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Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [11]


A segunda secção do quinto capítulo encerra as temáticas propostas pelo II Concílio do Vaticano na Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes» — GS). Trata-se de uma reflexão sobre a Comunidade Internacional inserida na conjuntura da promoção da paz. «Para edificar a paz, é preciso, antes de mais, eliminar as causas das discórdias [...]. Como o ser humano não pode suportar tantas desordens, delas provém que, mesmo sem haver guerra, o mundo está continuamente envenenado com as contendas e violências entre os humanos. E como se verificam os mesmos males nas relações entre as nações, é absolutamente necessário, para os vencer ou prevenir, e para reprimir as violências desenfreadas, que os organismos internacionais cooperem e se coordenem melhor e que se fomentem incansavelmente as organizações que promovem a paz» (GS 83).

A Comunidade Internacional

Tendo como meta o «bem comum universal» é urgente que «a comunidade dos povos se dê a si mesma uma estrutura à altura das tarefas atuais [...]. Para obter tais fins, as instituições da comunidade internacional devem prover, cada uma por sua parte, às diversas necessidades humanas, no domínio da vida social — a que pertencem a alimentação, saúde, educação, trabalho — como em certas circunstâncias particulares, que podem surgir aqui ou ali, tais como a necessidade geral de favorecer o progresso das nações em vias de desenvolvimento, de obviar às necessidades dos refugiados dispersos por todo o mundo, ou ainda de ajudar os emigrantes e suas famílias» (GS 84). E também «é preciso abolir o apetite de lucros excessivos, as ambições nacionais, o desejo de domínio político, os cálculos de ordem militar bem como as manobras para propagar e impor ideologias» (GS 85).

Algumas normas oportunas

A GS sugere algumas orientações para assegurar o acesso de todos aos bens necessários para viver: que «a plena perfeição humana dos cidadãos» seja a finalidade expressa das nações; que os povos desenvolvidos ajudem os que estão em vias de desenvolvimento; que se estabeleça uma Comunidade Internacional com autoridade e poder para coordenar e estimular o desenvolvimento, bem como «regular as relações económicas no mundo inteiro»; que se revejam as atuais estruturas sociais e económicas, tendo em conta as necessidades materiais, mas também as de ordem cultural e espiritual (GS 86). A Igreja aponta também para a necessidade de auxílio educacional e tecnológico aos «povos que, além de muitas outras dificuldades, sofrem especialmente da que deriva dum rápido aumento da população» e aos que não têm acesso a técnicas modernas de produção ou não possuem adequada formação educacional e profissional. Entretanto, «o Concílio exorta todos a que evitem as soluções, promovidas privada ou publicamente ou até por vezes impostas, que sejam contrárias à lei moral» (GS 87). Com estas indicações, pretende despertar os cristãos para a sua responsabilidade: «Não se dê o escândalo de haver algumas nações, geralmente de maioria cristã, na abundância, enquanto outras não têm sequer o necessário para viver e são atormentadas pela fome, pela doença e por toda a espécie de misérias» (GS 88). Por isso, é «absolutamente necessário que a Igreja esteja presente na comunidade das nações, para fomentar e estimular a cooperação entre os humanos» (GS 89). Entre as possibilidades, «uma das melhores formas de atuação internacional dos cristãos consiste certamente na cooperação que, isoladamente ou em grupo, prestam nas próprias instituições criadas ou a criar para o desenvolvimento da cooperação entre as nações» (GS 90).

Conclusão

A GS pretende fazer com que todas as pessoas tornem «o mundo mais conforme à sublime dignidade humana, aspirem a uma fraternidade universal mais profundamente fundada e, impelidos pelo amor, correspondam com um esforço generoso e comum às urgentes exigências da nossa era» (GS 91). Impõe-se, assim, que a fraternidade e a caridade impulsionem o diálogo, o entendimento e o respeito pela legítima diversidade entre as nações, as raças, as culturas e religiões, sem excluir ninguém. «Por isso, chamados pela mesma vocação humana e divina, podemos e devemos cooperar pacificamente, sem violência nem engano, na edificação do mundo na verdadeira paz» (GS 92). Os cristãos «nada podem desejar mais ardentemente do que servir sempre com maior generosidade e eficácia os homens e mulheres do mundo de hoje. [...] ‘Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros’ (João 13, 35). Essa é «a vontade do Pai» (GS 93).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.11.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [10]


A Igreja, no quinto capítulo da GS intitulado «a promoção da paz e a Comunidade Internacional», declara que «chegou a hora decisiva» no «processo de maturação» da família humana, reconhecendo que «as dores e angústias derivadas da guerra ou da sua ameaça ainda oprimem tão duramente os seres humanos». E desafia a que «todos se orientem com espírito renovado à verdadeira paz. [...] Por isso, o Concílio, explicando a verdadeira e nobilíssima natureza da paz, e uma vez condenada a desumanidade da guerra, quer apelar ardentemente para que os cristãos, com a ajuda de Cristo, autor da paz, colaborem com todos os seres humanos no estabelecimento da paz na justiça e no amor» (77). O desenvolvimento deste capítulo concretiza-se em duas secções: «evitar a guerra»; «construção da Comunidade Internacional». Neste tema damos conta dos conteúdos essenciais da primeira secção.

Natureza da paz

«A paz não é ausência de guerra; nem se reduz ao estabelecimento do equilíbrio entre as forças adversas, nem resulta duma dominação despótica. [...] É um fruto da ordem que o divino Criador estabeleceu para a sociedade humana [...]. A paz nunca se alcança duma vez para sempre, antes deve estar constantemente a ser edificada. [...] Absolutamente necessárias para a edificação da paz são ainda a vontade firme de respeitar a dignidade dos outros e a prática assídua da fraternidade. A paz é assim também fruto do amor, o qual vai além do que a justiça consegue alcançar. A paz terrena, nascida do amor do próximo, é imagem e efeito da paz de Cristo, vinda do Pai. Pois o próprio Filho encarnado, príncipe da paz, reconciliou com Deus, pela cruz, todos os seres humanos; restabelecendo a unidade [...], extinguiu o ódio e, exaltado na ressurreição, derramou nos corações o Espírito de amor» (78).

Evitar a guerra

«Apesar de as últimas guerras terem trazido tão grandes danos materiais e morais, ainda todos os dias a guerra leva por diante as suas devastações em alguma parte da terra. Mais ainda, o emprego de armas científicas de todo o género para fazer a guerra, ameaça, dada a selvajaria daquelas, levar os combatentes a uma barbárie muito pior que a de outros tempos. Além disso, a complexidade da atual situação e o intrincado dos relações entre países tornam possível o prolongar-se de guerras mais ou menos larvadas, pelo recurso a novos métodos insidiosos e subversivos. Em muitos casos, o recurso aos métodos do terrorismo é considerado como uma nova forma de guerra. Tendo diante dos olhos este estado de prostração da humanidade, o Concílio quer, antes de mais, recordar o valor permanente do direito natural internacional e dos seus princípios universais» (79). Daí a necessidade de fazer valer os acordos e as convenções internacionais que exigem o respeito pela dignidade humana. «Saibam os homens e mulheres de hoje que darão grave conta das suas atividades bélicas. Pois das suas decisões atuais dependerá em grande parte o curso dos tempos futuros». Reafirmando a tradição de condenar sempre a guerra, declara que qualquer ação bélica genocida «é um crime contra Deus e o próprio ser humano, que se deve condenar com firmeza e sem hesitação» (80). Lembra, também, que «a corrida aos armamentos, a que se entregam muitas nações, não é caminho seguro para uma firme manutenção da paz; e de que o pretenso equilíbrio daí resultante não é uma paz segura nem verdadeira. [...] É preciso escolher outros caminhos, partindo da reforma das mentalidades, para eliminar este escândalo e poder-se restituir ao mundo, liberto da angústia que o oprime, uma paz verdadeira» (81). Neste contexto, é função das autoridades nacionais e internacionais buscar os meios mais aptos para assegurar a vida, garantir o direito e a justiça. É função de todos promover uma cultura que seja capaz de suplantar aquilo que divide a humanidade. Pouco adiantarão os esforços daqueles que buscam edificar a paz, «enquanto os sentimentos de hostilidade, desprezo e desconfiança, os ódios raciais e os preconceitos ideológicos dividirem os seres humanos e os opuserem uns aos outros. Daqui a enorme necessidade duma renovação na educação das mentalidades e na orientação da opinião pública. [...] Todos nós temos de reformar o nosso coração, com os olhos postos naquelas tarefas que podemos realizar juntos para o progresso da humanidade. [...] A Igreja de Cristo, no meio das angústias do tempo atual, não deixa de esperar firmemente. À nossa época quer ela propor, uma e outra vez, oportuna e importunamente, a mensagem do Apóstolo: ‘eis agora o tempo favorável’ para a conversão dos corações, ‘eis agora os dias da salvação’» (82).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.11.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [7]


A GS é o primeiro documento eclesial a fazer uma reflexão pastoral sobre a importância da cultura. O segundo capítulo da segunda parte da GS aborda «a conveniente promoção do progresso cultural». O conteúdo distribui-se por três secções que vamos resumir neste tema. Segundo os padres conciliares, «a palavra ‘cultura’ indica, em geral, todas as coisas por meio das quais o ser humano apura e desenvolve as múltiplas capacidades do seu espírito e do seu corpo; se esforça por dominar, pelo estudo e pelo trabalho, o próprio mundo; torna mais humana, com o progresso dos costumes e das instituições, a vida social, quer na família quer na comunidade civil; e, finalmente, no decorrer do tempo, exprime, comunica aos outros e conserva nas suas obras, para que sejam de proveito a muitos e até à inteira humanidade, as suas grandes experiências espirituais e as suas aspirações» (GS 53).

Condições da cultura no mundo atual

Os novos estilos de vida provocados pelas mais diversas transformações ocorridas nos últimos tempos permite «falar duma nova era da história humana» (GS 54), de «um novo humanismo, no qual o ser humano se define antes de mais pela sua responsabilidade com relação aos seus irmãos e à história» (GS 55). «Nestas condições, não é de admirar que o ser humano, sentindo a responsabilidade que tem na promoção da cultura, alimente mais dilatadas esperanças, e ao mesmo tempo encare com inquietação as múltiplas antinomias existentes» (GS 56).

Alguns princípios para a conveniente promoção da cultura

Apesar de reconhecer que alguns métodos podem «dar aso a certo fenomenismo e agnosticismo», a Igreja destaca aspetos positivos: «o gosto das ciências e a exata objetividade nas investigações científicas; a necessidade de colaborar com os outros nas equipas técnicas; o sentido de solidariedade internacional; a consciência cada vez mais nítida da responsabilidade que os sábios têm de ajudar e até de proteger os seres humanos; a vontade de tornar as condições de vida melhores para todos e especialmente para aqueles que sofrem da privação de responsabilidade ou de pobreza cultural. Tudo isto pode constituir uma certa preparação para a receção da mensagem evangélica» (GS 57). A Igreja lembra que entre a mensagem da salvação e a cultura humana existem muitos laços, pois Deus «falou segundo a cultura própria de cada época». E a própria Igreja «empregou os recursos das diversas culturas para fazer chegar a todas as gentes a mensagem de Cristo», além de «entrar em comunicação com as diversas formas de cultura, com o que se enriquecem tanto a própria Igreja como essas várias culturas» (58). Por conseguinte, «a Igreja lembra a todos que a cultura deve orientar-se para a perfeição integral da pessoa humana, para o bem da comunidade e de toda a sociedade» (GS 59).

Alguns deveres mais urgentes dos cristãos com relação à cultura

Afirmando que a cultura exige respeito, liberdade e autonomia para se desenvolver, a Igreja exorta as autoridades públicas a favorecerem e a colaborarem para o desenvolvimento cultural. A Igreja apregoa que todos têm o direito à cultura e ao pleno desenvolvimento conforme as qualidades e tradições próprias de cada um, independentemente de raça, sexo, nação, religião ou situação social. «É preciso, além disso, trabalhar muito para que todos tomem consciência, não só do direito à cultura, mas também do dever que têm de se cultivar e de ajudar os outros nesse campo» (GS 60). E «cada ser humano continua a ter o dever de salvaguardar a integridade da pessoa humana, na qual sobressaem os valores da inteligência, da vontade, da consciência e da fraternidade, valores que se fundam em Deus Criador e por Cristo foram admiravelmente restaurados e elevados» (GS 61). Neste contexto, «os teólogos são convidados a buscar constantemente, de acordo com os métodos e exigências próprias do conhecimento teológico, a forma mais adequada de comunicar a doutrina aos homens do seu tempo [...]. Na atividade pastoral, conheçam-se e apliquem-se suficientemente, não apenas os princípios teológicos, mas também os dados das ciências profanas [...]. A Igreja deve também reconhecer as novas formas artísticas [...]. Vivam os fiéis em estreita união com os demais do seu tempo e procurem compreender perfeitamente o seu modo de pensar e sentir, qual se exprime pela cultura. Saibam conciliar os conhecimentos das novas ciências e doutrinas e últimas descobertas com os costumes e doutrina cristã, [...] e sejam capazes de apreciar e interpretar todas as coisas com autêntico sentido cristão» (GS 62).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.10.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [6]


A segunda parte da GS aborda as reflexões pastorais e orientações que a Igreja quis manifestar sobre «alguns problemas mais urgentes» que afetam profundamente a humanidade, especificamente: «a promoção da dignidade do Matrimónio e da Família»; «a conveniente promoção do progresso cultural»; «a vida económico-social»; «a vida da comunidade política»; «a promoção da paz e a Comunidade Internacional». «O Concílio dirige agora a atenção de todos, à luz do Evangelho e da experiência humana, para algumas necessidades mais urgentes do nosso tempo, que profundamente afetam a humanidade». Sobre cada uma «devem resplandecer os princípios e as luzes que provêm de Cristo e que dirigirão os cristãos e iluminarão todos os humanos na busca da solução para tantos e tão complexos problemas» (GS 46). Neste tema apresentamos o resumo do primeiro capítulo.

O Matrimónio e a Família no mundo atual

A pessoa humana nasce no seio de uma família, querida pelo Criador a partir da união do homem e da mulher, colaboradores na obra da Criação. E cada família deve ser construída sobre a comunhão e o amor, tal qual a Santíssima Trindade, sendo considerada a primeira manifestação da comunidade humana, cuja expressão do amor maior se manifesta na geração de uma nova vida. Com Jesus Cristo, a família alcança nova dimensão no Sacramento do Matrimónio, marcado pela entrega, renúncia e doação que o próprio Jesus Cristo dedicou à humanidade. Neste sentido, Jesus Cristo é o esposo, cuja esposa é a Igreja. Jesus Cristo, aquele que ama, redime e cuida da Igreja, torna-se modelo de relação matrimonial. «Por isso, a família cristã, nascida de um matrimónio que é imagem e participação da aliança de amor entre Cristo e a Igreja, manifestará a todos a presença viva do Salvador no mundo e a autêntica natureza da Igreja, quer por meio do amor dos esposos, quer pela sua generosa fecundidade, unidade e fidelidade, quer pela amável cooperação de todos os seus membros» (GS 48). Por conseguinte, para a Igreja, o Matrimónio e a Família são instituições fundamentais para a preservação da vida e para a constituição e a manutenção da sociedade, por isso se compromete na defesa contra a poligamia, o divórcio, o egoísmo, o hedonismo, e quaisquer «práticas ilícitas contra a geração». E afirma, ainda, que as condições económicas, sociais e políticas também causam diversas perturbações na família e na sociedade. «Por tal motivo, o Concílio, esclarecendo alguns pontos da doutrina da Igreja, deseja ilustrar e robustecer os cristãos e todos os que se esforçam por proteger e fomentar a nativa dignidade do estado matrimonial e o seu alto e sagrado valor» (GS 47).

O amor e a fecundidade

«A Palavra de Deus convida repetidas vezes os noivos a alimentar e robustecer o seu noivado com um amor casto, e os esposos a sua união com um amor indiviso. [...] Este amor tem a sua expressão e realização peculiar no ato próprio do matrimónio» (GS 49). Ora, «os filhos são, sem dúvida, o maior dom do matrimónio e contribuem muito para o bem dos próprios pais. No entanto, o matrimónio não foi instituído só em ordem à procriação da prole. A própria natureza da aliança indissolúvel entre as pessoas e o bem da prole exigem que o mútuo amor dos esposos se exprima convenientemente, aumente e chegue à maturidade. E por isso, mesmo que faltem os filhos, tantas vezes ardentemente desejados, o matrimónio conserva o seu valor e indissolubilidade, como comunidade e comunhão de toda a vida» (GS 50).

O amor e o respeito pela vida

«Quando se trata de conciliar o amor conjugal com a transmissão responsável da vida, a moralidade do comportamento não depende apenas da sinceridade da intenção e da apreciação dos motivos; deve também determinar-se por critérios objetivos, tomados da natureza da pessoa e dos seus atos; critérios que respeitem, num contexto de autêntico amor, o sentido da mútua doação e da procriação humana. Tudo isto só é possível se se cultivar sinceramente a virtude da castidade conjugal» (GS 51).

O progresso e a promoção do Matrimónio e da Família 

A Igreja entende a família como uma escola de humanização que orienta os filhos para serem capazes de seguir com responsabilidade a sua vocação. Por isso, exorta a sociedade, os cientistas, e especialmente todos os cristãos a promoverem a dignidade do Matrimónio e da Família, a fim de garantir que a sociedade possa se perpetuar segundo os valores da vida. «Protejam-se também e ajudem-se convenientemente, por meio duma previdente legislação e com iniciativas várias, aqueles que por infelicidade não beneficiam duma família» (GS 52).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.10.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [5]


O quarto e último capítulo da primeira parte da GS aborda a compreensão do Concílio sobre «a função da Igreja no mundo atual»: apresenta-se como serva do mundo, a exemplo de Jesus Cristo. «No presente capítulo, pressupondo tudo o que o Concílio já declarou acerca do mistério da Igreja, considerar-se-á a mesma Igreja enquanto existe neste mundo e com ele vive e atua». Embora convicta do seu fim «salvador e escatológico», a Igreja de Jesus Cristo neste mundo, organizada como sociedade, é uma comunidade visível que deseja caminhar com a humanidade e ajudar, através dos seus ensinamentos, a tornar a família humana mais fraterna e solidária (GS 40).

A Igreja ajuda o ser humano

A Igreja entende que, apesar do desenvolvimento humano e da afirmação dos seus direitos, os quais não só proclama como apoia os que os promovem, existe para ajudar o ser humano na busca pelo «significado da sua vida, da sua atividade e da sua morte». Neste auxílio prestado ao ser humano, destaca-se o Evangelho de Jesus Cristo, pois «nenhuma lei humana pode salvaguardar tão perfeitamente a dignidade pessoal e a liberdade do homem como o Evangelho de Cristo, confiado à Igreja» (GS 41).

A Igreja ajuda a sociedade

A Igreja sabe que a missão que lhe foi confiada por Jesus Cristo não é de ordem política, económica ou social, mas de ordem religiosa. «Mas desta mesma missão religiosa deriva um encargo, uma luz e uma energia que podem servir para o estabelecimento e consolidação da comunidade humana segundo a lei divina». Por isso, coloca-se ao serviço da humanidade como promotora, orientadora e colaboradora das instituições, pessoas e associações que procuram preservar a dignidade e bem estar de todos, nomeadamente no apoio aos mais necessitados (GS 42).

A Igreja ajuda a atividade humana

Sem esquecer o papel dos bispos e dos presbíteros, o principal destaque está na afirmação de que a Igreja se faz presente no mundo através da ação dos leigos que conscientemente assumem a sua vocação de serviço no mundo como um serviço religioso. Assim, para a Igreja não pode existir oposição entre a fé professada e a vida quotidiana. «Este divórcio entre a fé que professam e o comportamento quotidiano de muitos deve ser contado entre os mais graves erros do nosso tempo». Cabe, pois, aos leigos, evangelizar onde exercem as suas atividades. Porque «o cristão que descuida os seus deveres temporais, falta aos seus deveres para com o próximo e até para com o próprio Deus, e põe em risco a sua salvação eterna». Assim, são testemunhas de Jesus Cristo exercendo no mundo a sua função como membros da Igreja. Quanto aos bispos e presbíteros, além do testemunho que lhes compete nos vários âmbitos da sua missão específica, ressalta-se a importância de anunciarem a mensagem cristã «de tal maneira que todas as atividades terrenas dos fiéis sejam penetradas pela luz do Evangelho. Lembrem-se, além disso, os pastores que, com o seu comportamento e solicitude quotidianos, manifestam ao mundo o rosto da Igreja com base no qual os seres humanos julgam da força e da verdade da mensagem cristã. [...] tornem-se capazes de tomar parte no diálogo com o mundo» (GS 43).

A Igreja recebe a ajuda do mundo

A Igreja não ignora o contributo que recebe «da história e evolução do género humano [...]. Ela aprendeu, desde os começos da sua história, a formular a mensagem de Cristo por meio dos conceitos e línguas dos diversos povos [...]. Tudo isto com o fim de adaptar o Evangelho à capacidade de compreensão de todos e às exigências dos sábios. Esta maneira adaptada de pregar a palavra revelada deve permanecer a lei de toda a evangelização». Por isso, para continuar a sua missão e manter a sua mensagem sempre atual, a Igreja necessita «da ajuda daqueles que, vivendo no mundo, conhecem bem o espírito e conteúdo das várias instituições e disciplinas, sejam eles crentes ou não. É dever de todo o Povo de Deus e sobretudo dos pastores e teólogos, com a ajuda do Espírito Santo, saber ouvir, discernir e interpretar as várias linguagens do nosso tempo, e julgá-las à luz da palavra de Deus, de modo que a verdade revelada possa ser cada vez mais intimamente percebida, melhor compreendida e apresentada de um modo conveniente» (GS 44).

Jesus Cristo, Alfa e Ómega

O bem que a Igreja presta ao mundo deriva do facto de ser «sacramento universal da salvação». Pela Igreja, «o próprio Senhor o diz: ‘Eis que venho em breve, trazendo comigo a minha recompensa, para dar a cada um segundo as suas obras. Eu sou o alfa e o ómega, o primeiro e o último, o começo e o fim’» (GS 45).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.10.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [4]


Segundo a fé cristã, o ser humano é chamado por Deus a transformar o mundo através da sua ação e, especialmente, com o seu trabalho. O terceiro capítulo da primeira parte da GS refere-se à «atividade humana no mundo». Nela, a pessoa encontra o sentido da vida e a realização da sua vocação. A GS enfatiza que o trabalho existe para o ser humano e não o contrário. E também afirma que o trabalho tem uma dimensão social, uma vez que se orienta para o bem comum. Nesta perspetiva, é visto como condição para assegurar à pessoa a sua dignidade, sendo, portanto, um direito humano. Passados 50 anos, constata-se a pertinência a reflexão conciliar, já que numa grande parte dos países o trabalho humano foi (é) considerado apenas como uma mercadoria que a cada dia perde cada vez mais o seu valor o que, por consequência, atinge a compreensão do ser humano, fere a sua dignidade.

O sentido e valor da atividade humana

Graças à inteligência, à técnica e à ciência, o ser humano alcançou muitos bens que contribuíram para melhorar a qualidade da vida. Todavia, isto parece ter também contribuído para a perda do significado antropológico do trabalho e da própria vocação humana. Desta realidade brotam perguntas tais como: «Qual o sentido e valor desta atividade? Como se devem usar estes bens? Para que fim tendem os esforços dos indivíduos e das sociedades?». A Igreja, à luz da Palavra de Deus, quer dar o seu contributo para ajudar a responder a estas e outras questões relacionadas com o trabalho humano (GS 33). Para os que têm fé, a atividade humana, individual ou coletiva, corresponde à vontade de Deus, pois decorre do mandato de cultivar e guardar a terra (cf. Génesis 2, 15). Logo, é como um prolongamento da atividade divina na construção do mundo. «Isto aplica-se também às atividades de todos os dias. Assim, os homens e as mulheres que, ao ganhar o sustento para si e suas famílias, de tal modo exercem a própria atividade que prestam conveniente serviço à sociedade, com razão podem considerar que prolongam com o seu trabalho a obra do Criador, ajudam os seus irmãos e dão uma contribuição pessoal para a realização dos desígnios de Deus na história» (GS 34). Pelo trabalho, o ser humano transforma o mundo e a sociedade, mas também se constrói enquanto pessoa humana e descobre a sua vocação integral. Neste sentido, de forma profética, a GS afirma que, aquilo que o ser humano faz para promover a justiça, a fraternidade e o bem comum é muito superior a qualquer progresso técnico (GS 35).

A autonomia das realidades terrestres

A Igreja reconhece a «justa autonomia das realidades terrestres», sem contudo aceitar que «a íntima ligação entre a atividade humana e a religião constitua um obstáculo para a autonomia dos humanos, das sociedades ou das ciências». Tanto a religião como a ciência têm origem em Deus; por isso, não são incompatíveis. «A investigação metódica em todos os campos do saber, quando levada a cabo de um modo verdadeiramente científico e segundo as normas morais, nunca será realmente oposta à fé». Ora, a dita autonomia não significa afastar Deus da atividade humana, «pois, sem o Criador, a criatura não subsiste» (GS 36).

A lei do amor para um novo céu e uma nova terra

O progresso é um grande bem, mas também pode fazer esquecer a importância de fazer do mundo «um lugar de verdadeira fraternidade». Por isso, a Igreja «ao mesmo tempo que reconhece que o progresso humano pode servir para a verdadeira felicidade», lembra «que todas as atividades humanas, constantemente ameaçadas pela soberba e amor próprio desordenado, devem ser purificadas e levadas à perfeição pela cruz e ressurreição de Cristo» (GS 37). De facto, todo o esforço em construir um mundo novo e fraterno adquire um novo sentido pela fé em Jesus Cristo. «Ele revela-nos que ‘Deus é amor’ (1João 4, 8) e ensina-nos ao mesmo tempo que a lei fundamental da perfeição humana e, portanto, da transformação do mundo, é o novo mandamento do amor». Isto reflete-se «nas coisas grandes, mas, antes de mais, nas circunstâncias ordinárias da vida». Hoje, o Ressuscitado, pelo Espírito Santo e pelos Sacramentos, alimenta «o desejo da vida futura», mas «anima, purifica e fortalece também aquelas generosas aspirações que levam a humanidade a tentar tornar a vida mais humana» (GS 38). Por conseguinte, a certeza do Reino não deve acomodar os cristãos, mas «ativar a solicitude em ordem a desenvolver esta terra, onde cresce o corpo da nova família humana, que já consegue apresentar uma certa prefiguração do mundo futuro» (GS 39).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.9.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [3]


O segundo capítulo da primeira parte da GS — «A Igreja e a vocação do ser humano» — aborda a temática da comunidade humana. No intuito de intensificar o diálogo fraterno entre os humanos, este documento conciliar recorda que a revelação cristã favorece a comunhão entre as pessoas e, ao mesmo tempo, «leva a uma compreensão mais profunda das leis da vida social que o Criador inscreveu na natureza espiritual e moral do ser humano. Dado, porém, que recentes documentos do magistério eclesiástico expuseram a doutrina cristã acerca da sociedade humana, o Concílio limita-se a recordar algumas verdades mais importantes e a expor o seu fundamento à luz da revelação» (GS 23).

Vocação humana e sociedade

A Igreja sabe que a vocação à comunidade é inerente ao ser humano, pois a vida tem origem em Deus que colocou, no coração dos homens e mulheres, a vocação a ser membro da família humana. E Jesus Cristo ensinou que o amor a Deus não pode ser separado do amor ao próximo (GS 24). Neste sentido, cada pessoa é chamada a participar nas mais variadas instituições sociais com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento das outras pessoas. E, como membro, também tem o direito a ser beneficiada pelas ações dessas instituições. «No nosso tempo, devido a várias causas, as relações e interdependências mútuas multiplicam-se cada vez mais; o que dá origem a diversas associações e instituições, quer públicas quer privadas. Este facto, denominado socialização, embora não esteja isento de perigos, traz, todavia, consigo muitas vantagens, em ordem a confirmar e desenvolver as qualidades da pessoa humana e a proteger os seus direitos» (GS 25). Contudo, devido a problemas de vária ordem nem todas as sociedades têm condições para dar aos seus membros as condições básicas para uma vida verdadeiramente humana, tais como: «alimento, vestuário, casa, direito de escolher livremente o estado de vida e de constituir família, direito à educação, ao trabalho, à boa fama, ao respeito, à conveniente informação, direito de agir segundo as normas da própria consciência, direito à proteção da sua vida e à justa liberdade mesmo em matéria religiosa» (GS 26).

Respeito pelo ser humano

Coerente com o Evangelho, o Concílio defende o respeito por todo e cada ser humano e denomina como «infame» o seguinte: «tudo quanto se opõe à vida, como seja toda a espécie de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio voluntário; tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as mutilações, os tormentos corporais e mentais e as tentativas para violentar as próprias consciências; tudo quanto ofende a dignidade da pessoa humana, como as condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o comércio de mulheres e jovens; e também as condições degradantes de trabalho; em que os operários são tratados como meros instrumentos de lucro e não como pessoas livres e responsáveis» (GS 27). Todavia, os Padres conciliares lembram a necessária caridade e o esforço para dialogar com todos, mesmo com aqueles que defendem ideias contrárias, pois também esses são seres humanos (GS 28).

Igualdade

A igualdade entre todos deve ser sempre reconhecida. É inaceitável que haja desigualdades económicas e sociais, pois são obstáculo à justiça social, à equidade, à dignidade e à paz social e internacional. O Concílio lembra que compete às instituições, privadas ou públicas, estar ao serviço da dignidade humana, combatendo qualquer forma de sujeição política ou social, e salvaguardando, sob qualquer regime político, os direitos humanos fundamentais (GS 29). Afirma, também, que a justiça e a caridade devem imperar em favor do bem comum e, em função disso, são superiores a uma ética puramente individualista (GS 30).

Participação social

Para que todos cumpram a sua função social é necessário que a educação seja uma prioridade. Neste sentido, dizem os Padres conciliares, «podemos legitimamente pensar que o destino futuro da humanidade está nas mãos daqueles que souberem dar às gerações vindoiras razões de viver e de esperar» (GS 31). A terminar, recorda-se que «esta índole comunitária aperfeiçoa-se e completa-se com a obra de Jesus Cristo. Pois o próprio Verbo encarnado quis participar da vida social. Tomou parte nas bodas de Caná, entrou na casa de Zaqueu, comeu com os publicanos e pecadores. Revelou o amor do Pai e a sublime vocação humana, evocando realidades sociais comuns e servindo-se de modos de falar e de imagens da vida de todos os dias» (GS 32).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.9.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [2]


Na primeira parte da GS, considerada como a mais doutrinal — «A Igreja e a vocação do ser humano» — os padres conciliares, desejosos de «corresponder aos impulsos do Espírito», expressam o entendimento que têm sobre o ser humano. O documento é uma palavra de esperança sobre o campo de missão da comunidade eclesial: o coração de cada ser humano e a sociedade atual. Reconhece a distinção e independência entre a sociedade e a comunidade eclesial, mas destaca que pode haver cooperação: ambas se dedicam à promoção humana. O Concílio coloca as seguintes questões: «Que pensa a Igreja acerca do ser humano? Que recomendações parecem dever fazer-se, em ordem à construção da sociedade atual? Qual é o significado último da atividade humana no universo?» (GS 11). Neste tema resume-se o conteúdo do primeiro capítulo: «A dignidade da pessoa humana».

O ser humano criado à imagem de Deus

Desejando construir um diálogo com o mundo, a Igreja coloca como premissa cristã que a dignidade da pessoa humana deriva da afirmação de que o homem e a mulher foram criados à imagem de Deus (GS 12) e redimidos por Jesus Cristo que a todos liberta das cadeias do pecado (GS 13). Depois, afirma que o ser humano é um ser uno, composto de corpo e alma, pelo que não pode «desprezar a vida corporal; deve, pelo contrário, considerar o seu corpo como bom e digno de respeito [...]. «É, pois, a própria dignidade humana que exige que o ser humano glorifique a Deus no seu corpo, não deixando que este se escravize às más inclinações do próprio coração» (GS 14).

A dignidade do entendimento e da consciência moral

«Participando da luz da inteligência divina», o ser humano passou a dominar o universo através das ciências, das técnicas e das artes, o que lhe permitiu grandes avanços na conquista do mundo material. «Mas buscou sempre, e encontrou, uma verdade mais profunda», que na linguagem cristã é conhecida como vocação: o chamamento que Deus dirige a cada ser humano para que se realize enquanto pessoa no serviço ao próprio Deus, através do serviço aos irmãos (GS 15). E, usando os dons que Deus lhes deu, é chamado a promover e a defender a vida. No fundo da consciência humana, o ser humano descobre e vive uma lei escrita pelo próprio Deus no seu coração, que o chama a viver o amor e a fugir do mal, que é a consciência moral. Assim, a dignidade reside na singular consciência que Deus imprimiu em cada ser humano, que nem mesmo o pecado pode diminuir (GS 16).

A liberdade humana

Uma das afirmações significativas do primeiro capítulo é sobre a liberdade humana: «é um sinal privilegiado da imagem divina no ser humano» que lhe exige que «proceda segundo a própria consciência e por livre adesão» (GS 17). Nesta afirmação, a Igreja coloca-se contra todas as tentativas de controle das consciências.

A morte

«É em face da morte que o enigma da condição humana mais se adensa. [...] Mas a intuição do próprio coração fá-lo acertar, quando o leva a aborrecer e a recusar a ruína total e o desaparecimento definitivo da sua pessoa. O germe de eternidade que nele existe, irredutível à pura matéria, insurge-se contra a morte» (GS 18).

O ateísmo

O Concílio refere-se aos múltiplos rostos do ateísmo presentes no mundo moderno que tentam de todas as formas negar a importância da religião, afirmando que a autonomia humana deve ser plena. Alerta para o facto de que «os crentes podem ter tido parte não pequena na génese do ateísmo» (GS 19). Os que o professam entendem que a liberdade consiste em que o ser humano seja o próprio fim e autor único da sua história. E pensam que isso é incompatível com o reconhecimento de Deus. Por isso, quando alcançam o poder, atacam violentamente a religião, difundindo o ateísmo, sobretudo na educação da juventude (GS 20). Apesar de rejeitar o ateísmo, a Igreja espera que todos, crentes e não crentes, contribuam para a construção do mundo, a partir de um prudente e sincero diálogo, deplorando qualquer tipo de discriminação (GS 21). Vemos, pois, a abertura da Igreja que convoca todos os «homens de boa vontade» para a transformação do mundo com um profundo desejo de diálogo com a sociedade. Para a Igreja, agir e emprestar a voz aos que não têm voz, e chamar todas as pessoas, independentemente da religião, para transformar o mundo, deriva da fé no Espírito Santo que renova todas as coisas e na certeza de que a incarnação, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo «abriu um novo caminho, em que a vida e a morte são santificados e recebem um novo sentido» (GS 22).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.9.15 | Sem comentários

Gaudium et Spes — Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual [1]


A partir desta semana vamos apresentar o conteúdo da Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual («Gaudium et Spes» [GS]). É um documento do II Concílio do Vaticano, promulgado pelo papa Paulo VI, no dia sete de dezembro de 1965. Esta Constituição abre com as palavras latinas «Gaudium et Spes» — em português, «as alegrias e as esperanças» — que lhe dão o título, de acordo com a tradição eclesiástica. Trata-se de um longo documento (93 artigos) composto por duas partes, às quais se juntam o proémio, a introdução e a conclusão: «A Igreja e a vocação do ser humano» (primeira parte); «Alguns problemas mais urgentes» (segunda parte).

Constituição Pastoral

A GS é denominada «Constituição Pastoral» porque o seu conteúdo demonstra a clara intenção de apresentar uma nova autocompreensão da vocação da Igreja como serviço («diaconia») ao mundo e à humanidade. E, embora na primeira parte trate de questões doutrinárias, na segunda, vai tratar de vários aspetos da vida atual e da sociedade humana, enfatizando os problemas mais urgentes que atingem a humanidade, ou seja, questões pastorais.

«Aggiornamento»

De fundamental importância para o «aggiornamento» — palavra italiana que se pode traduzir por «atualização» — preconizado pelo papa João XXIII e assumido por Paulo VI, a GS trouxe uma nova visão da Igreja para o mundo e do mundo para a Igreja. Na sua abertura ao diálogo com toda a humanidade, a Igreja («Povo de Deus») faz-se presente na história humana procurando a reformulação das estruturas pecaminosas que são causadoras de injustiça e exclusão social. Esta Constituição Pastoral continua a ser um documento eclesial imprescindível para refletir sobre as transformações que caracterizam a sociedade atual.

Proémio

O II Concílio do Vaticano, colocando-se em completa solidariedade com a humanidade (GS 1), dirige a sua palavra a todos os homens e mulheres com o intuito de expor o seu modo de conceber a presença e a atividade da Igreja no mundo atual (GS 2). Demonstra a sua solidariedade, respeito e amor para com a família humana, estabelecendo com ela um diálogo iluminado à luz do Evangelho, na perspetiva da salvação da pessoa humana e da renovação da sociedade. E, embora seja a humanidade a destinatária destas palavras, a Igreja dirige-se principalmente à sua parcela mais sofredora, a exemplo de Jesus Cristo (GS 3).

Introdução

Na introdução, a GS descreve o seguinte: alguns problemas que afetam a humanidade e a própria condição do homem e da mulher no mundo atual (GS 4); as profundas mudanças ocorridas nos últimos tempos; os avanços da ciência e da técnica (GS 5); as mudanças sociais (GS 6); as mudanças psicológicas, morais e religiosas (GS 7); os desequilíbrios pessoais familiares e sociais do mundo moderno (GS 8). Elabora ainda uma síntese das aspirações mais universais da humanidade, convencida de que o género humano pode e deve dominar mais intensamente as coisas criadas para estabelecer uma ordem política, social e económica que sirva para o bem de toda humanidade. Observa, todavia, o aumento da dependência económica das nações mais pobres em relação às mais ricas, que as mulheres reivindicam a igualdade de direito e de facto com os homens, que os trabalhadores almejam não apenas o necessário para sobreviver, mas desenvolver, pelo trabalho, as próprias qualidades e participar na organização da vida económica, social, política e cultural. Sob todas estas reivindicações lateja uma aspiração mais profunda e universal: as pessoas e os grupos desejam uma vida plena e livre, digna do ser humano, colocando ao seu próprio serviço tudo quanto o mundo moderno lhes pode oferecer com tanta abundância. Além disso, as nações esforçam-se cada vez mais para edificar uma comunidade universal. Diante do mundo moderno que se apresenta simultaneamente poderoso e débil, capaz de realizar o melhor e o pior, ao ser humano abre-se o caminho da liberdade ou escravidão, do progresso ou do regresso, da fraternidade ou do ódio. Em face deste conflito entre a busca de um mundo melhor por uma parte da humanidade e ambição desenfreada de outra parte, os homens e mulheres de boa vontade interrogam-se sobre a sua vocação (GS 9). No final da introdução, a GS confirma a convicção de que, somente à luz da opção evangélica de vida, a humanidade encontrará a chave para a solução dos problemas que a afetam, pois os desequilíbrios que atormentam o mundo moderno estão vinculados ao desequilíbrio mais fundamental radicado no coração do ser humano (GS 10).

Este texto foi elaborado a partir das «fichas» apresentadas pelo «Ambiente Virtual de Formação» da Arquidiocese de Campinas, Brasil — www.ambientevirtual.org.br —

© Laboratório da fé, 2015

II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.9.15 | Sem comentários

Ambiente Virtual de Formação


Sacrosanctum Concilium — Constituição Conciliar sobre a Liturgia


Esta ficha é dedicada à Música e às Artes Sacras, respectivamente os capítulos VI e VII da Constituição sobre a Sagrada Liturgia — «Sacrosanctum Concilium» (SC) — que recuperou a importância da expressão sensorial na vida dos cristãos. O primeiro aborda sobre o valor da música na comunidade cristã, e o segundo sobre as formas de expressão artísticas na Igreja. O objetivo de ambos foi valorizar e ressaltar a importância delas nas Celebrações Litúrgicas com a finalidade de ajudar os fiéis a se aproximarem de Deus através da beleza artística.

«Depois de terem cantado salmos, foram para o monte das Oliveiras» (Lucas 14, 26).

A Música Sacra

Na comunicação do humano com o divino, a música sempre esteve presente com a finalidade de glorificar a Deus e santificar os fiéis. A Música Sacra, património da Igreja, constituiu parte integrante da Liturgia, e será tanto mais santa quanto mais intimamente estiver unida à ação litúrgica, como expressão da oração, como fator de comunhão e elemento de maior solenidade (SC 112). O canto na Liturgia não é algo decorativo ou secundário para ocupar os fiéis durante a celebração do Mistério Pascal, mas parte integrante do culto público da Igreja. Sabe-se que, além de possuir uma força de expressão muito mais forte do que a fala, o canto cria comunidade, liga pessoas entre si, e é a expressão mais natural, mediante a qual uma concentração numerosa de gente pode manifestar-se. Ele sabe expressar o indizível!
Os primeiros cristãos expressaram-se através de música essencialmente vocal e transmitida oralmente. Com o tempo, surgiu a necessidade de uma unificação desses cantos para que fossem reconhecidos por todos e mais facilmente praticados. Esse trabalho foi realizado pelo papa São Gregório I, o Magno (590-604), depois continuado pelos outros também papas Gregórios II e III até o ano de 741, motivo pelo qual foi nomeado «Canto Gregoriano» conhecido e cantado até hoje. A tendência musical foi-se desenvolvendo em partes ou vozes diferentes, acompanhadas de instrumentos, tornando-se mais elaborada e não mais praticada pelo povo nas assembleias, pois eram necessários coros e músicos muito bem preparados. Porém, a Música Sacra que sempre atraiu compositores e se fez representar na História, distanciou-se da participação ativa do povo nas funções litúrgicas. Durante a Idade Média até o século XIX houve certo declínio musical devido à influencia da música profana na vida eclesial. Apenas no século XX, o papa São Pio X promoveu a renovação do Canto Gregoriano com a criação de uma escola musical com a finalidade de reavivar a vida pastoral. Depois disso, só no II Concílio do Vaticano se retomou a questão do canto.
A SC estabelece que a Liturgia torna-se mais nobre quando celebrada de modo solene com canto (SC 113) e, segundo a Instrução sobre a Música na Liturgia («Musicam Sacram» — 1967), o canto, especificamente a Música Sacra, é de grande importância, uma vez que mais claramente demonstra o aspeto «eclesial» da celebração, e também é muito eficaz na promoção da devoção dos fiéis nas Celebrações da Palavra de Deus, e na devoção popular.
A grande novidade do II Concílio do Vaticano, no que diz respeito à música na SC, é a proposta de poder ser cantada na língua materna, o que favorece a participação ativa da assembleia. Novas ações são recomendadas, desde uma boa formação musical nos Seminários, Instituições Religiosas e Escolas Católicas, até ao incentivo à fundação dos Institutos Superiores de Música Sacra, para que os compositores, os cantores e também as crianças recebam uma verdadeira educação litúrgica (SC 115). O Canto Gregoriano tem o primeiro lugar como canto oficial próprio da Liturgia Romana, porém, todos os outros géneros também são aceites (SC 116). Adaptando-se às diferentes culturas, a Igreja não quer impor, porém, aceita na Liturgia tudo o que se harmonizar ao seu verdadeiro espírito e não estiver ligado a superstições (SC 37).
A SC estimula os cantos populares religiosos nos exercícios piedosos e sagrados (SC 118); motiva os compositores na criação de músicas que possam ser cantadas pelas assembleias, com base nos textos da Sagrada Escritura e nas fontes litúrgicas (SC 121); pede aos instrumentistas que procurem manter com dignidade a edificação dos fiéis, respeitando a tradição musical dos diversos povos e culturas, no caso das Missões (SC 119); e pede também que se considere o órgão de tubos e que seja usado como instrumento tradicional, que dá às celebrações um esplendor extraordinário, promovendo o espírito para Deus (SC 120).

Arte Sacra e alfaias sagradas

A Arte Sacra ou Arte Religiosa é a manifestação artística ou os objetos que são usados na Igreja para as celebrações litúrgicas ou para a catequese. Tendem a exprimir, pelas mãos do artista, a infinita beleza de Deus, contribuindo e conduzindo o espírito do ser humano até Ele (SC 122). As artes trazem uma conceção teológica que tem como finalidade propiciar ao povo cristão a experiência da leveza e beleza espiritual que se manifesta como louvor a Deus. Os objetos artísticos religiosos ajudam o povo a contemplar o mistério na medida em que fazem interiorizar e sentir o religioso manifestando-se em suas vidas. A SC cuidou para que também a arte litúrgica, seguisse a orientação cristocêntrica do Concílio, isto é, procurou destacar que tudo deve estar em função do Cristo. A Igreja não possui um estilo próprio de arte sacra ou religiosa, mas aceitou e aceita todas, de todas as épocas, e defende que seja também cultivada a arte do tempo presente, de todos os povos e regiões. E, toda a arte que serve de instrumento, de sinal e de símbolo do sobrenatural é amada pela Igreja, que deve ter o zelo na sua escolha, optando por obras que estão de acordo com a fé, a piedade e as orientações da tradição para serem objetos dignos, decorosos e belos ao culto (SC123).
Tanto a Introdução do Missal Romano como dos Rituais Sacramentais trazem, em si, estas orientações.
Os artistas conseguem traduzir nas suas obras os sentimentos e a alma do povo, por isso, a Igreja tem necessidade de novos artistas para que surjam novas manifestações de fé através da arte. Em Portugal, a arte religiosa pode ser constatada nas construções das igrejas, na beleza das imagens, na dança e na pintura.
Nesta perspetiva confirmam-se, na prática, as palavras que o Papa Paulo VI dirigiu aos artistas na conclusão do Concílio: Hoje como ontem, a Igreja tem necessidade de vós e volta-se para vós. E diz-vos pela nossa voz: não permitais que se rompa uma aliança, entre todas, fecunda (Paulo VI, «Carta aos Artistas», 1963).
Um outro tipo de arte utilizada nas celebrações litúrgicas são as alfaias, ou seja, os objetos que estão a serviço da Liturgia – mais propriamente, todos os vasos sagrados e paramentos litúrgicos utilizados pelos ministros ordenados. São eles:
Cálice: é o Vaso Sagrado por excelência e está reservado para a consagração do Vinho.
Patena: é um pequeno prato, de material nobre na sua parte côncava, usado para colocar a hóstia grande que será consagrada, e também para recolher os fragmentos das partículas que caíram no corporal, sobre o altar depois da comunhão.
Pala: é utilizada para cobrir o cálice durante a Santa Missa.
Corporal: «Corporale» = corpo, é um tecido branco quadrado que é aberto sobre o Altar e sobre ele são colocados o Cálice e a Patena.
Sanguíneo: é um tecido usado para enxugar os lábios e os dedos do presbítero e, também, o Cálice depois da Comunhão.
Âmbula: é o vaso utilizado para colocar as hóstias que serão consagradas durante a Missa e distribuídas aos fiéis na comunhão.
Lavabo: é formado por uma jarra e uma bacia, utilizados para o presidente da celebração lavar as mãos depois das oferendas.
Manustérgio: toalha utilizada para enxugar as mãos do presidente da celebração.
Galhetas: levam o vinho e a água que são utilizados na Eucaristia.
Túnica: Veste usada pelos ministros do altar (acólitos, diáconos, presbíteros, bispos).
Estola: que representa a autoridade do presbítero em nome de Jesus Cristo.
Casula: Capa usada por cima da túnica e da estola.
A SC determina aos Bispos que tenham cuidado em retirar da casa de Deus, e de outros lugares sagrados, as obras de artes que não sejam condizentes com a fé, os costumes e a piedade cristã. Que a construção dos edifícios sagrados estejam preparados para realizar as ações litúrgicas com a participação ativa dos fiéis. Que tanto a arte sacra quanto às alfaias litúrgicas sejam preferidas as mais simples e nobres, não necessitando ser sumptuosas (SC 124). E, que as imagens nas igrejas estejam dispostas, em número comedido e nas devidas ordens, para a veneração dos fiéis (SC 125).
Recomenda também aos Bispos, a formação dos artistas e a criação de Escolas ou Academias de Arte Sacra onde parecer oportuno; e a vigilância no que diz respeito à construção funcional e digna dos edifícios sagrados e dos altares, a nobreza, a disposição e a segurança dos sacrários, a dignidade do Batistério, a decoração e os ornamentos, para que estejam de acordo com a reforma da Liturgia (SC 127-128).

© Ambiente Virtual de Formação — www.ambientevirtual.org.br —
© Arquidiocese de Campinas, Brasil
© Adaptado por Laboratório da fé, 2014



Questões para reflexão

  • Na tua comunidade, existe uma equipa para a escolha e os ensaios dos cânticos para, conforme a SC, «serem tanto mais santos quanto intimamente unidos à ação litúrgica»? E, que efeito a música, tocada e cantada na tua comunidade, provoca na oração durante as celebrações litúrgicas?
  • A assembleia tem participação ativa na parte musical? Quais são as diversas expressões usadas na tua comunidade nos diversos tempos litúrgicos?
  • O que é que esta ficha trouxe de novo para o teu conhecimento? E o que mais despertou o teu interesse, ou respondeu aos teus anseios?

Partilha connosco a tua reflexão!


II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.7.14 | Sem comentários

Ambiente Virtual de Formação


Sacrosanctum Concilium — Constituição Conciliar sobre a Liturgia


Esta ficha é dedicada ao Ofício Divino (Liturgia das Horas) e ao Ano Litúrgico, respetivamente os capítulos IV e V da Constituição sobre a Sagrada Liturgia — «Sacrosanctum Concilium» (SC) — que lançou novas luzes sobre estes dois importantes temas litúrgicos. O primeiro reflete sobre a oração da Igreja e o segundo sobre a sua ação litúrgica no tempo. O objetivo de ambos foi renovar os aspetos pastorais e espirituais com a finalidade de contribuir para a santificação do povo de Deus.

Liturgia das Horas

O capítulo IV aborda o Ofício Divino, a Celebração da Oração Litúrgica (Liturgia das Horas) que a comunidade eclesial realiza em nome de Cristo. A oração sempre foi um dos elementos constitutivos da Igreja que cumpre o mandamento do Seu Senhor de orar incessantemente! (cf. Marcos 14, 38; Mateus 26, 41).
A Liturgia das Horas é formado por uma série de orações de louvor a Deus e de intercessão pela salvação do mundo que, segundo a tradição antiga cristã, se destina a consagrar o curso diurno e noturno do tempo (SC 84) no louvor individual ou coletivo. A SC propôs reformá-lo com a finalidade de adequá-lo à realidade moderna, porém, mantendo a sua importância teológica, enfatizando o louvor divino como oração do Cristo total, ou seja, como ação comunitária da Igreja inteira.
O Ofício Divino tem a sua origem no louvor que as primeiras comunidades cristãs realizavam através da recitação dos Salmos segundo a tradição judaica (Atos 2, 42 e Colossenses 3, 16). Na medida em que a Igreja se foi institucionalizando, também a Liturgia foi recebendo normas elaboradas pelos bispos para as suas dioceses, e pelos mosteiros nascentes, entre eles a Ordem de São Bento que definiu que os monges deveriam rezar os salmos em favor da Igreja, em determinadas horas do dia e da noite. Apesar de algumas mudanças terem ocorrido, esta estrutura é mantida até os nossos dias.
Como Ofício propriamente dito, surge na Idade Média quando, no século XI, foi sistematizado e organizado num livro denominado «Breviário», com os salmos, hinos, textos bíblicos e orações, que era usado para a oração dos clérigos (letrados). Como o povo não tinha acesso ao «Breviário», seja por questões culturais ou económicas, difundiu-se a prática da piedade popular da oração do Rosário, rezava-se as 150 Ave-Marias como uma forma de substituir os 150 Salmos.
Desde os tempos antigos, a Igreja confiou o Ofício Divino às comunidades religiosas e aos clérigos e, a partir do II Concílio do Vaticano, os leigos foram também convidados a celebrá-lo segundo as suas possibilidades, especialmente aos domingos e dias santos (SC 100). Para isso, foi fundamental a autorização da tradução na língua materna, possibilitando uma maior participação das pessoas nas celebrações.
A SC insistiu que o Ofício Divino fosse celebrado, sempre que possível, em comunidade, e destacou que, dentre as várias horas, as «Laudes» e as «Vésperas» (Oração da Manhã e da Tarde) eram as mais importantes. Solicitou que houvesse uma consonância entre as orações litúrgicas e os textos bíblicos (SC 90) e, para isso, foi proposta uma revisão dos textos e a sua distribuição de acordo com cada tempo litúrgico.
Em 1970, o novo livro de orações passa a ser chamado «Liturgia das Horas» abolindo o termo «Breviário»; e, em 1985, foi feita uma nova revisão e lançada uma segunda edição que passou a ter quatro livros, incorporando o «Ofício de Leituras». O primeiro é dedicado ao Advento e Natal, o segundo à Quaresma, Tríduo e Tempo Pascal, o terceiro contém as primeiras dezassete semanas do Tempo Comum, e o quarto vai desde a 18.ª até à 34.ª semana do Tempo Comum. Em Portugal, como noutros países, foi elaborada uma edição (um único livro) apenas com as Horas principais («Laudes» e «Vésperas») e a oração do fim do dia: «Completas».

Ano Litúrgico

O capítulo V da SC estabelece a reforma do Ano Litúrgico com o intuito de destacar a centralização do mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo nas celebrações litúrgicas, tanto durante o ano quanto na semana, isto é, o Concílio desejou afirmar que a Páscoa é o tempo por excelência no Ano Litúrgico, e que o domingo é o dia por excelência na semana. Diante disto, este capítulo emana orientações catequéticas para a revalorização do domingo como o «Dia da Páscoa do Senhor»; do «Tempo da Quaresma» como tempo de preparação penitencial para a grande festa da Páscoa; e considerações sobre o culto dos Santos, enfatizando que as suas festas não devem prevalecer sobre os mistérios da salvação (SC 111).
Segundo a SC 106, o domingo, o dia do Senhor, é mantido como o principal dia de festa, pois, segundo a tradição apostólica, tem a sua origem no mesmo dia da ressurreição de Cristo. Nele, a Igreja celebra o mistério central de nossa fé, a Páscoa semanal, o Mistério Pascal. Segundo as «Normas Universais para o Ano Litúrgico e o Calendário» (número 4), «por causa de sua especial importância, o domingo só cede sua celebração às Solenidades e Festas do Senhor. Os domingos do Advento, da Quaresma e da Páscoa gozam de precedência sobre todas as Festas do Senhor e todas as Solenidades. As Solenidades que ocorrerem nestes domingos sejam antecipadas para o sábado».
O Ano Litúrgico possui como fundamento bíblico-teológico a «História da Salvação» no qual a Igreja celebra o mistério da Encarnação, Nascimento, Ministério Público, Morte, Ressurreição, Ascensão, Pentecostes, e a espera da vinda do Senhor (SC 102) e é nele que o cristão vive inserido em Cristo. Não segue a mesma datação do calendário civil e o seu inicio dá-se no primeiro domingo do Advento, quatro domingos antes do 25 de dezembro, e termina na 34.ª semana do Tempo Comum. O Ano Litúrgico propõe um caminho espiritual, oferecendo um programa para se viver a graça do mistério de Cristo nos sucessivos momentos de sua vida. Para alcançar este objetivo, o Ano Litúrgico foi dividido em partes denominadas Tempos Litúrgicos, cada um dos quais relacionados com uma grande festividade integrada e atualizada no Tempo Cósmico, Biológico e Histórico. Por isso, toda a Liturgia é celebrada num tempo, e todo dia é dia celebrativo.
Os Tempos Litúrgicos são:
Tempo do Advento (cor roxa; no terceiro domingo pode-se usar a cor rosa) : inicia-se no domingo seguinte à festa de Cristo Rei (34.º domingo do Tempo Comum), e tem a duração de quatro semanas. Celebra-se nesse período a Solenidade da Imaculada Conceição (8 de dezembro).
Tempo de Natal (cor branca): no dia 25 de dezembro, comemora-se o «Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo»; no primeiro domingo após o Natal, a «Sagrada Família, Jesus Maria e José» (quando não há domingo entre o Natal e o primeiro dia do ano civil, celebra-se a 30 de dezembro); no primeiro dia do ano, «Santa Maria, Mãe de Deus»; no domingo seguinte, a «Epifania do Senhor» que é a manifestação de Deus ao mundo através do reconhecimento e adoração dos Magos; e, em seguida, o «Batismo do Senhor».
O primeiro ciclo do Tempo Comum (cor verde) inicia-se na segunda-feira depois do Batismo do Senhor e termina na terça-feira (Carnaval), véspera da quarta-feira de Cinzas.
Tempo da Quaresma (cor roxa; no quarto domingo pode-se usar a cor rosa): período de «quarenta dias» que se inicia na quarta-feira de Cinzas, dia em que são impostas as cinzas orientando para a conversão. Representa, simbolicamente, os 40 anos de travessia no deserto do Sinai, e relembra os 40 dias que Jesus esteve no deserto em preparação para iniciar a sua vida pública. Esse tempo tem por finalidade preparar a Páscoa com penitências, orações pessoais e comunitárias, para obter a conversão dos pecadores, jejuns e caridade (SC 109). A semana que precede a Páscoa é chamada «Semana Santa» (cor roxa), que se inicia com o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor (cor vermelha).
Tríduo Pascal: inicia-se na tarde de quinta-feira da Semana Santa (cor branca) com a missa vespertina da «Ceia do Senhor», passando pela sexta-feira da «Paixão do Senhor» (cor vermelha), e culminando com a grande «Vigília Pascal» (cor branca), cuja celebração se realiza na noite de sábado, véspera da celebração da «Páscoa do Senhor».
Tempo da Páscoa (cor branca): tem duração de 50 dias e inicia-se no Domingo da Ressurreição do Senhor e termina no Domingo de Pentecostes (cor vermelha). No sétimo domingo, celebra-se a Solenidade da Ascensão do Senhor.
O segundo ciclo do Tempo Comum (cor verde) inicia-se na segunda-feira após a Solenidade de Pentecostes e encerra no sábado seguinte à solenidade de «Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo» (cor branca), onde se vive o tempo do crescimento da Igreja e celebra-se antecipadamente a volta de Cristo como Juiz, encerrando a história e inaugurando o Reino Eterno. Neste Tempo celebram-se também, as Solenidades (cor branca) da Santíssima Trindade, do Corpo de Deus (Corpo e Sangue de Cristo), do Sagrado Coração de Jesus, de São Pedro e São Paulo (cor vermelha) e Todos os Santos, entre outras.
A proposta da revisão do Ano Litúrgico e das Normas têm o objetivo de levar os fiéis a participarem mais ardentemente pela fé, pela esperança e pela caridade, em «todo o mistério de Cristo nas celebrações dominicais, desenvolvido no decurso de um ano»; aproximá-los da Igreja e levá-los a uma maior participação nas missas através das orações, dos cantos e dos ritos simplificados que, a partir de então, facilitaram a compreensão. A nova postura do presidente da celebração voltado para a comunidade e rezando na língua materna – e não de costas, rezando em latim, como era celebrado antes do Concílio – foi essencial para a mudança do conceito de «participação» dos fiéis, que antes apenas «assistiam» à celebração da Ceia do Senhor. Outros aspetos importantes do documento foram: a abertura dada para a utilização de novos instrumentos musicais que ajudassem na animação da Liturgia, e a possibilidade de maior participação ativa dos fiéis no exercício de diversas funções como comentadores, leitores, animadores e grupos de canto.

O culto à Virgem Maria e aos Santos

A partir do Concílio de Éfeso (431 depois de Cristo), o culto prestado pelo povo de Deus a Maria cresceu admiravelmente em amor, em oração e imitação, de forma que todos a veneram como a Mãe de Deus, a «Theotókos» (Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium», 66). No ciclo do Ano Litúrgico, Maria é venerada porque está indissoluvelmente unida à obra de salvação do seu Filho (SC 103). Quatro solenidades (cor branca) são dedicadas à Virgem Maria: no primeiro dia de janeiro, «Santa Maria, Mãe de Deus»; a 25 de março, «Anunciação do Senhor»; a 15 de agosto, «Assunção de Nossa Senhora»; a 8 de dezembro, «Imaculada Conceição de Nossa Senhora».
A Igreja venera os Santos e as suas relíquias autênticas, bem como as suas imagens e, está também inserida no Ano Litúrgico, a celebração da memória dos Mártires (cor vermelha) e outros Santos (cor branca) no «dies natalis» (dia da morte), que proclama o mistério pascal realizado na paixão e glorificação deles com Cristo. Estas celebrações têm o intuito de proclamar as grandes obras de Cristo realizadas nos seus servos (SC 111), e propõem aos fiéis os bons exemplos a serem imitados, conduzindo os seres humanos ao Pai, por meio do seu Filho Jesus, e implorando, pelos seus méritos, as bênçãos de Deus (SC 104).

Exercícios de piedade

Segundo a SC 105, em várias épocas do ano e seguindo a tradição, a Igreja completa a formação dos fiéis orientando-os pela opção da oração, do jejum e da caridade como práticas corporais e espirituais. E, isso ocorre, especialmente no tempo da Quaresma e nas festas dos Santos.
A penitência deve ser praticada não só de modo pessoal, mas servindo de dedicação ao próximo conforme as suas necessidades e disponibilidades.
O jejum pascal deve ser observado na Sexta-feira da Paixão e Morte do Senhor, estendendo-se também ao Sábado Santo, para que os fiéis possam chegar à alegria da Ressurreição do Senhor com elevação e largueza de espírito (SC 110).

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Questões para reflexão

  • O que conheces sobre as orações da Liturgia das Horas? São praticadas na tua comunidade?
  • Como é que podemos celebrar bem todo o Ano Litúrgico?
  • Que iniciativas são apresentadas na tua comunidade para que as celebrações sejam mais acolhedoras, orantes, e expressão de encontro com Deus?
  • O que ficaste a saber com a leitura desta ficha?

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.7.14 | Sem comentários

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Sacrosanctum Concilium — Constituição Conciliar sobre a Liturgia


Este texto aborda os capítulos II e III da Constituição Conciliar sobre a Liturgia (SC), sendo o II totalmente dedicado à Eucaristia. A visão teológica apresentada confirma a doutrina definida no Concílio de Trento (século XVI), mas ao mesmo tempo, procura atualizá-la no que diz respeito à pastoral. Esta preocupação, comum a todos os documentos do II Concílio do Vaticano, pode ser percebida nas determinações e sugestões para que os rituais das Celebrações Litúrgicas dos Sacramentos e Sacramentais fossem revistos, a fim de contribuir para a santificação dos cristãos e para a edificação Igreja (59).
Os Sacramentos são sinais sensíveis e visíveis da fé, alimentam-na e fortificam-na, e existem para a Igreja. Não existe cristão nem sacramento fora da comunidade, porque, por mais ténue que seja o vínculo estabelecido entre o cristão e a comunidade eclesial, todo aquele que o recebe, recebe também a graça, que é a vida de Deus nos seres humanos; dispõe-se a honrar a Deus e a praticar a caridade associando-se a Cristo e à sua Igreja.
Sendo sinais da fé, a Igreja precisa de criar condições para que os fiéis celebrem os sacramentos e possam compreender o alcance da graça recebida e as exigências que dela decorrem na sua vida pessoal e comunitária. Desde os primórdios, a Igreja entendeu que uma das formas de fazer isso era através da catequese. O Concílio de Trento ordenou a sistematização daquilo que ficou conhecido como Catecismo Romano que era destinado a orientar os padres para a realização da catequese nas suas paróquias. No início do século XX, São Pio X ordena a publicação de um catecismo abreviado com perguntas e respostas destinado ao povo, e esta atitude deve ser considerada como uma grande preocupação pastoral da época, mas trouxe consigo um vício formativo. As pessoas passaram a decorar o catecismo sem refletir sobre a fé que professavam, de tal forma que os bispos, presentes no II Concílio do Vaticano, perceberam a necessidade de se procurar uma catequese que fosse menos intelectualizada e mais ligada à vida comunitária. A SC sugere que a pastoral sacramental cuide que a preparação dos fiéis para os sacramentos seja apresentada como um itinerário mistagógico para toda a vida cristã e não apenas, como um momento preparatório dos sacramentos. Não obstante esta orientação mais profunda, a saída encontrada foram os «cursos» de preparação para os vários sacramentos, que sem dúvida contribuíram para superar a prática de decorar a doutrina, mas ainda não conseguiram despertar a reflexão sobre o porquê e para quê de celebrar um sacramento. Esta ainda é a principal preocupação da pastoral sacramental.
Em 1992, depois de seis anos de árduo trabalho, surge o Catecismo da Igreja Católica que se torna o livro doutrinal por excelência. E, em 2005, foi publicado o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, uma versão concisa, em forma de perguntas e respostas, ao modo do Catecismo de São Pio X.

Eucarista

No que diz respeito à Eucaristia, a SC lembra que a Igreja celebra a Eucaristia e esta constrói a Igreja. Profundamente associadas, uma realidade não existe sem a outra. A celebração da Eucaristia é sinal da Igreja reunida como corpo do Senhor, que ritualmente presta culto a Deus e oferece pão e vinho, pedindo-Lhe que os transforme no Seu próprio Corpo e Sangue, alimento da caminhada.
Para que os fiéis pudessem descobrir esta riqueza, a SC lembra que a Igreja deve cuidar para que não sejam meros expectadores da celebração eucarística, mas ativos participantes da oferta de Cristo, pois todas as vezes que dela participam, juntamente com Ele oferecem as suas vidas na Eucaristia (48). Para que isso aconteça, afirma que é fundamental que o ritual da missa seja revisto, simplificado e reformado (50).
Na dimensão catequética, a SC destaca a importância da Liturgia da Palavra, que é também alimento para as pessoas, o que indica que as Leituras Bíblicas não estavam a receber o seu devido valor na celebração da Eucaristia (51). Ela recomenda com veemência a pregação e/ou homilia como parte da Liturgia, que ajuda na exposição dos mistérios da fé e das normas da vida cristã, na intenção de oferecer aos fiéis o contacto com a Palavra de Deus como o percurso de um itinerário espiritual cristocêntrico dentro do Ano Litúrgico (52). Insiste, também, para que os fiéis participem nas orações e especialmente dos cantos, o que antes era limitado devido à língua latina desconhecida pela maioria das pessoas que, ao invés de participarem na celebração, apenas ‘assistiam’, sem nada compreender dos Ritos Litúrgicos (53-54).
Quanto aos demais sacramentos, a contribuição mais importante da SC é a determinação de que todos os rituais sejam atualizados (67-78) e traduzidos na língua materna. Os sacramentos do Batismo, da Confirmação e da Eucaristia passaram a ser chamados de Sacramentos da Iniciação Cristã e, ainda que as preparações sejam separadas, devem ser vistas dentro de um único processo formativo. Desta visão se retoma a preocupação com a Iniciação Cristã dos Adultos, devido ao grande número de adultos não batizados existentes nos territórios de missão e também nas grandes cidades atingidas pela modernidade. A SC determinou a elaboração de um novo ritual (63-55) e, após nove anos, em 1972, surgiu o Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos (RICA), reformado por Decreto do II Concílio do Vaticano e promulgado pelo Papa Paulo VI.

Sacramentais

Os sacramentais ou bênçãos, embora não sejam sacramentos, são sinais sagrados que colaboram para a santificação dos fiéis (60), como por exemplo, uma bênção pessoal ou de uma casa, um carro etc. A SC não só incentiva o uso dos sacramentais, como também determina que alguns sejam realizados por leigos, o que permite compreender o quanto a Igreja deseja que assumam a sua vocação missionária e evangelizadora. Dentro deste contexto foi de suma importância a publicação do Ritual das Bênçãos. Trata-se de um livro de grande valor, onde as bênçãos estão divididas em cinco partes: bênção de pessoas, objetos, de coisas destinadas ao uso litúrgico, de objetos de piedade e, finalmente, bênçãos para diversos fins. A estrutura de cada bênção comporta uma proclamação da Palavra e um louvor da bondade de Deus com um pedido de auxílio, além de um breve rito de abertura e conclusão.

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Questões para reflexão

  • O que significa a expressão ‘a Igreja celebra a Eucaristia e esta constrói a Igreja’?
  • Como é que a equipa de liturgia da tua paróquia e/ou comunidade pode contribuir para que a comunidade e o povo celebrem e vivam melhor os sacramentos?
  • Como vês o processo de Iniciação Cristã? 
  • Estas informações sobre Sacramentos e Sacramentais acrescentaram alguma coisa aos teus conhecimentos e à tua vida? O quê?

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.2.14 | Sem comentários

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Sacrosanctum Concilium — Constituição Conciliar sobre a Liturgia


Este texto sobre a Formação Litúrgica completa o estudo da ficha anterior, referente ao primeiro capítulo da Constituição «Sacrosanctum Concilium» («Sagrado Concílio» [SC]), sobre a Sagrada Liturgia: Princípios gerais em ordem à reforma e incremento da Liturgia. Neste texto, são abordados os pontos II e V, nos quais podemos perceber a nova mentalidade que surgia graças ao II Concílio do Vaticano. Estes textos lembram que além da Missão de Santificar, a Igreja também tem a Missão de Ensinar o Povo de Deus, daí a importância da formação litúrgica dos cristãos e a criação de um estrutura pastoral dedicada à Pastoral Litúrgica nas dioceses e paróquias.
O ponto II — Educação e participação ativa (parágrafos 14-20) — indica que a participação ativa na celebração é um direito e um dever de todos os fiéis. Todavia, para que isso aconteça, é fundamental que haja formação litúrgica, a começar pelo clero que, por sua vez, deve multiplicar a formação aos agentes de pastoral e ao povo. Esta ação insere-se na grande preocupação do Concílio em renovar a Igreja e fazer com que a sua prática e o seu discurso sejam significativos ao ser humano dos tempos modernos.
O ponto V — Incremento da ação pastoral litúrgica (parágrafos 43-44) — apresentada as condições para que a Pastoral Litúrgica se possa desenvolver e atingir o seu objetivo: o cuidado espiritual do Povo de Deus, a quem os Ministros Ordenados devem servir. O Concílio determinou que em todos os países fossem criados uma Comissão Litúrgica – com especialistas em Liturgia, Música Sacra e Pastoral – e um Instituto de Liturgia Pastoral; e estas duas estruturas deveriam ser reproduzidas nas dioceses e nas paróquias.
Atualmente, é impensável que numa comunidade e/ou paróquia não exista uma «equipa» de liturgia, ou que não haja a preocupação com a formação litúrgica dos agentes de pastoral, mas esta é uma realidade do nosso tempo. Na época do Concílio não era assim! A própria noção de «equipa pastoral» só nasceu depois deste importante evento que, bem diferente dos outros,se preocupou muito com a «pastoral». Esta foi a grande mudança em relação aos outros concílios. Nesta nova forma de organizar a ação eclesial, a Pastoral Litúrgica foi uma das primeiras equipas a serem criadas nas dioceses e paróquias. Com isso, pode-se dizer que as mudanças litúrgicas, sugeridas e implantadas ao longo desses cinquenta anos, contribuíram para fortalecer a nova conceção de Igreja como «Povo de Deus». Se hoje existem equipas, nas paróquias e comunidades, é porque o Concílio as incentivou e indicou orientações para isso. Também, foi em função da organização pastoral que a Igreja determinou que os Livros Litúrgicos: Missal, Lecionários, Rituais Sacramentais, fossem traduzidos para as línguas locais. Outra importante orientação do Concílio foi que os bispos considerassem a possibilidade de fazer adaptações das culturas locais na Liturgia.
As Celebrações Litúrgicas oferecem um profundo ensinamento espiritual numa dimensão formativa que não se dá através das práticas pedagógicas, mas da mistagogia, isto é, o cristão é inserido no mistério de Cristo e, por conseguinte, da Igreja, Povo de Deus, através da participação ativa nas celebrações. É através dos sinais litúrgicos e, especialmente, através dos sinais sensíveis e visíveis da fé, os Sacramentos, que a comunidade e cada singular cristão experimenta o divino na sua vida. Por isso, a participação nas celebrações não deve ser vista como uma obrigação, mas como fonte e ápice da vida cristã. Na Liturgia, os fiéis celebram a fé e são impelidos a viver a prática cristã no quotidiano, dando testemunho por atos e palavras daquilo que dizem crer!

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Questões para reflexão

  • Por que se considera que a Celebração da Liturgia é uma escola de Santidade?
  • As equipas de liturgia que conheces preocupam-se em ajudar o povo a rezar?
  • Quais os pontos que julgas fundamentais na formação dos agentes da Pastoral Litúrgica?

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II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.1.14 | Sem comentários
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