Mostrar mensagens com a etiqueta Martín Gelabert Ballester. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Martín Gelabert Ballester. Mostrar todas as mensagens
Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Segundo o evangelho de Marcos, o primeiro verbo que Jesus usa é «converter-se». E emprega-o no imperativo: «convertei-vos e acreditai no Evangelho». A razão desta necessidade é que «o Reino de Deus está próximo». Como está prestes a chegar há que estar bem preparados para o receber. Que significa e que implica a conversão? Converter-se é mudar. Mudar de atitudes e de pensamentos, porque o que costumamos pensar e o que costumamos fazer não favorece a chegada do Reino de Deus. Converter-se é dar a volta, virar as costas a algo, deixar de olhar uma coisa para olhar outra. Deixar de se olhar a si mesmo para olhar as necessidades do próximo e perguntar-se qual é a vontade de Deus sobre si e sobre os outros.
Estas palavras que o evangelista põe na boca de Jesus são usadas na liturgia no rito da imposição das cinzas. A Quaresma começa recordando o convite de Jesus a nos convertermos. Porque converter-se è uma tarefa permanente. Não é um gesto que se realiza uma vez, algo assim como quando alguém dá uma volta e deixa de olhar para uma coisa já tivesse resolvido o problema. Dar a volta, no nosso caso, não é um movimento físico, mas uma tarefa existencial, que é preciso renovar em cada momento. Porque enquanto vivemos neste mundo, Deus não é uma evidência. O evidente são os prazeres e as seduções do mundo que nos inclinam a buscar-nos a nós mesmos em detrimentos dos outros. Por isso, o crente está em permanente estado de conversão: está sempre voltando para Deus. A conversão não é só uma decisão inicial, é um estilo de vida. Com o amor acontece algo parecido: nunca acabamos de amar. Amar é crescer continuamente no amor.
Para se converter é necessário sentir-se atraído por «outra realidade» ou, pelo menos, intuir que a realidade em que se está não é boa e que há outra melhor. Não é uma chamada em abstrato ou vazia. É um convite a entrar num mundo novo, a acreditar no Evangelho. Supõe a apresentação de Jesus. Olhando-o, fixando os olhos em Jesus, podemos entender o que significa converter-se, o que devemos deixar e o que devemos acolher. A conversão concretiza-se em atitudes diferentes segundo a situação de cada um. Em qualquer caso, é um convite a libertar-se dos costumes, das pressões sociais, das opiniões públicas, para se deixar levar pelo sopro do Espírito.
A conversão adquire uma forma concreta olhando e escutando a Jesus: trata-se do respeito aos pequenos e aos débeis, da compaixão pelos que sofrem, de praticar o perdão, de abandonar os caminhos da violência, de entrar no caminho do amor e do serviço. Em determinadas ocasiões, a conversão pode dar-se sem que se esteja consciente disso: algumas pessoas que dedicam o seu tempo a obras sociais, talvez não apresentam a sua atitude em termos de conversão, mas o que fazem é o correlativo humano do que o evangelho classifica de conversão.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2015
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor


Primeiro domingo da Quaresma



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.2.15 | Sem comentários
Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Estamos a iniciar a Quaresma. Mas a Quaresma, como toda a liturgia, só tem sentido em função da Páscoa. Por isso, o que iniciamos, na realidade, é o grande tempo pascal da Igreja. Quarenta dias de preparação para a festa da Páscoa e, depois, cinquenta dias de celebração da Ressurreição do Senhor e da presença salvadora do seu Espírito. Estamos no tempo forte da comunidade cristã.
A Quaresma do ano 2015 temos de a viver como nova. Porque, pelo facto de se repetir em cada ano a Quaresma, corremos o risco de nos parecer banal, rotineira, algo já conhecido. Por outro lado, o ambiente social em que nos movemos não favorece uma boa vivência da Quaresma. O mundo não tem vontade de quaresmas, mas de carnavais. A Quaresma convida-nos a superar a superficialidade; o carnaval convida-nos a viver a frivolidade. A Quaresma chama-nos à autenticidade, o carnaval à mediocridade. Uma vez mais, o cristão tem que «violentar-se» para viver a fé.
A Quaresma convida-nos a tomar consciência do que significa viver como cristãos no mundo de hoje. O centro da nossa vida é Jesus Cristo, a sua pessoa, a sua mensagem, o misterio da sua morte e da sua ressurreição. Vivemos momentos críticos: há muita gente sem trabalho; os cristãos são perseguidos na Síria, Iraque, Nigéria e noutros lugares, aonde acampam a violência e o terror. O nosso momento histórico coloca muitas perguntas e produz sofrimento. Nós, cristãos, acreditamos que este mundo encontra a luz verdadeira na vida e na mensagem de Jesus, no mistério da sua Páscoa.
Olhando para Jesus Cristo descobrimos quem nós somos. Jesus Cristo interpela-nos e pergunta-nos sobre o que queremos fazer com a nossa vida, como queremos viver: pensando em nós ou sendo generosos e abrindo-nos ao sofrimentos dos demais?; pensando no prazer imediato ou buscando um sentido para a vida? A palavra chave da Quaresma é conversão. Trata-se de voltarmos para Deus, de moderar as nossa autossuficiência, de partilhar com os que não têm. Em suma, mostrar na nossa vida a imensa bondade de Deus.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2015
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor


Quaresma (Ano B), Laboratório da fé, 2015



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.2.15 | Sem comentários
Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Na Eucaristia, a comunidade cristã solidariza-se com aqueles que nos precederam sob o signo da fé e foram acolhidos no seio de Deus. A festa do dia dois de novembro convida-nos a reavivar a esperança que nos assegura que, apesar dos nossos familiares e amigos já terem deixado este mundo, não nos deixaram a nós, nem nós a eles.
A festa de dois de novembro também nos convida a pensar na morte. A morte dá que pensar. Faz-nos ter em conta a finitude do ser humano, mas também coloca a pergunta sobre a possível transcendência do humano. Isto manifesta-se no facto de nós, humanos, tratarmos os mortos com respeito, não os deixamos abandonados. Quando alguém morre, os seus encarregam-se de celebrar alguma cerimónia ou de partilhar recordações. Aquele que morreu não é um qualquer, é alguém único, irrepetível. E, nas cerimónias fúnebres, que são tão antigas como os seres humanos, subjaz a pergunta sobre a possível permanência do defunto. Até no mundo laico e secular se ouve a expressão, referindo-se ao defunto: «lá onde está» (mas em que ficamos: está enterrado ou «lá onde está»?).
Há uma relação perversa com a morte. Por um lado, é objeto de repulsa e de medo e fazemos qualquer coisa para a evitar. Contudo, na sociedade contemporânea, a morte adquiriu novos rostos. Na noite de 31 de outubro, celebra-se a festa do Halloween. Assim, a morte é motivo de riso, farra, diversão. Em muitas cidades espanholas aparecem adornos, colocados pelas autoridades públicas, para se divertirem à custa da morte. Os bares e as discotecas oferecem todo o tipo de festas para atrair clientes desejosos de rir e brincar com a morte, não sei se para esquecer outras mortes mais reais e lacerantes que os atormentam todos os dias e que se resumem na fragilidade da existência.
As imagens da televisão ou do cinema mostram outra vertente na relação com a morte. As crianças passam o tempo com videojogos onde abundam as execuções. Os adolescentes brincam com a morte pelo prazer da velocidade, da competição ou com o uso de estupefacientes que lhes destroem a vida. Os adultos recorrem às guerras, à violência conjugal, às rivalidades étnicas. Os humanos gostam de se guerrear. Há pessoas religiosas que colocam o sacrifício no centro das suas práticas, uma espécie de execução e de desprezo pelo corpo. São muitas, demasiadas, as realidades que negam o valor da vida.
O cristão acredita na vida. Por isso, espera a ressurreição dos mortos. Esta consideração fundamenta-se no amor e no poder de Deus, o único que pode dar vida a um morto, tal como pode fazer surgir coisas do nada. Esta fé deve fazer-nos críticos com tudo o que, de um modo ou de outro, atenta contra vida e a dignidade da pessoa. Positivamente, esta fé faz-nos viver de outra maneira, seguindo os passos de Cristo, o Vivente por excelência.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.11.14 | Sem comentários
Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Segui muito por alto as notícias sobre o Sínodo. E, do pouco que li nas notícias, não gostei. Se não soubesse que se tratava de um acontecimento eclesial, teria pensado que eram notícias sobre uma guerra entre dois partidos diferentes, distantes e opostos. E que se tratava de ganhar a batalha da informação, como se essa batalha fosse decisiva para ganhar a guerra.
Em todas as sociedades há tendências e diferenças. Isso, em princípio, é bom, porque o contraste de pareceres ajuda a encontrar a verdade. E, na Igreja, é disso que se trata: não tanto de saber a opinião de um ou de outro, mas qual é a verdade a propósito das coisas. Ora, a verdade, diga-se o que se disser, vem em última instância do Espírito Santo (algo parecido dizia Tomás de Aquino). Por outro lado, quando determinados temas continuam a aparecer, apesar das resistências de alguns em falar deles, é porque estamos diante de um problema sério que requer melhores soluções do que as encontradas até agora.
Duas chaves teológicas vieram-me à mente quando lia as notícias sobre o Sínodo. Uma, a distinção entre verdade de fé e doutrina da Igreja. A doutrina muda. Nalgumas ocasiões, mudou pouco. Por exemplo, a mudança que aconteceu a propósito de algo tão sério como a necessidade do batismo para a salvação. Que Cristo seja o Salvador de todas e de todos, é uma verdade de fé. Que só seja possível aceder a esta salvação por meio do batismo é uma doutrina que se ensinou, mas que mudou, e mudou para melhor. A outra chave refere-se ao Magistério «vivo» da Igreja. Alguns apelam ao Magistério do passado para desqualificar o atual. Esquecem que ambos se interpretam mutuamente, mas deixando claro que o Magistério ao qual se deve dar atenção é, principalmente, o Magistério «vivo», ou seja, o do presente.
As polémicas não oferecem luz. Pelo contrário, criam maior divisão, ao reforçar as respetivas posições adversas. Contudo, alegro-me ao constatar que, nalguns temas considerados até agora intocáveis, os Padres Sinodais tenham adotado uma atitude muito positiva. Inclusive naqueles poucos números do Boletim oficial nos quais não se alcançou a maioria de dois terços a favor, houve uma maioria clara de mais de metade. Isso significa que é legítimo falar dessas coisas na Igreja. E significa, além disso, que quem opina que, em determinadas condições, as pessoas divorciadas que voltaram a casar, poderiam aceder à comunhão eucarística, não são assim tão poucos nem heréticos. Um católico deveria sentir-se representado pelos participantes no Sínodo. Porque se eles não nos representam, quem é que nos vai representar? Os que mais berram, os mais intransigentes, os mais excludentes?
A terminar. Custa-me entender que 64 Padres tenham votado contra a proposição 55 sobre a atenção pastoral às pessoas com orientação homossexual. É verdade: 118 votaram a favor.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.10.14 | Sem comentários
Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

O tema da mensagem quaresmal do Papa é retirado das palavras de São Paulo: Cristo  fez-se pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza. Estas palavras não são uma descrição do modo como funciona o perverso sistema capitalista, onde uns poucos enriquecem à custa da pobreza de muitos. Aqui, não se diz que Cristo foi despojado duns bens que tinha ganho, para que outros se aproveitassem do seu trabalho e do seu suor. Tampouco se diz que Cristo era uma pessoa generosa que entregou parte do que tinha e se tornou um pouco mais pobre, para que outros pudessem tornar-se um pouco mais ricos. Aqui, não se trata de tirar a um para que outros tenham. Assim funciona o mundo. Mas a lógica de Deus, refletida em Cristo, é totalmente diferente e, por isso, surpreende.
O que São Paulo diz é que Cristo, sendo rico, voluntariamente fez-se pobre por nós, para que nós enriquecêssemos com a sua pobreza. De que riqueza e de que pobreza se trata? A riqueza de Cristo é o seu «ser de condição divina». Mas, em Cristo, revela-se que o divino é o amor: Deus é Amor. Por isso, também diz São Paulo que Cristo era rico em misericórdia. Assim se explica que, sendo Amor cheio de misericórdia, se despoja da sua condição para se tornar igual ao ser humano. Porque Deus ama a criatura humana, a sua melhor obra, como não se pode amar mais. O autêntico amante quer ser como o amado. Daí que, o Deus amante, em Cristo, despoja-se de tudo o que o separa do seu amado humano para estar ao lado do amado. Este é o sentido do seu tornar-se pobre. E, ao fazer-se pobre por amor, enriqueceu-nos com o seu amor, encheu-nos do seu amor. O amor é a maior riqueza, o que sempre permanece, o que enche a quem o tem.
Se não se tivesse feito pobre, não tinha podido chegar até nós. A sua pobreza é a nossa riqueza. O seu despojar-se da categoria de Deus é a possibilidade que se abre para nós nos podermos tornar divinos. Ser como Deus deixou de ser uma missão impossível, uma vez que, em Cristo, Deus quis ser como o ser humano. Na Cruz, aparece o maior despojamento, mas também o amor maior. Na maior pobreza aparece a maior riqueza, no total despojamento dá-se o máximo ganho. Nesta Quaresma, somos convidados a contemplar este mistério de amor. A contemplá-lo e a deixarmo-nos interpelar por ele, a mudar, como consequência da contemplação. Um modo de comprovar se a mudança é efetiva é solidarizar-nos com os pobres deste mundo, com aqueles com os quais Cristo se identifica. O único modo de ser solidário com todos é fazer-se pobre. A pergunta é: quero identificar-me com Cristo?

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor

Mensagem para a Quaresma, 2014



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.3.14 | Sem comentários
Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Em cada oito de março celebra-se o Dia Internacional da Mulher, para recordar que, em 1857, um grupo de trabalhadoras saiu para as ruas de Nova Iorque a protestar pelas condições miseráveis em que tinham de trabalhar. Tem sentido continuar a celebrar o dia da mulher em pleno século XXI? Não há dúvida que os avanços no terreno dos direitos da mulher foram significativos, nos últimos anos. Todavia, ainda há muito a fazer. Mas isso que ainda falta fazer é especialmente urgente e necessário naqueles lugares onde não só a mulher, mas a maioria das pessoas tem qualquer tipo de carência. É claro que a maioria das mulheres africanas precisam muito de ajuda, mas não só elas, também tantas pessoas que não têm o necessário para viver e que jogam a vida montando umas frágeis embarcações, pensando que, se pisarem terra espanhola ou europeia, encontrarão o paraíso.
Se separarmos, embora só metodologicamente, estas situações extremas, que nunca devemos deixar de lado, e centrarmos o nosso olhar nas mulheres com quem convivemos nos nossos prósperos países europeus, temos hoje algo para reivindicar no que diga respeito especificamente às mulheres? Temos muitas coisas para reivindicar todos juntos sem distinção alguma entre homem e mulher. Por exemplo, uma maior clareza na política, um melhor uso dos dinheiros públicos, uma distribuição mais equitativa do trabalho, e tantas outras coisas. É verdade que as estatísticas indicam que, em algumas coisas, as mulheres são desfavorecidas em relação aos homens. Pelo mesmo trabalho, recebem mais eles do que elas. Nesta reclamação de um salário mais justo para todas e todos, os homens de bem deveriam ocupar a primeira linha da reclamação.
Há motivos para pensar que, na Igreja, as mulheres têm ainda direitos não atendidos? Sem dúvida. O problema coloca-se na hora de indicar esses direitos. O Papa, na «Evangelii Gaudium», depois de reconhecer o trabalho pastoral das mulheres e os seus contributos para a reflexão teológica, diz que é necessário ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja e, mais em concreto, naqueles lugares eclesiais onde se tomam as decisões importantes. Anunciou-se que uma mulher será nomeada para presidir a uma Secretaria da Santa Sé. Veremos. É possível encontrar outras mediações operativas para que a presença da mulher na Igreja seja de verdade efetiva? Este é um tema sensível, no qual as tomadas de posição, não só entre os homens, mas também entre as mulheres, estão condicionadas pela experiência e a mentalidade de cada um. Temos aqui um longo caminho a percorrer. Um caminho que exige tempo, paciência, diálogo e muita compreensão.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor


8 de março de 2014



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.3.14 | Sem comentários
Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Jesus, no seu último discurso, nas palavras de despedida, relaciona o mandamento novo do amor entre os irmãos com a paz e a alegria. Jesus vai, mas os discípulos não podem estar tristes (João 16, 20-22). Mas a alegria que Jesus propõe não é como a do mundo. É uma alegria que brota do acolhimento do amor que Deus nos tem e do amor que transmitimos aos irmãos. Não se pode confundir com o prazer que centra tudo em si mesmo e quer tudo para si. Não nasce da busca egoísta do bem-estar próprio, mas do gozo que produz a contemplação gratuita e sem inveja do bem dos outros. Só quem trabalha pelo bem dos outros é que trabalha pela sua própria felicidade.
A fé, pela qual o crente se une a Cristo, aderindo incondicionalmente à sua pessoa e mensagem, é uma estupenda notícia que produz uma grande alegria. A grande alegria que os anjos anunciaram em Belém aos pastores. Quando o Salvador nasce — e nasce sempre que uma pessoa o acolhe na fé —, produz-se uma grande alegria para todo o povo. Ora, como há estados de ânimo que são contagiosos, também os mensageiros do Evangelho, quando veem os frutos produzidos pela pregação, enchem-se de alegria. Assim se explica que, quando Barnabé se apercebeu da ação da graça de Deus em Antioquia, pela qual «uma multidão considerável aderiu ao Senhor», «alegrou-se muito por isso» (Atos 11, 23-24).
Se a vida cristã é uma vida triste, se o anúncio do Evangelho é uma coisa séria, algo está mal nesta vida e no anúncio. Neste sentido, o gozo e a alegria, resultado da atuação do Senhor nas nossas vidas, pode ser um bom barómetro para medir o grau de acolhimento do Espírito Santo e a qualidade do nosso testemunho. O cristão tem de afastar de si toda a amargura (Efésios 4, 31), para acolher «o fruto do Espírito: amor, alegria, paz» (Gálatas 5, 22).

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.9.13 | Sem comentários
Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Entende-se por casamento misto aquele que é contraído por pessoas de diferentes confissões religiosas (uma católica e outra protestante, por exemplo) ou de religião diferente (um católico e uma muçulmana, por exemplo). Este tipo de casamentos, sobretudo os contraídos entre pessoas de confissão cristã diferente, não deveriam colocar grande problema. Dá-se o caso, em muitos deles, sobretudo quando são bons cristãos, que um cônjuge acompanhe o outro aos ofícios da sua Igreja. Mas hoje é cada vez mais frequente um tipo de casamento «misto» entre um cônjuge religioso e praticante ou, pelo menos, um cônjuge que antes do casamento vivia a sua fé sem qualquer conflito pessoal e outro cônjuge ateu e, inclusive, anticatólico ou anticlerical. Em alguns casos acontece que a parte católica, sobretudo quando está muito convicta da sua fé e a vive com firmeza, arrasta a outra parte para a fé ou, pelo menos, a respeitá-la. Mas o mais frequente é que seja a parte não católica a obrigar ou a forçar a outra parte a deixar de praticar.
Conto dois casos. O de um casal, que vive em união civil, porque um deles não é religioso. Tiveram um filho. A parte católica quer batizá-lo. Depois de algumas tensões, a outra parte consente. Segundo caso: outro casal, que vive em união civil (já que um não só não acredita no sacramento, mas recusa-o) tiveram um filho. E embora a parte católica o queira batizar, a outra parte opõe-se. Para o bem da paz e do amor, não há batismo. Nestes casos não servem as receitas gerais e apriorísticas, porque casa caso é diferente. O casamento está fundado no amor, não na fé, embora a fé seja um componente que marca totalmente um pessoa. Por isso, uma pessoa crente, convicta, que coloca Deus acima de tudo, pode dizer tranquilamente a outra pessoa por quem se enamorou: Deus está primeiro e se Deus não entra na nossa relação, eu continuar a gostar muito de ti, mas a minha relação contigo tem um limite.
O que acontece é que a maioria dos crentes não vive a sua fé com esta convicção e intensidade. E, por isso, o enamoramento faz com que seja a sua fé a sofrer as consequências. Não ainda responder que não há autêntico amor. Pode-se amar de verdade aquele que não partilha a fé. Deus ama-os. Porque é que eu não o posso amar? Antes, estas situações colocavam-se de outra maneira, mantendo as aparências. Hoje, a fé perdeu apoio e força social. Daqui derivam alguns problemas. Como cristãos, como Igreja, temos de nos perguntar como acompanhar estas pessoas sinceramente enamoradas por outra pessoa não religiosa. Haverá que praticar uma pedagogia feita de paciência e proximidade, tanto para a parte crente como para a não crente.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Anónimo | 15.5.13 | Sem comentários
Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

«Dai-lhes vós de comer»

Nestes últimos dias, li que o Papa disse aos sem abrigo: «levo-vos no meu coração, estou à vossa disposição». São palavras na linha daquelas que pronunciou, parece que de forma quase espontânea (e essas espontaneidades refletem o que há no coração), ao dizer que queria uma Igreja pobre e para os pobres. A pobreza evangélica tem que ver com a simplicidade de coração e com a austeridade de vida. Tem que ver com a confiança em Deus. Mas também se manifesta em atos proféticos de solidariedade com aqueles que são pobres, materialmente falando.
Há uma palavra de Jesus que, levada a sério, pode suscitar atos proféticos: «dai-lhes vós de comer». Tão interessante como a palavra é o contexto que a suscita. A multidão congrega-se à volta de Jesus e escuta os seus ensinamentos. De imediato, os discípulos dão-se conta de que é tarde e estão num descampado. Aconselham Jesus a dizer às pessoas que se desloquem às aldeias vizinhas para encontrar comida. É a solução mais lógica e sensata. Jesus responde: «dai-lhes vós de comer». Entre a multidão, há um rapazinho que tem comida, mas é claramente insuficiente: cinco pães e dois peixes (Marcos 6, 30-44). Então Jesus, depois de pronunciar a bênção, parte os pães e manda que sejam distribuídos. Já sabemos que, no final, sobrou comida. O ensinamento de fundo: o pão, quando é escasso, mas é partido e repartido, chega para todos; se é abundante, mas fica apenas para um, é um só que come e todos os outros passam fome.
A questão não é, portanto, de quantos recursos dispõe o Estado ou o Município. A questão é se os reparte e como os reparte. Desgraçadamente, nas nossas cidades, cada vez há mais gente à espera de um pouco de pão diante dos refeitórios sociais, albergues e escritórios da Cáritas. A maioria são estrangeiros, mas cada vez há mais espanhóis [portugueses]. As perguntas que se podem colocar são muitas: como é que as instituições caritativas conseguem alimentos? A que dedicam os seus recursos as instituições oficiais? Com que critério se elaboram os pressupostos do Estado, da Comunidade, do Município? O que é que tem a primazia? Diz-se e repete-se que a primazia pertence às pensões, ao ensino e à saúde. Não é verdade. A primazia pertence aos interesses instalados. Porque é que o Estado não declara a suspensão dos pagamentos? Não seria a primeira vez que o faz, nem o primeiro a fazê-lo. Todas as grandes nações já o fizeram alguma vez e a economia ressurgiu com mais força.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Anónimo | 15.4.13 | Sem comentários
Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Na cruz, Jesus vence o ódio com o amor

Segundo o quarto evangelho, os soldados romanos, depois de açoitar Jesus, colocar-lhe uma coroa de espinhos, vestir-lhe um manto de púrpura, esbofeteá-lo e gozá-lo, devolveram-no a Pilatos. ESte, apontando para Jesus, disse à multidão: «aqui tendes o homem», ou mais exatamente: «olhai: este é o homem». Dizer que Jesus é «o homem» é muito mais do que dizer: Jesus é um homem. Não é mais um entre os homens. É «o homem», o protótipo, o paradigma da humanidade; nele realiza-se o que é o ser humano. Segundo interpreta o teólogo Joseph Ratzinger, para uma filósofo cínico como Pilatos, estas palavras significam algo como isto: estamos orgulhosos pelo ser humano, mas agora, contemplai, aqui tendes este verme desapreciado; este é o homem, assim humilhado. Ao olhar para Jesus coroado de espinhos, as palavras de Pilatos mostram com clareza a pequenez do ser humano.
Contudo, o evangelista viu nestas palavras outro sentido teológico e salvífico. Em primeiro lugar: em Jesus maltratado e crucificado podemos ler a crueldade que pode existir no ser humano, até onde pode chegar a maldade humana; em Jesus crucificado vemos refletida a história do ódio e do pecado, o pecado do mundo. Mas em Jesus crucificado podemos ler também até onde chega o seu amor pelos seres humanos, pois quando o insultavam não devolvia com insultos, na sua paixão não lançava ameaças. As suas palavras na cruz foram de perdão para com aqueles que o martirizavam. Este amor de Jesus é um reflexo do amor de Deus. Portanto: este é o homem que Deus ama e no qual se reflete o amor de Deus para com todos os seres humanos. Alí, nesse homem, realiza-se o desígnio de Deus e a história de amor que quer fazer com cada um de nós. Cito de novo Ratzinger: «Nele, em Jesus Cristo, podemos ler o que é o homem, o projeto de Deus e a nossa relação com ele».
Jesus Cristo é o homem amado por Deus, que dá a sua vida por nós, que morre amando. E ao morrer amando rompe a espiral de violência daqueles que só odeiam. Ao não responder com ódio, vence o ódio e mata-o no seu próprio corpo. Por isso, em Jesus temos o homem, porque só somos homens quando amamos. Na maior degradação, Jesus é amado por Deus e manifesta o amor de Deus e o amor que é Deus. A pergunta sobre quem é o homem encontra a sua resposta no seguimento de Cristo. Ao seguir os seus passos, encontramo-nos com a nossa autêntica humanidade, pois, no seu seguimento, a vida e a morte santificam-se e adquirem um novo sentido.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.3.13 | Sem comentários
Nihil Obstat — blog de Martín Gelabert Ballester 

Rezar pelo Papa

Há gestos que despertam sonhos. Algumas peripécias sobre o novo Papa fazem pensar que algo pode mudar na Igreja. Embora, por outro lado, nada mudará se esses gestos não fizerem com que outros se coloquem na mesma direção. O Papa pediu aos argentinos [e por extensão a muitos outros] que não viagem a Roma [para a Missa de início do seu ministério petrino], mas que o acompanhem com um gesto espiritual. Espiritual vem de Espírito Santo. O gesto espiritual consiste em partilhar com os pobres o dinheiro que poupam com o facto de não se deslocarem a Roma. Não nos enganemos: um gesto assim desmonta a tendência espontânea de dioceses e paróquias ansiosas por organizar grandes viagens com os seus responsáveis na linha da frente, para manifestar a fidelidade ao Papa. É mais um dado na linha de outros que se contam, como o recolher pessoalmente a mala no hotel onde esteve nos dias anteriores ao Conclave e ter pago as despesas dessa estadia.
Todos os seus conhecidos, próximos ou mais afastados, têm algo para contar. A começar por uma namorada adolescente e continuando pelos sócios da equipa de futebol de São Lorenzo de Almagro. Igualmente, falou um jovem que se confessada com o jesuíta Padre Bergoglio. Porque temos um Papa jesuíta é garantia de uma boa formação teológica; porque tem o nome do franciscano mais ilustre é garantia da sensibilidade para com os marginalizados; porque veste o hábito branco dos dominicanos é garantia de amor à verdade e abertura da inteligência. A vida religiosa está reabilitada. Também começam a aparecer as «sombras». Há interessados em intoxicar já desde o início. Não é preciso rasgar as vestes. Mas ser maduros. Seguramente que, de todos os possíveis perfis, este é um dos melhores.
Os que tinham alguma reserva ou atrito com o Cardeal Bergoglio, agora apressaram-se a deixar claro que foram sempre bem tratados, dizem que foi um bom Bispo e destacam a sua proximidade aos pobres e a crítica a algumas formas de poder. Pois muito bem, porque o passado faz parte do presente e condiciona o futuro.
Não fala sem papéis, mas é espontáneo. Fala a partir do ambão, mas tem cátedra. Fala em italiano aos cardeais e não em latim, porque assim todos entendem. O importante: este Papa está a suscitar esperança. Estamos diante de uma nova etapa. Aproveitemos a onda de esperança para nos sentirmos orgulhosos de fazer parte da Igreja, para a nossa renovação espiritual e para reavivar a nossa alegria em viver o Evangelho.

© Martín Gelabert Ballester, OP
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor


Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 

Outros artigos publicados no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.3.13 | Sem comentários
Nihil Obstat — blog de Martín Gelabert Ballester 


Já temos novo Bispo de Roma. Já temos novo Papa. O facto de ter sido tão rápido pode ser sinal de que o Colégio Cardinalício não estava assim tão dividido como se dizia. Em qualquer caso, haverá que estar atento às suas intervenções para perceber qual vai ser a linha do seu governo. Porque o Papa é valorizado, antes de tudo, pela sua maneira de governar a Igreja. É possível que este Papa nos faça alguma surpresa (surpresa foi a convocação de um Concílio por João XXIII ou a renúncia de Bento XVI). Mas, em todo o caso, não se espere que aconteçam nos primeiros dias. As mudanças na Igreja são lentas. O Papa precisará de algum tempo para ter um ideia precisa da atual situação. 
Não foi escolhido um dos candidatos mais nomeados como «papáveis» à entrada do Conclave. Mas aquele que dizem ter sido o mais votado depois de Bento XVI no anterior Conclave. Trata-se de um jesuíta argentino. A mim, parece-me uma excelente notícia o facto de ser um religioso latino-americano, com uma postura aberta. Tem 77 anos, é já um Papa idoso, mas isso não é o importante. É muito mais que tenha sido um Bispo próximo do seu povo. Se o nome indica uma identidade, o nome de Francisco oferece muito boas sensações. Seja a pobreza de Francisco de Assis ou a grande tarefa missionária de Francisco Xavier.
Ao novo Papa é esperada uma importante tarefa no interior da Igreja e uma não menos importante para o exterior. Para dentro, convém continuar com a limpeza começada por Bento XVI. Seja qual for o alcance da corrupção, escândalos e ambições, a Cúria precisa de uma séria reforma que a coloque mais em sintonia com o Evangelho que ela deve servir. Tudo o que parece impróprio deste serviço eclesial deve ser expurgado. Por outro lado, a Igreja tem uma grave responsabilidade que vai muito para além dos assuntos internos, a saber: anunciar com valentia e de forma credível o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, tornar presente o Reino de Deus num mundo muitas vezes hostil a tudo o que representa e exige o Reino. A Igreja deve deixar de olhar para si mesma (embora para isso tenha de começar por colocar em ordem a sua própria casa), para se ocupar e se preocupar de um mundo em que há muitos pobres, que têm fome de pão e de justiça e muitas outras pessoas que procuram um sentido para a vida. Oxalá que o novo Papa nos estimule a percorrer este caminho!

© Martín Gelabert Ballester, OP
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor

Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 

Outros artigos publicados no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.3.13 | Sem comentários
— Nihil Obstat - blog de Martín Gelabert Ballester, OP — 

Nestes dias surgem todo o tipo de assuntos, uns mais turbulentos relacionados com as pessoas que rodeiam o Papa, outros mais piedosos sobre os seus últimos gestos; quando se analisam as suas últimas palavras públicas, como por exemplo, aquelas em que confessou que durante o seu ministério existiram dias solarengos e pacíficos, juntamente com outros onde as águas estiveram agitadas e Deus parecia estar calado, considero preferível olhar para a frente, embora sem esquecer totalmente que na casa da Igreja há necessidade de conversão e purificação.
Quase a mudar de rumo, vou contar uma anedota de que fui testemunha e que tem que ver com a situação atual de espera que vive a Igreja. Quando faleceu João Paulo II, e até à eleição de Bento XVI, houve um frade que, na Missa conventual, quando chegava o momento de recordar a Igreja dispersa por todo o mundo, com o Papa e o Bispo, dizia, perante a surpresa geral: «com o nosso Papa Sede Vacante». Por outro lado, ainda hoje me perguntaram «o que se deve dizer agora» quando se pede pelo Papa na Oração Eucarística. De facto, alguns bispos recordaram as normas sobre este assunto.
A Igreja nunca está vacante, nem vazia, nem de férias. E, nela, o importante não é o Papa nem o Bispo, mas Cristo e todo o seu Corpo, ou seja, o conjunto dos cristãos. Mas como instituição humana que é, acontece que, em determinados momentos, aqueles que têm nela responsabilidades, deixam de exercê-las por algum motivo. Neste caso, o que deve fazer a comunidade é prover novos responsáveis ou ministros. É nesta situação que estamos agora na diocese de Roma. Acontece que Roma é a primeira diocese, a diocese do Papa, que tem a missão de manter a Igreja unida na fé e na caridade.
Neste período de espera tudo deve continuar com normalidade, embora algumas situações sejam vividas com uma certa provisionalidade. No que se refere à oração pela Pela que aparece na Oração Eucarística, que é uma maneira de dizer que estamos a celebrar em comunhão com o Papa, agora a nossa comunhão não está personalizada no Papa, porque não há. Por isso, não se nomeia. Passa-se diretamente para o nome do Bispo diocesano. Mas na oração dos fiéis é bom, conveniente e necessário que, ao rezar pela Igreja, peçamos a Deus que nos conceda um bom pastor, que saiba guiar a Igreja pelos caminhos do Evangelho e encorajá-la para que seja cada vez mais fiel ao Senhor.  

© Martín Gelabert Ballester, OP
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

— a utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor —

— outros artigos do mesmo autor —



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.3.13 | Sem comentários
— Nihil Obstat - blog de Martín Gelabert Ballester, OP — 

A demissão do Papa provocou uma cascata de notícias nada exemplares que implicam pessoas e instituições importantes da rede institucional eclesiástica e, sobretudo, do Vaticano. Tudo isto — lavagem de dinheiro, corrupção, escândalos sexuais, lutas de poder — é verdade? Será verdade que o Papa se demitiu porque não suportou o ambiente? E é por isso, porque não o diz claramente e limita-se a fazer um gesto que cada um interpreta em função da sua própria ideologia? Por outro lado, como é possível que uns documentos tão secretos sejam tão públicos? Certo: diz o Evangelho que não há nada oculto que não venha a saber-se, mas o mais provável é que a palavra evangélica só encontre plena verdade na escatologia.
«Não vamos responder a todas as fantasias e opiniões», declarou o Padre Federico Lombardi. Certo. Mas é preocupante que um rio vale muito leve água ou não a leve. A Igreja está cheia de pecadores. Isto é uma evidência e um consolo. Porque Deus acolhe os pecadores e Jesus Cristo não veio para chamar os justos, mas os pecadores. Não é menos certo que o pecado da Igreja lhe tira credibilidade. E causa dano aos débeis na fé. Também é certo que o pecado é mais atrativo, fz sempre mais ruído que o bem, embora o bem seja muito mais abundante. De facto, na Igreja e fora dela, há mais bem do que mal, porque se não fosse assim, este mundo seria uma selva onde não se poderia viver.
Se repassarmos a história da Igreja, encontraremos um conjunto de episódios pouco exemplares. Mas também encontraremos grandes santos, profetas, teólogos, missionários, que, apoiados na sua fé, denunciaram tais episódios. Enquanto o Papa Alexandre VI teve nove filhos de seis diferentes concubinas — e a grande maioria dos sacerdotes vivia em concubinato — São Francisco de Sales percorria a Suíça classificando os escândalos do clero de «assassinato espiritual», mas advertindo que os que permitiam que o escândalo destruísse a sua fé eram culpados de um «suicídio espiritual». 
Este é o conselho que eu dou a mim mesmo: não te suicides espiritualmente. Aconteça o que acontecer, a tua fé apoia-se em Jesus Cristo. Ele é a causa, o motivo, a razão da tua fé. Toma bem nota do que vês e ouves. Mas organiza as notas em duas colunas: numa, põe aquilo que te estimula e merece ser imitado; noutra, põe aquilo que não deves repetir.  

© Martín Gelabert Ballester, OP
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

— a utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor —

— outros artigos do mesmo autor —



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.2.13 | Sem comentários
  • Recentes
  • Arquivo