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VIVER O DOMINGO: ao ritmo da liturgia


Trigésima terceira semana


Confiança a toda a prova

Jesus Cristo anuncia que o caminho do cristão nem sempre é «cor de rosa»! Os últimos dias do Ano Litúrgico assinalam com intensidade a dimensão escatológica (fim dos tempos) da vida cristã. Para se referirem a essa dimensão, os textos bíblicos recorrem a uma linguagem apocalítica, desenvolvida no tempo dos Profetas e recuperada em algumas narrativas evangélicas. Anunciar as perseguições aos cristãos, as guerras entre as nações, as divisões nas famílias, não se trata de um «furo jornalístico». As nossa história e o nosso quotidiano estão cheias destes casos. Este discurso apocalíptico (e assustador) não pretende levar ao pânico. É exatamente o oposto. Temos de deixar a tentação de ver nos acontecimentos políticos, nas catástrofes naturais ou grandes calamidades, o preâmbulo do «fim do mundo».
A primeira coisa que temos de ter (sempre) presente é que Jesus Cristo vem trazer-nos uma boa notícia. Por isso, este género de discurso não deve ser tomado à letra, porque não foi redigido para predizer o futuro de maneira exata. Ele foi escrito para nos ajudar a ultrapassar as provações do presente. O núcleo da mensagem é: seja o que for que vos aconteça, não temais. Jesus Cristo diz claramente qual deve ser a nossa atitude: confiança a toda a prova, que não cede nem às catástrofes nem às perseguições.
Isto não quer dizer que os cristãos perseguidos vão escapar aos seus perseguidores. Isto não quer dizer que os cristãos estão imunes a todo o tipo de desastres ou sofrimentos. As palavras de Jesus Cristo ensinam-nos que todo o nosso ser está nas mãos de Deus. Pela própria morte, é-nos assegurado que permaneceremos mergulhados na vida de Deus. É a nossa própria segurança, a nossa tranquilidade, o facto de não nos deixarmos abalar, que servirá de testemunho.
Temos de aprender a retirar do Evangelho a sabedoria (DOMINGO: «Eu vos darei língua e sabedoria») para viver a nossa adesão a Jesus Cristo. Ser constante na adversidade é uma boa prova de fogo para depurar a própria fé (SEGUNDA: «A tua fé te salvou»). Os textos bíblicos apocalíticos não são um «filme de terror»; são um apelo à esperança (TERÇA: «Salvar o que estava perdido»), um grito de resistência no meio da injustiça generalizada. O justo há de saber que o mal não tem a última palavra (QUARTA: «Pensavam que o reino de Deus ia manifestar-se imediatamente»), que Deus está do seu lado. O mais fácil é sucumbir à tentação da oferta de poder (QUINTA: «Não deixarão em ti pedra sobre pedra»), à tentação de abandonar a fé (SEXTA: «fizestes dela ‘um covil de ladrões’») e o que ela significa de projeto para mudar o mundo. A perseverança na fé e na fidelidade a Jesus Cristo dar-nos-á a vida (SÁBADO: «Todos estão vivos»).

A fé é perseverante ou é uma fantasia. Esta semana recorda que a perseverança — não a resignação — é a chave. Uma perseverança que nasce da confiança (a fé) no Deus de Jesus Cristo. Em espera, mas sem ficar de braços cruzados! A forma como vivemos revela que somos sinal de esperança ou de desânimo?

A elaboração deste texto foi inspirada nos comentários de P. Jacques Fournier e Maria Noëlle Thabut e também nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do trigésimo terceiro domingo.

© Laboratório da fé, 2013

Trigésima terceira semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.11.13 | Sem comentários

VIVER O DOMINGO: ao ritmo da liturgia


Trigésima segunda semana


O amor é a presença de Deus

Um deus que nos oprime e que nos impede de crescer e de nos desenvolvermos (a mãe de todas as contradições!); um deus que se reduz ao que aprendemos para a primeira comunhão ou para o crisma; uma deus à imagem e semelhança dos deuses pagãos (às vezes Zeus, outras vezes Apolo, muitas vezes Vulcano, ou até Neptuno...); um deus do mais além deprimente, ligado a enterros, sepulturas, responsos e condenações; um deus «espiritualoide» que não quer saber nada da matéria que supostamente criou; um deus unicamente masculino; um deus que garante os direitos dos mais privilegiados; um deus dos fanáticos, em cujo nome se promovem ações de vandalismo, matanças, burlas, insultos...; um deus infantil, que está sempre à espera da nossa queda para nos arrear de porrada; um deus tapa-buracos; um deus clerical; um deus que se contenta com sacrifícios, que se pode comprar com esmolas, orações, jejuns ou bom comportamento; um deus europeu e ocidental... esse deus morreu! E ainda bem.
Porque Deus — o Deus de Jesus Cristo, o nosso Deus — é um Deus de vivos (e não de mortos).
Mas parece que há muitos que ainda não entenderam nada!
O Evangelho continua a gritar que a transcendência não se realiza para cima, mas para dentro. Que o amor é o sacramento da presença de Deus. Que tornamos Deus presente quando perdoamos. Que não há nada mais «religioso» do que a «justiça»: com os órfãos, com as viúvas, com os desempregados, com os imigrantes, com os «diferentes»... Que ninguém nos vai condenar pelas orações que deixamos de dizer, mas pelas ações que deixamos de fazer. Deus não está no «mais além»: nem para além das nuvens, nem para além da morte. Deus está aqui, em mim, em cada ser humano. Porque o nosso Deus não é um Deus de mortos (nem de coisas mortas), mas um Deus de vivos (de gente viva).
Então o que é que acontece na morte?! A nossa fé diz-nos que Deus não nos tira a vida, mas dá-nos ainda mais Vida: Vida com letra maiúscula. Ele faz de nós, definitivamente, seus filhos (DOMINGO: «Porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus»), isto é, participantes da sua própria vida, para sempre.
É verdade que nós choramos os nossos entes queridos porque, ao morrer, em certa medida os «perdemos» (SEGUNDA: «É inevitável»). Mas a morte, para o cristão, não anula o sentido da vida; pelo contrário, permite reconhecer a fragilidade da nossa condição humana (TERÇA: «Somos inúteis servos») e, ao mesmo tempo, deixar-se iluminar pela fé (QUARTA: «A tua fé te salvou») naquele que nos criou e nos chamou à vida.
Esta visão da vida não tem nada de alienante, mas tudo ao contrário. Deus faz-se presente nas nossas vidas (QUINTA: «Está no meio de vós»), aqui e agora, e dá-nos a possibilidade de viver segundo o seu plano amoroso. Significa que, com a minha vida, começo já a partilhar esse amor com os outros (SEXTA: «Quem procurar salvar a vida há-de perdê-la e quem a perder há-de salvá-la»), com cada homem e cada mulher, que considero meus irmãos; dessa forma é antecipação da Vida, com maiúsculas, onde o amor será a única porta de entrada possível.
Por isso, a vida eterna não começa depois da morte. Começa agora! Deixando-nos conduzir pelo Espírito de Deus (SÁBADO: «sem desanimar»), vivemos já como filhos de Deus, vivemos já a vida eterna.

Até que ponto a fé na ressurreição me faz viver com mais confiança? Esta semana, somos convidados a tomar consciência de que o Deus em quem acreditamos, por Jesus Cristo, é o Deus da vida, que se revela nos acontecimentos quotidianos; nesses acontecimentos que, muitas vezes, desprezamos, porque não parecem revelar-nos o rosto de Deus.

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial,  nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do trigésimo segundo domingo.

© Laboratório da fé, 2013

Trigésima segunda semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.11.13 | Sem comentários

VIVER O DOMINGO: ao ritmo da liturgia


Trigésima primeira semana


Não há lugar para remorsos

A história de Zaqueu é uma história de conversão, de perdão, de penitência e de acolhimento renovado. É uma história de reconciliação e de salvação. A este propósito, o jesuíta indiano Anthony de Mello chamou a atenção para o facto de em parte nenhuma dos Evangelhos Jesus Cristo ter pedido aos pecadores que manifestassem remorsos: não há lugar para remorsos no processo de conversão. Esse processo é um acontecimento de profunda alegria. As pessoas só se podem aperceber do seu pecado à luz da misericórdia. Ver os próprios pecados com verdadeira clareza é um privilégio dos santos. Então, se eu vejo o meu pecado, não devo deixar que a visão do mesmo me seduza ou deixe consternado. Em vez disso, devo voltar-me para a fonte de luz que me permitiu vê-lo e reconhecê-lo.
Antony de Mello acredita que, em vez de sublinhar o remorso como o principal componente do processo de arrependimento e conversão, os nossos catecismos deveriam pôr em destaque a confiança no poder do perdão de Deus e na disponibilidade para perdoar aos nossos inimigos. A incapacidade de confiar no poder de Deus para fazer algo substancial com o mundo e comigo mesmo é o nosso maior pecado. E com esta atitude impedimos que Jesus Cristo entre na nossa «casa», isto é, na nossa vida.
A «boa notícia» de Jesus Cristo é para todos (DOMINGO: «Hoje devo ficar em tua casa») sem exceção: homens e mulheres, ricos e pobres (SEGUNDA: os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos»), judeus e não judeus, piedosos e pecadores, sãos e doentes...
É precisamente pelo acolhimento que as pessoas mudam ao contactarem com Jesus Cristo. O encontro é sempre propício para a «festa». Esta é expressão do ser próprio de Deus (TERÇA: «Banquete do reino de Deus»). O exemplo de Zaqueu, entre tantos outros, mostra como um vigarista se pode converter em generoso (QUARTA: «Renunciar a todos os seus bens»). Mas os «piedosos» só estão interessados em murmurar por causa de Jesus Cristo se juntar com os pecadores.
Jesus Cristo também se quer aproximar de nós, para nos oferecer o seu perdão sem condições. Em nós está a possibilidade de o acolher com alegria (QUINTA: «Haverá alegria»). Hoje como ontem, só a alegria de nos sentirmos acolhidos pelo amor pode iluminar (SEXTA: «Filhos da luz») a nossa vida e dar-nos a coragem para ser verdadeiros discípulos (SÁBADO: «Acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus») de Jesus Cristo.

O que estou disposto a fazer para que Jesus Cristo entre em minha «casa»? A fé não é algo que fazemos; a fé é confiança. O mais importante na fé não está em nós, nos nossos conhecimentos. O mais importante está em Deus e na nossa abertura à sua presença. Esta semana, deixemo-nos invadir pela presença de Jesus Cristo e pela alegria que transborda do nosso coração.

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de Tomáš Halík — «Paciência com Deus. Oportunidade para um encontro» — e nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do trigésimo primeiro domingo.

© Laboratório da fé, 2013

Trigésima primeira semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.11.13 | Sem comentários

VIVER O DOMINGO: ao ritmo da liturgia


Trigésima semana


Opções fundamentais da vida

As prostitutas, os publicanos, os samaritanos, as crianças... os modelos propostos por Jesus Cristo não são propriamente os mais frequentes nos livros de papel couché. Até que ponto, hoje em dia, também nos baralham estes exemplos, como antes aconteceu com a gente «ordenada» que escutava Jesus Cristo? Quem é que hoje seria apresentado por Jesus Cristo como exemplo a seguir, para nos convencer de uma vez por todas que o importante não são as formas externas, mas o que habita a profundidade do nosso coração?
Uma longa tradição da doutrina sobre o pecado insistiu nos atos pontuais (mais veniais ou mais mortais), na confissão detalhada, oral, semanal; num «dá e tira» com Deus através da nossa consciência... Que equívoco! Segundo Jesus Cristo, as coisas são muito mais profundas!
Então, em que se traduz a profundidade do coração? Nas opções fundamentais da nossa vida. E, para um cristão, só há duas decisões decisivas: viver em abundância (daí uma vontade permanente de perfeição integral) e contribuir para que haja vida em abundância à sua volta.
Com a curiosa observação de que, em grande parte, ambas as opções convergem: aperfeiçoamo-nos e vivemos no top, quando vivemos para os outros. O que nos faz mais «nós» são os outros!
O fariseu preocupava-se com a sua perfeição... mas faltava-lhe a humildade para reconhecer que a perfeição não dependia só dele. Bater com a mão no (próprio) peito nunca será demais! 
Ser uma pessoa honrada, cumpridora, trabalhadora, amiga dos seus amigos, tranquila... é bom e salutar. Mas não é isso que importa.
Ser egoísta, materialista, preocupado apenas com o próprio interesse, incapaz de perdoar, sem amigos... não é bom nem salutar. Mas não é isso que importa.
As boas obras não servem para nada se forem acompanhadas de soberba ou serem simplesmente para me sentir melhor do que os outros. Este aspeto afeta-nos a todos! Infelizmente, todos os dias nos assemelhamos ao fariseu. Achamos que temos o direito de apontar o dedo aos outros. E, às vezes, até ao próprio Deus. Como se Deus tivesse de nos agradecer ou retribuir pelo nosso comportamento. Isto mostra uma total falta de confiança em Deus, uma falta absoluta de fé. Não precisamos de Deus para nada!
Os nossos comportamentos têm origem na profundidade do nosso ser. É aí, no nosso fundo mais profundo, no santuário do coração e da consciência, onde habita Deus, onde somos confrontados com a presença de Deus, onde Deus nos examina e nos ajuda a descobrir a nossa verdadeira identidade: humildes (DOMINGO: «Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador») ou soberbos; necessitados da relação com Deus (SEGUNDA: «Passou a noite em oração») ou auto-suficientes; discretos (TERÇA: «É semelhante ao fermento») ou interessados em «dar nas vistas»; servos (QUARTA: «Há últimos que serão dos primeiros») ou senhores; verdadeiros ou falsos (QUINTA: «Ide dizer a essa raposa»); misericordiosos (SEXTA: «Bem-aventurados») ou duros de coração; amorosos (SÁBADO: «Manso e humilde de coração») ou odiosos; justos ou injustos.
Bem vistas as coisas, se o fariseu e o publicano, em vez de rezar cada um por sua conta, tivessem rezado juntos, talvez tivessem maior proveito. Não tenhamos reservas para rezar com os outros, mesmo que sejam diferentes; não são apenas os que pensam como nós ou os que nos dão sempre razão que nos ajudam a crescer e amadurecer como seres humanos (e como cristãos).

Com que atitude faço oração? A primeira e principal atitude a desenvolver nesta semana consiste em colocar-me diante de Deus com a humildade e a sinceridade de quem se reconhece pecador, pede perdão, sente necessidade da misericórdia divina, confia em Deus. Antes de dizer «fórmulas» decoradas, comecemos por invocar a graça divina, reconhecendo a nossa fragilidade.

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial,  nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do trigésimo domingo.

© Laboratório da fé, 2013

Trigésima semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.10.13 | Sem comentários

VIVER O DOMINGO: ao ritmo da liturgia


Vigésima nona semana


As nossas pilhas carregam-se...

Importância da perseverança. Entre outras coisas, para que as nossas ações sejam autênticas; e não fruto de um mero capricho passageiro.
Colocamos todo o empenho naquilo que nos interessa muito. Se algumas das iniciativas que empreendemos na Igreja perdem fulgor é porque, no fundo, não nos interessam grande coisa.
A nível pessoal acontece o mesmo: o que nos interessa tem sempre mais sucesso, porque nos empenhamos a sério... É curioso que, para manter um regime alimentar, se façam sacrifícios que nunca estaríamos dispostos a assumir para suavizar algum dos nossos «defeitos principais»!
Nas comunidades ou grupos, os inícios são quase sempre marcados pelo entusiasmo: vamos fazer isto e aquilo; depois aqueloutro; e ainda mais aquela atividade... Mas continuar (com o entusiasmo inicial) é muito mais duro!
A nível pessoa acontece o mesmo: há momentos em que nos entusiasmamos de tal maneira que nos dispomos a fazer tudo. «A partir de agora, vou falar menos e escutar mais». «Prometo dedicar, diariamente, uns minutos para fazer o exame de consciência». «Dedicarei um tempo do dia para ler um bom livro». «Quando foi a última vez que pedi perdão?!».

...na comunidade e...

A comunidade, como sempre, é uma boa referência e apoio para a constância. Mais tarde ou mais cedo, teremos vergonha de repetir, diante dos outros, sempre os mesmos erros. Talvez isso nos motive para levar mais a sério a mudança! E também acontece que, no grupo, os maus dias de uns são compensados com o entusiasmo de outros. As nossas pilhas carregam-se com uma «pilha» de amigos.
E porque não convencermo-nos de que, com tanto insistir, haverá de chegar o momento em que nos custe menos manter a perseverança. O recomeçar — todas as vezes que seja preciso — há de criar em nós uma motivação que, se não facilitar, pelo menos é mais compensadora: ficamos contentes pela nossa capacidade de insistir, de recomeçar; ficamos entusiasmados pela nossa resistência ao desânimo.
Então, mais do que ações é importante insistir nas motivações. E nada de definir objetivos inatingíveis. Uma ambição sadia, sim! Capazes de reconhecer os nossos pequenos progressos. Porque o «muito» é feito de um conjunto de «poucos». Pouco a pouco, chega-se ao muito! Isto faz parte da pedagogia de qualquer educação positiva.

...na oração

Orar. Precisamos que a nossa vida seja alimentada por uma relação simples e natural com Deus. Faz parte da nossa identidade. As nossas pilhas carregam-se com momentos de oração. Este alimento da presença de Deus faz-se na oração pessoal e também na oração comunitária, de modo particular na eucaristia dominical. Não podemos viver sem o domingo! O domingo é o dia do Senhor, o dia da fé, «elemento qualificante da identidade cristã».
Orar sempre: cada situação da nossa vida pessoal ou comunitária não é indiferente para Deus. Temos de aprender a tratar com Deus as tristezas e as alegrias da vida quotidiana. Para nos deixarmos envolver pela proximidade amorosa de Deus.
Orar sem desanimar: sem perder a esperança. Uma das piores tentações em que podemos cair é pensar que Deus já não pode fazer nada por nós, pela comunidade ou pela humanidade.
Jesus Cristo explica que a oração nasce da fé, está intimamente relacionada com ela. Sem o alimento da oração, Deus começa a perder a importância (DOMINGO: »Encontrará fé sobre a terra?»), acaba por desaparecer. A oração nasce da necessidade de entrar em diálogo com Deus, de explicitar as nossas alegrias e as nossas necessidades (SEGUNDA: «Rico aos olhos de Deus»), as nossas inquietações e desassossegos. «A fé é um dom precioso de Deus, que abre a nossa mente (TERÇA: «Abrirem logo a porta») para O podermos conhecer e amar. Ele quer entrar em relação connosco (QUARTA: «Assim ocupado»), para nos fazer participantes da sua própria vida e encher plenamente a nossa vida de significado (QUINTA: «Eu vim trazer o fogo»), tornando-a melhor e mais bela. Deus ama-nos! Mas a fé pede para ser acolhida, ou seja, pede a nossa resposta pessoal, a coragem de nos confiarmos a Deus e vivermos o seu amor, agradecidos pela sua infinita misericórdia» (Francisco, Mensagem para o Dia Mundial das Missões). Se Deus nos dá o dom da fé, é para o sabermos partilhar (SEXTA: «Porque não sabeis discernir o tempo presente?») à nossa volta! Se a fé é a nossa vida, o nosso tesouro, é também fonte de fecundidade. Se levamos um Evangelho que não seja a nossa própria vida (SÁBADO: «Se não vos arrependerdes...»), como lhe chamaremos boa nova?!

Rezar sempre até haverá quem o faça, mas será que a fé se manterá? Ao longo desta semana, convence-te de que a fé torna-se «adulta» quando a oração é um diálogo e não um papagueado de fórmulas; a fé torna-se «adulta» quando se torna num instrumento a favor da justiça e não uma anestesia para a dureza da vida. Que papel tem a oração na minha vida de fé?

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial,  nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do vigésimo nono domingo.

© Laboratório da fé, 2013

Vigésima nona semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.10.13 | Sem comentários

VIVER O DOMINGO: ao ritmo da liturgia


Vigésima oitava semana


Agradecer faz bem ao coração

O facto de sermos boas pessoas (com todos os «mas» que se possam acrescentar) é fruto apenas da nossa formação religiosa? Quem mais teve intervenção na formação da nossa personalidade (outras pessoas, ambientes, acontecimentos...)? É o momento para lhes dar graças. E também a Deus, que colocou no nosso caminho, com providência paterna, tudo o que nos constitui como pessoas.
Hoje, fixamo-nos (como no caso do samaritano agradecido) em tudo aquilo que, desde fora da nossa confissão religiosa — e, às vezes, em claro conflito com ela —, nos influenciou positivamente: literatura, cinema, música, arte... Obrigado, muitíssimo obrigado! Pensemos em cineastas, músicos criadores e intérpretes, pais e mães não crentes que são amorosíssimos com os seus filhos (biológicos ou adotivos), humoristas que nos fazem rir e outros que nos fazem pensar, organizações não governamentais que trabalham pelas causas mais nobres... Obrigado, muitíssimo obrigado!
De facto, a graça de Deus chega até nós das mais variadas formas. Deus não pede autorização a ninguém para agir, para fazer o que lhe apraz. Uma das miopias da nossa Igreja consistiu (ainda consiste?) em apresentar-se como a única distribuidora das graças de Deus. A experiência, mil vezes por dia, desmente esta argumentação.
Felizmente, não temos de escolher entre Deus e o Universo ou outra realidade qualquer: para nós, Deus é maior do que o Universo, é maior do que tudo o resto; a procura de Deus passa por tudo o que de melhor, de mais belo, de mais verdadeiro, de mais justo, podemos encontrar na vida.
A fé é o dom do encontro com Jesus Cristo; e um esforço de descoberta da sua ação nas nossas vidas. A fé permite acolher a salvação (DOMINGO: «A tua fé te salvou»), dom gratuito de Deus; depois conduz ao agradecimento e à ação de graças; depois leva ao canto de glória a Deus, ao louvor pelas suas maravilhas!
Como é que damos graças? Estamos à espera de grandes milagres (SEGUNDA: «Nenhum sinal lhe será dado») para nos sentirmos agradecidos? Parece que os cristãos têm medo da alegria, da música, da dança, do entusiasmo (TERÇA: «O vosso interior está cheio de rapina e perversidade»)... Pensemos nas nossas comunidades, nas nossas paróquias: tão frias e formalistas (QUARTA: «Desprezais a justiça e o amor de Deus»), sempre na defensiva, com uma linguagem eclesiástica tão desfasada da vida real...
O coração agradecido dilata-se pela força do amor (QUINTA: «Se morrer, dará muito fruto»). Agradecer é esticar ao máximo o coração. O agradecimento vence a distância do egoísmo, faz-nos viver em paz connosco e com os outros (SEXTA: «A vossa paz repousará sobre eles»), predispõe-nos à comunhão. O agradecimento faz-nos maiores do que alguma vez sonhámos, quando nos pede para amar sem medo (SÁBADO: «Não vos preocupeis»), para romper os limites instituídos de um amor mesquinho. O agradecimento é o melhor indicador para medir a «saúde espiritual» do nosso coração, isto é, a nossa fé.

O que posso fazer para ter mais fé? Esta semana mostra-nos que a fé não consiste simplesmente em cumprir ordens, mas também em proclamar a boa nova da salvação, em reconhecer a graça recebida. Só quem faz a experiência de um verdadeiro encontro com Jesus Cristo se pode abrir a uma vida nova com um coração agradecido.

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial,  nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do vigésimo oitavo domingo e na homilia proposta no guião «Outubro Missionário 2013».

© Laboratório da fé, 2013

Vigésima oitava semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.10.13 | Sem comentários

VIVER O DOMINGO: ao ritmo da liturgia


Vigésima sétima semana


A fé é uma (nova) forma de estar no mundo

O tema da fé é centralíssimo. E, provavelmente, temos de lhe dedicar uma profunda reflexão. Fizeram-nos crer que a fé é constituída por «conteúdos», principalmente de dogmas e tradições. Se acreditamos nessas «coisas» temos fé... se não, não.
A fé não é um conjunto de proposições em que temos de acreditar tenham ou não importância para a nossa maneira de viver. Se fosse apenas assim, seria fácil: que dificuldade haveria em acreditar em certas coisas que «não nos aquecem nem arrefecem»? Interferem alguma coisa na nossa maneira de viver?
Esta não é a fé referida por Jesus Cristo como capaz de mover montanhas! Acreditar (também o sabemos, embora sem lhe darmos a devida importância) é organizar a nossa vida (os dias, o trabalho, os descanso, as prioridades, os valores) segundo princípios — estes sim — fundamentais. A fé cristã é uma forma concreta de pensar, sentir, agir, viver. Como Jesus Cristo. Porque acreditamos (essa é a nossa fé) que é a forma mais divina que temos para ser humanos. O Evangelho não revela uma teologia, mas uma Pessoa e a sua forma de ser. A fé não são conceitos, mas um estilo de vida (à maneira de Jesus Cristo).
É certo que não se pretende excluir os conteúdos. Todos precisamos de convicções profundas que orientem os nossos comportamentos. Quem tem fé, por exemplo, não tratará os seus subalternos como se não a tivesse; o homem e a mulher de fé encaram de outra maneira o casamento e a família; o «crente» (cristão) termina cada um dos seus dias com uma avaliação da jornada segundo critérios diferentes dos «do mundo».
A fé é uma forma de vida, um modo existencial de estar no mundo. Tudo o resto pode fazer parte do património cultural da Igreja; mas não lhe podemos chamar «fé»...
Em Ano da Fé, o pedido dos apóstolos (DOMINGO: «Aumenta a nossa fé») vem mesmo a calhar! Querer que a fé «aumente» (cresça) implica confiar em Deus até às últimas consequências (SEGUNDA: Faz isso e viverás).
Sem a confiança, sem a sua renovação e recordação constantes, a fé pode debilitar-se sem que nunca nos tenha assaltado uma dúvida. Se não a cuidarmos, pode diluir-se pouco a pouco no nosso interior para ficar reduzida simplesmente a um hábito que não nos atrevemos a abandonar, pelo sim pelo não. Que podemos fazer? O melhor é fechar os olhos, fazer silêncio para acolher Deus e escutar (TERÇA: Uma só é necessária) o que tem para nos dizer; e, depois, responder-lhe (QUARTA: Ensina-nos a orar), livre e confiadamente.
Convém recordar que a fé não é uma coisa que se possui uma vez para sempre. É preciso pedi-la (QUINTA: Pedi e dar-se-vos-á ) todas os dias! A fé é um desejo, uma força (SEXTA: O reino de Deus chegou até vós) que nos ajuda a crescer em humanidade, a ir em frente na vida (SÁBADO: Felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática) tomando Jesus Cristo como mestre e companheiro.

Com que adjetivos posso definir a minha fé? Nesta semana, não esqueçamos de (continuar a) rezar como os apóstolos: «Aumenta a nossa fé». É bom repeti-lo com um coração simples. Reconhecer que estamos sempre a recomeçar, sempre desejosos de ver crescer em nós, e no outro, o que há de melhor. Deus entende-nos. Ele fará crescer a nossa fé!

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial e nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do vigésimo sétimo domingo.

© Laboratório da fé, 2013

Vigésima sétima semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.10.13 | Sem comentários
Ao ritmo da liturgia


Vigésima sexta semana


Catequese para ricos (e pobres)

O Evangelho é muito crítico em relação aos ricos, tanto na condenação direta como na exaltação dos pobres. Nesse sentido, é preciso instituir uma catequese especial — «catequese para ricos» — para ajudar à conversão dos ricos, embora a Igreja tenha pouca prática nessa questão (bem observado, nós próprios não podemos ficar de fora dessas catequeses).
Mas qual é o objetivo? Queremos um mundo de pobres? Não, queremos um mundo justo. Queremos uma Igreja sem riqueza? Sim, com a única garantia de contar com Deus e o Evangelho de Jesus Cristo, a sua maior riqueza. Tudo isto sem nos colocarmos de fora. Pois também nós somos ricos! Sim. Pelo menos temos de pôr em dúvida a nossa acrítica aceitação de um bem-estar edificado sobre as desgraças de uma grande maioria do mundo.
A pobreza não é um problema que se tem de solucionar. A pobreza é um escândalo no qual todos participamos e do qual temos a obrigação de sair. E, para isso, não basta despojar os ricos, porque os agora pobres ocupariam imediatamente o seu lugar. Foi o que sempre aconteceu em todas as revoluções sociais. A única solução definitiva é a proposta por Jesus Cristo: superar todo o tipo de egoísmo e construir um mundo de irmãos. Já agora fica a provocação: se eu fosse rico... sinceramente, o que faria com o dinheiro?
A riqueza por antonomásia é o dinheiro, os bens materiais. Para nós «rico» e «pobre» são conceitos que fazem referência a uma situação económica e social. Rico é o que tem mais do que o necessário para viver e pode acumular bens. Pobre é o que não tem o necessário para viver e está privado de necessidades vitais.
No entanto, podemos ser pobres economicamente, mas possuirmos outras riquezas que também criam desigualdades (DOMINGO: «Há entre nós e vós um grande abismo») que ofendem a dignidade humana e sobre as quais temos de refletir: o nosso prestígio (SEGUNDA: «Qual deles seria o maior»), a nossa vaidade (TERÇA: «Aquela gente não O quis receber»), as nossas falsas seguranças...
Na verdade, a pobreza é muito mais do que ausência de dinheiro. No contexto bíblico, pobre é aquele que não tem outro credor senão Deus. Os pobres são os que, apesar de deserdados deste mundo (QUARTA: «Não tem onde reclinar a cabeça»), continuavam a confiar em Deus. A pobreza bíblica é uma atitude de vida pautada pelo despojamento (QUINTA: «Não leveis bolsa nem alforge nem sandálias») em relação a si próprio para se centrar na pessoa do outro, tendo por base a plena confiança em Deus.
O Deus de Jesus Cristo tem predileção pelos pobres (SEXTA: «Revelaste aos pequeninos»), por todos os que eram marginalizados pela sociedade. Estes são os bem-aventurados, portadores de uma felicidade que mais ninguém tem, que nada (SÁBADO: «Nada poderá causar-vos dano») nem ninguém lhes pode arrebatar.

Esta semana recorda-nos que não se pode ser autenticamente feliz sem se preocupar pela situação concreta dos homens e mulheres que nos rodeiam, sem se perguntar: Como me comporto diante do sofrimento dos outros? A vida cristã é um convite permanente à conversão, a voltar-nos para Deus e para os outros, descentrando-nos de nós mesmos. Que o nosso centro não esteja mais em nós, mas no que está à nossa volta, à nossa porta!

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial e nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do vigésimo sexto domingo.

© Laboratório da fé, 2013

Vigésima sexta semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.9.13 | Sem comentários
Ao ritmo da liturgia


Vigésima quinta semana


Não somos donos, mas administradores

É muito fácil escrever ou falar sobre o divino e sobre o humano. Mas, quando nos mexem no bolso, o assunto é outro!
Parece que Jesus Cristo estava convencido de que o dinheiro e Deus são incompatíveis. Seria apenas pelo facto de ser pobre, pertencer a uma família pobre? Ou seria porque tinha inveja dos ricos?
A história da Igreja demonstra (pelo menos, tenta demonstrar) que não existe assim tanta incompatibilidade entre Deus e o dinheiro. Basta pensar nas riquezas e nos poderes que, ao longo do tempo, foram possuídos pelos responsáveis hierárquicos ou pelas instituições eclesiásticas.
Há razões para dizer que Deus e o dinheiro são incompatíveis? Não pode haver ricos que sejam bons cristãos? Não se pode ter dinheiro sem ser automaticamente seu escravo? E não há pobres invejosos e egoístas? Não queremos todos ser ricos?
Pois, parece mesmo que Jesus Cristo estava convencido de que o dinheiro e Deus são incompatíveis! Não entendemos. Ou não queremos entender.
Na verdade, servir a Deus e ao dinheiro são duas formas de vida contraditórias. É como estar casado e solteiro ao mesmo tempo. É possível? Há quem pense que sim. Também em relação a Deus e ao dinheiro!
O que significa viver para Deus? Estar a favor da vida, cuidar de todos; apreciar as pessoas por aquilo que são, respeitar a dignidade da pessoa humana; pautar as relações pessoais pelo amor e pela confiança; ser generoso no pouco e em tudo; viver com confiança; ter tempo para si e para os outros; deixar-se surpreender pela novidade; ser otimista; saborear a vida. 
O que significa viver para o dinheiro? Estar a favor dos privilégios, onde uns são mais importantes do que os outros; apreciar as pessoas pelos seus bens, respeitar apenas os poderosos; pautar as relações pessoais pelo interesse, pelo proveito próprio; ser avaro no muito e em tudo; viver com desconfiança; ter tempo apenas para si mesmo; agarrar-se apenas ao que é seguro; ser pessimista; consumir a vida.
As riquezas merecem bem o seu nome (DOMINGO: «Arranjai amigos com o vil dinheiro»). Seria estúpido e hipócrita dizer que não estamos interessados no dinheiro (SEGUNDA: Não há nada oculto que não se torne manifesto»). O dinheiro, queiramos ou não, é necessário para viver. Isto é uma realidade inevitável. Mas não é preciso que o dinheiro seja uma prioridade na nossa vida (TERÇA: «Ouvem a palavra de Deus e a põem em prática»). Isso não! Somos convidados a não ser escravos do dinheiro (QUARTA: «Não leveis nada para o caminho»). O que está em causa é querermos ser donos exclusivos do dinheiro (QUINTA: «Andava perplexo»), usando-o apenas para proveito próprio. Jesus Cristo diz-nos que não somos donos, mas administradores. Deus confia em nós. Somos administradores, responsáveis pelo dinheiro que nos é confiado (SEXTA: «Quem dizem as multidões que Eu sou?»). Todas as nossas riquezas — monetárias ou outras — são-nos confiadas, como a administradores (SÁBADO: «Escutai bem»), para as partilharmos, para as transformarmos em felicidade, usando-as em benefícios dos outros.

Esta semana somos convidados a colocar a questão sobre a nossa relação com o dinheiro. Vivo para Deus ou para o dinheiro? Dedicar a vida a «fazer dinheiro» — como se costuma dizer — é errar o caminho. Quando se está obcecado em ganhar dinheiro, depressa nos tornamos escravos. Deixamos de ter tempo para pensar noutra coisa. Esquecemo-nos de Deus e dos outros. Ora, é na «escravidão» e no «esquecimento» que está o problema!

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial e nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do vigésimo quinto domingo.

© Laboratório da fé, 2013

Vigésima quinta semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.9.13 | Sem comentários
Ao ritmo da liturgia


Vigésima quarta semana


Há que sair, ir à procura; embora a «perdição» nos repugne

Há muitos «perdidos» (drogados, mendigos, violentos) que ficam para trás. Então, é melhor ficar em casa, com os mesmos de sempre, com os do costume, com os «cumpridores» que não nos causam problemas? Não. O pai misericordioso não pensa assim. Nem o pastor que perde a ovelha. Nem a mulher que perde a moeda de prata. Há que sair, ir há procura; embora a «perdição» nos repugne.
Mas a necessidade de sair não é, à partida, para fazer prosélitos; nem para sermos muitos. Saímos, porque acreditamos que o bom contagia por si mesmo; e porque a condição essencial para respirar em nossa casa um ambiente cristão é partilhar a vida com os outros. A nossa felicidade é contagiante.
De facto, para anunciar o Evangelho é preciso conviver com os «pecadores». Não basta fazer-lhes uma visita rápida ou ficar do lado de fora. Jesus Cristo comia com eles, sentava-se com eles à mesa. O gesto mais provocador e escandaloso de Jesus Cristo foi, sem dúvida, a sua forma de ir ao encontro, de acolher com simpatia especial os «pecadores». E, nós, o que temos para oferecer aos «perdidos» da nossa comunidade?
«Converter» não é tarefa fácil. E mais difícil ainda é conseguir que os «convertidos» perseverem, não abandonem a «casa». Mas o argumento é sempre o mesmo: preocupamo-nos com a felicidade dos outros e não podemos tolerar um ambiente de morte à nossa volta. Por isso, continuamos a sair e a ir à procura...
Não estamos obcecados com o pecado! Estamos, sim, obcecados com a felicidade de todos os seres humanos. A nossa tarefa é anunciar a redenção, é testemunhar um amor que salva e dá vida. Por isso, continuamos a sair e a ir à procura...
Bem, e nunca esqueçamos que nós, «pródigos», perdidos, também somos acolhidos e perdoados diariamente. Os «perdidos» não são sempre os outros! Reconhecer as nossas misérias faz de nós ainda mais misericordiosos.
Em lugar de um Deus justiceiro e castigador, Jesus Cristo apresenta um Deus que se alegra (DOMINGO: «Alegrai-vos comigo, porque encontrei...») mais pela conversão de um só pecador, do que por noventa e nove justos que não precisam de mudar nada na sua vida.
Deus é um Pai amoroso que acolhe todas as pessoas, a começar por aqueles que pensam que são «indignos» (SEGUNDA: «Não mereço que entres em minha casa»). Deus é um pai «louco de amor» (TERÇA: «Compadeceu-Se») por cada um de nós; mesmo que sejamos maus filhos, mesmo que nos custe aceitar o outro como irmão, porque é diferente, porque não é dos nossos, porque não é dos «bons»...
Deus é um Pai que nos devolve a dignidade de «filhos de Deus», por muito que a tenhamos desbaratado (QUARTA: «A quem hei-de comparar os homens desta geração?»); que está sempre à nossa espera com os braços abertos, que faz uma festa esplêndida quando voltamos, sem ter em conta o que fizemos (QUINTA: «Uma pecadora que vivia na cidade»), por mais grave que seja, por muito que se tenha sentido — com motivo — desprezado por mim e pela minha conduta. O que conta é o regresso (SEXTA: «Anunciar a boa nova»). A alegria imensa é voltar a encontrar o filho, a filha, que se tinham perdido (SÁBADO: «Não são os que têm saúde que precisam do médico, mas sim os doentes»).

Nesta semana, há uma pergunta que não posso ignorar: Em que momentos da minha vida sinto que o encontro com Deus é motivo de alegria? Deus vem ao meu encontro, para vencer a minha tristeza e me abrir a um horizonte de alegria e de amor. Sem esquecer que a eucaristia dominical é a grande festa dos cristãos!

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial e nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do vigésimo quarto domingo

© Laboratório da fé, 2013

Vigésima quarta semana, no Laboratório da fé, 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.9.13 | Sem comentários
Ao ritmo da liturgia


Vigésima terceira semana


Apostar por Jesus Cristo é apostar na vida em plenitude

A escolha do insignificante, do «pequeno», à partida não permite aspirar logo a ser importante. Ser discípulo de quem não tem onde reclinar a cabeça, nunca proporcionará almofadas confortáveis.
Essa é a cruz, a parte dura de uma eleição que não deixa de ter — mesmo nos piores momentos — a formosura do «pequeno». Ajudemo-nos a descobrir o valor do simples, do gratuito. Custa pouco e vale muito!
A nossa fé diz-nos que apostar por Jesus Cristo é apostar na vida em plenitude. Isto significa que todas as «cruzes» que surjam como consequência dessa eleição são menos importantes do que a vida que podemos desfrutar.
De qualquer forma, há coisas que já percebemos: ser e ter são incompatíveis; os importantes não se relacionam entre si da mesma maneira que a gente simples; a paz de espírito não casa com o poder; os poderosos sofrem do coração; etc.
Ora bem, ninguém nega que o seguimento de Jesus Cristo traz «cruzes»; mas nós, cristãos, afirmamos que nesse seguimento não há nenhuma «cruz» que não desemboque em ressurreição. Além disso, não é necessário ir a correr à procura de «cruzes», como muitas devoções parecem sugerir. As que vêm ter connosco já são suficientes! A cruz cristã é só um passo para a glória. Não somos «cruzados», mas cristãos, homens e mulheres da ressurreição. Porque não tomamos a cruz para seguir com Jesus Cristo até ao calvário, mas até ao grande banquete da vida.
Ser discípulo de Jesus Cristo, ser cristão, não pode ser um simples facto cultural ou uma tradição familiar (DOMINGO: «Não pode ser meu discípulo»). Ser cristão não é apenas ter sido batizado ou, quando muito, passar 50 minutos na igreja, uma vez por semana. Ser cristão também não equivale de modo algum a repetir verdades abstratas sobre Deus ou a respeitar as regras religiosas por muito santas que sejam (SEGUNDA: «Conhecendo os seus pensamentos»). Ser cristão implica ter uma relação pessoal com Jesus Cristo (TERÇA: «Passou a noite em oração a Deus»). A opção cristã implica que tudo na minha vida esteja relacionado com a perspetiva de Jesus Cristo (QUARTA: «Bem-aventurados»). Por isso, seguir Jesus Cristo supõe mudar a nossa escala de valores (QUINTA: «Fazei bem aos que vos odeiam»): o amor de doação, gratuito, converte-se no «norte» da minha existência; o amor preferencial pelos pobres; a luta pela justiça; o considerar que cada ser humano é meu irmão ou minha irmã (SEXTA: «Todo o discípulo perfeito deverá ser como o seu mestre»); a paixão pela Palavra de Deus; a relação íntima com Deus Pai... Assumir esta escala de valores, faz-nos participantes da vida em plenitude (SÁBADO: «Tenha a vida eterna»).

Se acreditamos que o seguimento de Jesus Cristo se trata de uma oferta de plenitude, então o que temos de fazer é escolher o que é melhor para nós. Optar pelo seguimento de Jesus Cristo requer maturidade e seriedade, perseverança e esforço, inteligência e planificação. Nesta semana, deixa-te interpelar por esta questão: Alguma vez refleti com seriedade sobre o que implica ser discípulo de Jesus Cristo?

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial e nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do vigésimo terceiro domingo

© Laboratório da fé, 2013

Vigésima terceira semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.9.13 | Sem comentários
Ao ritmo da liturgia


Vigésima segunda semana


A humildade exige treino, exercícios práticos

As nossas apetências, mesmo as religiosas, são muito encaminhadas para destacar o importante, o maior. Assim somos educados. Então, o mais «natural» é procurar o primeiro lugar, ser reconhecido, a palmadinha nas costas, a fama fácil, que me considerem mais importante do que os outros... Mas o Evangelho está carregado de sugestões para o «pequeno», o menor.
Não se trata de mistificar a escassez, a carência, a sujidade ou a má educação. Trata-se de aceitar que o «pequeno», provavelmente, está menos contaminado, que pode ser mais autêntico, que os seus méritos procedem de si mesmo e não de uma imposição pela força. Antes de mais, porque é sempre mais alternativo do que a ordem estabelecida.
Porque é que Jesus Cristo está sempre do lado dos pobres, põe os pobres como exemplo? Seguramente, porque os pobres, não tendo nada, estão mais próximos da vida em carne viva... A pobreza, a austeridade, obriga a outro tipo de relações: gratuitas, sem interesse. «Amo-te por aquilo que és e não pelo que me possas dar».
Acontece que temos dificuldade em perceber a beleza do «pequeno». Somos educados a dedicar a nossa vida à conquista de bens, ser ricos, ser importantes, ocupar os primeiros lugares (da sociedade, da Igreja). Sem cair na conta de que quanto mais temos, mais queremos ter! O desejo nunca se dá por satisfeito!
A missão de Jesus Cristo — portanto, a missão do cristão — é ajudar o ser humano a perceber a riqueza do «pequeno». Por isso, ser cristão vale a pena nem que seja porque ajuda a dar a volta às coisas (DOMINGO: «Não tomes o primeiro lugar»): a devolver o apreço aos que o mundo considera desprezados (SEGUNDA: «Restituir a liberdade aos oprimidos»); a enfrentar as grandes coisas, os grandes mitos, para comprovar que, por dentro, estão vazias (TERÇA: «Vieste para nos destruir?»); a não ficar de braços cruzados (QUARTA: «Pediram a Jesus que fizesse alguma coisa») perante um estilo de vida contrário ao Evangelho. A maturidade humana encontra-se muito relacionada com esta capacidade crítica e relativizadora daquilo que é apresentado como grande, importante.
Na verdade, é a descoberta da beleza do «pequeno» que nos torna mais humanos; e também nos torna mais divinos. O Reino de Deus é sempre dos «pequenos». Para entrar nele, é preciso abandonar as falsas seguranças (QUINTA: «Já que o dizes, lançarei as redes»), libertar-se do desejo de querer ser importante, assumir a rutura (SEXTA: «Ninguém corta um remendo de um vestido novo, para o deitar num vestido velho») com as soluções fáceis, assumir um corte radical com a ordem estabelecida (SÁBADO: «Porque fazeis o que não é permitido?»). Um apostolado sem grandes pretensões é o único capaz de chegar à meta!

Nesta semana, pensemos em formas concretas de viver a beleza do «pequeno», nas mais diversas situações da vida: como pais, como esposos, como filhos, como profissionais, como catequistas, como presbíteros... Ser «pequeno», ser humilde exige treino, exercícios práticos. Mas, antes de mais, temos de colocar a seguinte pergunta: Acredito sinceramente no valor da humildade?

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial e nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do vigésimo segundo domingo
© Laboratório da fé, 2013

Vigésima segunda semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.9.13 | Sem comentários
Ao ritmo da liturgia


Vigésima primeira semana


A salvação é uma questão de responsabilidade pessoal 

Jesus Cristo fala de uma sala, com uma única porta de entrada (sempre aberta), onde se celebra o banquete do Reino de Deus. À pergunta lançada por alguém do meio do público, que quer saber quantos entrarão na sala, Jesus Cristo parece não responder, embora possamos vislumbrar uma perspetiva: são muitos, ou melhor, todos são convidados para o banquete do Reino de Deus.
«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita». Os alertas de Jesus Cristo não são apenas para os judeus do seu tempo ou para os primeiros cristãos. As exortações de Jesus Cristo também se aplicam à Igreja, aos cristãos dos tempos atuais. Ou será que já desapareceram as ânsias de poder, a procura das honras, dos títulos ou dos primeiros lugares?!
«Não sei donde sois». Simples e direto, para aqueles que se afastam da «lógica» proposta pelo Evangelho, mesmo que vivam mergulhados no ambiente eclesial! Não é difícil perceber que as palavras de Jesus Cristo se dirigem a muitos que participaram na mesa do pão da vida e na mesa da palavra de Deus — hoje, diríamos, na Eucaristia — mas não serão reconhecidos como dignos do Reino de Deus. Não é suficiente uma vida de oração e de sacramentos, se em nós não há uma mudança definitiva, radical...
Há critérios que se podem discutir. Há denúncias que podem ser injustas. Há críticas que podem falhar o alvo. Há conspirações que apenas pretendem destruir a vida das pessoas e das instituições. Mas, há o Evangelho. Há a palavra de Jesus Cristo. Não podemos deixar que passe ao nosso lado, como se fosse (sempre ou apenas) dirigida aos outros!
«Comemos e bebemos contigo». [Comigo, não]. Comeste e bebeste com os poderosos da terra, com os chefes dos governos das nações, com os políticos que defendiam os vossos interesses pessoais, com os falsos patrocinadores de supostas iniciativas de caridade, com os meios de comunicação que encobriam a vossa falta de transparência, com os que vos reverenciavam com títulos honrosos...
«Ensinaste nas nossas praças». [Eu não ensinei nada disso]. Vós é que ensinastes coisas que em nada têm a ver com o Evangelho: uma teologia abstrata sem qualquer ligação com a vida; uma moral obcecada com o pecado e sem lugar para a misericórdia; uma instituição que copia o pior das outras, principalmente no que diz respeito ao poder. Entretanto, ficastes calados perante as injustiças, a corrupção, a escravidão, a violência, a recusa dos marginalizados, o fanatismo, a xenofobia...
«Há últimos que serão dos primeiros». Os pobres, os jovens, os sinceros (mesmo que sejam ateus), os excomungados pela justiça, os excluídos do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e muitos outros considerados últimos serão os primeiros a sentar-se à mesa no Reino de Deus.
A salvação não é um privilégio, um direito adquirido (DOMINGO: «São poucos os que se salvam?»). A salvação é uma questão de responsabilidade pessoal (SEGUNDA: «Vós não entrais nem deixais entrar os que o desejam»). A «porta estreita» significa exigência (TERÇA: «Omitis [...] a justiça, a misericórdia e a fidelidade»). Ser discípulo de Jesus Cristo não é compatível com uma vida egoísta e preguiçosa. Não basta ter sido batizado (QUARTA: «Por dentro estais cheios de hipocrisia e maldade»), conhecer a «doutrina» da Igreja (QUINTA: «Quando o ouvia, ficava perturbado»)... O convite é dirigido a todos («SEXTA: «Ide ao seu encontro»). Mas precisa de ser acolhido. Portanto, não precisamos de ter medo. Confiança em Deus, sim. Despreocupação e falsas seguranças (SÁBADO: «Servo mau e preguiçoso»), não.

Nesta semana, recorda que Jesus Cristo convida à confiança. A porta está sempre aberta! Mas fala de esforço: a salvação é um dom gratuito que exige de nós uma resposta, uma resposta de amor. O que significa, para mim, esforçar-se por entrar pela porta estreita? Não nos pede para ser «super-homem» ou «super-mulher», mas algo mais simples, embora mais essencial: que toda a nossa vida e todos os nossos atos estejam fecundados pelo amor.

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial e nos textos publicados neste «Laboratório da fé» a propósito do vigésimo primeiro domingo
© Laboratório da fé, 2013

Vigésima primeira semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.8.13 | 2 comentários
Ao ritmo da liturgia


Vigésima semana


O cristão arde com o fogo de Jesus Cristo

Um dia, a caminho de Jerusalém, Jesus Cristo declara aos seus discípulos que vem trazer o fogo à terra; e o que mais deseja é que esse fogo se propague.
Na Bíblia, o fogo reveste-se de diversos significados. Antes de mais, é um sinal da presença de Deus: numa coluna de fogo, Deus guia o povo na fuga do Egito; numa sarça ardente que nunca se consome, Deus dá-se a conhecer a Moisés. Outras vezes, o fogo significa o julgamento de Deus que purifica e destrói tudo o que é fruto da maldade humana. Depois, no livro dos Atos dos Apóstolos, o Espírito Santo aparece sob a forma de línguas de fogo que pousam sobre os discípulos, no dia de Pentecostes. E, nos evangelhos, para exprimir a sua urgência da sua missão, Jesus Cristo fala de um fogo que arde dentro de si; e que ele quer comunicar aos seus seguidores.
Há fogos que temos de acender dentro de nós: o fogo da criatividade e do dinamismo que nos impulsiona a não ficarmos adormecidos; o fogo do desenvolvimento das nossas capacidades; o fogo do amor concreto, que se traduz em obras; o fogo do conhecimento mais profundo de Jesus Cristo, que nos estimula a viver como ele; o fogo pela vida...
Há fogos que temos de acender fora de nós: o fogo da cruzada contra a fome, a injustiça, o ódio, a falta de amor no mundo; o fogo que purifica a corrupção ou a hipocrisia; o fogo que aquece os abandonados; o fogo que queima a indiferença...
Há fogos que temos de acender na nossa comunidade: o fogo do Espírito Santo, que destrói a apatia dos seus membros; o fogo do amor que faz crescer o carinho e a ternura entre todos; o fogo do Evangelho que provoca uma espiritualidade profunda e encarnada; o fogo da missão que leva cada um a ser testemunha da luz da fé...
Mas também há fogos que é preciso apagar: o fogo da vaidade de quem se julga importante e imprescindível, com mais direitos do que os outros; o fogo do desejo das drogas, que arrasta as pessoas para a destruição; o fogo que queima as florestas; todos os fogos estúpidos que ateamos para ocultar a nossa podridão...
Reflete, também tu, sobre os fogos que tens de apagar e os que tens de acender!
Jesus Cristo não é um incendiário (DOMINGO: «Eu vim trazer o fogo à terra»): não procura destruir o mundo com o fogo de uma qualquer ira divina. O Evangelho transpira bondade, ternura e misericórdia! Aliás, os evangelhos revelam-nos a paixão que anima Jesus Cristo e que também nos pode animar (SEGUNDA: «Se queres ser perfeito»). Um desejo louco de ver brilhar em cada ser humano a luz da ressurreição (TERÇA: «Terá como herança a vida eterna»). Uma louca esperança de ver os cristãos saírem do seu tédio para seguirem Jesus Cristo (QUARTA: «Ide vós também para a minha vinha»). Jesus Cristo não quer que ninguém fique de fora (QUINTA: «Convidai para as bodas todos os que encontrardes») desta dinâmica capaz incendiar o mundo.
O cristão arde com o fogo de Jesus Cristo: lendo o Evangelho, meditando-o, acolhendo-o... até, pouco a pouco, transformar o seu coração (SEXTA: «Com todo o teu coração») à imagem do coração de Jesus Cristo. E que mais? Nada mais (SÁBADO: «Verás coisas maiores do que estas»). Tudo o resto virá por acréscimo!

O fogo que Jesus Cristo deseja acender na terra é o Espírito Santo que penetra os corações, purifica-os, transforma-os e torna-os capazes de amar sem limites. Podemos dizer que Jesus Cristo anuncia o tempo do Espírito Santo. É o tempo em que vivemos! Por isso, nesta semana, precisamos de responder a esta questão: Que estou a fazer para que o fogo do Evangelho se propague à minha volta?

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial
© Laboratório da fé, 2013

Vigésima semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.8.13 | Sem comentários
Ao ritmo da liturgia


Décima nona semana


O sentido escatológico da existência humana

As parábolas do evangelho do décimo nono domingo (Lucas 12, 32-48) têm uma conclusão semelhante: é preciso estar vigilante («sempre alerta»), fazendo bom uso do que nos foi confiado. Bem, e muito nos foi confiado! Tanto, que nem sempre temos consciência. Gostamos mais de lamentar as nossas carências, do que agradecer os dons que possuímos. Até que encontramos alguém que nos ajuda a compreender o quanto somos afortunados, porque eles têm muitíssimo menos. Alguma vez paraste para fazer a lista dos teus talentos, das tuas qualidades? Ainda estás a tempo de o fazer! Olha bem para ti, de certeza que vais encontrar talentos que nem sequer imaginas possuir!
A verdade é que não tomamos muito a sério a importância de explorar bem os nossos talentos. Pensamos que é opcional: podemos escolher fazê-lo ou não, de acordo com a nossa vontade. No entanto, parece que, aos olhos de Deus, tudo o que nos é dado, sem exceções, é para pormos a render. E não em proveito próprio. Mas para servir os outros. Porque os outros têm direito — sim, direito — a beneficiar dos nossos talentos.
É uma lógica dura; pois, nem sequer posso dizer que faço alguma coisa com o que é meu?! Mas é a lógica do Evangelho.
Na doutrina da Igreja, fala-se de «pecado mortal». Hoje, podemos dizer que é «pecado mortal» ter vivido sem atingir o máximo das capacidades, como é nossa obrigação; é morrer sem «estar preparado». E já sabemos que, para o cristão, viver é sempre viver com e para os outros.
Jesus Cristo proclama uma (nova) bem-aventurança associada à vigilância: «felizes» (DOMINGO: «Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes»). Ela fala por experiência própria. Por isso, diz-nos para não termos medo. Para confiarmos. Para termos esperança (SEGUNDA: «Ao terceiro dia ressuscitará»). Para estarmos sempre atentos aos sinais de Deus. Para colocarmos o nosso coração naquilo que é realmente valioso.
Depois, diz que o senhor ao encontrar os servos vigilantes, «mandará que se sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá». Esta atitude não faz lembrar nada? Não foi exatamente o que Jesus Cristo fez, na tarde de quinta-feira santa, quando colocou a toalha à cintura e começou a lavar os pés aos apóstolos? Sim, Jesus Cristo deu-nos um exemplo de genuína humildade (TERÇA: «Humilde como esta criança»). Sim, Jesus Cristo fez-se servo dos seus amigos (QUARTA: «Terás ganho o teu irmão»). Não por dever ou por obediência a uma lei. Mas para nos testemunhar o amor de Deus (QUINTA: «A sua misericórdia se estende de geração em geração»). Serviu os amigos para dar a conhecer o coração de Deus (SEXTA: «Quem puder compreender, compreenda»), para dar a conhecer o coração do Pai que ama a todos a começar pelos mais «pequenos» (SÁBADO: «Dos que são como elas é o reino dos Céus»), pelos «últimos» da sociedade.

Quais são as maiores dificuldades para viver os ensinamentos de Jesus Cristo? Uma grande dificuldade é o facto de se tratarem de recomendações que apontam para uma felicidade que não é imediata, que não parece evidente aos nossos olhos. Por isso, esta semana, somos desafiados a tomar consciência de que a luz da fé é capaz de iluminar toda a nossa vida, «até se tornar estrela que mostra os horizontes do nosso caminho» (Francisco, «A luz da Fé», 4).

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial
© Laboratório da fé, 2013

Décima nona semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.8.13 | Sem comentários
Ao ritmo da liturgia


Décima oitava semana


Enquanto quisermos ter mais, nunca teremos o suficiente

A sociedade do consumo está saturada, já consumiu os próprios consumidores. A felicidade que as coisas prometiam proporcionar revelou-se mais como fonte de ansiedade e até de infelicidade. Agora, os criadores de necessidades precisam de inventar maneiras de tirar proveito da crise e, esgotada a bolha imobiliária, criar novas necessidades de valor mais reduzido...
A vida consumista tem êxito porque todos ou quase todos continuam a deixar-se influenciar por esse estilo de vida: não haveria nenhum problema em usar um vestido antigo, se todos abdicássemos do que está na moda; não haveria nenhum problema em ter um carro antigo enquanto funcionasse; não haveria problema em ganhar menos do que o vizinho, se todos tivéssemos o suficiente para viver. Mas há! Porque vivemos de comparações, de inveja, da avareza, do desejo desmedido de ter cada vez mais.
Os cristãos, supostamente, deveriam ter uma atitude diferente, uma alternativa. Quem possui bens imperecíveis de alta qualidade, não deveria ter tanto interesse pelos bens materiais. Seria o fim da consumismo e do capitalismo! Mas o problema é que foram os cristãos que criaram (e continuam a alimentar) esta sociedade profundamente consumista.
Jesus Cristo convida a não viver dependentes da acumulação de riquezas sem fim, pensando que esse é o caminho da vida (DOMINGO: «O que preparaste, para quem será?»). Por esse caminho só se chega à infelicidade e à morte.
Nós, cristãos somos — teríamos de ser — pessoas que vivem de outra maneira, que põem em primeiro lugar as relações pessoais sinceras (SEGUNDA: «Jesus viu uma grande multidão e, cheio de compaixão»), o carinho (TERÇA: «Como é bom estarmos aqui!»), o gosto pela sobriedade, o desfrute da simplicidade (QUARTA: «Faça-se como desejas»), da beleza gratuita, da natureza, da vida em si mesma (QUINTA: «Feliz de ti»). Mas, para isso, é preciso «estar preparados» (SEXTA: «Entraram com ele para o banquete nupcial»): aprender o gosto da generosidade e do desprendimento (SÁBADO: «Dará muito fruto»), na família, na escola, na catequese...

Nesta semana, aprendamos que a «verdadeira riqueza» não consiste em ter muito, mas em aprender a viver com simplicidade, permitindo-nos ser mais desprendidos e generosos. Como é que o Evangelho ilumina as opções da minha vida?

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial
© Laboratório da fé, 2013

Décima oitava semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.8.13 | Sem comentários
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Décima sexta semana


Aprender a definir as (verdadeiras) prioridades

Geralmente, o evangelho convida-nos a estar ao lado de Marta: mãos à obra, a curar e a fazer o bem... até que compreendemos que Maria tem uma (enorme) parte da razão. Tudo o que fazemos é muito débil se não é sustentado por motivações fortes e convicções profundas. Embora não haja «melhor teoria do que uma boa prática», nós, cristãos, sabemos que há algo mais para além da prática, da ação.
Não podemos ter qualquer tipo de receio em reconhecer que o melhor é uma síntese entre a vida ativa e a contemplativa. Não nos faltam exemplos de equilíbrio entre estas duas atitudes!
O que acontece é que, enquanto sabemos bem o que a vida ativa representa, à volta do contemplativo surge sempre uma suspeita de infantilismo, de fuga à realidade, ou até de insanidade mental. Alguns santos tiveram que sofrer estas acusações.
É preciso aprender a dedicar algum tempo a educar a nossa mentalidade para uma atitude contemplativa sadia e frutuosa, aliás, a única capaz de dar um sabor especial à nossa maneira de viver. Basta estar atento para perceber que muitas vezes parece que não vemos mais nada à nossa frente senão o trabalho ou as coisas que temos para fazer (DOMINGO: «Andas inquieta e preocupada com muitas coisas»). Calma! É fundamental definir prioridades. E saber definir o que não se pode deixar de fora dos nossos horários, calendários, agendas e programações (SEGUNDA: «No dia do Juízo»). Quando nos ocupamos demasiado com o «urgente», é muito fácil descuidarmos o mais «importante» (TERÇA: «Permanecei em Mim»).
É preciso abrir espaço ao silêncio, à reflexão, à oração, ao diálogo em profundidade, à leitura (QUARTA: «Saiu o semeador a semear»), ao louvor, à ação de graças... Por que não recuperar ou incentivar à prática do «exame de consciência» (QUINTA: «Que queres?») ou de retiros espirituais? E, claro, também dedicar tempo à amizade, ao carinho (SEXTA: «Felizes os vossos olhos porque vêem e os vossos ouvidos porque ouvem!»), ao amor, à natureza, à beleza, à música, à estética... a tudo aquilo que alimenta a dimensão espiritual (SÁBADO: «boa semente») de cada pessoa, de cada um de nós.

Muitas vezes, o nosso ativismo não nos deixa tempo ou disposição para «perder» um bocado de tempo a sentir a presença de Deus na nossa vida. Procuremos refletir tranquilamente ao longo desta semana: Tenho disponibilidade para acolher Deus na minha vida?

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial
© Laboratório da fé, 2013

Décima sexta semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.7.13 | Sem comentários
Ao ritmo da liturgia


Décima quinta semana


O mundo está cheio de bons samaritanos!

Poderíamos apresentar centenas de parábolas de «bons samaritanos» que acontecem diariamente à nossa volta. Afortunadamente, o mundo está cheio de bons samaritanos!
Jesus Cristo sabia escolher bem os protagonistas das suas histórias. Ele como bom judeu sabia tocar na ferida... Um samaritano! Para os judeus, os samaritanos (apesar de serem da mesma religião) eram considerados como estrangeiros e inimigos.
O mais escandaloso é que depois de tantos séculos a repetir esta parábola, continua a existir gente que se comporta como o sacerdote e como o levita: não só ignorando o ferido, como também desprezando o samaritano. Basta olhar para as nossas comunidades!
Através da parábola do bom samaritano, Jesus Cristo não responde ao doutor da lei dizendo «quem» é o seu próximo, mas que ele é o próximo. A questão não é «quem é o meu próximo», mas «de quem é que eu sou próximo»? É a partir desta alteração feita por Jesus Cristo que temos de olhar a nossa maneira de proceder em relação aos outros.
«O Ano da Fé, que estamos a viver, constitui uma ocasião propícia para se intensificar o serviço da caridade (DOMINGO: «Faz isso e viverás») nas nossas comunidades eclesiais, de modo que cada um seja bom samaritano para o outro (SEGUNDA: «Se alguém der de beber»), para quem vive ao nosso lado» (Mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial do Doente).
Hoje, em concreto, na minha vida, quem é o meu próximo? O próximo está sempre aí, à minha frente. Acolhê-lo depende só de mim. Sempre que passo ao lado do sofrimento alheio, estou a afastar-me de Deus (TERÇA: «Começou Jesus a censurar duramente»). Mas sempre que me aproximo do outro para o ajudar, cada vez que me faço próximo de alguém, estou a aproximar-me de Deus (QUARTA: «Assim foi do teu agrado»). Quando supero o meu egoísmo (QUINTA: «Aprendei de Mim») e ponho o outro no centro da minha vida (SEXTA: «Eu quero misericórdia e não sacrifício»), estou a construir um mundo mais humano, isto é, mais divino (SÁBADO: «As nações colocarão a esperança no seu nome»).

«Faz isso e viverás». Esta semana, somos convidados a reconhecer que ainda temos muito a aprender com Jesus Cristo. A única dignidade que conta aos olhos de Deus, a única doutrina que lhe agrada é a misericórdia.

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial
© Laboratório da fé, 2013

Décima quinta semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.7.13 | Sem comentários
Ao ritmo da liturgia


Décima quarta semana


Sempre a partir do Evangelho

Seguir Jesus Cristo e estar à sua disposição (ser «missionário») tem uma técnica! Sempre a partir do Evangelho, claro, é preciso aprendê-la e renová-la continuamente.
Evangelizar não é algo que acontece espontaneamente: ou porque não sabemos como fazê-lo, ou porque temos vergonha, ou porque somos preguiçosos... Por isso, é tão importante uma comunidade que te acolha; e que também te estimule, que te «obrigue» a ser consequente com a tua fé professada.
Quanto às técnicas... não seria hora de mudar alguma coisa depois de dois mil anos? Podemos continuar com os mesmos ritos medievais, mesmo que agora o façamos em português? Podemos continuar a falar, hoje, como o fazia São Tomás de Aquino, num tempo em que não havia internet? Quanto tempo vamos continuar a viver «cristalizados»? 
Na evangelização, existe muita rotina e muita repetição. Atualmente, fala-se de uma «nova evangelização». Mas porque não começamos pelas raízes, corre-se o risco de se ficar por uma nova frustração (a dizer que a culpa é sempre dos outros).
Como vivo, no dia a dia, a dimensão missionária da fé? 
Seguir Jesus Cristo não é só para a nossa realização pessoal, mas para fazer com que se torne presente o reino de Deus (DOMINGO: «Está perto de vós o reino de Deus»).
Eis alguns conselhos (diários) para concretizar esta missão: antes de começar, deixa que o teu coração se encha de Deus (SEGUNDA: «Tem confiança»); invoca a sua presença, na oração (TERÇA: «Pedi ao Senhor da seara»); para ser eficaz, é preciso escutar as pessoas, conhecer os seus problemas, a começar pelos mais frágeis e pelos que estão mais afastados (QUARTA: «Ide primeiramente às ovelhas perdidas»); pratica boas obras (QUINTA: «Receberá cem vezes mais»), pois nada convence mais do que o exemplo de vida; não te conformes com a caridade: procura e combate as causas do mal (SEXTA: «Aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo»); podes fazer tudo isto sozinho, mas é muito melhor acompanhado, a começar pela companhia de Jesus Cristo (SÁBADO: «Também Eu Me declararei por ele»).

Não te preocupes demasiado com os resultados. Ao longo desta semana, deixa-te iluminar por esta máxima: «A vossa alegria não depende dos resultados, mas de saber que os vossos nomes estão escritos entre os que trabalham pelo reino de Deus, como Jesus Cristo».

A elaboração deste texto foi inspirada na obra de José Luis Cortés, El ciclo C, Herder Editorial
© Laboratório da fé, 2013

Décima quarta semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.7.13 | Sem comentários
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