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Ao ritmo da liturgia


Vigésima segunda semana


A humildade exige treino, exercícios práticos

As nossas apetências, mesmo as religiosas, são muito encaminhadas para destacar o importante, o maior. Assim somos educados. Então, o mais «natural» é procurar o primeiro lugar, ser reconhecido, a palmadinha nas costas, a fama fácil, que me considerem mais importante do que os outros... Mas o Evangelho está carregado de sugestões para o «pequeno», o menor.
Não se trata de mistificar a escassez, a carência, a sujidade ou a má educação. Trata-se de aceitar que o «pequeno», provavelmente, está menos contaminado, que pode ser mais autêntico, que os seus méritos procedem de si mesmo e não de uma imposição pela força. Antes de mais, porque é sempre mais alternativo do que a ordem estabelecida.
Porque é que Jesus Cristo está sempre do lado dos pobres, põe os pobres como exemplo? Seguramente, porque os pobres, não tendo nada, estão mais próximos da vida em carne viva... A pobreza, a austeridade, obriga a outro tipo de relações: gratuitas, sem interesse. «Amo-te por aquilo que és e não pelo que me possas dar».
Acontece que temos dificuldade em perceber a beleza do «pequeno». Somos educados a dedicar a nossa vida à conquista de bens, ser ricos, ser importantes, ocupar os primeiros lugares (da sociedade, da Igreja). Sem cair na conta de que quanto mais temos, mais queremos ter! O desejo nunca se dá por satisfeito!
A missão de Jesus Cristo — portanto, a missão do cristão — é ajudar o ser humano a perceber a riqueza do «pequeno». Por isso, ser cristão vale a pena nem que seja porque ajuda a dar a volta às coisas (DOMINGO: «Não tomes o primeiro lugar»): a devolver o apreço aos que o mundo considera desprezados (SEGUNDA: «Restituir a liberdade aos oprimidos»); a enfrentar as grandes coisas, os grandes mitos, para comprovar que, por dentro, estão vazias (TERÇA: «Vieste para nos destruir?»); a não ficar de braços cruzados (QUARTA: «Pediram a Jesus que fizesse alguma coisa») perante um estilo de vida contrário ao Evangelho. A maturidade humana encontra-se muito relacionada com esta capacidade crítica e relativizadora daquilo que é apresentado como grande, importante.
Na verdade, é a descoberta da beleza do «pequeno» que nos torna mais humanos; e também nos torna mais divinos. O Reino de Deus é sempre dos «pequenos». Para entrar nele, é preciso abandonar as falsas seguranças (QUINTA: «Já que o dizes, lançarei as redes»), libertar-se do desejo de querer ser importante, assumir a rutura (SEXTA: «Ninguém corta um remendo de um vestido novo, para o deitar num vestido velho») com as soluções fáceis, assumir um corte radical com a ordem estabelecida (SÁBADO: «Porque fazeis o que não é permitido?»). Um apostolado sem grandes pretensões é o único capaz de chegar à meta!

Nesta semana, pensemos em formas concretas de viver a beleza do «pequeno», nas mais diversas situações da vida: como pais, como esposos, como filhos, como profissionais, como catequistas, como presbíteros... Ser «pequeno», ser humilde exige treino, exercícios práticos. Mas, antes de mais, temos de colocar a seguinte pergunta: Acredito sinceramente no valor da humildade?

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial e nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do vigésimo segundo domingo
© Laboratório da fé, 2013

Vigésima segunda semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.9.13 | Sem comentários
— palavra para sexta-feira da terceira semana —



— Evangelho segundo Marcos 4, 26-34

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «O reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra. Dorme e levanta-se, noite e dia, enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como. A terra produz por si, primeiro a planta, depois a espiga, por fim o trigo maduro na espiga. E quando o trigo o permite, logo se mete a foice, porque já chegou o tempo da colheita». Jesus dizia ainda: «A que havemos de comparar o reino de Deus? Em que parábola o havemos de apresentar? É como um grão de mostarda, que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes que há sobre a terra; mas, depois de semeado, começa a crescer e torna-se a maior de todas as plantas da horta, estendendo de tal forma os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra». Jesus pregava-lhes a palavra de Deus com muitas parábolas como estas, conforme eram capazes de entender. E não lhes falava senão em parábolas; mas, em particular, tudo explicava aos seus discípulos.

— É a menor de todas as sementes

A linguagem usada por Jesus é (era) fácil de entender. A agricultura e as pescas eram as principais atividades daquele povo. Jesus não faz grandes discursos filosóficos ou teóricos. Constroi as comparações, parábolas, a partir da vivência do dia a dia, realidades conhecidas de todos os ouvintes.
As parábolas deste texto destacam, em conjunto, a força da vida, a vitalidade da natureza. Esta força (natural) é tão dinâmica que germina, cresce, frutifica, amadurece, dá mais vida. Uma pequena semente, como o grão de mostarda — «é a menor de todas as sementes» —, tem em si uma enorme vitalidade.
A vida é mais forte do que todas as crises. Nós, cristãos, recebemos todos os dias uma boa semente, o Evangelho, que representa a base da vida, a nossa força vital. Infelizmente, muitas vezes e muitas pessoas, desconfiam desta potencialidade escondida dentro de tão pequena semente... apesar de Jesus dizer e repetir que o Reino de Deus é assim: «a menor de todas as sementes».
Há quem continue a pensar que a vida de fé ou a vida da Igreja só tem sentido se for poderosa e influente. Em vez de olhar para cima, para o poder e a influência, é preciso aprender a olhar para baixo, para as raízes, onde está a fonte da vida, a força vital. Uma fé enraizada na fonte da vida, no Evangelho, torna-se uma grande planta, onde todas as pessoas «podem abrigar-se à sua sombra». 
Hoje, olha para dentro de ti. Contempla a pequena semente do Evangelho que Jesus lança no teu coração. É o pequeno que produz mudanças. Temos que estar orgulhosos de ser pequenos; e tomar consciência de que a nossa pequenez é a nossa força.
 

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.2.13 | Sem comentários
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