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TOMÉ TOCOU EM JESUS?


O tempo de Páscoa é um tempo em que somos recriados pelo Espírito Santo que, pelo Batismo, nos identifica com Jesus Cristo. E nos fortalece com o poder da Ressurreição para podermos prolongar a incarnação do seu amor no hoje que nos é dado viver. Voltamos a olhar o mundo pela primeira vez, escutamos a melodia do presente, abrimos o ouvido do coração à realidade pascal que nos convida a viver como autênticos filhos de Deus. Trata-se de não nos deixarmos vencer pelo medo, mas de viver na confiança dos que se sabem amados e salvos (mesmo sem termos visto). A Páscoa surge como um tempo de novidade e de graça, para nós e para toda a humanidade. Já não há lugar para o velho, para as cópias sem autenticidade, para o passageiro e superficial; agora, tudo é novo, autêntico, permanente e profundo... tudo é Vida! Audácia, valentia, novidade, criatividade, compromisso, compaixão, misericórdia — são os caminhos a calcorrear, a «tocar», para dar testemunho do Ressuscitado, do Vivente.

Páscoa: Tomé tocou em Jesus?

A «mística do instante» convida-nos, nesta Páscoa, a redescobrir o tato. O sentido do tato «permite que existam encontros. [...] A nossa autobiografia é também uma história da pele e do tato, da forma como tocamos ou não, da forma como fomos e não fomos tocados [...]. Existe um tipo de conhecimento que só nos chega através do tato» (José Tolentino Mendonça). Talvez tenha sido esse tipo de conhecimento que Tomé evocou, quando os amigos lhe contaram que tinham visto o Senhor: «se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado, não acreditarei» (João 20, 24-29). Oito dias depois, isto é, no domingo, eis o Ressuscitado disposto a dissipar as dúvidas: «’Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado e não sejas incrédulo, mas crente’. Tomé respondeu-Lhe: ‘Meu Senhor e meu Deus!’». Por um lado, parece que vemos, como no quadro de Caravaggio, Jesus Cristo a pegar no braço de Tomé para o fazer tocar nas suas chagas. Mas, por outro lado, a continuação do texto ignora o tato e apenas refere a visão: «porque Me viste acreditaste». Pode ser que as palavras do Ressuscitado recuperem a expressão popular «ver com as mãos» ou podem referir-se aos «olhos da pele», belo título dum ensaio do arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa: «Na verdade a nossa pele é capaz de distinguir diversas cores; nós realmente vemos com a nossa pele. [...] Todos os sentidos, incluindo a visão, são extensões do tato; os sentidos são especializações do tecido cutâneo, e todas as experiências sensoriais são variantes do tato». Voltando ao evangelho: Tomé tocou em Jesus? O mais certo é ter acontecido o inverso: foi o Ressuscitado quem tocou em Tomé, tocou-o com o dom da fé. Por isso, tem razão S. Gregório Magno: «A incredulidade de Tomé é mais útil à fé do que a fé dos discípulos que acreditam»!
Há ainda um outro aspeto que podemos aprofundar: «A alegria de Tomé, a sua ‘segunda conversão’, foi causada por algo que, certamente, o terá afetado mais do que aos outros apóstolos: a identificação do Crucificado com o Ressuscitado. Para ela apontam as chagas de Jesus. [...] A luz das feridas transformadas de Jesus permitiu-lhe, por um instante, avistar Deus através do homem, o futuro através do presente, o invisível através do visível» (Tomáš Halík). O nosso Deus, como o de Tomé, é um «Deus ferido»!


Laboratório da Fé vivida

A fé é uma relação tátil. Mais ainda quando nos referimos à «fé vivida»: uma fé que toca e se deixa tocar. Aliás, a primeira atitude consiste em deixar-se tocar pelo Espírito do Ressuscitado. «O Espírito Santo é aquele que faz estremecer as estruturas, que toca nos lugares mais profundos e nossos. [...] Precisamos desse sopro que verdadeiramente nos agite, nos empurre, nos toque. [...] O Espírito Santo não é determinado por nós: nós é que somos tocados por Ele» (José Tolentino Mendonça). Abre-nos a uma nova gestualidade. Quando as nossas mãos são «tocadas» pelo Espírito Santo, elas abrem-se para acolher o que a vida nos traz sem querer controlar ou dominar, oferecem-se sem se imporem, unem-se a outras mãos para tecer o manto da misericórdia, em obras «corporais» e «espirituais», transformam o monótono e caduco em oportunidades para a criatividade e o amor. Precisamos de mãos como as de Jesus Cristo: dedicadas a servir, a curar, a abençoar, a acariciar; gastas e feridas de tanto tocar. «O Senhor da História, quando voltar, olhará para as nossas mãos» (Mamerto Menapace)!

© Laboratório da fé, 2015


Tomé tocou em Jesus?
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.4.15 | Sem comentários

NOVEMBRO: MÊS DA ESCATOLOGIA


O mês de novembro, no coração do outono, remete-nos para as coisas últimas da vida, o final dos tempos. Ao mesmo tempo, coincide com o final do Ano Litúrgico (Ano Cristão), cujas propostas incidem nas referências à morte, ao final dos tempos (na Igreja, usa-se o termo «escatologia»), à esperança na ressurreição, à vida eterna. Os primeiros dias do mês de novembro (Todos os Santos e Fiéis Defuntos) dão o mote para uma renovada reflexão sobre estas temáticas. Neste contexto, também associado ao encerramento do Ano da Fé (24 de novembro de 2013), propomos a expressão do «Credo niceno-constantinopolitano»: «Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir». Esta iniciativa tem ainda como ponto de referência a conferência do Padre Doutor José Tolentino Mendonça, às 21h do dia 21 de novembro de 2013, no Auditório Vita, Braga.

Apresentamos, agora, a reflexão de José Tolentino Mendonça publicada no «Expresso» de 2 de novembro de 2013:

É tão estranho que entre a avalancha de saberes úteis e inúteis que acumula­mos uma vida inteira não esteja este: aprender a morrer. A contemporaneidade fez da morte o seu tabu, o mais temido e ocultado, e deixa-nos completamente impreparados para enfrentar a naturalidade com que a vida a abraça. A morte surge como uma interrupção, um interdito de linguagem mais inconveniente do que uma asneira, uma dor para viver às escondidas, uma intromissão com a qual em nenhum momento contámos. Sobre a morte não sabemos o que dizer, nem o que pensar. E isso constitui, de facto, uma falta enorme.
Montaigne dizia que não morremos por estar doentes, morremos por estar vivos. Talvez seja por aí que devamos recomeçar, religando o que hoje parece tão inconciliável. A morte é uma expressão da vida. A mais enigmática, impenetrável e intraduzível das expressões, certamente. Mas é no interior da vida que temos de compreendê-la. Colhendo o seguinte: ao recolocar-nos dramaticamente perante o mistério que somos, a morte como que resgata a própria exis­tência. É que podemos levar uma vida inteira sem pensar no que ela é: esta surge-nos como um dado óbvio, esventrado de qualquer interrogação, uma certeza assente, sem mais. E não é assim. A morte pode representar no itinerário pessoal, e nos nossos caminhos entrecruzados e comuns, a oportunidade para olharmos a vida mais profundamente. A vida não é só este tráfico de verbos ativos, esta marcha emparedada e sonâmbula, este vogar entre deve e haver, esta contabilidade no lugar da metafísi­ca A vida não é só isto. A morte amplia-a. Revela-lhe um fundo que não vemos. São, por isso, tão necessários os versos de Rilke:
«Senhor, dá a cada um a sua própria morte.
Um morrer que venha dessa vida
que reparte por nós amor, sentido e aflição.
Porque nós somos apenas a casca e a folha
A grande morte, que cada um traz em si,
é o fruto à volta do qual tudo gira.»
Um acontecimento editorial deste outono é a publicação dos escritos de Cicely Saunders, a médica que fundou a primeira unidade de cuidados paliativos, uma das mais fantásticas inovações da saúde no século XX. O livro chama-se «Velai Comigo», tem pouco mais do que setenta páginas e merecia bem ser lido por todos. O que me marcou mais na leitura que fiz foi uma frase repetida continua­mente pela autora: «temos de aprender». Temos de aprender a estar com os outros quando chegar o seu momento, desenvolvendo capacidades até então negligenciadas. Temos de aprender a cuidar da dor e a minorá-la, mas não só com comprimidos: também com o coração, com a presença, com os gestos silenciosos, o respeito, com uma expectativa de coragem. Os doentes não estão à procura de indulgência. Temos de aprender a embalar a fragilidade, a dos outros e a nossa própria, ajudar cada um a reencontrar-se com as coisas e com as memórias certas, a não desesperar, a encontrar um fio de sentido no que está a viver, por ínfimo e trémulo que seja. Temos de aprender a ser suporte, temos de querer eficiência técnica mas também compaixão, temos de reconhecer o valor de um sorriso, ainda que imperfeito, em certas horas extremas. À beira do fim há sempre tanta coisa que começa.
Uma das lembranças que me são mais queridas provém, por exemplo, do último internamento do meu pai. Recordo-me de, por dias e dias, andar de mão dada com ele, muito devagarinho, no grande corredor do hospital. Eu passava-lhe toda a força que podia com a minha mão. Mas a sua mão era maior do que a minha. E sei que ainda é.

© José Tolentino Mendonça
© Expresso, 2 de novembro de 2013

Novembro, mês da escatologia — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.11.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo sétimo domingo

28 DE JULHO DE 2013

José Tolentino Mendonça, «Pai-nosso que estais na Terra», Paulinas, 2011, 99-102


É impressionante constatar, num mundo hipertecnológico e sofisticado como o nosso, a força simbólica que continuam a ter as coisas simples. Pensemos no pão. O seu apelo e significado atravessam culturas e gerações. O pão tornou-se um símbolo extraordinário e univer­sal... foi assim para os nossos avós, é assim para nós... Lembro-me quando era miúdo, se um pão caía da mesa, apanhávamo-lo e dávamos um beijo, mesmo se já não o pudéssemos comer. Para lá da carga simbólica, o pão revestia-se de um sentido sagrado. Penso que é assim, porque o pão é uma expressão concreta da nossa própria humanidade. O pão não é só farinha, fermento, água e sal. É muito mais do que isso. O pão é sinal do que é essencial à vida, de tudo aquilo de que a nossa sobrevi­vência depende, e sem o qual não conseguiríamos existir. Representa os fios que nos atam à vida e que nos mantêm à flor da terra. Por isso, descobrimos que o seu significado se alarga continuamente.
O pão também traduz a condivisão, a comunhão, a fraternidade... Haver um único pão e poder-se dividi-lo em frações; tomar dum mesmo pão para alimentar os diferentes comensais que rodeiam uma mesa... O pão não é só pão. Ele é também o testemunho visível da arte da fraternidade. Na raiz de palavras que nos são tão caras, como «companhia», «companheiro», «acompanha­mento» está o pão, o «com-panis», o comer o mesmo pão. Dizer a alguém, «Tu és o companheiro ou companheira da minha vida», significa que há uma partilha do que é alimento, do que dá vida. E do trabalho, que nos torna cocriadores com Deus, e coartífices da criação, dizemos: é o meu ganha-pão. O pão é alguma coisa de vital.
Por vezes, ocupamo-nos a pedir a Deus coisas secun­dárias, uma espécie de berloques ou de espuma. E a nossa oração aprisiona-se à vidinha que vai correndo... E esquecemo-nos muitas vezes de colocar Deus no meio das lutas, no meio das procuras por aquilo que nos é mais essencial. Nós podemos perguntar: «Mas vou pedir a Deus o pão? O pão, se eu não trabalhar, não é Deus que mo vai dar. Tenho de pedir a Deus é o que não consigo pelas minhas forças!» Porém, o que Jesus nos ensina é que temos de pedir a Deus aquilo que conseguimos, ou dito de outra maneira, pedir que Ele dê um sentido outro àquilo que nós vamos conseguindo e o torne genuinamente essencial.
Jesus ensina-nos a pedir a Deus, a pedir ao Pai, que o pão não seja apenas pão, pura materialidade, mas que o nosso pão fale, seja uma espécie de sacramento, seja expressão de tudo aquilo que, no fundo, procuramos e que o Senhor nos vai dando, também em termos espirituais. Temos de pedir a Deus que o nosso pão reúna e não separe. Que o nosso pão seja verdadeiramente «Pão»: lugar onde as pessoas se sentam à volta e não o que acontece tantas vezes, quando o pão se torna aquilo que distingue e afasta. Pedir a Deus que o nosso pão celebre, evidencie a gratidão por Deus e o nosso Amor pelos outros.
Pedir a Deus que o «pão de cada dia» não faça bem só ao estômago, mas também à alma e ao coração. Isto é, que o pão se possa revestir de um sentido tão humano que seja divino. Que o que em cada dia vamos construindo tenha um sentido transcendente e não seja apenas uma coisa muda, que nada diz. Que o trabalho não seja apenas uma atividade mecânica e obrigatória, mas que se pressinta nele algo mais: o Amor de Deus, o coração de Deus, a vida de Deus.
Nós rezamos: «o pão nosso» porque, quando só eu tenho pão, é uma coisa muito triste. É um pão que não nos desce pela garganta. O pão da solidão não tem metade do sabor, ou um centésimo da alegria. Nós pedimos a Deus o nosso pão, o pão de todos, o pão para todos.
Uma das mais antigas imagens da Igreja, guardadas na «Didaqué», desenha-a assim: «Tal como as várias espigas de trigo nascem em campos muito diferentes e depois são moídas para fazer um único pão, vindo de searas diferentes, assim, Senhor, é a tua Igreja, que, vinda de lugares muito diferentes, se reúne num único pão, o pão do Senhor.» Pedir o «pão nosso» é pedir por esta fraternidade. É rogar não apenas pela minha seara, mas por todas as searas. E é comprometer-se em amassar um único pão, capaz de saciar os outros.



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Preparar o décimo sétimo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.7.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo segundo domingo

23 DE JUNHO DE 2013

Quem dizem as multidões que Eu sou?

E vós, quem dizeis que Eu sou?

Jesus não espera que os discípulos digam apenas o que vêem com os olhos, mas que expressem o que tacteiam com o coração.
Também Jesus sentiu a necessidade de ser dito, e dito mais profundamente, e dito com palavras que só aqueles que amam podem dizer. Na tradição rabínica eram os discípulos que interrogavam o Mestre e não o contrário. [...] Este facto inédito manifesta a intensidade da relação que os ligava. Jesus não quer uma relação escolar: Ele deseja uma partilha de vida, de intimidade e de destino. [...]
Jesus faz duas perguntas que traçam como que dois círculos: um exterior e um interior. O que é que se vê de fora e o que é que se vê de dentro. O que é que se vê com os olhos, e o que se contempla com o coração. As duas perguntas, «Quem dizem os homens que Eu sou? Vós, porém, quem dizeis que Eu sou?», estabelecem antes de mais uma distinção entre o pensar da multidão e o dos discípulos, nitidamente marcada pela adversativa e pelo caráter enfático da segunda pergunta. O discípulo é chamado a ter um olhar capaz de mergulhar no mistério de Jesus, um olhar sem ambiguidades.

O que é que se vê de fora?
De fora, vê-se a identificação de Jesus com João Batista. O séc. I foi um tempo de correntes espirituais reformistas. O rio Jordão era um centro simbólico muito procurado por quem não se conformava à situação presente de Israel. Não é por acaso que João batiza no rio Jordão [...].
De fora, vê-se a identificação de Jesus com Elias. Elias foi arrebatado ao céu, segundo a tradição bíblica. No Judaísmo contemporâneo de Jesus acreditava-se que antes da aparição do Messias devia chegar Elias, desempenhando um papel escatológico em ordem ao estabelecimento do Reino de Deus. Elias teria a função de reconciliar Israel e prepará-lo para que o Senhor, ao chegar, não o destruísse devido ao seu pecado. [...]
De fora, vê-se a identificação de Jesus como um profeta. A atribuição do título de profeta, sobretudo pelas camadas populares, não era rara no tempo de Jesus. Vários personagens surgiram na Palestina do séc. I, intitulando-se como profetas ou sendo considerados como tal. A mensagem deles ia desde o apelo à conversão, como no caso de João Baptista, até ao fomento da revolta contra os Romanos. Num tal contexto sociopolítico, a identificação de Jesus como um profeta afigura-se muito verosímil. [...]

O que se vê de dentro?
Jesus não comenta as opiniões dos de fora, mas interroga diretamente os seus discípulos sobre o que pensam dele. A formulação da pergunta, ao distinguir os discípulos dos restantes atores, mostra que Jesus espera deles uma apreciação mais profunda. [...]
O discípulo é chamado a ver mais profundamente, a não contentar-se com o que ouve dizer. É impelido a tomar uma posição. O Evangelho não apresenta a compreensão de Jesus como algo de imediato, instantâneo e infalível. Ela, no coração da nossa Fé, está em formação. Nós vamos tateando, cada vez com mais transparência, a sua verdade. [...]

Uma resposta para guardar em silêncio
Não deixa de ser surpreendente a declaração final de Jesus, pedindo aos discípulos que transformem a declaração de Fé num segredo. [«proibiu-lhes severamente de o dizerem fosse a quem fosse»] Podemo-nos perguntar porquê?
O silêncio dá-nos consciência de que estamos numa etapa ainda provisória, ainda de passagem. Os discípulos não podem, por agora, compreender o sentido pleno das palavras que proferiram, pois estas só serão esclarecidas pela totalidade do destino de Jesus, quando acontecer o Mistério da sua Páscoa. Os discípulos estão, por enquanto, impedidos de anunciar Jesus abertamente, mas depois dos acontecimentos pascais serão testemunhas autorizadas. É importante perceber que tudo em nós tem de passar pelo mistério pascal de Jesus.
Mas o silêncio imposto por Jesus tem também um motivo espiritual: o que ama sabe que o que o amor lhe pede, antes de tudo, é que aprenda a guardar o segredo do que é amado. No amor, dizemos uns aos outros: guardar o teu segredo é o meu segredo. A ordem do segredo reivindica para a pergunta do meio do caminho o horizonte e a experiência do amor. Somos chamados a guardar o segredo de Jesus e a deixar que este segredo, profunda e vitalmente, nos estruture. Recomenda o Mestre Eckhart: «É preciso que haja silêncio ali onde essa presença deve ser percebida. Não podemos chegar a ela de maneira melhor do que através do silêncio; ali a compreendemos de maneira correta: na ignorância! Quando não sabemos mais nada, ela deixa-se ver e revela-se. [...] É partindo do conhecimento que devemos chegar ao não-conhecimento! Pois essa é uma forma superior de conhecimento.»
«E vós, quem dizeis que Eu sou?» — pergunta-nos Jesus.

© José Tolentino Mendonça
— «O Tesouro escondido. Para uma arte da procura interior», excerto das páginas 87 a 97 — 
© Paulinas Editora



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Décimo segundo domingo, Ano C
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.6.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo primeiro domingo

16 DE JUNHO DE 2013

A construção de Jesus — Uma leitura narrativa de Lucas 7, 36-50

José Tolentino Mendonça publicou em livro a dissertação doutoral que aborda uma parte do evangelho do décimo primeiro domingo (Ano C): «A construção de Jesus. Uma leitura narrativa de Lucas 7, 36-50», Assírio e Alvim, Lisboa 2004. 
Apresentamos alguns apontamentos sobre os personagens (retirados das páginas 86 a 94): um dos fariseus de nome Simão, Jesus, a intrusa inominada, os comensais.



Um dos fariseus de nome Simão

A informação inicial que a narrativa nos presta sobre o personagem é que se trata de um dos fariseus.
Os fariseus surgem na narrativa evangélica já no capítulo 5, ao lado dos doutores da Lei, e vão-se desenhando como um bloco oponente a Jesus.
Mas alguns elementos do texto lucano sugerem também uma proximidade entre Jesus e os fariseus, pelo menos maior do que a que se pode observar em Marcos ou Mateus. Os pastos com os fariseus (Lucas 7, 36-50; 11, 37-54; 14, 1-24) estão ausentes dos outros Sinópticos, e esses, se tivermos em conta o significado concedido pelo movimento farisaico às refeições, representam, no mínimo, que eles aceitavam os contactos com Jesus e tinham para com ele curiosidade e atenções.
Normalmente os fariseus deslocavam-se ao campo de Jesus, fosse lugar público do ensinamento (Lucas 5, 17); a casa de Levi (5, 30); as plantações (6, 2) ou a sinagoga (6, 7). Este fariseu estabelece um movimento contrário, permitindo que Jesus penetre no seu território. Segue, depois, atentamente a peripécia protagonizada pela pecadora, que se intromete na refeição que ele promove. Formula aí um juízo de distanciamento, instalando-se, porém, numa duplicidade pragmática: se no seu interior já julgou Jesus por causa da mulher, no seu registo exterior continua impávido. A imagem do personagem costura-se assim de uma ambiguidade: não expõe traços hostis (mesmo depois do acontecido trata Jesus por 'mestre'; intervém quando solicitado por Jesus), mas também já sabe que, perante os dados de que parte, não pode aderir ao seu hóspede.
Dá-se uma reviravolta na narrativa quando Jesus toma a palavra e revela a verdade profunda do fariseu, a começar pela do seu nome, Simão (versículo 40), informação que, até aqui, não tinha sido referida. No paralelo estabelecido entre ele e a mulher pecadora, Jesus faz saber que o silêncio do fariseu, a sua abstenção de gestos não são atitudes ordinárias ou insignificantes, mas correspondem a uma estratégia de resguardo face a Jesus e que essa estratégia está equivocada, pois assenta em premissas que o próprio raconto se encarregará de relativizar.



Jesus

Em 7, 36-50, o personagem Jesus é verdadeiramente o centro da narração, uma espécie de íman que faz confluir em si todos os eixos factuais. Se os outros dois personagens, o fariseu e a mulher, alternam um tempo de exposição com um tempo de sombra (nos versículos 37-38 a mulher está exposta e o fariseu está na sombra; nos versículos 40-42 está ausente a mulher e o fariseu presente), Jesus, directa ou indirectamente, atravessa todos os momentos do episódio. A sua entrada em casa do fariseu assinala o início da acção. Ele é o motivo declarado da vinda inusitada da mulher pecadora àquele lugar e é o alvo exclusivo da acção que ela desempenha. A sua passividade provoca o fariseu, que discorre não sobre a mulher, mas sobre a identidade do seu convidado. Jesus é um personagem omnisciente. Para os outros personagens as informações chegam-nos através do narrador. Jesus, porém, inaugura o discurso directo e responde em alta voz ao que os outros personagens calam.
O fariseu, por exemplo, fica prisioneiro das premissas iniciais para o seu julgamento da realidade. Jesus não julga apenas os factos, possibilita também a sua transformação. O seu espaço de intervenção é o mais amplo: ele conhece elementos que os outros personagens ignoram, conta uma história que, aparentemente, se subtrai ao contexto, mas que afinal o encena, contorna os obstáculos que aprisionam a situação e recria, de novo, uma possibilidade para o imprevisto. Retorna ao passado da narração e desvela um significado que abala o presente. Explica. Resolve. A verdade é revelada progressivamente não pelo narrador ou por outro personagem, mas pelo próprio Jesus.
Que Jesus fosse considerado um mestre, isso não despertava oposições. Jesus é frequentemente interpelado a partir do papel social de mestre que lhe era reconhecido tanto pelos mediadores oficiais do judaísmo do seu tempo. 
O nó do problema é outro, contudo, como nos permite pensar o raconto. A primeira questão que se colocava sobre Jesus era a de saber se ele era um profeta (versículo 39). Mas no quadro final, ao versículo 49, os comensais já estão preocupados com outra realidade: «Quem é este que até perdoa pecados?». Entre as duas questões há uma desproporção semântica que mostra como, na sua brevidade, o texto nos conduziu a um patamar realmente novo. Porque uma coisa é ser um profeta, houve tantos na tradição de Israel, outra é reclamar o poder do perdão dos pecados.
Esta história lucana reflecte o mistério da inter-relação de Deus e Jesus para definir, a partir daí, a identidade daquele hóspede. Ele é, de facto, o protagonista do episódio. A luz que o texto transporta é para que o possamos ver melhor.



A intrusa inominada

Um personagem feminino. O terceiro Evangelho é aquele que guarda mais relatos de mulheres: é, por exemplo, o único que conta a história de Isabel (1, 5-25), Maria (1, 26-56), Ana (2, 36-38), a viúva de Naim (7, 11-17), Maria Madalena, Joana, Susana e as outras mulheres que seguiam Jesus (8, 1-3), Marta e Maria (10, 38-42), a mulher encurvada (13, 10-17), a mulher que procura a moeda perdida (15, 8-10), a viúva insistente (18, 1-8) e as mulheres de Jerusalém que choram atrás da cruz (23, 27-31). Para lá daquelas mulheres cuja referência partilha com os outros Sinópticos. Para um leitor de Lucas não é, portanto, estranho que uma mulher acorra à procura de Jesus. O encontro com mulheres pontua o caminho de Jesus. E à partida sabe-se que muitas acolhiam a mensagem e a pessoa de Jesus. O aparecimento de uma mulher acaba sempre por trazer um elemento positivo à narração.
O primeiro dado inesperado, por parte do narrador, é o modo como apresenta a mulher: «uma pecadora». Isto é tanto mais espantoso, quando sabemos que Lucas não caracteriza moralmente outros personagens. E, precisamente em relação aos pecadores, ele distingue-se por uma grande delicadeza, feita de silêncio e reserva. Embora alguns comentadores digam tratar-se de uma prostituta isso não nos é referido por Lucas. Afirma-se simplesmente que era uma pecadora da cidade (versículo 37), e tal é reiterado pelo próprio fariseu (versículo 39).
A mulher irrompe pela narrativa. A sua presença não tem, como no caso anterior, a legitimidade de um convite formulado. Nem ela surge por si, mas porque Jesus se encontra à mesa do fariseu. É, portanto, desde o início, um personagem que se coloca na órbita de outro e assume essa dependência.
Uma justificação que o narrador subtilmente avança para a entrada da mulher deve ler-se no destaque concedido ao alabastro, com perfume, que ela traz: por um lado, o objecto oferece à mulher um motivo, uma função; e, por outro, empresta uma espécie de ingrediente novo e específico à narrativa.
Basta comparar 7, 36-50 com 11, 37-54 e 14, 1-24 que mostram sobretudo como Jesus reage às abluções, às disputas dos lugares ou à lógica retributiva que presidia à organização dos banquetes. O perfume como que fornece o móbil que depois a própria trama se encarregará de intrincar: a qualidade do acolhimento a Jesus.
A mulher entra e sai em silêncio, mas o leitor sente que a sua passagem se revestiu de uma eloquência ímpar. Em vez de palavras ela utilizou uma linguagem plástica, talvez mais contundente que a verbal. Representou, como actriz solitária, no palco da casa do fariseu, o seu monólogo ferido: com o seu pranto prolongado, os cabelos a arrastar-se pelo chão do hóspede, numa coreografia humilde e lancinante, os beijos e o perfume que mais ninguém ali teve a preocupação de ofertar a Jesus. A qualidade penitencial do personagem é testemunhada pelo território simbólico em que ela opera, os pés de Jesus, sete vezes referidos, e pela convulsão da sua figura (pois «desatar o seu cabelo em presença do homem era considerado, para uma mulher, uma grande desonra»).
A inominada não cumpre os rituais de hospitalidade ao serviço da casa do fariseu. Em relação ao fariseu ela é uma intrusa, e não uma associada. O seu nexo é com Jesus: os seus gestos, tão distantes, na sua emotividade, daquela delicada indiferença que se requer a quem habitualmente presta, aos hóspedes, esse serviço, são interpretados por Jesus como uma forma de acolhimento na fé: por isso, de pecadora a mulher passará a perdoada. E a transformação do estatuto da mulher derrama um perfume novo não só na perícope, mas pelo próprio Evangelho.
A mulher é a personagem-adjuvante: torna-se o objecto da acção transformadora de Jesus e a sua transformação é colocada ao serviço da revelação de Jesus.



Os comensais

Enquanto os três primeiros personagens que referimos são, evidentemente, protagonistas da narração, construídos com uma primorosa complexidade que visa reforçá-los no seu estatuto de figuras individuais, no final do episódio irrompe este personagem colectivo. Os comensais acompanham supostamente toda a acção, mas sem intervir. Percebemos assim que o convite que o fariseu endereçou a Jesus não foi para uma refeição privada, mas para um repasto na companhia de outras pessoas, e como é provável, pessoas próximas, que mantinham com o fariseu afinidades sociais e religiosas. Isso torna-se claro, por exemplo, na pergunta retórica que lançam, «quem é este que até perdoa pecados?». Os comensais aparecem como personagens secundários que aparentemente não condicionam o desenrolar da intriga, mas cujo papel se revela chave para a representação da acção.



Para concluir...

 com um apontamento da página 231:
O Evangelho não aposta na apresentação de conclusões acabadas acerca de Jesus: sugere, antes, o caminho silencioso, árduo e paciente das perguntas. De forma insistente, e num propósito claro de envolver o leitor, vai repetindo que o enigma Jesus está e não está resolvido, para que precisamente este interstício se revele como possibilidade de inscrever uma nova demanda. A narrativa evangélica apresenta-se assim como o limiar de uma história aberta, infinita, onde a cristologia nos remete para a eclesiologia, O seu presente é já o inventário do nosso futuro.



© José Tolentino Mendonça
© Assírio e Alvim



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Quem é este homem, que até perdoa os pecados
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.6.13 | Sem comentários
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