centro da nossa vida: há de brilhar uma luz capaz de dissipar qualquer tipo de escuridão; serei «envolvido numa luz intensa».

© Laboratório da fé, 2014

Brilhará na escuridão a tua luz

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.3.14 | Sem comentários

VOU FAZER DE TI A LUZ DAS NAÇÕES


Transportamos a luz do Natal nos nossos olhos e mais ainda no nosso coração! Caminhamos com Jesus Cristo, luz do mundo. E assim vamos continuar o nosso caminho, de luz em luz. Que alegria seguir neste caminho, domingo após domingo, para acolher a presença de Deus!
«A luz apaga a escuridão e traz sabedoria, a luz mostra o que existe, não permite esconder nada, a luz revela a verdade. […] A luz esclarece as situações e é atrevida. A luz atreve-se a iluminar e a revelar a verdade mesmo quando alguém não a quer ver. A luz é afirmativa, afirma-se e afirma o que está à sua volta, não compactua com o oculto e assertivamente aponta o caminho» (Cláudia NG Deep, «Sal e luz. Viver em assertividade», Paulus Editora, Lisboa 2010, 17).

Tempo Comum: vou fazer de ti a luz das nações!

Às escuras não vejo nada, repito apenas a escuridão que tende a ampliar-se e a confundir-nos. Preciso, por isso, da luz de Deus para me olhar. Esta luz de Deus, o «grande dom trazido por Jesus» é a fé, é a «luz da fé». Na verdade, «a fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «A luz da fé» [«Lumen Fidei» — LF], 1.4). A luz da fé é o «grande dom» oferecido pelo Pai, trazido por Jesus Cristo, atualizado pelo Espírito Santo. Neste itinerário, seremos interpelados pelas reflexões (primeiros sete números da Carta Encíclica sobre a fé) do papa Francisco: «Mas, como é este caminho que a fé desvenda diante de nós? Donde provém a sua luz, tão poderosa que permite iluminar o caminho duma vida bem sucedida e fecunda, cheia de fruto?» (LF 7).
Ao longo deste Ano Litúrgico propomos a temática da luz, tendo por base textos do profeta Isaías, que nos vão continuar a acompanhar, na primeira leitura, aos domingos. «Vou fazer de ti a luz das nações». Uma palavra luminosa com um envio missionário: «Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra». Deixemo-la ecoar dentro de nós e não hesitemos em «mastigá-la» para a saborear e para nos deixarmos alimentar por ela. Esta é a nossa missão!
«O grande problema surge quando a luz (cristãos) se recusa iluminar em casa, no local de trabalho ou nos momentos de lazer. O problema surge quando queremos esconder a luz que já está em nós (isso é insanidade e acabará por queimar-nos), ou quando aceitamos iluminar mas de uma forma tímida. A Luz deve iluminar ousadamente! Essa é a identidade do cristão» (Cláudia NG Deep, 20).
Tomemos como modelo o relato da vocação de Samuel (quarta-feira da primeira semana, «anos pares»: 1Samuel 1-10.19-20). Parece um sumário realista da nossa experiência. «A palavra do Senhor fazia-se ouvir raras vezes e as visões não eram frequentes». Também o nosso quotidiano se torna rarefeito, fragmentário e ausente em relação à escuta da Palavra de Deus. Porém, sublinhemos a frase extraordinária do autor sagrado: «A lâmpada de Deus ainda não se tinha apagado». Deus é fiel à Pessoa Humana e à história. Mesmo em situações e idades agitadas por ventos e turbulências, a nossa confiança reside aí: «a lâmpada de Deus ainda não se tinha apagado». Diz-nos o texto que Samuel ainda não conhecia o Senhor: e nós, conhecêmo-lo? Nas horas noturnas ou solares da nossa vida, nas horas que estamos a viver, rezemos: «Falai, Senhor, que o vosso servo escuta» (cf. José Tolentino Mendonça, «O tesouro escondido. Para uma arte da procura interior», Paulinas Editora, Prior Velho 2011, 9-10).

Laboratório da Fé celebrada

O Ano Litúrgico está destinado a levar-nos a uma contemplação profunda relacionada com a imersão nos grandes mistérios da fé. «O Ano Litúrgico deve ser o nervo da vida da comunidade» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga). Domingo após domingo, luz após luz, somos convocados para formar comunidade, na escuta a Palavra e na partilhar o Pão. Por isso, o domingo e a eucaristia são o centro da vida cristã. «O domingo, tal como a Eucaristia que nele é celebrada, remete para a vida […]. Ambos enviam o fiel ao mundo: de segunda-feira até sábado é o tempo do testemunho, é o tempo de um dia-a-dia melhor, porque na ce­lebração dominical o crente é inspirado e penetrado pela graça da memória do Senhor Ressuscitado. É o tempo de dar um sentido novo a tudo o que se vive» (Mario Chesi). Acendamos a luz de Deus, a luz da fé, no nosso coração! Cumpra-se a profecia de Isaías: «Vou fazer de ti a luz das nações»!

© Laboratório da fé, 2014

Vou fazer de ti a luz das nações

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.1.14 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO DA EPIFANIA

5 DE JANEIRO DE 2014


Isaías 60, 1-6

Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz e brilha sobre ti a glória do Senhor. Vê como a noite cobre a terra e a escuridão os povos. Mas, sobre ti levanta-Se o Senhor e a sua glória te ilumina. As nações caminharão à tua luz e os reis ao esplendor da tua aurora. Olha ao redor e vê: todos se reúnem e vêm ao teu encontro; os teus filhos vão chegar de longe e as tuas filhas são trazidas nos braços. Quando o vires ficarás radiante, palpitará e dilatar-se-á o teu coração, pois a ti afluirão os tesouros do mar, a ti virão ter as riquezas das nações. Invadir-te-á uma multidão de camelos, de dromedários de Madiã e Efá. Virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando as glórias do Senhor.



Brilha sobre ti a glória do Senhor


Israel, ao longo da história, passou por profundos períodos de escuridão (o exílio na Babilónia, por exemplo). Agora chega a época da luz. Esta luz não provém de si mesmo, mas é dom de Deus.
O profeta apresenta a vinda poderosa do Senhor como a vinda da luz. Esta luz é glória — a sua presença forte e densa — que brilha no meio do mundo. O próprio Israel torna-se sinal da presença de Deus. A profecia que se lê no domingo da Epifania converte-nos em testemunhas do movimento de Israel da escuridão para a luz; do desespero para a esperança; da consternação para o bem-estar.
Israel recebe um imperativo. «Levanta-te», que, de facto, é um convite. Não é um novo fardo, mas uma boa nova: convida-o a voltar à terra de onde tinha saído. A partir de agora, por causa do dom da presença do Senhor, Jerusalém exercerá uma espécie de magnetismo sobre as nações. Está a acontecer algo que Israel não podia esperar nem acreditar: uma procissão interminável de povos de todo o mundo que se dirigem para Jerusalém.
A luz do Senhor põe fim ao exílio. O poeta-profeta imagina um mundo em que os esquecidos — os filhos e as filhas de Jerusalém —, agora, voltam a casa, ao seu povo. Israel, ao longo da sua história, tinha sido sempre um povo de segunda categoria entre vizinhos poderosos e ricos. Agora, as coisas mudaram: as riquezas exóticas das nações, que antes nem sequer podiam sonhar, são agora oferecidas ao povo de Deus, porque é o lugar da luz que brilha sobre o mundo. Há que notar, contudo, que a riqueza das nações é levada a Jerusalém para adorar o Senhor, para proclamar «as glórias do Senhor».

© Joan Ferrer, Misa dominical
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor


Preparar o domingo da Epifania (Ano A), no Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.1.14 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


O Secretariado de Liturgia da diocese do Porto, num artigo do jornal «Voz Portucalense» (2 de janeiro de 2013) evoca o tema da luz, relacionando o tempo de Natal com a celebração da Páscoa: a luz natalícia, característica do Natal e da Epifania, aponta para a «apoteose que acontece na Páscoa, na noite santa, em que Cristo, a luz do mundo, sem ocaso, ilumina e se reflete sobre todas as coisas». Entretanto, entre um e outro acontecimento situa-se a festa da Apresentação de Jesus no Templo (2 de fevereiro), onde de novo se destaca o tema da luz. «A celebração litúrgica, na sua rica gramática simbólica, dá um lugar de relevo à luz, de modo muito especial, na Páscoa e no Natal. O símbolo da luz introduz-nos na participação do mistério de Cristo. Neste sentido, se compreendem as velas que colocamos no altar, o Círio pascal que preside às celebrações principais, a lâmpada que arde diante do Santíssimo Sacramento, as velas que levamos nas procissões, a vela que se acende no batismo, na profissão de fé, o círio que se coloca diante do féretro, etc. A nossa existência, ritmada pela luz, manifesta-se, marcada por Cristo que diz: 'Eu sou a luz do mundo… Vós sois a luz do mundo!'».

A liturgia também se compreende como um jogo de luz. Desde a orientação das igrejas, os estilos arquitetónicos, a própria ação litúrgica, os ritos, os tempos litúrgicos e os lugares, etc., não são alheios aos fenómenos cósmicos, mas inserem-se, neles, num realismo impressionante, repleto de sentido. Por isso, podemos dizer que estão marcados por este jogo da luz. Neste sentido, o Natal volta-se para a Páscoa: a luz que surge, estabelece um ritmo que aponta para a sua apoteose que acontece na Páscoa, na noite santa, em que Cristo, a luz do mundo, sem ocaso, ilumina e se reflete sobre todas as coisas, ao longo de todo o ano (ano litúrgico) e celebrações (celebrações litúrgicas).
«Santo é o dia que nos trouxe a luz. Vinde, adorai o Senhor. Hoje, uma grande luz desceu sobre a terra». Assim cantámos no Natal, evocando a luz que veio para «o povo que andava nas trevas» (Isaías 9, 2), o esplendor da glória do Senhor que envolveu os pastores (Lucas 2, 9), Cristo, esplendor da glória do Pai (Hebreus 1, 3), Vida, luz dos homens (João 1, 4), Luz que resplandece em Jerusalém, que conduz as nações e os reis (Isaías 60, 1.3), estrela que guia os Magos (Mateus 2, 2), etc.
O Natal e a Epifania são, com efeito, festas da Luz. Quarenta dias, após as festas natalícias, lembrando o acontecimento luminoso, se evoca Cristo luz «para iluminar as nações» que, vindo ao encontro do seu povo fiel, é a luz verdadeira que não tem ocaso. Nesse dia (2 de fevereiro), o povo reúne-se, acende as velas e o sacerdote abençoa a luz. O povo encaminha-se para a igreja com as velas acesas.
«Aqui temos um símbolo, belo e expressivo, entre muitos: a vela. Não te digo nada de novo, aliás; com certeza já o sentiste muitas vezes. Repara como ela se ergue no candelabro. Assenta o pé largo e pesado. O fuste ergue-se seguro. A vela levanta-se bem apertada e circundada pela arandela (aparador) bem espalmada. A sua figura vai-se adelgaçando ligeiramente; firmemente modelada por mais que suba. Assim está no espaço, esbelta, em pureza imaculada e cor levemente acentuada, distinta, por uma forma clara, de toda a mistura. Suspensa ao alto, está a chama e nela transforma a vela, o seu corpo puro em radiante luz. Diante dela não sentes acordar qualquer coisa de nobre?! Vê como está ali, imperturbável no seu posto, atirada ao alto, pura e honrosa. Nota como tudo nela se proclama: 'Estou pronta!'. Como ela está onde deve, diante de Deus. Nada nela foge e nada se subtrai. Tudo, límpida prontidão. E, em seu determinismo, consome-se incessantemente em luz e ardor. Talvez digas: 'que sabe disso a vela? Se ela não tem alma!'. Pois dá-lhe tudo! Deixa que se torne expressão tua. Faz com que, diante dela, desperte toda a disposição nobre: 'Senhor, aqui me tens!'. Sentirás, então, a sua atitude esbelta e pura, como expressão do teu próprio sentimento. Faz com que toda a tua disposição se robusteça de modo a atingir a felicidade indefectível. Então sentirás: 'Senhor, naquela vela, estou eu diante de Ti'. Não fujas ao teu destino. Persevera. Deixa-te de querer saber continuamente o porquê e o para quê. O sentido mais profundo da vida está em comunicarmo-nos em verdade e amor de Deus, tal como a vela se consome em luz e ardor» (R. Guardini, Sinais Sagrados).
A Bíblia aplica, este simbolismo da luz, a Deus que «habita numa luz inacessível» (1Timóteo 6, 16). «Deus é luz e n’Ele não há treva» (1João 1,5). E o salmista: «Meu Deus, como sois grande, vestido de esplendor e majestade, envolvido de luz, como de um manto» (Salmo 104, 2). E a Liturgia: «único Deus vivo e verdadeiro… permaneceis, eternamente, na luz inacessível… criastes o universo para encher de bênçãos todas as criaturas e a muitas alegrar na claridade da vossa luz» (Anáfora IV).
Mas este simbolismo litúrgico refere-se, sobretudo, a Cristo: «o Verbo era a luz verdadeira que ilumina todo o homem» (João 1,9); «Eu sou a luz do mundo: quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida» (João 8, 12): palavras proclamadas por Jesus na festa das Tendas, a festa das luzes, no Templo de Jerusalém. Este simbolismo atravessa toda a Bíblia, desde a primeira (faça-se a luz: Génesis 1, 3) até à última (a nova Jerusalém iluminada pela glória de Deus e a sua lâmpada é o Cordeiro… aí não haverá noite: Apocalipse 21, 23ss).
Naturalmente, a celebração litúrgica, na sua rica gramática simbólica, dá um lugar de relevo à luz, de modo muito especial, na Páscoa e no Natal. O símbolo da luz introduz-nos na participação do mistério de Cristo. Neste sentido, se compreendem as velas que colocamos no altar, o Círio pascal que preside às celebrações principais, a lâmpada que arde diante do Santíssimo Sacramento, as velas que levamos nas procissões, a vela que se acende no batismo, na profissão de fé, o círio que se coloca diante do féretro, etc. A nossa existência, ritmada pela luz, manifesta-se, marcada por Cristo que diz: «Eu sou a luz do mundo… Vós sois a luz do mundo!».

© SDL | Voz Portucalense
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014



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Laboratório da fé celebrada, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.1.14 | Sem comentários

UMA GRANDE LUZ


A luz artificial gera demasiadas sombras e nevoeiros. Sombras de ausências, nevoeiros de tristeza, sombras de enfermidade, nevoeiros de famílias desfeitas, sombras de desemprego, nevoeiros de objetivos não atingidos… cada um conhece e sofre as suas sombras e os seus nevoeiros. Parece uma contradição: quando as festas natalícias convidam a «estar bem» surgem com mais intensidade as sombras e nevoeiros. Luzes acesas por todo o lado, adornos, compra de presentes, sorteios, cabazes, consumo, ceias e mais ceias… todo um ritual pagão que disfarça a realidade e embeleza-a com alguns rasgos de religiosidade. Porventura, dir-se-á que é demasiado artificial para ser autêntico!

Natal: uma grande luz!

«Uma grande luz!». Através de um hino litúrgico, Isaías dá-nos uma indicação: o ADN do Invisível é a luz. Esta claridade deslumbrante é como as lâmpadas dos faróis que guiam os barcos. É essa mesma claridade que encontramos na «luz da fé». Esta é «a expressão com que a tradição da Igreja designou o grande dom trazido por Jesus. […] Urge recuperar o carácter de luz que é próprio da fé, pois, quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam também por perder o seu vigor» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «A luz da fé» [«Lumen Fidei»], 1.4).
A verdade é que a celebração do tempo de Natal tem a ver com as sombras e os nevoeiros em que Deus nasce: num presépio, pobre e recusado, colocado numa manjedoura, Deus apresenta-se como luz na escuridão, como esperança no meio da confusão, como promessa na deceção. No meio da noite brilha a luz! Uma grande luz! Não é uma luz artificial. É autêntica. É nova. Nunca mais se apaga. Ilumina tudo e todos. O Natal é a celebração de um Deus que vem para iluminar a nossa vida.
Nós, aqueles que queremos seguir Jesus Cristo e o confessamos como Filho de Deus; aqueles que acreditamos que no mistério da Incarnação nos foi revelada a verdadeira imagem de Deus, que nunca mais permanecerá escondido; aqueles que ainda nos atrevemos a ficar emocionados ao dar um beijo ao Menino, como se fossemos pastores; aqueles que nos colocamos sob a proteção de Maria, a Mãe de Deus, no início de cada ano; aqueles que ainda sonhamos com os Magos do Oriente e acreditamos na luz que pode guiar e iluminar a nossa vida; todos nós, de raças e línguas diferentes, de expressões e costumes diversificados, de abraços e linguagens multiformes, todos nós, continuamos a ter motivos para celebrar o Natal.
A luz da fé desafia-nos a uma nova atitude diante das sombras e nevoeiros do nosso mundo. Natal é sinal de vida e motivo de compromisso. Celebrar o Natal é olhar para a realidade com os olhos de Deus. Ao contemplar o presépio onde Deus nasce, vemos os «presépios» da injustiça e da violência, do ódio e da guerra… onde tantos homens e mulheres estão mergulhados. Ao contemplar o presépio, vemos famílias desalojadas, expulsas das suas casas, sem pão nem mesa, sem sítio para viver com dignidade. «Tomemos consciência que o mundo pode e deve mudar. Se abrirmos bem os olhos, conseguiremos ver que os pés descalços são muitos e variados. Por isso, o melhor presente que podemos oferecer é ajudar a calçar os pés descalços com a nossa misericórdia e acreditar nas nossas capacidades. Não percamos tempo! Temos diante de nós a oportunidade de devolver a alegria» (Mensagem do Arcebispo de Braga, Dom Jorge Ortiga).

Laboratório da Fé celebrada

Não sabemos exatamente onde Maria deu à luz o seu filho. Mas o texto bíblico precisa: «deitou-o numa manjedoura». Este detalhe está carregado de sentido. A manjedoura é o lugar onde os animais se alimentam. Ora, a vida de Jesus Cristo é uma total entrega à humanidade. Ele alimenta os homens e as mulheres com as suas palavras e com a sua vida. Este é o sentido das representações próprias dos séculos quarto e quinto, onde a manjedoura aparece sob a forma de um altar semelhante aos das primeiras basílicas. Contemplemos a manjedoura. Jesus Cristo vai-se oferecer, na sua última ceia, vai dar-se como alimento para todos, oferece toda a sua vida, dá-se totalmente para nos alimentar. Uma bela de viver o Natal é celebrar a Eucaristia. «Tendo em conta a temática do nosso ano pastoral, a liturgia é, por assim dizer, o berço onde Cristo ‘nasce’ em cada celebração, fazendo-se presente, para nos encher dessa vida nova» (Mensagem do Arcebispo). Celebrar o Natal é acolher a chegada de «uma grande luz».

© Laboratório da fé, 2013

Uma grande luz
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.12.13 | Sem comentários

Mistério da fé! [11]


Os sinais e símbolos (cf. tema 3) ocupam um lugar importante no contexto da vida humana; o mesmo acontece no contexto litúrgico. Por isso, dedicamos este tema à explicação dos sinais e símbolos associados ao Sacramento do Batismo. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Romanos 13, 11-14; Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1234 a 1245 e 1262 a 1284]

«Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo»

— diz Paulo aos cristãos de Roma. O batizado situa-se na aurora de um tempo novo assinalado pela passagem das trevas para a luz e pelo uso de uma nova «veste». Estas comparações exprimem a intensidade da relação que, pelo Batismo, se realiza entre Jesus Cristo o os cristãos (batizados): somos iluminados interiormente pela sua presença, para o tornarmos visível nas ações que realizamos, isto é, para sermos consequentes com a nossa situação de batizados.

Sinal da cruz

Há quem coloque uma marca nos bens pessoais. Há também quem use o emblema do clube, da associação, da instituição... É um sinal de pertença e de identificação. O sinal do cristão é a cruz. Ser marcado com o sinal da cruz ou traçar sobre si o sinal da cruz é manifestar a pertença a Jesus Cristo (e à Igreja). «O sinal da cruz, no princípio da celebração, manifesta a marca de Cristo impressa naquele que vai passar a pertencer-Lhe, e significa a graça da redenção que Cristo nos adquiriu pela sua cruz» (CIC 1235).

Unção com óleo

Na língua portuguesa distingue-se «óleo» de «azeite». No uso litúrgico, embora se trate de azeite, a terminologia comum é a primeira («óleo»), embora se referia ao produto retirado das azeitonas («azeite»). Na história bíblica, a escolha do rei, do sacerdote, do profeta, era assinalada com uma unção: óleo derramado sobre a cabeça do escolhido (eleito). Além disso, o óleo também servia como tonificador. Recordemos, por exemplo, o uso do óleo como protetor solar ou para fazer massagens... Na celebração do batismo fazem-se duas unções: no peito e na testa. Estas são feitas com a forma do sinal da cruz. «O óleo é sinal de resistência ao pecado. Não se trata de pensar que o óleo seja algo de mágico que ‘imuniza o corpo’ contra o mal. O óleo não é feitiço. É um símbolo, e quer transmitir a força divina. Sem esforço, ninguém, por mais ungido que tenha sido, consegue vencer o mal e o pecado» (José Bortolini, «Os Sacramentos na tua vida», São Paulo, Lisboa 1995, 27-28). Este é o sentido da primeira unção feita com o óleo dos catecúmenos (nome para designar os que se preparam para o batismo): «O poder de Cristo te fortaleça». A segunda unção, feita com o óleo do crisma, está associada à prática bíblica (unção do rei, do sacerdote, do profeta): «permaneças, eternamente, membro de Cristo sacerdote, profeta e rei». Sobre este óleo daremos mais pormenores ao abordarmos o Sacramento da Confirmação (ou Crisma).

Água

«Elemento da Natureza essencial à vida, é tomado, correntemente, com muitos valores e sentidos: sacia a sede, limpa, é fonte de vida, origina a força hidráulica… Em registo religioso, também serve para simbolizar realidades profundas: a pureza interior, sobretudo. Por isso, se encontram abluções ou banhos sagrados, em todas as culturas e religiões, nas margens do Ganges para os Hindus, do Nilo para os Egípcios, do Jordão para os Judeus. Para os Cristãos, a água serve para simbolizar expressivamente o que Cristo e a sua salvação são para nós» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia», ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 23). No Batismo, está associada à «vida nova em Cristo» (cf. tema 9).

Veste branca

«A veste branca simboliza que o batizado ‘se revestiu de Cristo’» (CIC 1243). Na prática habitual dos primeiros séculos, o Batismo era celebrado na Vigília Pascal. «Os batizados, ao saírem da piscina, do ‘mergulho’ do Batismo, vestiam uma veste branca e conservavam-na toda a semana, até ao domingo seguinte. [...] Era uma semana de comemoração do Batismo» (José Ribólla, «Os Sacramentos trocados em miúdo», Editora Santuário, Aparecida 1990, 53).

Vela (luz)

«A vela, acesa no círio pascal, significa que Cristo iluminou o neófito. Em Cristo, os batizados são ‘a luz do mundo’» (CIC 1243). O Círio Pascal simboliza Jesus Cristo ressuscitado, vivo no meio de nós. Por isso, a vela não se acende a partir de uma outra vela qualquer! «A vela do Batismo quer dizer a quem é batizado: Jesus é a luz da tua vida! Procura andar nessa luz e serás feliz!» (José Bortolini..., 23).

«Seguindo, com participação atenta, os gestos e as palavras desta celebração, os fiéis são iniciados nas riquezas que este sacramento significa e realiza em cada novo batizado» (CIC 1234).



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Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.12.13 | Sem comentários

VIVER O DOMINGO: ao ritmo da liturgia


Primeira semana de Advento


Uma luz que ilumina a vida

Eis o tempo de Advento: para salvar o seu povo, Deus há de vir, a sua chegada está próxima. Em Jesus Cristo realiza-se a promessa da salvação. E a palavra de Deus faz-nos viver todas as etapas, desde o profeta Isaías, que revela a esperança do seu povo e anuncia a paz, até à vinda do próprio Senhor Jesus Cristo, no final dos tempos, quando tudo atingirá a plenitude.
Já compreendemos o significado profundo deste tempo do Ano Litúrgico? 
O Advento é uma oportunidade para nos deixarmos iluminar (DOMINGO: «Caminhemos à luz do Senhor») pela «luz da fé». É um apelo a voltarmo-nos resolutamente para a realização do Reino (SEGUNDA: «Serão todos inscritos para a vida»), acolhendo a Luz que se levanta (TERÇA: «Como bandeira dos povos») e cantando a alegria (QUARTA: «Alegremo-nos e rejubilemos») da nossa fé.
O Advento é um tempo para nos confrontarmos com a «qualidade» da nossa confiança em Deus (QUINTA: «Confiai sempre no Senhor»). A confiança (fé) tem de ser sempre acompanhada pela alegria (SEXTA: «Os humildes alegrar-se-ão cada vez mais no Senhor») da vida, alicerçada na certeza de que Deus não nos abandona (SÁBADO: «O Senhor terá compaixão de ti»). Deus permanece ativo para nos fazer passar das trevas à luz.

A primeira semana de Advento é dedicada à análise das nossas rotinas: na fé, nos costumes, na moral, nas devoções… Iniciamos o Advento apoiados na luz do Senhor. Uma luz que ilumina a vida familiar, a educação dos filhos, a relação com os companheiros de trabalho, as tarefas domésticas, as responsabilidades sociais, o serviço aos outros… Neste Advento, o que vou fazer para caminhar «à luz do Senhor»?

© Laboratório da fé, 2013

Primeira semana de Advento, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.12.13 | Sem comentários
— palavra para quinta-feira da terceira semana —



— Evangelho segundo Marcos 4, 21-25

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «Quem traz uma lâmpada para a pôr debaixo do alqueire ou debaixo da cama? Não se traz para ser posta no candelabro? Porque nada há escondido que não venha a descobrir-se, nem oculto que não apareça à luz do dia. Se alguém tem ouvidos para ouvir, oiça». Disse-lhes também: «Prestai atenção ao que ouvis: Com a medida com que medirdes vos será medido e ainda vos será acrescentado. Pois àquele que tem dar-se-lhe-á, mas àquele que não tem até o que tem lhe será tirado».

— Quem traz uma lâmpada para a pôr debaixo do alqueire ou debaixo da cama?

O tema da luz está presente em vários momentos da vida de Jesus Cristo. A luz aparece associada à transparência, à coerência entre a palavra e a ação. Jesus Cristo foi sempre transparente. Ele veio para ser a luz. E falava com clareza e com liberdade. E a sua maneira de viver correspondia com os seus ensinamentos. 
«Quem traz uma lâmpada para a pôr debaixo do alqueire ou debaixo da cama?». A pergunta de Jesus pretende conduzir a (nossa) atenção para uma vivência sadia, isto é, uma vida em que a palavra corresponde com a ação. Parece que às vezes colocamos a luz no sítio errado. E a semente do Evangelho não consegue frutificar.
O problema principal, para nós, cristãos, é que os ensinamentos de Jesus entram (quase sempre) em conflito com aquilo que domina a sociedade: o desejo de ter cada vez mais, o querer estar sempre acima dos outros, o empenho em esconder aquilo que nos envergonha e assim não se saiba, a vaidade em mostrar uma aparência que nem sempre corresponde ao interior de cada um, uma tendência para assumir uma vida dupla. Queremos viver como cristãos, mas... o Evangelho exige demais!

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 31.1.13 | Sem comentários
— palavra para segunda-feira depois da epifania —


— Evangelho segundo Mateus 4, 12-17.23-25

Naquele tempo, quando Jesus ouviu dizer que João Baptista fora preso, retirou-Se para a Galileia. Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum, terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali. Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer: «Terra de Zabulão e terra de Neftali, estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios: o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte uma luz se levantou». Desde então, Jesus começou a pregar: «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus». Depois percorria toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do reino e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo. A sua fama propagou-se por toda a Síria: traziam-Lhe todos os que estavam doentes, atingidos de diversos males e sofrimentos, possessos, epilépticos e paralíticos, e Jesus curava-os. Seguiram-n’O grandes multidões, que tinham vindo da Galileia e da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e de Além-Jordão.

— O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz

A Galieia é o lugar onde Jesus inicia a sua a ação missionária. Jesus conhecia bem aquela região. Ele viveu até aos trinta anos em Nazaré, uma cidade da Galileia. Por isso, Jesus tinha uma conhecimento profundo da realidade social, política, económica, religiosa e cultural daquela região.
A presença de Jesus em Cafarnaum (serã referida várias vezes nas narrações dos evangelhos) é, para o evangelista, uma oportunidade para recordar a professia de Isaías: «o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz». Esta profecia liga o texto com o mistério do Natal e Epifania que está a terminar.
Jesus é a «luz» de que fala o profeta. O seu nascimento é a luz que vem iluminar a vida de todos os seres humanos. Assim se torna próximo o Reino de Deus. Através de Jesus Cristo, Deus torna-se presente para sempre na nossa humanidade. Agora, está tão perto, que vive dentro de cada um nós.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.1.13 | Sem comentários
A melhor forma de viver o domingo é ler os textos litúrgicos. A Palavra de Deus tem de orientar a vida dos cristãos. Hoje, detenho-me nos primeiros versículos da leitura do profeta Isaías: «Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz e brilha sobre ti a glória do Senhor. Vê como a noite cobre a terra e a escuridão os povos. Mas, sobre ti levanta-Se o Senhor e a sua glória te ilumina. As nações caminharão à tua luz». Nos nossos dias, sentimos esta mesma situação: luz e glória, trevas e escuridão. E, no horizonte, o desejo de caminhar à luz do Senhor.
Durante o ano passado, no nosso país, ecoou o clamor de pessoas de todas as idades e condições sociais que saíram à rua para mostrar a sua dor e indignação perante as medidas económicas e sociais tomadas pelos governantes. Para essas pessoas e para as suas famílias, tais medidas eram escuridão e trevas que desciam sobre o presente e o futuro, afetando muito fortemente os mais desfavorecidos. Doi, e indigna, os terríveis cortes às instituições dedicadas a cuidar dos mais débeis, que com as migalhas que caem de algumas mesas poderiam ir ao encontro de pessoas muito carentes de atenção, de carinho, de respeito pela sua dignidade, pessoas feridas pelas situações da vida.
Não duvidamos que os cortes sejam necessários. Mas será que se começou a cortar pelo lugar certo e justo? Há números que ferem a nossa sensibilidade! As redes sociais não deixam de recolher dados sobre reformas astronómicas, fraudes bancárias, paraísos fiscais, negócios sem ética nem escrúpulos, gastos faustosos. Perante todas estas situações, a Igreja tem de partilhar as alegrias e esperanças, angústias e tristezas dos que mais são afetados. Somos — temos de ser — solidários com os que sofrem! Ao fazê-lo estaremos a seguir os passos, os gestos, a luz de nosso Senhor Jesus Cristo, como bem expressou João XXIII na Encíclica «Mãe e mestra».
Amigo leitor, tu e eu, não estamos livres do pecado! Participamos da escuridão e das trevas que nos levaram a esta situação. Talvez nos tenhamos deixado conduzir pelo consumismo compulsivo, muito para além das nossas possibilidades. Apesar de tudo, caminhemos semeando luz e esperança com os nossos gestos proféticos de justiça e compaixão, unidos a todos os que os exigem, nas ruas e nas praças.

© Equipo «Eucaristía», Verbo Divino
© Tradução e adaptação de Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.1.13 | Sem comentários
— palavra para segunda-feira, 31 de dezembro —

— Evangelho segundo João 1, 1-18

No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, Ele estava com Deus. Tudo se fez por meio d’Ele e sem Ele nada foi feito. N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas e as trevas não a receberam. Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João. Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. O Verbo era a luz verdadeira, que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem. Estava no mundo e o mundo, que foi feito por Ele, não O conheceu. Veio para o que era seu e os seus não O receberam. Mas àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós. Nós vimos a sua glória, glória que Lhe vem do Pai como Filho Unigénito, cheio de graça e de verdade. João dá testemunho d’Ele, exclamando: «Era deste que eu dizia: ‘O que vem depois de mim passou à minha frente, porque existia antes de mim’». Na verdade, foi da sua plenitude que todos nós recebemos graça sobre graça. Porque, se a Lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. A Deus, nunca ninguém O viu. O Filho Unigénito, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer.

— Tudo se fez por meio d'Ele

No «prólogo» do evangelho segundo João, podemos assinalar três palavras: Verbo, Luz, Carne.
O Verbo (Palavra) é a força que transforma, é o poder capaz de alterar as coisas e as pessoas. Jesus é o Verbo, isto é, a Palavra de Deus, a força que dá sentido à vida, o poder capaz de transformar aquele que a acolhe na sua vida.
A Luz é um sinal de vida, um guia para o caminho. Onde há luz há vida. Jesus é a Luz, isto é, a Vida de Deus, o guia para iluminar o nosso caminho até ao Pai, a fonte de toda a Luz. Por isso, no Credo dizemos que Jesus é «Luz da Luz».
A carne, na cultura grega, estava associada à fragilidade humana. O Verbo fez-se carne, isto é, assumiu a nossa humanidade, a nossa fragilidade. O encontro com Ele acontece nos mais frágeis e débeis da nossa sociedade.
Ao terminar o ano civil, o início do evangelho segundo João ajuda-nos a acolher Jesus Cristo como a presença de Deus no mundo, no meio de nós. Por Ele tudo foi criado. «Tudo se fez por meio d'Ele».

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 31.12.12 | Sem comentários
— palavra para segunda-feira da quarta semana de advento — 24 de dezembro —

— Evangelho segundo Lucas 1, 67-79

Naquele tempo, Zacarias, pai de João Baptista, ficou cheio do Espírito Santo e profetizou dizendo: «Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que visitou e redimiu o seu povo e nos deu um salvador poderoso na casa de David, seu servo. Assim prometera desde os tempos antigos, pela boca dos seus santos Profetas, que nos libertaria dos nossos inimigos e das mãos de todos os que nos odeiam; que teria compaixão dos nossos pais, recordando a sua sagrada aliança e o juramento que fizera a Abraão, nosso pai: que nos concederia a graça de O servirmos um dia sem temor, livres das mãos dos nossos inimigos, em santidade e justiça, na sua presença, todos os dias da nossa vida. E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás à sua frente a preparar os seus caminhos, para dar a conhecer ao seu povo a salvação, pela remissão dos pecados; graças ao coração misericordioso do nosso Deus, que das alturas nos visita como sol nascente, para iluminar os que vivem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os nossos passos no caminho da paz». 

— Para iluminar os que vivem nas trevas... 

Zacarias, pai de João (Batista), vê cumprida a promessa do nascimento do seu filho. Solta-se-lhe a língua. Proclama um hino de louvor a Deus. Este hino, proposto para o último dia de Advento, é rezado todos os dias pela manhã durante a Oração de Laudes na Liturgia das Horas (Oração diária proposta pela Igreja).
Zacarias profetiza a salvação que nos visita como o sol em cada manhã, «para iluminar os que vivem nas trevas [...] e dirigir os nossos passos no caminho da paz». É o anúncio da vinda de Jesus! A presença de Jesus conduz-nos sempre pelos caminhos da paz (bem diferente da primeira parte do texto em que se realça o lado negativo: salva dos inimigos e dos que nos odeiam). O Deus de Jesus Cristo é verdadeiramente um Deus de paz, um Deus que ilumina a vida de todos os seres humanos.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.12.12 | Sem comentários
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