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Décimo primeiro domingo


Evangelho segundo Lucas 7, 36 — 8, 3

Naquele tempo, um fariseu convidou Jesus para comer com ele. Jesus entrou em casa do fariseu e tomou lugar à mesa. Então, uma mulher – uma pecadora que vivia na cidade – ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com perfume; pôs-se atrás de Jesus e, chorando muito, banhava-Lhe os pés com as lágrimas e enxugava-Lhos com os cabelos, beijava-os e ungia-os com o perfume. Ao ver isto, o fariseu que tinha convidado Jesus pensou consigo: «Se este homem fosse profeta, saberia que a mulher que O toca é uma pecadora». Jesus tomou a palavra e disse-lhe: «Simão, tenho uma coisa a dizer-te». Ele respondeu: «Fala, Mestre». Jesus continuou: «Certo credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta. Como não tinham com que pagar, perdoou a ambos. Qual deles ficará mais seu amigo?». Respondeu Simão: «Aquele – suponho eu – a quem mais perdoou». Disse-lhe Jesus: «Julgaste bem». E voltando-Se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não Me deste água para os pés; mas ela banhou-Me os pés com as lágrimas e enxugou-os com os cabelos. Não Me deste o ósculo; mas ela, desde que entrei, não cessou de beijar-Me os pés. Não Me derramaste óleo na cabeça; mas ela ungiu-Me os pés com perfume. Por isso te digo: São-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama». Depois disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados». Então os convivas começaram a dizer entre si: «Quem é este homem, que até perdoa os pecados?». Mas Jesus disse à mulher: «A tua fé te salvou. Vai em paz». Depois disso, Jesus ia caminhando por cidades e aldeias, a pregar e a anunciar a Boa Nova do reino de Deus. Acompanhavam-n’O os Doze, bem como algumas mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades. Eram Maria, chamada Madalena, de quem tinham saído sete demónios, Joana, mulher de Cusa, administrador de Herodes, Susana e muitas outras, que serviam Jesus com os seus bens.

Que «rosto» de Deus é revelado por Jesus Cristo?

A passagem do evangelho ajuda-nos a fazer uma reflexão sobre Deus e sobre a «imagem» que temos de Deus. Não é um relato sobre o perdão fraterno. É um relato sobre o «rosto» de Deus relevado por Jesus Cristo. Que «rosto» de Deus é revelado por Jesus Cristo?
Durante muito tempo, a Igreja insistiu sobretudo na falta, nos maus comportamentos, nos erros, no pecado. Quando nos íamos confessar — como dizemos na linguagem comum — fazíamos uma lista mental das faltas, pondo em destaque as mais «graves». Daí resultava, quase sempre, um sentimento de medo diante de Deus. Parecia que era mais importante confessar os pecados do que celebrar o perdão de Deus! Não é esse o «rosto» de Deus que nos é revelado por Jesus Cristo.
«Evangelho», em grego, significa «boa notícia». Pois a melhor de todas as notícias que alguém pode receber é a que Jesus Cristo nos apresenta hoje: Deus é perdão, porque Deus é amor. Esta é a raiz de toda a mensagem de Jesus Cristo (tal como referimos no domingo passado: A compaixão constitui, juntamente com a gratuidade, a coluna vertebral da vida de Jesus Cristo).

Quem é este homem, que até perdoa os pecados?

«Quem é este homem, que até perdoa os pecados?» — diziam os convidados, uns para os outros. De facto, a maioria dos judeus não foi capaz de compreender totalmente o perdão anunciado por Jesus Cristo. É verdade que acreditavam no perdão de Deus, mas interpretavam-no à maneira humana. E parece que, passados dois mil anos, continuamos sem aceitar o perdão, continuamos escandalizados com a ideia de um Deus que perdoa a todos (até aos maus). Um pouco à maneira do fariseu, também nós ficamos incomodados com o acolhimento que Jesus Cristo oferece aos pecadores. O fariseu pensa que Jesus se enganou ao deixar-se aproximar por uma mulher que é de pouca reputação. Não nos parece «justo» que Deus perdoe a todos, mesmo aos que não se arrependem. Mas esta é a mensagem de Jesus Cristo. Isto é o que nos quer ensinar sobre Deus. Outra coisa é o que nós estamos dispostos a aceitar!
A mulher do evangelho mostrou um agradecimento tão grande, porque tinha consciência de que o perdão era sinal de um grande amor. O amor é uma realidade tão profundamente humana que não há ninguém que se sinta verdadeiramente amado que consiga ficar indiferente. A mulher não diz uma única palavra. Mas os seus gestos são interpretados por Jesus Cristo como um ato de reconhecimento do amor de Deus. Por isso, de pecadora a mulher passará a perdoada.

Deus é amor, Deus é perdão

Que «rosto» de Deus é revelado por Jesus Cristo? O «rosto» de Deus revelado por Jesus Cristo é aparentemente simples: Deus é amor; por isso, Deus é sempre perdão. Jesus Cristo não se importa com o erro nem com a culpa; aceita confiar em quem parece ser indigno de qualquer confiança. Por isso, Jesus Cristo surpreende com um amor inesperado, que ignora tudo; um amor que é a máxima expressão do perdão. «Jesus disse à mulher: ‘A tua fé te salvou. Vai em paz’». Aqui, «fé», como quase sempre na Bíblia, significa «confiança». A confiança salva sempre. Porque não tem em conta a qualidade nem a quantidade das faltas, mas a qualidade da nossa confiança em Deus. Descobrir que Deus nos aceita como somos é um grande avanço para aceitarmos o «rosto» de Deus revelado por Jesus Cristo.

© Laboratório da fé, 2013

Décima primeira semana, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.6.13 | Sem comentários

Palavra para hoje: décimo primeiro domingo


A Palavra deste domingo oferece-nos páginas incomparáveis! Coloca-nos perante o Deus de David, o Deus de misericórdia na casa do fariseu Simão, o Deus de cada um de nós, pecadores. Somos confrontados com o próprio pecado e com o amor que perdoa. Deus suscita a confissão de David e as lágrimas da pecadora. O coração de Cristo revela-nos o coração do Pai. Jesus vê a mulher em lágrimas. Não quer saber mais nada, a não ser o que ela acaba de fazer, naquele momento. Este amor, humilde e forte que perdoa, de onde pode vir senão dele? Ele «que me amou e Se entregou por mim», escreve Paulo aos Gálatas. Que a nossa comunidade seja hoje o lugar onde cada um proclama ao outro: Cristo ama-te e entrega-se por ti!

Pergunta da semana: 

Que «rosto» de Deus é revelado por Jesus Cristo?

Palavra de Deus - Lectio divina - imagem de fano
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.6.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo primeiro domingo

16 DE JUNHO DE 2013

Evangelho segundo Lucas 7, 36 — 8, 3

Naquele tempo, um fariseu convidou Jesus para comer com ele. Jesus entrou em casa do fariseu e tomou lugar à mesa. Então, uma mulher – uma pecadora que vivia na cidade – ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com perfume; pôs-se atrás de Jesus e, chorando muito, banhava-Lhe os pés com as lágrimas e enxugava-Lhos com os cabelos, beijava-os e ungia-os com o perfume. Ao ver isto, o fariseu que tinha convidado Jesus pensou consigo: «Se este homem fosse profeta, saberia que a mulher que O toca é uma pecadora». Jesus tomou a palavra e disse-lhe: «Simão, tenho uma coisa a dizer-te». Ele respondeu: «Fala, Mestre». Jesus continuou: «Certo credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta. Como não tinham com que pagar, perdoou a ambos. Qual deles ficará mais seu amigo?». Respondeu Simão: «Aquele – suponho eu – a quem mais perdoou». Disse-lhe Jesus: «Julgaste bem». E voltando-Se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não Me deste água para os pés; mas ela banhou-Me os pés com as lágrimas e enxugou-os com os cabelos. Não Me deste o ósculo; mas ela, desde que entrei, não cessou de beijar-Me os pés. Não Me derramaste óleo na cabeça; mas ela ungiu-Me os pés com perfume. Por isso te digo: São-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama». Depois disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados». Então os convivas começaram a dizer entre si: «Quem é este homem, que até perdoa os pecados?». Mas Jesus disse à mulher: «A tua fé te salvou. Vai em paz». Depois disso, Jesus ia caminhando por cidades e aldeias, a pregar e a anunciar a Boa Nova do reino de Deus. Acompanhavam-n’O os Doze, bem como algumas mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades. Eram Maria, chamada Madalena, de quem tinham saído sete demónios, Joana, mulher de Cusa, administrador de Herodes, Susana e muitas outras, que serviam Jesus com os seus bens.



Depois da proclamação das bem-aventuranças e do amor aos inimigos, Lucas põe na boa de Jesus o que podemos chamar de paradigma da sua vida, da sua maneira de agir e de pensar: «Sede misericordiosos [compassivos] como o vosso Pai é misericordioso [compassivo]» (Lucas 6, 36). Se caminharmos ao lado de Jesus, daremos conta de como a misericórdia de Deus é o norte da vida de Jesus. E tem de o ser também da vida dos seus discípulos.
Esta misericórdia torna-se visível não só quando cura os doentes, mas sobretudo quando perdoa os pecados: «Disse à mulher: 'Os teus pecados estão perdoados'». Na linguagem de hoje (já que nem todos entendemos o mesmo quando falamos de pecado), dizemos que Jesus traz a paz ao coração. Jesus não só quer uma vida digna para os marginalizados, mas sobretudo uma vida reconciliada (com Deus, consigo e com os outros). Este é o objetivo do Reino de Deus.
No texto do evangelho, percebemos a diferença que é ver a realidade a partir de Jesus ou a partir do fariseu que «convidou Jesus para comer com ele». Jesus nunca perde de vista aquele «sede misericordiosos»; o fariseu, ao contrário, contempla tudo a partir da lei. Para Jesus, aquela mulher é alguém que deve ser acolhida e acompanhada, porque... E precisa, como o pão de cada dia, que alguém a olhe com bondade. E este não é o olhar do fariseu.

© Miquel Raventós, Misa dominical
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



Lucas 7, 36 — 8, 3

São-lhe perdoados os seus muitos pecados, 

porque muito amou


O texto do evangelho é uma das páginas mais comoventes de Lucas (Lucas 7, 36-50), à qual se acrescentam três versículos sobre as pessoas que acompanham Jesus (homens e mulheres), na sua missão (8, 1-3). A nossa protagonista é a única mulher que recebe o perdão de Jesus; é a única mulher que, sem pedir, fica livre de uma enfermidade, não do corpo mas do espírito. A mulher do perfume tinha vivido uma vida de pecado. E Jesus aplica um remédio de eficácia instantânea. Perdoa todos os seus pecados de um só vez. Não os recorda, não os conta, não os classifica. O remédio de Jesus regenera no coração morto da mulher os sentimentos mais delicados do ser humano: amor e gratidão. E como ela não sabe falar, o seu coração impulsa-a para um gesto audaz. 
Os personagens da cena são Jesus, a mulher pecadora, Simão, o fariseu, e os outros comensais. Todos estão implicados na mesma trama, onde a lógica da lei se confronta com a lógica do amor. Simão, o fariseu, e o seu grupo representam a lei. Jesus encarna o amor. E, no meio, está a mulher pecadora: Simão acusa-a, Jesus perdoa-a. A ação insólita da mulher provoca o julgamento de Simão; o julgamento de Simão provoca a intervenção de Jesus; Jesus desencadeia a reação dos convidados. 
A partir da perspetiva de Jesus, os atos de amor da mulher contrastam vigorosamente com as negligências do anfitrião. Simão, em relação a Jesus, descuidou os gestos mais elementares de hospitalidade, como lavar os pés, dar-lhe o beijo da paz e ungir-lhe a cabeça com óleo. Por conseguinte, também Simão é um transgressor da lei, um anfitrião que não cumpriu o seu dever. A ação da mulher, ao contrário, superou em muito todas as normas de cortesia reservadas aos hóspedes. A mulher esforçou-se por tratar o seu convidado sem descuidar nenhum detalhe. Para Jesus, a verdadeira anfitriã foi aquela mulher. E o que ela fez por amor coloca em evidência o que Simão omitiu seguramente por temor.

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



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Quem é este homem, que até perdoa os pecados
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.6.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo primeiro domingo

16 DE JUNHO DE 2013

A construção de Jesus — Uma leitura narrativa de Lucas 7, 36-50

José Tolentino Mendonça publicou em livro a dissertação doutoral que aborda uma parte do evangelho do décimo primeiro domingo (Ano C): «A construção de Jesus. Uma leitura narrativa de Lucas 7, 36-50», Assírio e Alvim, Lisboa 2004. 
Apresentamos alguns apontamentos sobre os personagens (retirados das páginas 86 a 94): um dos fariseus de nome Simão, Jesus, a intrusa inominada, os comensais.



Um dos fariseus de nome Simão

A informação inicial que a narrativa nos presta sobre o personagem é que se trata de um dos fariseus.
Os fariseus surgem na narrativa evangélica já no capítulo 5, ao lado dos doutores da Lei, e vão-se desenhando como um bloco oponente a Jesus.
Mas alguns elementos do texto lucano sugerem também uma proximidade entre Jesus e os fariseus, pelo menos maior do que a que se pode observar em Marcos ou Mateus. Os pastos com os fariseus (Lucas 7, 36-50; 11, 37-54; 14, 1-24) estão ausentes dos outros Sinópticos, e esses, se tivermos em conta o significado concedido pelo movimento farisaico às refeições, representam, no mínimo, que eles aceitavam os contactos com Jesus e tinham para com ele curiosidade e atenções.
Normalmente os fariseus deslocavam-se ao campo de Jesus, fosse lugar público do ensinamento (Lucas 5, 17); a casa de Levi (5, 30); as plantações (6, 2) ou a sinagoga (6, 7). Este fariseu estabelece um movimento contrário, permitindo que Jesus penetre no seu território. Segue, depois, atentamente a peripécia protagonizada pela pecadora, que se intromete na refeição que ele promove. Formula aí um juízo de distanciamento, instalando-se, porém, numa duplicidade pragmática: se no seu interior já julgou Jesus por causa da mulher, no seu registo exterior continua impávido. A imagem do personagem costura-se assim de uma ambiguidade: não expõe traços hostis (mesmo depois do acontecido trata Jesus por 'mestre'; intervém quando solicitado por Jesus), mas também já sabe que, perante os dados de que parte, não pode aderir ao seu hóspede.
Dá-se uma reviravolta na narrativa quando Jesus toma a palavra e revela a verdade profunda do fariseu, a começar pela do seu nome, Simão (versículo 40), informação que, até aqui, não tinha sido referida. No paralelo estabelecido entre ele e a mulher pecadora, Jesus faz saber que o silêncio do fariseu, a sua abstenção de gestos não são atitudes ordinárias ou insignificantes, mas correspondem a uma estratégia de resguardo face a Jesus e que essa estratégia está equivocada, pois assenta em premissas que o próprio raconto se encarregará de relativizar.



Jesus

Em 7, 36-50, o personagem Jesus é verdadeiramente o centro da narração, uma espécie de íman que faz confluir em si todos os eixos factuais. Se os outros dois personagens, o fariseu e a mulher, alternam um tempo de exposição com um tempo de sombra (nos versículos 37-38 a mulher está exposta e o fariseu está na sombra; nos versículos 40-42 está ausente a mulher e o fariseu presente), Jesus, directa ou indirectamente, atravessa todos os momentos do episódio. A sua entrada em casa do fariseu assinala o início da acção. Ele é o motivo declarado da vinda inusitada da mulher pecadora àquele lugar e é o alvo exclusivo da acção que ela desempenha. A sua passividade provoca o fariseu, que discorre não sobre a mulher, mas sobre a identidade do seu convidado. Jesus é um personagem omnisciente. Para os outros personagens as informações chegam-nos através do narrador. Jesus, porém, inaugura o discurso directo e responde em alta voz ao que os outros personagens calam.
O fariseu, por exemplo, fica prisioneiro das premissas iniciais para o seu julgamento da realidade. Jesus não julga apenas os factos, possibilita também a sua transformação. O seu espaço de intervenção é o mais amplo: ele conhece elementos que os outros personagens ignoram, conta uma história que, aparentemente, se subtrai ao contexto, mas que afinal o encena, contorna os obstáculos que aprisionam a situação e recria, de novo, uma possibilidade para o imprevisto. Retorna ao passado da narração e desvela um significado que abala o presente. Explica. Resolve. A verdade é revelada progressivamente não pelo narrador ou por outro personagem, mas pelo próprio Jesus.
Que Jesus fosse considerado um mestre, isso não despertava oposições. Jesus é frequentemente interpelado a partir do papel social de mestre que lhe era reconhecido tanto pelos mediadores oficiais do judaísmo do seu tempo. 
O nó do problema é outro, contudo, como nos permite pensar o raconto. A primeira questão que se colocava sobre Jesus era a de saber se ele era um profeta (versículo 39). Mas no quadro final, ao versículo 49, os comensais já estão preocupados com outra realidade: «Quem é este que até perdoa pecados?». Entre as duas questões há uma desproporção semântica que mostra como, na sua brevidade, o texto nos conduziu a um patamar realmente novo. Porque uma coisa é ser um profeta, houve tantos na tradição de Israel, outra é reclamar o poder do perdão dos pecados.
Esta história lucana reflecte o mistério da inter-relação de Deus e Jesus para definir, a partir daí, a identidade daquele hóspede. Ele é, de facto, o protagonista do episódio. A luz que o texto transporta é para que o possamos ver melhor.



A intrusa inominada

Um personagem feminino. O terceiro Evangelho é aquele que guarda mais relatos de mulheres: é, por exemplo, o único que conta a história de Isabel (1, 5-25), Maria (1, 26-56), Ana (2, 36-38), a viúva de Naim (7, 11-17), Maria Madalena, Joana, Susana e as outras mulheres que seguiam Jesus (8, 1-3), Marta e Maria (10, 38-42), a mulher encurvada (13, 10-17), a mulher que procura a moeda perdida (15, 8-10), a viúva insistente (18, 1-8) e as mulheres de Jerusalém que choram atrás da cruz (23, 27-31). Para lá daquelas mulheres cuja referência partilha com os outros Sinópticos. Para um leitor de Lucas não é, portanto, estranho que uma mulher acorra à procura de Jesus. O encontro com mulheres pontua o caminho de Jesus. E à partida sabe-se que muitas acolhiam a mensagem e a pessoa de Jesus. O aparecimento de uma mulher acaba sempre por trazer um elemento positivo à narração.
O primeiro dado inesperado, por parte do narrador, é o modo como apresenta a mulher: «uma pecadora». Isto é tanto mais espantoso, quando sabemos que Lucas não caracteriza moralmente outros personagens. E, precisamente em relação aos pecadores, ele distingue-se por uma grande delicadeza, feita de silêncio e reserva. Embora alguns comentadores digam tratar-se de uma prostituta isso não nos é referido por Lucas. Afirma-se simplesmente que era uma pecadora da cidade (versículo 37), e tal é reiterado pelo próprio fariseu (versículo 39).
A mulher irrompe pela narrativa. A sua presença não tem, como no caso anterior, a legitimidade de um convite formulado. Nem ela surge por si, mas porque Jesus se encontra à mesa do fariseu. É, portanto, desde o início, um personagem que se coloca na órbita de outro e assume essa dependência.
Uma justificação que o narrador subtilmente avança para a entrada da mulher deve ler-se no destaque concedido ao alabastro, com perfume, que ela traz: por um lado, o objecto oferece à mulher um motivo, uma função; e, por outro, empresta uma espécie de ingrediente novo e específico à narrativa.
Basta comparar 7, 36-50 com 11, 37-54 e 14, 1-24 que mostram sobretudo como Jesus reage às abluções, às disputas dos lugares ou à lógica retributiva que presidia à organização dos banquetes. O perfume como que fornece o móbil que depois a própria trama se encarregará de intrincar: a qualidade do acolhimento a Jesus.
A mulher entra e sai em silêncio, mas o leitor sente que a sua passagem se revestiu de uma eloquência ímpar. Em vez de palavras ela utilizou uma linguagem plástica, talvez mais contundente que a verbal. Representou, como actriz solitária, no palco da casa do fariseu, o seu monólogo ferido: com o seu pranto prolongado, os cabelos a arrastar-se pelo chão do hóspede, numa coreografia humilde e lancinante, os beijos e o perfume que mais ninguém ali teve a preocupação de ofertar a Jesus. A qualidade penitencial do personagem é testemunhada pelo território simbólico em que ela opera, os pés de Jesus, sete vezes referidos, e pela convulsão da sua figura (pois «desatar o seu cabelo em presença do homem era considerado, para uma mulher, uma grande desonra»).
A inominada não cumpre os rituais de hospitalidade ao serviço da casa do fariseu. Em relação ao fariseu ela é uma intrusa, e não uma associada. O seu nexo é com Jesus: os seus gestos, tão distantes, na sua emotividade, daquela delicada indiferença que se requer a quem habitualmente presta, aos hóspedes, esse serviço, são interpretados por Jesus como uma forma de acolhimento na fé: por isso, de pecadora a mulher passará a perdoada. E a transformação do estatuto da mulher derrama um perfume novo não só na perícope, mas pelo próprio Evangelho.
A mulher é a personagem-adjuvante: torna-se o objecto da acção transformadora de Jesus e a sua transformação é colocada ao serviço da revelação de Jesus.



Os comensais

Enquanto os três primeiros personagens que referimos são, evidentemente, protagonistas da narração, construídos com uma primorosa complexidade que visa reforçá-los no seu estatuto de figuras individuais, no final do episódio irrompe este personagem colectivo. Os comensais acompanham supostamente toda a acção, mas sem intervir. Percebemos assim que o convite que o fariseu endereçou a Jesus não foi para uma refeição privada, mas para um repasto na companhia de outras pessoas, e como é provável, pessoas próximas, que mantinham com o fariseu afinidades sociais e religiosas. Isso torna-se claro, por exemplo, na pergunta retórica que lançam, «quem é este que até perdoa pecados?». Os comensais aparecem como personagens secundários que aparentemente não condicionam o desenrolar da intriga, mas cujo papel se revela chave para a representação da acção.



Para concluir...

 com um apontamento da página 231:
O Evangelho não aposta na apresentação de conclusões acabadas acerca de Jesus: sugere, antes, o caminho silencioso, árduo e paciente das perguntas. De forma insistente, e num propósito claro de envolver o leitor, vai repetindo que o enigma Jesus está e não está resolvido, para que precisamente este interstício se revele como possibilidade de inscrever uma nova demanda. A narrativa evangélica apresenta-se assim como o limiar de uma história aberta, infinita, onde a cristologia nos remete para a eclesiologia, O seu presente é já o inventário do nosso futuro.



© José Tolentino Mendonça
© Assírio e Alvim



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Quem é este homem, que até perdoa os pecados
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.6.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo primeiro domingo

16 DE JUNHO DE 2013

Um mendigo de mão estendida, um homem ou mulher sentado no passeio tendo um cão como único companheiro, um jovem de origem estrangeira provavelmente obrigado a fazer-se de pedinte, um sem abrigo encostado ao muro... Estes rostos que povoam as cidades não são os mais fáceis de contemplar. Todavia, cruzando com o olhar deles, respondendo ao não às suas solicitações, contemplemos neles a ferida de um mundo com falta de justiça e de dignidade. Então, imploremos a Cristo que a todos traga a cura através das nossas palavras e dos nossos atos.

Em casa
Esta semana, teremos a ousadia de derrubar as barreiras e convidar para a nossa mesa uma pessoa de quem à primeira vista não pensamos bem ou que consideramos longe de Deus? Ousaremos responder a um convite ao qual estavamos tentados a dizer não? Ou ainda teremos a ousadia de organizar uma refeição na nossa paróquia, convidando os mais pobres da sociedade? Seremos capazes de o fazer com a coragem que nos dá a nossa pertença a Cristo, para estar mais próximos dele?



Os teus pecados estão perdoados.

Estas palavras pronunciadas por Jesus são realmente uma boa notícia. Não só para a mulher a quem se dirigem, mas também para cada um de nós. Quem não deseja ser libertado de um peso que o esmaga, encontrar uma passagem numa via sem saída, ser amado para além das suas falhas ou faltas de amor, reafirmar o amor do seu Deus?
Jesus ousa perdoar uma mulher que todos julgam pecadora e indigna de se dirigir a ele e muito menos de derramar perfume nos seus pés. Para revelar o amor sem limites do Pai, Jesus, o Filho muito amado, derruba as barreiras, ignora todos os preconceitos, introduz uma novidade surpreendente: «Os teus pecados estão perdoados». Simão não acredita no que está a ouvir. Contudo, é isso mesmo que Jesus diz, respondendo ao gesto da mulher que o toca e por quem se deixou tocar. 
Esta semana, teremos o olhar de Simão ou de Jesus? Ousaremos libertar-nos de todos os preconceitos e julgamentos, simplesmente para acolher o perdão de Deus, para o dar ou receber de alguém? A bola está do nosso lado!

Anne-Marie Aitken



© www.versdimanche.com
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013



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Quem é este homem, que até perdoa os pecados
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.6.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo primeiro domingo

16 DE JUNHO DE 2013

Evangelho segundo Lucas 7, 36 — 8, 3

Naquele tempo, um fariseu convidou Jesus para comer com ele. Jesus entrou em casa do fariseu e tomou lugar à mesa. Então, uma mulher – uma pecadora que vivia na cidade – ao saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro com perfume; pôs-se atrás de Jesus e, chorando muito, banhava-Lhe os pés com as lágrimas e enxugava-Lhos com os cabelos, beijava-os e ungia-os com o perfume. Ao ver isto, o fariseu que tinha convidado Jesus pensou consigo: «Se este homem fosse profeta, saberia que a mulher que O toca é uma pecadora». Jesus tomou a palavra e disse-lhe: «Simão, tenho uma coisa a dizer-te». Ele respondeu: «Fala, Mestre». Jesus continuou: «Certo credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta. Como não tinham com que pagar, perdoou a ambos. Qual deles ficará mais seu amigo?». Respondeu Simão: «Aquele – suponho eu – a quem mais perdoou». Disse-lhe Jesus: «Julgaste bem». E voltando-Se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não Me deste água para os pés; mas ela banhou-Me os pés com as lágrimas e enxugou-os com os cabelos. Não Me deste o ósculo; mas ela, desde que entrei, não cessou de beijar-Me os pés. Não Me derramaste óleo na cabeça; mas ela ungiu-Me os pés com perfume. Por isso te digo: São-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama». Depois disse à mulher: «Os teus pecados estão perdoados». Então os convivas começaram a dizer entre si: «Quem é este homem, que até perdoa os pecados?». Mas Jesus disse à mulher: «A tua fé te salvou. Vai em paz». Depois disso, Jesus ia caminhando por cidades e aldeias, a pregar e a anunciar a Boa Nova do reino de Deus. Acompanhavam-n’O os Doze, bem como algumas mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades. Eram Maria, chamada Madalena, de quem tinham saído sete demónios, Joana, mulher de Cusa, administrador de Herodes, Susana e muitas outras, que serviam Jesus com os seus bens.



Segunda, 10: CONVITE

O evangelho segundo Lucas faz-nos entrar na vida quotidiana de uma família da comunidade judaica do tempo de Jesus. Naquele dia, as mulheres estão atarefadas na cozinha, as crianças estão em festa, prepara-se a mesa para os convidados. Penso naqueles e naquelas que hoje se sentam na soleira da nossa casa, e preparo-me para os receber como meus melhores amigos...



Terça, 11: CONFORTO

Hoje, a Igreja festeja José, com o sobrenome de Barnabé, que quer dizer: o homem do conforto/consolação. Era judeu, levita originário de Chipre tornou-se cristão pouco depois do Pentecostes e companheiro de Paulo. Deixo-me iluminar para saber como levar conforto aos que precisam, consolação aos que choram, tudo em nome de Jesus...



Quarta, 12: HOSPITALIDADE

Voltemos ao evangelho: uma mulher intromete-se entre os convidados. Ela soube que Jesus vinha para ali. Aguarda a sua chegada. Logo que o vê, aproxima-se e põe-se a chorar, a perfumar, a enxugar os pés de Jesus. Deixo-me tocar por esta mulher que procura conforto e consolação junto de Jesus...



Quinta, 13: ACOLHIMENTO

O fariseu, contrariado (chocado ?), pensa para si mesmo que Jesus se enganou ao deixar-se aproximar por uma mulher que é de pouca reputação. Cala-se para não fazer alarido, mas não deixa de pensar nisso. Conhecemos estes pensamentos nublosos que às vezes nos habitam. Observo Jesus, entre os convidados, para aprender a acolher como ele.



Sexta, 14: DIÁLOGO

Magnífico diálogo entre Simão, o fariseu, e Jesus: «Simão, tenho uma coisa a dizer-te». — «Fala, Mestre». Leio calmamente a parábola (Lucas 7, 41-47), tomando quer o lugar de Simão, quer o daquela mulher. Fico um momento ao lado de um e depois de outro e deixo sair as palavras que brotam do fundo do meu coração.



Sábado, 15: PAZ

À mulher, que chora aos seus pés, Jesus diz: «Os teus pecados estão perdoados». Lembra o que nos é dito no Sacramento da Reconciliação: «E eu te absolvo [perdoo] dos teus pecados, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo». Entro nesta dinâmica, e coloco-me de joelhos para escutar: «A tua fé te salvou. Vai em paz»!



Domingo, 16: CONVERSAÇÃO

Os convidados saúdam-se ou travam conhecimento. Ao verem e ouvirem Jesus a dirigir-se à mulher, alguns ficam baralhados: «Quem é este homem, que até perdoa os pecados?». As opiniões são bem conhecidas: «É o filho de José, o carpinteiro»; «É oriundo de Nazaré»; «Parece que cura os doentes»; «É um iluminado»; «Anda, com outros, pelas aldeias a pregar»; «É um belo sonhador»; «Diz-se muito bem dele»; «Os pescadores de Tiberíades deixaram mulher e filhos para o seguir»; «Sim»; «Não»; «Talvez»... (Durante a Eucaristia dizem-nos: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.) Nesse momento, Simão convida os hóspedes a tomar lugar à mesa para partilhar a refeição.



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© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

Quem é este homem, que até perdoa os pecados
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.6.13 | Sem comentários
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