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A missão no Laboratório da fé


Era noite, a rua estava deserta. O frio vagueava por todo o lado. Um velho, descalço e sujo cantava na rua esta canção:

Menino de rua
Perdido na lama escura.
Olhando a lua,
o único gesto de doçura,
que o Criador Te deu.
Estás só, sem ninguém.
A guerra deixou-te órfão,
sem amor de pai nem mãe
à procura de uma mão
que te dê um pouco de céu.
A alegria que me dás,
é o sorriso que não tenho
e que tua alma leda traz
sempre que ao teu encontro venho.
Vou partir!
Levando o teu sorriso.
Um dia voltarei...
Para amar
O que não amei.
Voltarei...
Não para ser mais um
Mas para ser contigo...

Parei para ouvir aquela doce melodia, que me trouxe paz à porta da vida. Não lhe dei moedas. Em silêncio sentei-me ao seu lado.
— A canção é verdadeira, perguntei-lhe eu.
— É, respondeu ele, com um olhar mais triste, do que a noite que nos envolvia.
— Estou a ver que já foi aventureiro.
— Foi à muito tempo. Era eu jovem e sonhador. Andava na universidade e até pensei em ser um grande homem. Parti, como voluntário para a Angola e em 2 meses realizei o maior sonho da minha vida. Amar sem medida, andar com os bolsos vazios e com o coração cheio de felicidade. Dormi na rua, ao lado de crianças abandonadas. Comi com elas, os restos que deitavam no contentor da Mutamba. Senti que não era ninguém e que era tudo ao mesmo tempo. Um dia, num abrigo encontrei o menino mais maravilhoso que conheci até hoje. Chamava-se Jerry, era um nome americano que ele tinha adoptado, quando viu pela primeira vez televisão. Jerry, tinha 10 anos, era engraxador de sapatos e lavava carros em frente à Assembleia Nacional. Ganhava para comer uma baguete com atum. Aquele miúdo era deslumbrante. Tinha uma alegria invulgar e era verdadeiramente companheiro daqueles que tinham tido a mesma sorte que ele. Os pais tinham morrido na guerra. Ele tinha sido levado para o campo de refugiados de Viana, que ficava a 20 quilómetros de Luanda. Como não tinha comida, decidiu fugir para a cidade e ali estava como um dos sobreviventes das noites frias e dos balas sem compaixão... Ensinei-lhe algumas letras e até lhe dei aulas de boas-maneiras, para pedir dinheiro aos senhores ricos que dormiam nos hotéis da cidade. Ele aprendia tudo e pagava os favores que lhe faziam com um sorriso profundo que tocava bem lá dentro... Aprendi muitas coisas com ele. No dia do meu regresso a Portugal fiz-lhe uma promessa, que um dia havia de voltar para sempre. Tenho gravado no meu coração o olhar dele. No dia em que me vim embora, senti que alguém tinha morrido para ele e via o caixão partir. Abanou as mãos para dizer adeus e deixou as lágrimas como sinal de despedida. No percurso que fiz para o aeroporto não disse uma palavra, foram quilómetros de olhares perdidos em recordações que cheiravam a saudade. A noite apoderou-se de mim e levou-me, mais uma vez, a repensar o porquê de partir, quando ainda muito havia para partilhar. A única coisa que me deu ânimo foi a promessa que lhe tinha feito, mas...(as lágrimas lavavam a cara do velho).

Missão no Laboratório da fé, 2013 — Padre João Miguel Torres Campos

— Bonita história! Disse-lhe eu para não o fazer chorar mais.
— Disse bem, história! Porque eu nunca cumpri a promessa que fiz. E isso, marcou para sempre o meu destino. Eu trabalhei durante muitos anos num orfanato, até ao dia em que fui despedido. E com isso, foi pagando um pouco da dívida que tinha para com o Jerry. Amei outros como ele. Gostei da vida que tive. O meu mundo tornou-se mais eloquente quando abri os braços e fui pai e mãe de quem necessitava do meu amor, do meu sorriso e carinho
— A vida tem destas coisas. Nem sempre podemos medir o futuro como queríamos. Não podemos parar no tempo e medir as coisas pelo lado sentimental, temos que deixar falar os acontecimentos que impossibilitaram o cumprimento dessa promessa, mesmo que isso lhe custe muito.
O Jerry, foi para mim, uma forma bonita, completa, de viver a vida. Ele não era noite, mas era sempre madrugada a raiar no nascer de cada dia e que tocava em mim música de felicidade, mesmo quando a tristeza batia à porta da vida. Ninguém como ele me ensinou a viver. Agora deixo-o bailar em mim, mesmo quando já não dançamos a mesma música, embora tenha a certeza que nos tocamos mutuamente. Acredito que ele é a voz e a palavra que nunca irão acabar, por isso ele ainda continua a ser nas minhas canções. Agora canto nesta rua a história que mudou a minha vida. A história do menino de rua, para que outros como eu amem as crianças. Amem os Jerry’s que andam por aí.

Padre João Miguel Torres Campos

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.7.13 | Sem comentários

A missão no Laboratório da fé


Eram 5h30 da manhã quando bateu à porta da casa velha da missão o mundo despedaçado do Fernando. Vinha «mal doente» da vida. Sentou-se numa velha cadeira e soltou os gritos que moravam dentro de si. Quando alguém está sofrer e vai à casa do mais velho (presbítero) este deve cumprir um velho ritual macua de o ouvir como se ouve o leito de um rio habitado por crocodilos.
Contou-me que durante a noite, quando regressava de casa de familiares encontrou a sua esposa, na intimidade com outro homem. Tal crime teria que ser lavado com sangue dizia-me ele. Na sua tribo quando alguém dorme com a «mulher do dono» deve ser decapitado.
Fernando tinha sido catecúmeno durante mais de 10 anos. Tendo terminado os ritos de iniciação nunca era eleito para o batismo, porque o seu comportamento não era o de um cristão, diziam os anciãos da comunidade. Depois de ter feito várias conversões da sua vida foi eleito para o batismo. Nesse mesmo dia contraiu matrimónio com a sua esposa. Eram casados catolicamente à 14 anos e viviam juntos à mais de 20 anos.
Fernando tinha um enigma dentro de si quando me veio consultar. Se decapitasse aquele homem e despedisse a sua esposa de casa cumpria as regras da tribo e seria honrado por todos. Se perdoasse à sua esposa e ao seu amante revelaria que era um verdadeiro cristão, mas teria que aguentar a troça e as injúrias dos responsáveis da sua tribo. Depois de conversarmos durante algum tempo disse ao Fernando que ele deveria escolher a que família queria pertencer ou à sua tribo ou aos cristãos. A escolha era dele. Não valia ficar no talvez. Passadas três semanas o Fernando morreu de malária.
Fui visitar a sua comunidade no dia em que iam colocar a cruz onde jazia a sua memória. Nestas comunidades cristãs africanas nem todos quando morrem têm direito a cruz no cemitério. Só tem direito quem soube carregar a cruz de Cristo na sua vida e foi fiel aos compromissos do seu batismo. Essa decisão era tomada pelo conselho da comunidade. Nesse dia tive conhecimento da escolha do Fernando. Ele decidiu perdoar à sua esposa e ao seu amante. No cemitério de Marrera a maior cruz é a do Fernando.

Seguir Jesus Cristo — Páscoa — Laboratório da fé

Há um mistério para lá de todos os caminhos, do qual tentamos aproximar-nos. Aquilo que vemos só vale a nossos olhos por aquilo que nos olha. Só podemos pensar e ver a partir da experiência do tocar. Nós somos aquilo que nos aparece, o que nos acontece e que vamos sendo. Neste vamos sendo à necessidade de viver cada história mais por dentro do que por fora. Esta história do Fernando é o mais belo retrato que conheço do seguimento de Jesus Ressuscitado.
A Páscoa fala de tudo o que pulsa, tudo o que vibra, tudo o que chora e canta, tudo o que viceja e floresce, tudo o que é húmus/humano, tudo o que é Terra. Fala da solidão, do desencanto, da angústia, da alegria, do encanto e da entrega. Fala que a dor e a morte, sempre presentes, não têm a última palavra!
A história do Fernando ajuda-me a refletir que é preciso voltar a Jesus Cristo, ao que ele foi, é, quis e quer. Realmente, como escreveu o teólogo Hans Küng, os cristãos são os que acreditam em Jesus Cristo: «São aqueles que fazem parte da comunidade dos que se entregaram e entregam a Jesus e à sua causa e a testemunham com energia como esperança para o mundo».
Trata-se de imitar Cristo. Imitar Cristo não é adotar um aspeto. É repetir um processo ao mesmo tempo ungir o Cristo, como Maria Madalena e ser lacerado, crucificado. O «parecer» cristão é a procura do contacto, da indicialidade, do testemunho carnal, do martírio.
A Páscoa devia tornar-nos próximos uns dos outros. Deveria possibilitar sermos habitados pelo perdão e pelo amor. O ódio é anti-páscoa.
Recordo-me de uma história que ouvi de um velho macua, que em Motobo, no Gabão, os Ku crêem que o único modo de acabar com o sofrimento é salvar uma vida. Se alguém for assassinado, um ano de luto acaba com um ritual que se chama «Julgamento do Afogado». Há uma festa que dura toda a noite junto ao rio. Na alvorada, o assassino é colocado num barco, levado para a água e largado. Fica amarrado para não poder nadar. A família do morto tem então de fazer uma opção. Podem deixá-lo afogar-se ou podem nadar para salvá-lo. Os Ku crêem que se a família deixar o assassino afogar-se terão justiça, mas passarão o resto da vida de luto. Mas se salvarem, se admitirem que a vida nem sempre é justa esse mesmo ato pode afastar o seu sofrimento. A vingança é uma forma preguiçosa de luto.
A Páscoa devia ser um ‘talante’ de vida. Que devia fazer vibrar os afetos, gerar laços vitais, mobilizar a inteligência e interpelar a liberdade. A Páscoa devia tornar-nos próximos uns dos outros. Segundo a sua etimologia, o termo latino «proximus» é um superlativo da palavra «prope» que significa perto. Próximo significa, portanto, «mais perto», «muito perto». É esse o significado que a palavra próximo tem, mais ou menos, em todas as línguas. Contudo há uma mudança de sentido quando se passa da distância para a proximidade, como diz a carta aos Efésios (2, 13), falando do renascimento em Cristo:« Vós, que outrora estáveis longe, agora estais perto (próximos)».
Não sei se estamos mais longe ou mais perto da Páscoa do que os cristãos de Éfeso. O tempo da Páscoa é um tempo diferente. Não é o tempo segmentado de «chrónos», em que se sucedem os dias e as horas, mas um tempo novo e insuspeito, que a Bíblia chama «kairós», que se mede, não pela quantidade, mas pela qualidade, não pelo que passa, mas pela plenitude: trata-se da enchente da Palavra de Deus que, inundando a nossa vida, reclama a nossa resposta amante e transforma a nossa vida em momentos de escolhas difíceis.

Padre João Miguel Torres Campos

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.4.13 | Sem comentários
— Laboratório da fé na missão —

A vida em África é movida pela corrente da aventura, do desprendimento e do carinho que depositamos e recebemos das pessoas. Todos os dias são importantes, mas o domingo reveste-se de um carácter especial.
No mês de Fevereiro, equipa missionária da Missão do Chiúre planeou algumas visitas ao domingo a diversas comunidades. Todas as visitas foram deslumbrantes. Todavia, uma delas marcou-me muito pela sua singularidade. 
No primeiro domingo de Fevereiro, estava destinada a visita à comunidade de Ntonhane. Levantei-me bastante cedo, porque a distância era bastante longa. O Pe. José Marques, um dos missionários que está comigo, continuava doente. A sua doença prolongada, impossibilitou-o de ir visitar a comunidade de Mujipala e mandou avisar que não iria. 
Informaram-me do percurso para chegar até Ntonhane. Avisaram-me, que quando chegasse à aldeia do Chiúre Velho, devia mudar de direcção, junto a umas mangueiras, onde várias mulheres habitualmente vendem mangas. Quando cheguei à aldeia do Chiúre Velho, o meu guia informou-me que a aldeia era enorme e que as casas estavam escondias no meio da mata, o que nos impossibilitava de perguntar a alguém a direcção para Ntonhane. Andei cerca de 40 km à procura das mangueiras e das vendedoras de mangas. Descobri mais tarde, que naquele domingo não foram vender mangas e como todo o percurso tinha mangueiras foi difícil descobrir o verdadeiro caminho. O meu guia de viagem só conhecia o caminho até ao Chiúre Velho. 
Voltamos para trás e quando estávamos a chegar ao início do caminho, que nos induziu em erro, vimos alguém que nos mandou parar. Era o animador de uma comunidade próxima dali, que logo se prontificou a guiar-nos até Ntonhane. 
O caminho era de terra batida. Estava muito degradado e não se viam sinais de outros carros, que tivessem passado por ali nos últimos dias. Andei cerca de 1 hora até chegar à comunidade, que esperava por mim em festa.






Quando cheguei saudei toda a gente. A saudação é para este povo um sinal de alegria e de agradecimento pela visita do padre, por isso, toda a gente quer cumprimentar o padre. Tocar no padre é receber uma benção, segundo os seus costumes. Além dos cristãos, estavam presentes muitos catecúmenos, simpatizantes da Igreja católica, alguns curiosos e bastantes membros da comunidade muçulmana. Os muçulmanos gostam de estar presentes, porque para eles, a visita do padre é importante para toda a aldeia e não só para os cristãos. 
Combinei com os animadores da comunidade o programa da visita. Começamos com uma celebração penitencial, na qual se convidaram os cristãos a reconciliarem-se com Deus. Este grande encontro de reconciliação durou cerca de duas horas. Entretanto, o animador do canto pediu autorização para ensaiar os cânticos com toda a assembleia para a Eucaristia. A animador da comunidade pediu para falar comigo, antes da celebração. Vinha consigo o animador zonal. Notei que ele estava cansado e muito preocupado.

— Sr. Padre a comunidade de Ntonhane está à sua espera, disse-me o animador zonal. 
— Eu estou em Ntonhanne, respondi eu ingenuamente. 
— Não Sr. Padre, está em Mujipala, respondeu ele com um sorriso. 
— Houve confusão!! O animador que veio consigo sabia que um padre vinha para Mujipala, mas não sabia que outro padre iria para Ntonhane. Ora como Mujipala faz parte da zona de Ntonhane, ele pensou que era esta a aldeia que vinha visitar. Alertou o animador da comunidade de Mujaja.
— Mujipala ia ser visitada pelo Pe. José Marques, mas ele continua doente e mandou ontem um recado, por um catequista, disse eu. 
— Como sabe Sr. Padre, ontem houve uma tempestade e o catequista não conseguiu chegar aqui com o recado, disse o animador zonal. 
— Agora não me posso ir embora. Avisem a comunidade de Ntonhane que depois de terminar aqui a visita, vou lá. Entretanto façam a celebração da Palavra, como é costume, que eu depois farei uma celebração penitencial, confissões e distribuição da comunhão.

O animador zonal partiu logo. Alertei os principais responsáveis da comunidade de Mujipala para celebrarmos sem atropelos, mas para não demorarmos muito tempo, porque a comunidade de Ntonhane estava á minha espera. Iniciamos a celebração eucarística com a alegria habitual, que este povo coloca nas coisas de Deus. A celebração durou 2h30m. Não durou muito tempo, para aquilo que é habitual neste tipo de visitas. No fim da Eucaristia, os responsáveis da comunidade apresentaram alguns problemas relacionados com a vida da comunidade. Eu ouvi e aconselhei segundo os princípios do Evangelho. Pediram-me para almoçar, mas tive que recusar, pois os nossos irmãos de Ntonhane estavam á minha espera. Todos compreenderam, pois como alguém disse “os de Ntonhane são também filhos de Deus”. 
Parti com o coração cheio de olhares e sorrisos. Pelo caminho em direcção a Ntonhane ia a pensar no meu atraso de 6 horas e nos 15 Km que ainda tinha que percorrer pelo mato. Como me iriam receber? Iria encontrar a capela com alguém? 
Quando cheguei a Ntonhane os meus olhos deixaram cair algumas lágrimas. Era uma multidão de gente que se tinha colocado de um lado e do outro do caminho. Todos batiam palmas e diziam: “bem-vindo padiri”. Ninguém tinha ido embora, porque todos queriam ver o padre e receber o perdão de Deus. Muitas destas comunidades não viam o padre há mais de 3 anos. 
Saudei individualmente toda a gente. Eram mãos magras e rostos ressequidos pela fome, mas com um sorriso de quem sabe o profundo sentido da vida. Depois de pedir desculpas, pelo meu atraso, iniciei a celebração penitencial. Foram muitos os que receberam o perdão de Deus. 
No fim da celebração, os animadores da comunidade apresentaram um relatório das suas actividades, assim como, os responsáveis dos vários sectores da pastoral. Alguns cristãos apresentaram-me alguns problemas que eram necessários serem resolvidos na presença do padre. 
A noite começava a cair quando o animador zonal me disse que o “almoço” estava pronto. Mataram um leitão para festejar a visita comigo. Comi rodeado de vários representantes da comunidade, que me encheram de alegria pela sua simplicidade e humildade. Muitos esperaram por mim, para me darem os últimos agradecimentos. 
Parti, para a sede da missão, com um gozo interior, que as palavras não conseguem explicar...

Padre João Miguel Torres Campos

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.3.13 | Sem comentários

— colaboração do Padre João Miguel Torres Campos —


— Vaheja

Quando viu que era eu que estava ali, pediu-me para que eu encostasse o meu ouvido à sua boca, para me comunicar alguma coisa. Falando muito baixinho e pausadamente disse-me: “Padiri, quero me baptizar e comer o Cristo que tu ofereces aos cristãos”. Perante, aquele pedido, que para mim parecia ser o último da sua vida, disse-lhe que ia à missão buscar o pão e o vinho e que não me demoraria muito. > > >

 

— O Natal em Moçambique

No meio da savana africana, não há lojas com luzes, não há música nas ruas, não há frio nem hipermercados para se comprar presentes. Não há mesas cheias de bolos, de rabanadas e de champanhe. Não há bacalhau nem bom azeite e vinho. Alguns poderiam dizer que aqui não há Natal. Mas, mesmo longe de casa, dos meus familiares e amigos, nunca vivi o Natal de forma tão profunda. Porque me despedi do supérfluo, daquilo que poderia ajudar a viver melhor o Natal, mas que não é Natal. > > >

— Na descoberta do Deus verdadeiro

Nunca pensei que um sacerdote muçulmano e um sacerdote católico conversassem como velhos amigos sobre assuntos que noutros tempos eram blasfémias para ambas as partes. Como é belo entrever no outro crente um irmão a conhecer, respeitar e a amar, para darem – em primeiro lugar naquela terra – um bom testemunho de serena convivência entre filhos de Abraão. > > >

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.1.13 | Sem comentários
— A missão no laboratório da fé —

Vaheja morreu há oito anos. Recordo o dia em que me veio pedir ajuda. Eram 6 horas da manhã, quando abri a porta da minha velha casa paroquial e a vi ali sentada a chorar como uma criança. Era magra e parecia que já não comia à vários dias. Mal ouviu o barulho da porta a abrir-se, disse a choramingar: “Padiri estou só. Não tenho nada, nem mãe, nem irmãos. Não cheguei a conhecer o meu pai. Estou sozinha neste mundo. A única pessoa que tinha, que era a minha tia, morreu ontem à noite”. Olhei para ela e tentei acalmá-la, mas ela estava com demasiada escuridão na sua vida, para entender o pequeno raio de sol, das minhas palavras.
Continuava ali a chorar e de repente como que a gritar a sua própria perdição, disse: “Quero morrer. Quero morrer depressa. Quero tomar veneno, dá-me dinheiro para comprar a minha morte. Sabes, se tivesse tido um pai e uma mãe como tu tiveste, hoje não teria a minha vida arruinada aos 22 anos. Diz-me, porque é que não tive a graça de ter um pai e uma mãe, como tu tiveste?”. Não tinha palavras para dar uma resposta. Perante a dor de alguém sentimo-nos, muitas vezes, vazios por dentro. Naquele momento, o rosto do meu pai e da minha mãe estavam espelhados nas suas lágrimas. Descobri, mais tarde que ela não queria uma resposta de palavras, mas que o cumprimento da minha missão de pastor fosse a resposta ao seu sofrimento.
Vaheja, era o seu nome, que em makhua quer dizer “não tem sorte”. Era órfã de pai e de mãe. Ambos tinham morrido de SIDA, quando ela ainda era criança. Foi entregue aos cuidados de uma velha tia. Era uma rapariga inteligente, mas como não tinha dinheiro foi vítima da prostituição. Alguns professores, mesmo que os alunos sejam inteligentes, exigem dinheiro para ficarem aprovados na sua disciplina. As raparigas que não têm dinheiro, oferecem o seu corpo como moeda de troca. Um desses professores, que violou a inocência de Vaheja, estava infectado com HIV/SIDA. Muitas histórias como esta, estão espalhadas por este Moçambique fora. Parece que não há regras e as meninas ficam entregues à sua própria sorte. Depois de conversar um pouco com ela. Levei-a ao hospital para verem qual era verdadeiramente o seu problema. Estaria com malária ou tuberculose, pensei eu naquele momento. Nem sequer, imaginei que poderia estar infectada com o vírus da SIDA. Ficou internada num hospital a 30 Km da sede da missão.
Passados alguns dias, escreveram-me um bilhete do hospital, que dizia friamente. “Padre, venha buscar a doente que aqui deixou. Ela tem SIDA. Não a queremos aqui.” Fui buscá-la com o animador da caridade, da comunidade cristã, onde ela e a tia tinham vivido. Quando alguém fica muito doente e não tem família é a comunidade cristã, que tem de cuidar dela. Deixei-a na sua antiga casa e pedi a toda a comunidade cristã, que enquanto ela estivesse ali, o sacrário da comunidade era ela. Por isso, deviam visitá-la, alimentá-la, como se fosse o próprio Corpo de Cristo, que estivesse ali exposto para adoração de todos.


Todas as semanas a comunidade mandava um mensageiro, para me informar como estava Vaheja. Fui visitá-la algumas vezes. Das últimas vezes que a visitei, sabia que ela não duraria muito mais tempo e ela tinha consciência disso. No seu rosto viam-se todos os ossos faceais, como se fosse uma caveira revestida de pele. Mesmo assim, conseguia sorrir. Eu não falava muito, para que ela não se cansasse. Sentava-me na esteira a contemplar aquele Cristo em grande sofrimento.
Quando viu que era eu que estava ali, pediu-me para que eu encostasse o meu ouvido à sua boca, para me comunicar alguma coisa. Falando muito baixinho e pausadamente disse-me: “Padiri, quero me baptizar e comer o Cristo que tu ofereces aos cristãos”. Perante, aquele pedido, que para mim parecia ser o último da sua vida, disse-lhe que ia à missão buscar o pão e o vinho e que não me demoraria muito.
Corri a grande velocidade para a sede da missão. Sabia, que não podia perder tempo, pois podia chegar tarde. Quando cheguei à comunidade, já tinham arranjado uma madrinha para a Vaheja e um pequeno altar, que colocaram dentro da sua palhota. Baptizei Vaheja e celebrei a Eucaristia, partilhamos o pão como os discípulos de Emaús. Quando lhe dei o Corpo de Cristo, senti uma lágrima sua a cair nas minhas mãos. No fim, da celebração adormeceu com uma expressão de felicidade gravada no seu rosto. No dia seguinte, morreu nos braços da sua madrinha de baptismo.
O mundo é muito mais terrível do que imaginamos e as pessoas são muito mais bondosas do que pensamos. Neste Moçambique há tanta gente que dá do melhor de si, para que as Vahejas que aqui existem, tenham um futuro melhor, tenham mais sorte. Este povo tem uma solidariedade que ultrapassa a noção real da palavra.
Somos capazes de arranjar muitas e muitas coisas para os pobres, de levantar muitas obras para os pobres. No entanto vivemos distantes deles, nunca comemos com eles o pão da amargura, o pão da angústia, o pão da dor, o pão da miséria, o pão da solidão, pão das dificuldades de cada dia, o pão da fome. Senti, que o que Vaheja queria era que eu também comesse o pão do sofrimento com ela. Que fosse no exercício do ministério sacerdotal, que me está confiado, o pai daqueles que não têm ou que precisam dele. Por isso, é que ela me chamava “padiri”, papá, paizinho. Hoje agradeço-te Vaheja por essa grande lição que me ensinaste. Ser pai dos que não têm sorte...

Padre João Miguel Torres Campos

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.1.13 | Sem comentários
— Laboratório da fé na missão —

A missão do chiúre, onde estive, ficava em plena savana africana, a 160 Km da cidade de Pemba, no norte de Moçambique. A comunidade mais longínqua ficava a 120 km da sede da missão. Ali tudo era simples e profundo. Era também um mundo pobre, atormentado por muitas carências...
Ficar nas aldeias e sentir o calor humano do povo ajudou-me a entender, que a minha presença no meio deles foi um sinal de esperança. Por isso, no meio de tanta miséria, a minha vida teve sentido. Ali, as razões de viver prendem-se ao essencial e àquilo que é prioritário para se ser feliz.
A vida no mato é amarga e dura... mas os dias são felizes, amassados com lágrimas e suor e regados com alegrias e encantos. São dias de paraíso nas mãos de Deus. Quero-vos contar um pouco como foi o meu primeiro dia de Natal em Moçambique. 

Saí, de manhã bem cedo, para Ocua, comunidade que ficava a 30 Km da missão. Receberam-me com cânticos, palmas e com um sorriso de quem estava muito feliz. Para estes cristãos, é uma graça de Deus, terem Eucaristia e a presença do padre no dia de Natal. Depois, de cumprimentar os responsáveis pela comunidade e grande parte das pessoas ali presentes, começamos a distribuir tarefas para que a festa fosse um momento de alegria para todos. 
Iniciamos com a oração da manhã, seguida de uma celebração penitencial. Reconciliaram-se cerca de umas 70 pessoas. A grande maioria, não sabe falar português, fala o dialecto local, que é makhua. Desde que cheguei a Moçambique aprendi bastantes palavras em makhua, o que me permitiu perceber algumas palavras. Tinha um pequeno bloco de notas, com a listagem dos pecados em makhua e alguns conselhos para os poder ajudar a serem mais humanos e melhores cristãos. Enquanto, algumas pessoas celebravam o sacramento da reconciliação, os animadores do canto ensaiavam os cânticos para todos poderem cantar. 
A Eucaristia, é uma grande festa para este povo. São pobres e miseráveis nos caminhos da vida, mas alegres e felizes na relação com Deus. Estava uma multidão de gente. A capela era demasiado pequena. Celebramos ao ar-livre, debaixo de um cajueiro, por causa do sol. Para que todos se sentissem bem e participassem activamente, fiz todos os diálogos da Eucaristia em makhua. É certo, que antes, pedi-lhes desculpas, por não saber ler, tão bem como eles e para me perdoarem algumas falhas. Todos foram compreensivos e ficaram contentes, pelo meu esforço em pronunciar alguns dos seus sons. A homilia foi feita em português e traduzida para o dialecto local. A grande festa, começou às 9h40 e terminou por volta das 11h30. As danças, os cânticos, os símbolos, os silêncios... foi algo de tão eterno, que mais uma vez, compreendi que ainda sou muito pobre... 

Terminada a grande festa com Deus e depois de termos saudado o menino Jesus, deu-se início a uma reunião para toda a comunidade. Estas reuniões, eram momentos muito importantes para toda a comunidade. Nelas apresentavam os problemas que os atormentavam. Os discursos foram lidos pelo animador da comunidade e pelo responsável dos jovens. O resto da comunidade permaneceu em silêncio profundo. Olhavam para mim, para o animador paroquial e para o animador zonal, observando a nossa postura, perante as palavras dos seus representantes. Eu escutei com muita atenção, para mais tarde comunicar ao conselho da missão tudo quanto ali foi dito. Aqui, a pastoral comunitária é uma realidade viva. A comunidade interfere seriamente nos diversos problemas que afectam todos. Não existem manifestações nem actos de terrorismo paroquial.

Os tambores, as danças, as peças teatrais e os cânticos abrilhantaram o resto da manhã, até às 13h15. Estava eu a tirar algumas fotografias, quando me avisaram que o almoço estava pronto, chimá (farinha cozida) com galinha. Não foi nenhum almoço farto, mas o amor que aquela gente colocou naquela refeição alegraram-me tanto que foi como se tivesse comido caviar ou cabrito. Muitos esperaram que eu terminasse a refeição, para se despedirem. Para me apertarem a mão e darem-me um sorriso sincero e profundo. Era esse único presente que me podiam dar e podem ter a certeza que nunca recebi presentes tão grandes. Senti, mais uma vez, o carinho de um povo pobre, mas com um coração muito rico. 

No meio da savana africana, não há lojas com luzes, não há música nas ruas, não há frio nem hipermercados para se comprar presentes. Não há mesas cheias de bolos, de rabanadas e de champanhe. Não há bacalhau nem bom azeite e vinho. Alguns poderiam dizer que aqui não há Natal. Mas, mesmo longe de casa, dos meus familiares e amigos, nunca vivi o Natal de forma tão profunda. Porque me despedi do supérfluo, daquilo que poderia ajudar a viver melhor o Natal, mas que não é Natal. 
Aqui as luzes de Natal dão lugar aos milhares de pirilampos que invadem todas as noites a missão; a música das ruas dá lugar ao batuque, que soa durante todas as noites para avisar que o grande Deus vai nascer. A comida farta das mesas dá lugar à farinha cozida (chimá) amassada com amor e lágrimas de alegria, por se festejar o nascimento do grande Deus. As minhas palavras são demasiado pobres para vos dizer todo o encanto de um Natal passado em África, com quem nada tem e tem tudo.

Padre João Miguel Torres Campos

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.12.12 | Sem comentários
— A missão no laboratório da fé —

Numa das minha visitas às comunidades da missão de Ocua, no Norte de Moçambique tive a oportunidade de conversar com o chefe da mesquita local. Era um velho muito simpático que com muita gentileza veio-me saudar. Pedi-lhe que se sentasse e conversasse um pouco comigo. Contou-me as novidades de casa e da sua comunidade muçulmana e eu contei-lhe como estavam as comunidades cristãs na missão de Ocua. Chegamos à conclusão que onde há pessoas há problemas e alegrias.



Nunca pensei que um sacerdote muçulmano e um sacerdote católico conversassem como velhos amigos sobre assuntos que noutros tempos eram blasfémias para ambas as partes. Como é belo entrever no outro crente um irmão a conhecer, respeitar e a amar, para darem – em primeiro lugar naquela terra – um bom testemunho de serena convivência entre filhos de Abraão. Tanto eu como o Alid Abdul (sacerdote da Mesquita de Ocua) professamos seguir a fé de Abraão e adoramos o Deus único e misericordioso. Em vez de instrumentalizarmos em conflitos sem fim, injustificáveis para um verdadeiro crente – abrimos a porta da nossa vida com um coração puro, deixando que a paz nos alcance e o respeito e tolerância nos abrace.
A conversa ia percorrendo o seu caminho habitual quando de repente dei-me conta de que estávamos a conversar sobre o Deus verdadeiro e o sentido da vida. Nem ele nem eu dissemos o nome desse Deus.
Na sua simplicidade o chefe da mesquita disse-me com os olhos a brilharem e com um sorriso profundo: «sabe padre, o Deus verdadeiro encontra-se no meio dos pobres, nas maravilhas da natureza, no meio da simplicidade das vidas que tocamos... e ai encontramos o sentido da vida, porque encontramos Deus». Nunca imaginei ouvir aquelas palavras tão sábias, sobre as quais tenho meditado muito... É no meio da humildade, nos gestos pequenos e no silêncio que os pobres nos oferecem que lá podemos descobrir Deus. Dizia ainda aquele velho muçulmano: «muitos homens são infelizes, porque trocaram Deus por uma mentira que eles próprios inventaram».
Todo o ser humano procura um sentido para a sua vida, um caminho que o ajude a ser feliz. Todos andamos à procura de um sentido verdadeiramente real que nos possa encher o coração, que nos dê vontade para abrir os olhos cada manhã e olhar com confiança o dia que Deus nos dá. Dentro de cada um de nós há sempre um desejo de ser melhor, de amar mais os outros, de realizar qualquer coisa de diferente. Contudo, o corre-corre da vida dá-nos uma rotina tão complexa, que não nos dá tempo para pensarmos no que andamos a fazer, para descobrirmos o Deus verdadeiro, que nos habita...
Há bastante tempo que todos os dias de manhã e de tarde sigo um conselho daquele sacerdote muçulmano, que me disse como uma confidência, como sendo um dos seus maiores segredos para começar e terminar o dia a pensar no Deus verdadeiro e no sentido da sua vida. Dizia ele: «padre todas as manhãs contemplo o nascer do dia, encho-me daquela beleza e faço uma promessa a Deus para cumprir naquele dia. Quando chega o pôr-do-sol volto a contemplar aquela maravilhosa despedida do sol e agradeço a Deus a realização da promessa ou peço-lhe perdão por não a ter realizado». A contemplação destas maravilhas de Deus ajuda-me a encontrar e a descobrir o Deus verdadeiro na natureza e no meio dos pobres, porque a minha promessa a Deus é sempre a mesma: «Deus, hoje vou ser mais acolhedor, vou dialogar mais para me encontrar e encontrar-Te no meio dos meus irmãos».
Muitos seres humanos têm dificuldades de encontrar o Deus verdadeiro, porque não sentem a experiência d’Ele nas suas vidas, porque nunca pararam para contemplar as maravilhas de Deus, porque nunca falam com Ele da sua vida. Deus é tanto ou mais para eles na medida em que os próprios são para Deus.
Para alguns Deus não passa de uma utopia humana, para vivermos felizes com essa ideia. Não querem que a ideia de Deus os inquiete e por isso ignoram-no ou dizem que Ele é um mito ou uma utopia da fraqueza humana. Para estes Deus é uma espécie de juiz que eles não querem enfrentar, por isso o mais fácil é negar a Sua existência. Negando Deus negam-se a si próprios.
Quando não procuramos Deus, a vida é um lugar frio, rotineiro, azedo, viciado e cáustico. Em que a pessoa sente, a escuridão de si mesmo, a opressão e o horror da falta de sentido, vê a sua vida como um nada a ser lavada no mundo do absurdo e do desencanto. Perde o horizonte e a referência que lhe dava segurança. Perde por momentos calor humano da vida. Então sente o frio do abandono e da tristeza. Tudo parece perdido. É como uma gaivota que voa sem rumo...
Não existe nenhum remédio para descobrir o Deus verdadeiro. Existe sim uma vontade muito forte dentro de cada um de nós de se encontrar e de O encontrar. O segredo é não deixar apagar esse lume que arde dentro de cada um de nós e fazer qualquer coisa para ele se mantenha vivo. O Deus verdadeiro está aí, não lhe armemos mentiras para vivermos sossegados. Como se Ele nunca se tivesse revelado, como se nunca tivéssemos tido um momento de verdadeira felicidade por O termos encontrado. Ninguém o descobre de uma vez só. Eu continuo na descoberta...

Padre João Miguel Torres Campos

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.11.12 | Sem comentários
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