Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Jaramillo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Jaramillo. Mostrar todas as mensagens

QUARESMA DE FÉ — QUINTA-FEIRA DE CINZAS


Deuteronómio 30, 15-20

Moisés falou ao povo, dizendo: «Ponho hoje diante de ti a vida e a felicidade, a morte e a infelicidade. Se cumprires os mandamentos do Senhor, teu Deus, que hoje te proponho – amando o Senhor, teu Deus, seguindo os seus caminhos e observando a sua lei, os seus mandamentos e preceitos – viverás e multiplicar-te-ás e o Senhor, teu Deus, te abençoará na terra de que vais tomar posse. Mas se o teu coração se desviar e não quiseres ouvir, se te deixares seduzir para adorar e servir outros deuses, declaro-te hoje que hás-de perecer e não prolongarás os teus dias na terra em que vais entrar para dela tomar posse depois de passares o Jordão. Tomo hoje o céu e a terra como testemunhas contra vós: proponho-vos a vida e a morte, a bênção e a maldição. Portanto, escolhe a vida, para que vivas tu e a tua descendência, amando o Senhor, teu Deus, escutando a sua voz e aderindo a Ele. Disto depende a tua vida e a longa permanência na terra que o Senhor jurou dar a teus pais Abraão, Isaac e Jacob».



Ponho diante de ti a vida e a felicidade


O contexto histórico desta exortação é a posse da terra de Canã por parte dos israelitas. Faz parte das exortações de Moisés, preparando o acontecimento.
Procura fazer ver que não se trata apenas de entrar materialmente na terra. Que contam, sobretudo, as atitudes. Com efeito, a meta não é apenas uma posse material. Algo mais está em jogo: a vida/felicidade ou a morte/infelicidade. Uma meta que se joga no cumprimento dos mandamentos.
Os mandamentos cumpridos significam vida, bênção, crescimento. O esquecimento dos mandamentos converte-se em desolação e morte. Trata-se de uma eleição. O caminho não leva só a pedaço de terra. É um caminho para a vida («Da escravidão ao serviço» foi um título acertado para este acontecimento bíblico). A vida não depende só da terra. Está em jogo a meta de Deus: escutar a sua voz, amá-lo, unir-se a Ele... A partir da luz de Jesus Cristo, já podemos descobrir aqui a vida e a Vida.


Sinais para o caminho de fé


  • A fé e os mandamentos: a vontade de Deus não vai contra o ser humano. Os mandamentos não são «imposições caprichosas», são «sinais» para o caminho da fé.

  • Mandamentos e caminho da fé: é importante o nome da meta: vida e felicidade. É verdade que, no tempo em que se escreve o Deuteronómio, a vida e a felicidade ainda não têm o horizonte pleno que lhes dá Jesus. Mas a partir de Jesus, já podemos entrever aqui a Meta que dá sentido a uma peregrinação de esforço.

  • A fé faz-nos descobrir a «Meta», ainda por alcançar, nas «metas» que vamos alcançando (para os israelitas, a posse da terra)... Não se trata, pois, de não propor «metas» humanas, mas de se deixar seduzir pela «Meta», através de todas as outras.
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2015
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor

Pedro Jaramillo – Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.2.15 | Sem comentários

QUARESMA DE FÉ — QUARTA-FEIRA DE CINZAS


Joel 2, 12-18

Diz agora o Senhor: «Convertei-vos a Mim de todo o coração, com jejuns, lágrimas e lamentações. Rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete. Quem sabe se Ele não vai reconsiderar e desistir deles, deixando atrás de Si uma bênção, para oferenda e libação ao Senhor, vosso Deus? Tocai a trombeta em Sião, ordenai um jejum, proclamai uma reunião sagrada. Reuni o povo, convocai a assembleia, congregai os anciãos, reuni os jovens e as crianças. Saia o esposo do seu aposento e a esposa do seu tálamo. Entre o vestíbulo e o altar, chorem os sacerdotes, ministros do Senhor, dizendo: ‘Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo e não entregueis a vossa herança à ignomínia e ao escárnio das nações. Porque diriam entre os povos: Onde está o seu Deus?’». O Senhor encheu-Se de zelo pela sua terra e teve compaixão do seu povo.



Convertei-vos a Mim de todo o coração


O profeta chama a uma «conversão possível». A nossa fé não é num Deus justiceiro, mas num Deus «clemente e compassivo, paciente e misericordioso». O crente espera sempre uma nova «vinda de Deus», cheia de bênçãos.
A fé no perdão de Deus torna-se caminho de conversão e súplica de perdão. O Senhor convoca a todos (todos temos necessidade do seu perdão). E confia uma petição de perdão, feita pelos sacerdotes em nome do povo: «Perdoai, Senhor, perdoai ao vosso povo». O perdão de Deus é apresentado como um sinal da fé israelita diante das nações. Deus existe, porque Deus perdoa. E perdoa, por um amor «zeloso»: não quer deixar mal o seu Povo diante das nações.


Sinais para o caminho de fé


  • Ajuda para a mudança da nossa «imagem de Deus». O ambiente religioso que nos rodeia leva-nos a viver «asfixiados» sob a ameaça dum Deus justiceiro e vingativo. Não é essa a imagem do Deus de Jesus de Nazaré..., como tampouco era a imagem de Deus que tinham os profetas.

  • É sempre possível a mudança. A conversão é uma «mudança de direção», quando se descobre que se tinha equivocado na meta. Do coração sai uma sincera petição de perdão e, de novo, começa-se o caminho. Jesus dirá dele mesmo: «não vim chamar os justos, mas os pecadores». Não é verdade que o perdão de Deus seja uma «licença para pecar»... O caminho da fé descobre que é uma «exigência para mais amar».

  • O pecado faz-nos solidários com todos...; o perdão, recebido e vivido, converte-se numa força de atração para quem quer experimentar a sua própria libertação.
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2015
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



  • QUARESMA DE FÉ: Mateus 6, 1-6.16-18 > > >



Pedro Jaramillo – Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.2.15 | Sem comentários

QUARESMA DE FÉ — QUARTA-FEIRA DA TERCEIRA SEMANA


Deuteronómio 4, 1.5-9

Moisés falou ao povo, dizendo: «Agora, Israel, escuta os preceitos que vos dou a conhecer e põe-nos em prática, para que vivais e entreis na posse da terra que vos dá o Senhor, Deus dos vossos pais. Ensinei-vos estas leis e preceitos, conforme o Senhor, meu Deus, me ordenara, a fim de os praticardes na terra de que ides tomar posse. Observai-os e ponde-os em prática, porque eles serão a vossa sabedoria e a vossa prudência aos olhos dos povos, que, ao ouvirem falar de todas estas leis, dirão: ‘Que povo tão sábio e prudente é esta grande nação!’. Qual é, na verdade, a grande nação que tem a divindade tão perto de si como está perto de nós o Senhor, nosso Deus, sempre que O invocamos? E qual é a grande nação que tem mandamentos e decretos tão justos como esta lei que hoje vos apresento? Mas tende cuidado; prestai atenção para não esquecer tudo quanto viram os vossos olhos, nem o deixeis fugir do pensamento em nenhum dia da vossa vida. Ensinai-o aos vossos filhos e aos filhos dos vossos filhos».



Qual é, na verdade, a grande nação que tem a divindade tão perto de si 

como está perto de nós o Senhor, nosso Deus, 

sempre que O invocamos?


Uma exortação de Moisés para escutar os mandamentos do Senhor, antes de entrar na terra prometida. Uma exortação atualizada para o povo, no tempo em que se escreve o Deuteronómio. Os mandamentos e decretos do Senhor são para ser cumpridos. Não serve ficar apenas pela escuta passiva. Uma escuta autêntica significa já obediência.
Os mandamentos de Deus não são «caprichos de Deus». Destaca-o o autor, ao narrar a reação das outras nações perante os mandamentos de Deus para Israel. Sublinham, antes de mais, a proximidade de Deus com o seu povo: «Qual é, na verdade, a grande nação que tem a divindade tão perto de si como está perto de nós o Senhor, nosso Deus, sempre que o invocamos?». Maravilhosa reflexão! Os mandamentos são expressão da proximidade de Deus, do seu interesse pelo povo. Além disso, faz-se uma expressa relação com a sua justeza. São «mandamentos e decretos tão justos».
O texto termina com um estímulo para o cumprimento dos mandamentos: a recordação das ações que Deus realizou em favor do seu povo. A antítese: recordação/ esquecimento percorre toda a Bíblia. O povo «esquece» as ações de Deus. Para cumprir os mandamentos, deve-as recordar. A recordação agradecida é um bom fundamento para o cumprimento da vontade de quem realizou grandes obras em favor do seu povo, Israel.


Sinais para o caminho de fé


  • Com base na fé, é preciso amadurecer a nossa relação com os mandamentos do Senhor. Muitas vezes, vemos os mandamentos como cargas insoportáveis. Como proibições injustificadas. Não é raro que muitos afastamentos da fé procedam de um posicionamento negativo face aos mandamentos de Deus.

  • A comunicação da própria vontade (a vontade de Deus) é, contudo, uma manifestação da sua proximidade para connosco. Deus não «inventa» mandamentos para nos prejudicar. «Deus quer que todos os seres humanos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (1Timóteo 2, 4). «A glória de Deus é que o ser humano viva» (Santo Ireneu).

  • Os mandamentos respiram um profundo humanismo. No decálogo, só três se referem diretamente a Deus. O resto tem que ver com a justa relação com o próximo. No próximo, Deus também é ofendido.

  • Num contexto de fé, o cumprimento dos mandamentos nunca será um empecilho. Precisamente porque nos ama, Deus mostra-nos o caminho da nossa realização pessoal. Os mandamentos do Senhor não são um código anti-humano. São expressão da vontade de quem nos ama e está próximo de nós.
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



  • QUARESMA DE FÉ: Mateus 5, 17-19 > > >



Pedro Jaramillo – Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.3.14 | Sem comentários

QUARESMA DE FÉ — SÁBADO DA SEGUNDA SEMANA


Miqueias 7, 14-15.18-20

Apascentai o vosso povo com a vossa vara, o rebanho da vossa herança, que vive isolado na selva, no meio de uma terra frutífera, para que volte a apascentar-se em Basã e Galaad, como nos dias de outrora; mostrai-nos prodígios, como nos dias em que saístes da terra do Egito. Qual é o deus semelhante a Vós que perdoa o pecado e absolve a culpa deste resto da vossa herança? Não guarda para sempre a sua ira, porque prefere a misericórdia. Ele voltará a ter piedade de nós, pisará aos pés as nossas faltas, lançará para o fundo do mar todos os nossos pecados. Mostrai a Jacob a vossa fidelidade e a Abraão a vossa misericórdia, como jurastes aos nossos pais, desde os tempos antigos.



Voltará a ter piedade de nós, 

pisará aos pés as nossas faltas, 

lançará para o fundo do mar todos os nossos pecados


Estamos na parte final do livro de Miqueias. Uma última aposta na restauração do Povo, cuja condenação parecia decretada. Mas tudo voltará a ser como antes, «volte a apascentar-se em Basã e Galaad, como nos dias de outrora». A recordação do passado fixa-se na ação salvadora por excelência: a saída do Egito, que se torna uma súplica: «mostrai-nos prodígios, como nos dias em que saístes da terra do Egito».
A nova situação é possível, porque Deus «perdoa o pecado e absolve a culpa», «prefere a misericórdia». Que bela imagem de Deus! Que esperança de vida nova nos infunde! Deus leva a sério o perdão. As imagens são eloquentes: «pisará aos pés as nossas faltas, lançará para o fundo do mar todos os nossos pecados». Pecados destruídos deixam de existir. Pecados afogados deixam de ter vida.
E que belo final! A origem desta derrota do pecado é a fidelidade de Deus. Uma fidelidade que é eterna. Uma fidelidade que está sempre presente. Converter-se do pecado é «voltar» a experimentar a fidelidade de Deus que nunca deixou de existir.


Sinais para o caminho de fé


  • Outra leitura bíblica que nos ajuda a ter uma imagem cabal de Deus. Entre nós, muitos têm medo de anunciar o perdão e a misericórdia de Deus, porque temem que o povo relaxe. Dão-se melhor com o Deus do castigo, da ira e da ameaça. É um Deus mais «rentável».

  • A fé não se pode desligar do amor. E o perdão é uma das manifestações mais claras do amor. O amor é, assim, inseparável da fé.

  • Deus atrai-nos à fé através do amor. Ele toma a iniciativa e, por isso, o ato de crer é «responder com amor a quem sabemos que nos ama».

  • A conversão dos nossos pecados é voltar ao «amor primeiro». A partir dessa frescura recuperada, voltar a confessar: «o Senhor é misericordioso e compassivo».
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



  • QUARESMA DE FÉ: Lucas 15, 1-3.11-32 > > >



Pedro Jaramillo – Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.3.14 | Sem comentários

QUARESMA DE FÉ — SEXTA-FEIRA DA SEGUNDA SEMANA


Génesis 37, 3-4.12-13a.17b-28

Jacob gostava mais de José que dos seus outros filhos, porque ele era o filho da sua velhice; e mandou fazer-lhe uma túnica de mangas compridas. Os irmãos, vendo que o pai o preferia a todos eles, começaram a odiá-lo e não eram capazes de lhe falar com bons modos. Um dia foram para Siquém apascentar os rebanhos do pai. Jacob disse a José: «Os teus irmãos apascentam os rebanhos em Siquém. vem cá, pois quero mandar-te ir ter com eles». José partiu à procura dos irmãos e encontrou-os em Dotain. Eles viram-no de longe e, antes que chegasse perto, combinaram entre si a sua morte. Disseram uns aos outros: «Aí vem o homem dos sonhos. Vamos matá-lo e atirá-lo a uma cisterna e depois diremos que um animal feroz o devorou. Veremos então em que vão dar os seus sonhos». Mas Rúben ouviu isto e, querendo livrá-lo das suas mãos, disse: «Não lhe tiremos a vida». Para o livrar das suas mãos e entregá-lo ao pai, Rúben disse aos irmãos: «Não derrameis sangue. Lançai-o nesta cisterna do deserto, mas não levanteis as mãos contra ele». Quando José chegou junto dos irmãos, eles tiraram-lhe a túnica de mangas compridas que trazia, pegaram nele e lançaram-no dentro da cisterna, uma cisterna vazia, sem água. Depois sentaram-se para comer. Mas, erguendo os olhos, viram uma caravana de ismaelitas que vinha de Galaad. Traziam camelos carregados de goma de tragacanto, resina aromática e láudano, que levavam para o Egipto. Então Judá disse aos irmãos: «Que interesse haveria em matar o nosso irmão e esconder-lhe o sangue? Vamos vendê-lo aos ismaelitas, mas não lhe ponhamos as mãos, porque é nosso irmão, da mesma carne que nós». Os irmãos concordaram. Passando por ali uns negociantes de Madiã, tiraram José da cisterna e venderam-no por vinte moedas de prata aos ismaelitas, que o levaram para o Egipto.



Vamos matá-lo e atirá-lo a uma cisterna 

e depois diremos que um animal feroz o devorou


A leitura deste dia é retirada do ciclo patriarcal, com referência a José. É uma mistura de ternura (por parte de Jacob) e de inveja fratricida (por parte dos irmãos).
Tal como se apresenta neste texto é como uma espécie de vislumbre da situação histórica de Jesus: amado e enviado pelo Pai: «veio aos seus e os seus não o receberam»; e sacrificado na cruz pelos seus irmãos.
O texto fala-nos de José como filho preferido de Jacob; da reação dos irmãos: começaram a odiá-lo; da missão que Jacob confia a José: visitar os seus irmãos; da prontidão de José.
Depois, desenvolve a reação de vingança por parte dos irmãos: «Aí vem o homem dos sonhos. Vamos matá-lo e atirá-lo a uma cisterna»... José acaba por ser vendido e levado para o Egito, onde chega a ocupar um lugar importante. Lido à luz do Novo Testamento, é um esboço do itinerário de Jesus.


Sinais para o caminho de fé


  • Fixamo-nos em Jacob (patriarca/pai) que envia o seu filho predileto, José, para visitar os seus irmãos. Aponta para outro Pai, outro envio, outros irmãos...

  • A nossa fé em Deus é essencialmente cristológica: para por Cristo — «Que te conheçam a Ti e Aquele que Tu enviaste» (João 17, 3).

  • «A Deus jamais alguém o viu. O Filho Unigénito, que Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem o deu a conhecer» (João 1, 18).

  • «Mostra-nos o Pai e isso nos basta. — Filipe, quem me vê, vê o Pai» (João 14, 9). A imagem de Deus passa necessariamente pelo homem-Jesus.

  • Tirar Jesus da nossa profissão de fé em Deus é eliminar toda a proximidade que nos é oferecida pela Incarnação. Como crentes, precisamos de nos aproximarmos da história de Jesus, para aprender quem e como é o Deus em quem acreditamos.

  • Quando à falta lhe falta a «carne do Enviado» podemos cair em puras fantasias.

  • O conteúdo da nossa fé cristológica é: «foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras».
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



  • QUARESMA DE FÉ: Mateus 21, 33-43.45-46 > > >



Pedro Jaramillo – Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.3.14 | Sem comentários

QUARESMA DE FÉ — QUINTA-FEIRA DA SEGUNDA SEMANA


Jeremias 17, 5-10

Assim fala o Senhor: «Maldito o homem que confia no homem e põe na carne a sua esperança, afastando o seu coração do Senhor. Será como o cardo na estepe, que nem percebe quando chega a felicidade; habitará na aridez do deserto, terra salobre e inóspita. Bendito o homem que confia no Senhor e põe no Senhor a sua esperança. É como a árvore plantada à beira da água, que estende as raízes para a corrente: nada tem a temer quando vem o calor e a sua folhagem mantém-se sempre verde; em ano de estiagem não se inquieta e não deixa de produzir os seus frutos. O coração é o que há de mais astucioso e incorrigível. Quem o pode entender? Posso Eu, que sou o Senhor: penetro os corações, sondo os mais íntimos sentimentos, para retribuir a cada um segundo o seu caminho, conforme o fruto das suas obras».



Bendito o homem que confia no Senhor


A bênção/ maldição é um género literário muito próprio da profecia. Ajuda o profeta a estabelecer os contrastes. A maldição é mal-dizer de alguém; a bênção, ao contrário, é bem-dizer.
O tema da leitura proposta para hoje é a confiança, o apoio definitivo que se procura para a vida. Jeremias «diz mal» (amaldiçoa) o ser humano que põe a sua confiança noutro humano. Quem «apoia» a sua vida, procurando o fundamento «na carne» (a carne refere-se ao humano enquanto débil). Não se trata de um anti-humanismo do profeta. Pelo contrário, o que Jeremias procura é que o ser humano não se perca por falta de um apoio seguro.
Daí a bênção: o profeta «fala bem» de quem pôs a confiança, de quem procurou o apoio em Deus. Deus não é de «carne». Não é, portanto, um apoio débil. É fundamento para o ser humano.
A imagem da natureza é sugestiva: um apoio puramente humano é fazê-lo «como o cardo na estepe». Mas quem «confia no Senhor e põe no Senhor a sua esperança» é como uma árvore frondosa plantada à beira mar; não se preocupa com a seca nem deixa de dar fruto.
Neste contraste (e só nele), entende-se bem o «maldito o homem que confia no homem». Não se trata da necessária confiança no próximo; ou da desconfiança no desenvolvimento do ser humanos e das suas capacidades. Estamos num nível distinto: o nível do apoio «último».


Sinais para o caminho de fé


  • A fé tem uma dimensão essencial de confiança. Mais ainda: naquilo a que se chama o «ato de fé», a confiança é predominante. É claro que se trata, não da confiança «ligth», mas de uma confiança fundante. Da confiança que determina em quem apoio a totalidade do meu ser e do meu viver.

  • No ato de fé, esse tipo de confiança está primeiro e é fundamental. Só depois surgem os «conteúdos da fé». Uma fé reduzida aos conteúdos perde a água que a alimenta; e seca.

  • A fé pela qual o ser humano põe o seu apoio total e último em Deus é uma aposta no humanismo de primeira. As imagens de Jeremias são expressivas: o contraste é entre um ser humano seco e sem frutos e um ser humano «plantado à beira da água, que estende as raízes para a corrente: nada tem a temer quando vem o calor e a sua folhagem mantém-se sempre verde; em ano de estiagem não se inquieta e não deixa de produzir os seus frutos».
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



  • QUARESMA DE FÉ: Lucas 16, 19-31 > > >



Pedro Jaramillo – Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.3.14 | Sem comentários

QUARESMA DE FÉ — TERÇA-FEIRA DA SEGUNDA SEMANA


Isaías 1, 10.16-20

Escutai a palavra do Senhor, chefes de Sodoma; dai ouvidos à lei do nosso Deus, povo de Gomorra: «Lavai-vos, purificai-vos, afastai dos meus olhos a malícia das vossas acções, deixai de praticar o mal e aprendei a fazer o bem. Respeitai o direito, protegei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva. Vinde então para discutirmos as nossas razões, – diz o Senhor. Ainda que os vossos pecados sejam como o escarlate, ficarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã. Se fordes dóceis e obedientes, comereis os bens da terra. Mas se recusardes e fordes rebeldes, sereis devorados pela espada». Assim falou a boca do Senhor.



Respeitai o direito, protegei o oprimido, 

fazer justiça ao órfão, defendei a causa da viúva


Um texto clássico da denúncia social de Isaías. Começa por chamar Sodoma e Gomorra aos habitantes e dirigentes de Jerusalém. É uma acusação muito dura. Sodoma e Gomorra pereceram por causa das suas abominações. Comparar Jerusalém com elas era claramente «blasfemo».
Mas, o profeta, para fazer a sua denúncia, não se fixa no externo: no culto, nos sacrifícios e holocaustos. Os versículos 9 a 15 (que não fazem parte da leitura bíblica proposta para terça-feira da segunda semana da Quaresma) são um profético «basta!» a um culto exuberante, mas vazio de justiça e de direito.
Em vez desse culto vazio, o profeta pede conversão/ purificação interior e uma mudança radical de comportamento. De novo, nesse comportamento renovado, o tratamento que se dá ao outro é fundamental: «protegei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva». Em Israel, órfãos e viúvas eram expressão de todo o tipo de pobreza.
Quando esta conversão acontecer, poderá haver um perdão radical. O profeta expressa-o com imagens retiradas das cores: o escarlate converte-se no branco da neve; a púrpura no branco da lã. O perdão de Deus, vemo-lo de novo, re-faz, re-cria. Não se limita a tapar a sujidade; limpa-a.


Sinais para o caminho de fé


  • A fé não consiste simplesmente em atos e manifestações externas de culto. Há que tê-lo muito claro, porque muitas vezes confundimo-nos e confundimos as pessoas.

  • A fé bíblica, sobretudo nos profetas, tem uma forte componente de compromisso social. A ofensa à dignidade dos homens e mulheres, sobretudo pobres, é considerada como uma ofensa feita diretamente a Deus.

  • Só se houver conversão, pode haver perdão. E, quando há conversão, o perdão de Deus é tão fundo que toca a própria raiz dos males. Mais ainda: produz uma verdadeira mudança de raízes. É claro, sempre que o pecador «não fique pela rama».
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



  • QUARESMA DE FÉ: Mateus 23, 1-12 > > >



Pedro Jaramillo – Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.3.14 | Sem comentários

QUARESMA DE FÉ — SEGUNDA-FEIRA DA SEGUNDA SEMANA


Daniel 9, 4b-10

Senhor, Deus grande e terrível, que sois fiel à aliança e à misericórdia para com os que Vos amam e observam os vossos mandamentos! Nós pecámos, cometemos injustiças e iniquidades, fomos rebeldes, afastando-nos dos vossos mandamentos e preceitos. Não escutámos os profetas, vossos servos, que em vosso nome falavam aos nossos reis, aos nossos chefes e antepassados e a todo o povo da nação. Em Vós, Senhor, está a justiça; em nós recai a vergonha que sentimos no rosto, como sucede neste dia aos homens de Judá, aos habitantes de Jerusalém e a todo o Israel, aos que estão perto e aos que estão longe, em todos os países para onde os dispersastes por causa das infidelidades que contra Vós cometeram. Sobre nós, Senhor, recai a vergonha que sentimos no rosto, sobre os nossos reis, chefes e antepassados, porque pecámos contra Vós. No Senhor, nosso Deus, está a misericórdia e o perdão, porque nos revoltámos contra Ele e não escutámos a voz do Senhor, nosso Deus, seguindo as leis que nos dava por meio dos profetas, seu servos.



No Senhor, nosso Deus, está a misericórdia e o perdão


Uma confissão de Daniel. Em pano de fundo, a infidelidade do Povo de Deus através de toda a sua história de fé. Daniel está consciente de que a aliança de Deus não é incondicional. Deus mantém-na com os que o amam e observam os seus mandamentos. Assim se diz na invocação inicial: «sois fiel à aliança e à misericórdia para com os que Vos amam e observam os vossos mandamentos».
A confissão é explícita: «Nós pecámos». Sem paliativos nem desculpas. Ora, pelo pecado, deu-se uma autêntica «rebelião», um abandono dos mandamentos e preceitos de Deus.
É interessante a alusão aos profetas... Como «boca de Deus» anunciaram e denunciaram, chamando à conversão, mas, «não escutámos a voz do Senhor».
Perante a justiça de Deus (a santidade de Deus), a vergonha da própria infidelidade: uma vergonha comunitária pela infidelidade comunitária: «a vergonha que sentimos no rosto».
A solução vem de Deus, de uma segurança na fé: «No Senhor, nosso Deus está a misericórdia e o perdão». Assim se abre a esperança da renovação.


Sinais para o caminho de fé


  • O perdão do «Deus misericordioso e compassivo» esclarece-nos a imagem de Deus. não há panorama pessoal ou comunitária tão sombrio que não possa ser re-feito pelo perdão de Deus. A fé em Deus não é masoquista. É chamada a libertar-nos também do peso das nossas culpas.

  • A fé é também luz para reconhecer o nosso próprio pecado. Afina a nossa consciência. Assinala-nos novos âmbitos de graça e de pecado.

  • A partir da fé olhamos para nós e para a nossa sociedade com os olhos de Deus. Não nos movemos apenas na ética humana. Aprofundamentos e ampliamos mais o horizonte: «até ao extremo».

  • A fé dá-nos outra perspetiva para medir o nosso comportamento. E novos motivos para o orientar.
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



  • QUARESMA DE FÉ: Lucas 6, 36-38 > > >



Pedro Jaramillo – Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.3.14 | Sem comentários

QUARESMA DE FÉ — SÁBADO DA PRIMEIRO SEMANA


Deuteronómio 26, 16-19

Moisés falou ao povo, dizendo: «O Senhor, teu Deus, ordena-te hoje que cumpras estas leis e mandamentos. Tu os guardarás e cumprirás com todo o teu coração e com toda a tua alma. Hoje obtiveste a promessa do Senhor de que Ele seria o teu Deus; e tu deves seguir os seus caminhos, cumprindo os seus mandamentos, leis e preceitos, e escutando a sua voz. E hoje o Senhor obteve de ti a promessa de que serás o seu povo, como Ele tinha declarado, e cumprirás os seus mandamentos. Ele te elevará pela glória, fama e esplendor, acima de todas as nações que formou, e serás um povo consagrado ao Senhor, teu Deus, como Ele prometeu.



Hoje obtiveste a promessa do Senhor de que Ele seria o teu Deus


O Deuteronómio tem um estilo profundo e próximo... Mesmo quando fala de mandamentos, fá-lo de tal maneira que nos faz esquecer o contexto do proibido. Introduz-nos num nível de proposta e resposta.
A proposta é uma aliança. Afeta Deus e o Povo: «Ele será o teu Deus e tu serás o seu Povo». Os compromissos são também recíprocos. Na leitura de hoje, o próprio Deus recorda ao povo os compromissos da aliança. São os mandamentos: compromissos derivados de uma relação consentida pelo Povo. Deus propõe e o povo aceita. O povo propõe, Deus aceita. O compromisso proposto por Deus e aceite pelo povo: «seguir os seus caminhos, cumprindo os seus mandamentos, leis e preceitos, e escutando a sua voz».
A finalidade do cumprimento dos mandamentos é «ser o Povo santo de Deus». Entrar na sua companhia e na comunhão dos irmãos. E desenvolver assim a dimensão interpessoal de uma relação, cuja iniciativa é de Deus; mas, aceite pelo ser humano, abre-lhe horizontes novos e insuspeitos.


Sinais para o caminho de fé


  • É preciso clarificar a relação fé/obras. Quando São Paulo fala da fé como a única que justifica, não está exatamente no problema fé/obras tal como se colocou depois, sobretudo a partir da Reforma.

  • São Paulo não exclui «as obras da fé». Ele próprio diz que «a fé torna-se operativa na caridade». E a «nova criatura» para a qual aponta não é possível sem deixar morrer as «obras da carne».

  • É preciso que, na vida cristã, coloquemos com seriedade a questão do cumprimento dos mandamentos Não pensando apenas nas nossas forças. Não ficando num cumprimento externo. Antes, prestando-lhes o que Paulo chama «obediência da fé».

  • Pensando bem, Paulo já tinha afirmado também a tese de Tiago: «a fé sem obras está morta».
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



  • QUARESMA DE FÉ: Mateus 5, 43-48 > > >



Pedro Jaramillo – Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.3.14 | Sem comentários

QUARESMA DE FÉ — SEXTA-FEIRA DA PRIMEIRO SEMANA


Ezequiel 18, 21-28

Assim fala o Senhor Deus: «Se o pecador se arrepender de todas as faltas que cometeu, se observar todos os meus mandamentos e praticar o direito e a justiça, certamente viverá e não morrerá. Não lhe serão lembrados os pecados que cometeu e viverá por causa da justiça que praticou. Será porventura a morte do pecador que Me agrada? – diz o Senhor Deus – Não é antes que se converta do seu mau proceder e viva? Mas se o justo se desviar da justiça e praticar o mal, imitando as abominações dos pecadores, porventura viverá? Não mais será recordada a justiça que praticou; por causa da prevaricação em que caiu e do pecado que cometeu, ele morrerá. E vós dizeis: ‘O modo de proceder do Senhor não é justo’. Escutai, casa de Israel: Será o meu modo de proceder que não é justo? Não será antes o vosso modo de proceder que é injusto? Quando o justo se afastar da justiça, praticar o mal e vier a morrer, morrerá por causa do mal cometido. Quando o pecador se afastar do mal que tiver realizado, praticar o direito e a justiça, salvará a sua vida. Se abrir os olhos e renunciar às faltas que tiver cometido, certamente viverá e não morrerá».



Se o pecador se arrepender... certamente viverá e não morrerá


O profeta desenvolve, neste capítulo, um tema importante: a responsabilidade individual. Isto é feito num contexto no qual se pensava que a responsabilidade era coletiva e que o indivíduo era envolvido pelo bem ou mal que outros fizeram.
Neste contexto, Ezequiel apresenta a possibilidade de conversão do pecador, assim como a face oposta: a possibilidade do justo voltar a cometer a maldade. A partir do sentido de responsabilidade pessoal, não se trata de Deus salvar uns e condenar outros. Trata-se de nós procuramos a nossa própria salvação ou a nossa própria condenação.
O pecador pode e deve ter esperança. A sua situação não é um fatalismo. «Se o pecador se arrepender... viverá e não morrerá». O profeta expressa um desejo consolador da parte de Deus: «Será porventura a morte do pecador que Me agrada? — diz o Senhor Deus — Não é antes que se converta do seu mau proceder e viva?». Deus assim quer. A responsabilidade pessoal está em realizar a mudança. E, se a mudança acontece, o passado é perdoado.
O justo deve ser vigilante: «quem está de pé, tenha cuidado, para não cair» (1Coríntios 10, 12). A graça está lá (Deus é sempre fiel), mas entra também a responsabilidade pessoal: «Se o justo se desviar da justiça e praticar o mal... morrerá».


Sinais para o caminho de fé


  • A fé não é uma realidade estática: acreditar numas verdades e basta! A fé desencadeia uma caminho de vida.

  • Foi o caminho iniciado pelo justo que o conduziu à prática do bem. Mas o justo continua a sentir as dificuldades de um caminho que não é fácil. Pela graça de Deus e pelo seu esforço pessoal, pode e deve perseverar até ao fim. Mas o eu esforço pessoal pode acabar e converter-se num grande pecador. Nessa situação, é chamado a re-iniciar o processo, como pecador.

  • O pecador é aquele que não respondeu à graça. Mas a conversão é sempre possível. Converter-se dos pecados, guardar os preceitos do Senhor e praticar o direito e a justiça... Tomar um novo rumo na vida... «Quando o pecador se afastar do mal que tiver realizado... salvará a sua vida».

  • A fé requer, portanto, uma responsabilidade pessoal. A salvação não depende só de Deus, nem só de quem me rodeia... a salvação pede também um decisão pessoal.
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor

Pedro Jaramillo – Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.3.14 | Sem comentários

QUARESMA DE FÉ — QUINTA-FEIRA DA PRIMEIRO SEMANA


Ester 4, 17 n.p-r.aa-bb.gg-hh

Naqueles dias, a rainha Ester, tomada de angústia mortal, procurou refúgio no Senhor e fez esta súplica ao Senhor, Deus de Israel: «Meu Senhor, nosso único Rei, vinde socorrer-me, porque estou só e não tenho outro auxílio senão Vós e corre perigo a minha vida. Desde criança, ouvi dizer na minha tribo paterna que Vós, Senhor, escolhestes Israel entre todos os povos e os nossos pais entre os seus antepassados, para serem a vossa herança perpétua, e cumpristes tudo o que lhes tínheis prometido. Lembrai-Vos de nós, Senhor, e manifestai-Vos no dia da nossa tribulação. Fortalecei-me, Rei dos deuses e Senhor dos poderosos. Ponde em meus lábios palavras harmoniosas, quando estiver na presença do leão, e mudai o seu coração, para que deteste o nosso inimigo e o arruíne com todos os seus cúmplices. Livrai-nos com a vossa mão; vinde socorrer-me no meu abandono, porque não tenho ninguém senão Vós, Senhor».



Lembrai-Vos de nós, Senhor, e manifestai-Vos no dia da nossa tribulação


A oração de Ester é uma das mais belas orações do Antigo Testamento. É um relato edificante. O contexto histórico é o da dispersão judaica pela Pérsia. Ali, como no caso do patriarca José, «Deus escreveu direito por linhas tortas»... Ester, uma jovem judia, chegou a ser rainha.
A situação torna-se dura para os judeus da diáspora persa e Mardoqueu, tio de Ester, toma a iniciativa em favor dos seus irmãos de raça e de religião.
Dentro da «estratégia» de Mardoqueu entrou a «intercessão necessária» de Ester diante do Rei (é curioso como ela o chama: «o leão»). Ora, os leões assustam. Ester estava assustada perante tal tarefa. Mas, como as mulheres fortes, vence a «fidelidade ao seu povo». Face a uma tarefa, que lhe parece impossível, prepara-se com uma intensa e bela oração: ela, que é rainha, diz ao Senhor: «não tenho outro auxílio senão Vós». Recorda toda a formação religiosa recebida na infância: assimilou bem a teologia da eleição e da promessa. Agora, que está em tribulação, roga: «manifestai-Vos». E, para ela, uma petição muito humana e muito realista: «fortalecei-me»; «ponde em meus lábios palavras harmoniosas».
A sua intercessão é em nome de todos: «livrai-nos com a vossa mão». Mas ela sabe que é um instrumento da ação de Deus; e insiste: «vinde socorrer-me no meu abandono, porque não tenho ninguém senão Vós, Senhor».


Sinais para o caminho de fé


  • Fé e valentia. Quando a fé é verdadeira transforma-se interiormente em força. A mesma força que vão ter os apóstolos, com a fé na ressurreição de Cristo: «pregavam a Boa Nova com grande valentia».

  • Fé e confiança. A fé expressa-se numa oração confiante. Há momentos em que, pela fé, também nós dizemos a Deus: «não tenho outro defensor além de ti». Chegamos à profundidade dos nossos fundamentos.

  • Fé e intercessão. A fé nunca é individualista: «Deus e eu/ eu e Deus». A fé dá forma à «comunhão dos que acreditamos em Deus». Por isso, a oração nunca é egoísta. É uma oração por toda a comunidade e por toda a gente.

  • Fé e transmissão. É comovedora a alusão de Ester à fé da sua infância. Conheceu Deus e a salvação junto dos seus: a família como o lugar primordial do despertar religioso: «contaram-nos os nossos pais».
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



  • QUARESMA DE FÉ: Mateus 7, 7-12 > > >



Pedro Jaramillo – Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.3.14 | Sem comentários

QUARESMA DE FÉ — QUARTA-FEIRA DA PRIMEIRO SEMANA


Jonas 3, 1-10

A palavra do Senhor foi dirigida a Jonas nos seguintes termos: «Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e apregoa nela a mensagem que Eu te direi». Jonas levantou-se e foi a Nínive, conforme a palavra do Senhor. Nínive era uma grande cidade aos olhos de Deus; levava três dias a atravessar. Jonas entrou na cidade e caminhou durante um dia, apregoando: «Daqui a quarenta dias, Nínive será destruída». Os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, proclamaram um jejum e revestiram-se de sacos, desde o maior ao mais pequeno. Logo que a notícia chegou ao rei de Nínive, ele ergueu-se do trono e tirou o manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza. Depois foi proclamado em Nínive um decreto do rei e dos seus ministros, que dizia: «Os homens e os animais, os bois e as ovelhas, não provem alimento, não pastem nem bebam água. Os homens e os animais revistam-se de sacos e clamem a Deus com vigor; afaste-se cada um do seu mau caminho e das violências que tenha praticado. Quem sabe? Talvez Deus reconsidere e desista, acalmando o ardor da sua ira, de modo que não pereçamos». Quando Deus viu as suas obras e como se convertiam do seu mau caminho, desistiu do castigo com que os ameaçara e não o executou.



Afaste-se cada um do seu mau caminho 

e das violências que tenha praticado


O tema é a conversão. Trata-se de uma narração colorida, onde não faltam os antropomorfismos (apresentação de Deus com forma e sentimentos humanos. Neste caso, pede-se para que Deus se arrependa; e afirma-se que Deus se arrepende, que acalma a sua ira... São maneiras de falar que ajudam a transmitir a mensagem, mas que não se podem tomar à letra. Deus não tem esses sentimentos humanos: agora enervo-me, depois acalmo-me; agora ameaço, depois arrependo-me...).
Podemos destacar: a conversão. Primeiro é Jonas, pedindo a conversão de Nínive, uma cidade estrangeira. Os ninivitas acreditam e mostram o seu arrependimento com um jejum.
Informado o rei, ele junta-se ao jejum, com o gesto típico da penitência: o «saco» e as cinzas. E proclama o jejum para todos (o colorido da narração inclui também os animais entre os penitentes). No edito real há pinceladas interessantes: pede-se uma oração fervorosa e que cada um se afaste «do seu mau caminho e das violências que tenha praticado». De facto, o perdão de Deus acontece quando vê que os ninivitas se converteram do «seu mau caminho».
Neste relato, o jejum vai a par da conversão. Jejum e conversão, juntos, alcançam o perdão. Não importa que a cidade não seja israelita. O perdão de Deus é universal.


Sinais para o caminho de fé


  • As práticas piedosas podem e devem preparar ou seguir a conversão. A fé não as desvaloriza. Apenas nos pede que não sejam práticas religiosas ocas.

  • No anúncio da salvação, Deus serve-se de Jonas e do rei. O importante é que haja um mensageiro. Mensageiros do perdão, a partir de uma fé inquebrantável na misericórdia de Deus.

  • A nossa fé em Deus «clemente e misericordioso» não significa uma «licença para pecar». Deus perdoa, quando vê as boas obras dos ninivitas e que se tinham convertido dos seus maus caminhos. A conversão é necessária para o perdão. O que não significa que, uma vez convertidos, já estejamos livres de voltar a pecar.

  • Não podemos dizer que «já estamos salvos» de maneira definitiva. Enquanto somos caminhantes, podemos voltar a errar no caminho. Só quando estivermos na Meta, seremos semelhantes a Ele (Deus), porque o veremos tal como é (cf. 1João 3, 2).
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



  • QUARESMA DE FÉ: Lucas 11, 29-32 > > >



Pedro Jaramillo – Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.3.14 | Sem comentários

QUARESMA DE FÉ — TERÇA-FEIRA DA PRIMEIRO SEMANA


Isaías 55, 10-11

Assim fala o Senhor. «A chuva e a neve que descem do céu não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a haverem fecundado e feito produzir, para que dê a semente ao semeador e o pão para comer. Assim a palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão».



A palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, 

sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão


Um pedaço de Isaías, célebre pela sua brevidade e pelo seu caráter incisivo. Pode-se aplicar ao texto este refrão: «o bom, se breve, é duas vezes bom».
O centro é ocupado pela Palavra. A Palavra que sai da boca de Deus. A palavra do profeta é reconhecida pela expressão bíblica da «boca de Deus». Não se fala de conteúdos; apenas se apresenta a «Palavra». Mas, a Palavra, sabemo-lo, é sinónimo de «vontade de Deus»...: os seus preceitos são também as «suas palavras».
A vontade de Deus não é oca nem sem garra. Não são preceitos que o vento leva. O versículo dez oferece-nos uma bela imagem de enraizamento e de frutos: a chuva que empapa a terra, que a fecunda, que a faz germinar... Que bem compreendemos esta imagem rural! Uma chuva que provoca todo o processo de frutificação: da semente até ao pão. Uma Palavra que produz frutos. A Palavra de Deus não é uma palavra estéril.


Sinais para o caminho de fé


  • Fé na eficácia da Palavra de Deus. A Palavra não regressa vazia a Deus; a Palavra cumpre a sua vontade. Às vezes, de forma desconcertante; mas, sempre, de forma amorosa.

  • Com fé, também nós pedimos muitas vezes a Deus: «seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu». Estamos certos de que é sempre a vontade do Pai. Não nos assusta pedir ao Pai que se cumpra a sua vontade. Não estamos na fé com base no medo, mas na fé com base no amor.

  • A partir da nossa fé, somos testemunhas da própria experiência de Jesus: «o meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou» (João 4, 34). Fazer a vontade do Pai é cumprir realmente a sua Palavra. No nosso «acolher e cumprir», contribuímos para que não regresse vazia a Deus. Esse é o nosso compromisso de fé.
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



  • QUARESMA DE FÉ: Mateus 6, 7-15 > > >



Pedro Jaramillo – Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.3.14 | comentários

QUARESMA DE FÉ — SEGUNDA-FEIRA DA PRIMEIRO SEMANA


Levítico 19, 1-2.11-18

O Senhor dirigiu-Se a Moisés, dizendo: «Fala a toda a comunidade dos filhos de Israel e diz-lhes: ‘Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo. Não furtareis, não direis mentiras, nem cometereis fraudes uns com os outros. Não prestarás juramento falso, invocando o meu nome, pois profanarias o nome do teu Deus. Eu sou o Senhor. Não oprimirás nem expropriarás o teu próximo. Não ficará contigo até ao dia seguinte o salário do jornaleiro. Não insultarás um surdo nem colocarás tropeços diante de um cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor. Não cometerás injustiças nos teus julgamentos: não favorecerás indevidamente um pobre, nem darás preferência ao poderoso; julgarás o teu próximo segundo a justiça. Não caluniarás os teus parentes, nem conspirarás contra a vida do teu próximo. Eu sou o Senhor. Não odiarás do íntimo do coração os teus irmãos, mas corrigirás o teu próximo, para não incorreres em falta por causa dele. Não te vingarás, nem guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor’».



Sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo


No texto do Levítico, é importante a «motivação moral», para exortar a um comportamento digno: «sede santos, porque Eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo». Trata-se, pois, de recuperar «a imagem e semelhança de Deus». «Ser como Deus». Não no sentido da primeira tentação, mas no sentido da graça que o próprio Deus oferece a cada ser humano.
De novo, um «parecido com Deus» que «passa» pela relação com os irmãos. Dos preceitos que hoje o Levítico nos recorda, apenas um está relacionado diretamente com Deus: «Não prestarás juramento falso, invocando o meu nome». Mas, até neste caso, trata-se de utilizar o juramento em nome de Deus contra os outros.
O resto dos preceitos tem como objetivo o próximo. E concretiza-se num resumo final: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo». O «sede santos, porque Eu, sou santo» volta a ecoar, de alguma maneira, no «Eu sou o Senhor», que se segue ao enunciado de cada um dos preceitos que têm como objetivo o próximo.
Um «Eu sou o Senhor» que significa, não só o que tem poder para dar o mandamento, mas também o que é ofendido com o seu incumprimento. Na tradição profética esclarece-se esta intuição... Depois dos pecados sociais, o profeta diz o mesmo que o Levítico, após a proibição do juramento: «profanando assim o meu santo nome». Deus é ofendido na ofensa que fazemos ao próximo.


Sinais para o caminho de fé


  • Novamente, o tema da união indissolúvel entre a fé e o amor: «a existência cristã consiste num contínuo subir ao monte do encontro com Deus e depois voltar a descer, trazendo o amor e a força que daí derivam, para servir os nossos irmãos e irmãs com o próprio amor de Deus» (Bento XVI, Mensagem para a Quaresma de 2013).

  • A fé é o caminho da santidade. Sem a fé, não podemos ser santos como Deus é santo. Chegar a sê-lo não é uma conquista nossa. A fé é sempre uma graça, um dom, um presente.

  • «A fé constitui aquela adesão pessoal à revelação do amor gratuito e 'apaixonado' que Deus tem por nós e que se manifesta plenamente em Jesus Cristo» (Bento XVI). Mas, Deus amou-nos primeiro. Na fé, tornamos verdade a máxima: «amor com amor se paga».

  • Os preceitos do Levítico destacam a justiça que se faz plena na caridade. Não uma caridade que tenta «encobrir» as injustiças. Uma caridade assim não é caridade verdadeira. Essa não é a caridade onde se manifesta uma fé ativa.
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



  • QUARESMA DE FÉ: Mateus 21, 31-46 > > >



Pedro Jaramillo – Laboratório da fé, 2014


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.3.14 | Sem comentários

QUARESMA DE FÉ — SÁBADO DE CINZAS


Isaías 58, 9b-14

Eis o que diz o Senhor: «Se tirares do meio de ti toda a opressão, os gestos de ameaça e as palavras ofensivas, se deres do teu pão ao faminto e matares a fome ao indigente, brilhará na escuridão a tua luz e a tua noite será como o meio-dia. O Senhor será sempre o teu guia e saciará a tua alma nos lugares desertos. Dará vigor aos teus ossos e tu serás como o jardim bem regado, como nascente cujas águas nunca faltam. Reconstruirás as ruínas antigas e levantarás os alicerces seculares; e serás chamado ‘reparador de brechas’, ‘restaurador de casas em ruínas’. Se te abstiveres de profanar o sábado e de tratar de negócios no dia santificado, se chamares ao sábado as tuas delícias e o consagrares à glória do Senhor, se o respeitares não fazendo viagens, evitando os teus negócios e empreendimentos, então encontrarás no Senhor as tuas delícias; Eu te levarei em triunfo às alturas da terra e farei que te alimentes da herança de teu pai Jacob». Assim falou a boca do Senhor.



Se tirares do meio de ti toda a opressão...

brilhará na escuridão a tua luz

A parte positiva do «jejum que agrada a Deus». Na realidade, o jejum leva-nos à vida. A vida que Deus não quer; a vida que Deus quer.
Com imagens muito vivas, o profeta apresenta a vida a partir da perspetiva de Deus: luz resplandecente do meio-dia. Passaram as trevas, desapareceu a escuridão. A condição para a mudança é muito clara: acabar com a opressão, as falsas acusações e as palavras envenenadas. A nova situação expressa-se quando «deres do teu pão ao faminto e matares a fome ao indigente». Em vez de um jejum puramente externo e cultual, é preciso uma vida «preocupada» pelo próximo.
Então, surgirá uma nova relação com Deus: Deus será guia, saciedade e fortaleza; no meio da seca, o justo será como um jardim bem regado, como um manancial de águas que nunca faltam. E o seu agir será «re-construir»; levantar o que está caído.
Com esta relação estabelecida, o culto já não será vazio. O profeta detém-se no cumprimento do descanso sabático: poderás chamá-lo de «tuas delícias», por ser o dia consagrado ao Senhor, longe que qualquer interesse ou negócio. Dessa forma, já não será o sábado, mas «encontrarás no Senhor as tuas delícias». Sem afirmar claramente o mais além junto de Deus, trata-se de um apontamento de vida eterna, em imagem: «Eu te levarei em triunfo às alturas da terra».


Sinais para o caminho de fé


  • A fé é a nossa resposta à Palavra de Deus. É a nossa parte na amizade íntima, cuja iniciativa parte de Deus.

  • Para ser uma verdadeira parte do diálogo salvador, a fé não se fica num simples sentimento, revestido de práticas externa de piedade. Esta redução da fé é uma permanente tentação.

  • Contudo, não deixa de ser curioso: Deus fala-nos, mas quer uma resposta que «passe» pelo próximo. Restabelecemos a relação com Deus, quando a relação com os outros, especialmente os mais necessitados, é restabelecida no «partilhar o pão». Leia-se no «pão» toda a amplitude do partilhar humano e fraterno. Entendê-lo-emos plenamente quando o próprio Cristo nos disser: «a mim o fizeste»; «a mim o deixaste de fazer».

  • De novo, uma recordação da relação fé/caridade. A fé precede a caridade; mas a fé só se revela genuína quando culmina na caridade (cf. Bento XVI, Mensagem para a Quaresma de 2013).
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



  • QUARESMA DE FÉ: Lucas 5, 27-32 > > >



Pedro Jaramillo – Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.3.14 | Sem comentários

QUARESMA DE FÉ — SEXTA-FEIRA DE CINZAS


Isaías 58, 1-9a

Eis o que diz o Senhor Deus: «Clama em altos brados sem cessar, ergue a tua voz como trombeta. Faz ver ao meu povo as suas faltas e à casa de Jacob os seus pecados. Todos os dias Me procuram e desejam conhecer os meus caminhos, como se fosse um povo que pratica a justiça, sem nunca ter abandonado a lei do seu Deus. Pedem-Me sentenças justas, querem que Deus esteja perto de si e exclamam: ‘De que nos serve jejuar, se não Vos importais com isso? De que nos serve fazer penitência, se não prestais atenção?’ Porque nos dias de jejum correis para os vossos negócios e oprimis todos os vossos servos. Jejuais, sim, mas no meio de contendas e discussões e dando punhadas sem piedade. Não são jejuns como os que fazeis agora que farão ouvir no alto a vossa voz. Será este o jejum que Me agrada no dia em que o homem se mortifica? Curvar a cabeça como um junco, deitar-se sobre saco e cinza: é a isto que chamais jejum e dia agradável ao Senhor? O jejum que Me agrada não será antes este: quebrar as cadeias injustas, desatar os laços da servidão, pôr em liberdade os oprimidos, destruir todos os jugos? Não será repartir o teu pão com o faminto, dar pousada aos pobres sem abrigo, levar roupa aos que não têm que vestir e não voltar as costas ao teu semelhante? Então a tua luz despontará como a aurora e as tuas feridas não tardarão a sarar. Preceder-te-á a tua justiça e seguir-te-á a glória do Senhor. Então, se chamares, o Senhor responderá; se O invocares, dir-te-á: ‘Estou aqui’».



Jejuais, sim, mas no meio de contendas e discussões 

e dando punhadas sem piedade

Juntamente com o anúncio, o profeta recebeu de Deus a missão da denúncia. Neste caso, Isaías começa por denunciar a dureza do coração; as aparências: comportam-se «como se fosse um povo que pratica a justiça, sem nunca ter abandonado a lei», que alternam com um interior sem conversão.
A dureza do coração centra-se no jejum. Jejuam, mas queixam-se: apesar do nosso jejum, Deus não faz caso de nós; mortificam-se, mas queixam-se: Deus não olha para as nossas mortificações.
Mas Deus descreve a qualidade do jejum. Há jejuns que não merecem sequer esse nome. A denúncia é grave: não se trata de não de fazerem jejum; mas de fazerem um jejum que não serve para nada. E mais: fazem um jejum que esconde as injustiças. A denúncia é dupla: por um lado, a farsa de um jejum que se fica no espetáculo dramático: «curvar a cabeça como um junco, deitar-se sobre saco e cinza»; por outro, uma vida repleta de injustiças: contendas, discussões, punhadas sem piedade... Religiosamente, é um panorama desolador: «é a isto que chamais jejum e dia agradável ao Senhor?».
A descrição do jejum verdadeiro é um autêntico programa de uma religião sem fraude. O jejum que Deus quer são as obras de justiça e de misericórdia: quebrar as cadeias injustas, desatar os laços da servidão, pôr em liberdade os oprimidos, destruir todos os jugos, repartir o teu pão com o faminto, dar pousada aos pobres sem abrigo, levar roupa aos que não têm que vestir..., tendo por base uma atitude que engloba tudo: «não voltar as costas ao teu semelhante».
A mudança na maneira de fazer o jejum realiza uma mudança na experiência religiosa. O jejum fraudulento produz o silêncio de Deus; o jejum verdadeiro fará da invocação a presença: «Então, se chamares, o Senhor responderá; se O invocares, dir-te-á: ‘Estou aqui’».


Sinais para o caminho de fé


  • A fé tem uma dimensão profética: anuncia e denuncia. A fé é uma ferramenta para o discernimento crente da realidade. Não se desenvolve apenas nas dimensões da intimidade ou privacidade. Confronta também as situações humanas de pobreza e marginalização.

  • Uma tendência de todas as religiosidade é ficar pelas práticas exteriores e pelas práticas puramente cultuais. A vida concreta deixa-se, com frequência, fora do seu alcance. A fé verdadeira não conhece essa divisão. A fé é unitária: não distingue dois níveis. Agarra a totalidade da existência.

  • A fé não pode desligar-se do amor. Melhor: faz-se ativa na caridade. E a caridade é a plenitude da justiça. Seria um autoengano pensar numa expressão da fé desligada da justiça e da caridade.

  • A vivência e a apresentação da fé não pode consistir numa vida à parte. É, muito mais, um convite a uma vida alternativa.
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



  • QUARESMA DE FÉ: Mateus 9, 14-15 > > >



Pedro Jaramillo – Laboratório da fé, 2014

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.3.14 | Sem comentários

A porta da fé [15]


Estamos a poucos dias de concluir o Ano da Fé, que se iniciou em outubro de 2012 e terminará em novembro de 2013. Semanalmente, apresentamos um número da Carta Apostólica do papa Bento XVI com a qual proclamou o Ano da Fé — «A porta da fé» («Porta Fidei»). E juntamos uma proposta de reflexão elaborada por Pedro Jaramillo. O objetivo é dar um contributo para uma avaliação mais cuidada sobre a forma como vivemos o Ano da Fé. Bom proveito!

Já no termo da sua vida, o apóstolo Paulo pede ao discípulo Timóteo que «procure a fé» (cf. 2Timóteo 2, 22) com a mesma constância de quando era novo (cf. 2Timóteo 3, 15). Sintamos este convite dirigido a cada um de nós, para que ninguém se torne indolente na fé. Esta é companheira de vida, que permite perceber, com um olhar sempre novo, as maravilhas que Deus realiza por nós. Solícita a identificar os sinais dos tempos no hoje da história, a fé obriga cada um de nós a tornar-se sinal vivo da presença do Ressuscitado no mundo. Aquilo de que o mundo tem hoje particular necessidade é o testemunho credível de quantos, iluminados na mente e no coração pela Palavra do Senhor, são capazes de abrir o coração e a mente de muitos outros ao desejo de Deus e da vida verdadeira, aquela que não tem fim.
Que «a Palavra do Senhor avance e seja glorificada» (2Tessalonicenses 3, 1)! Possa este Ano da Fé tornar cada vez mais firme a relação com Cristo Senhor, dado que só n’Ele temos a certeza para olhar o futuro e a garantia dum amor autêntico e duradouro. As seguintes palavras do apóstolo Pedro lançam um último jorro de luz sobre a fé: «É por isso que exultais de alegria, se bem que, por algum tempo, tenhais de andar aflitos por diversas provações; deste modo, a qualidade genuína da vossa fé – muito mais preciosa do que o ouro perecível, por certo também provado pelo fogo – será achada digna de louvor, de glória e de honra, na altura da manifestação de Jesus Cristo. Sem O terdes visto, vós O amais; sem O ver ainda, credes n’Ele e vos alegrais com uma alegria indescritível e irradiante, alcançando assim a meta da vossa fé: a salvação das almas» (1Pedro 1, 6-9). A vida dos cristãos conhece a experiência da alegria e a do sofrimento. Quantos Santos viveram na solidão! Quantos crentes, mesmo em nossos dias, provados pelo silêncio de Deus, cuja voz consoladora queriam ouvir! As provas da vida, ao mesmo tempo que permitem compreender o mistério da Cruz e participar nos sofrimentos de Cristo (cf. Colossenses 1, 24) , são prelúdio da alegria e da esperança a que a fé conduz: «Quando sou fraco, então é que sou forte» (2Coríntios 12, 10). Com firme certeza, acreditamos que o Senhor Jesus derrotou o mal e a morte. Com esta confiança segura, confiamo-nos a Ele: Ele, presente no meio de nós, vence o poder do maligno (cf. Lucas 11, 20); e a Igreja, comunidade visível da sua misericórdia, permanece n’Ele como sinal da reconciliação definitiva com o Pai.
À Mãe de Deus, proclamada «feliz porque acreditou» (cf. Lucas 1, 45), confiamos este tempo de graça.

A porta da fé [Carta Apostólica para o Ano da Fé - «Porta Fidei»]

  • A porta da fé — números publicados no Laboratório da fé > > >



Aspetos que se podem sublinhar

  • Em matéria de fé, há que abandonar a preguiça. Não vale o desleixo ou a ideia de que Deus vai fazendo tudo, quando quer e como quer...
  • A fé compromete cada um a converter-se em sinal da presença de Jesus Cristo no mundo, hoje. É uma bela maneira de descrever a nossa vocação de cristãos.
  • O mundo precisa do testemunho credível de quem, com a vida e as palavras, saiba abrir o coração e a mente dos outros ao desejo de Deus e da vida verdadeira, que não tem fim. 
  • Para que o testemunho seja credível tem de envolver toda a vida do crente: ser fiel a Jesus Cristo em todas as circunstâncias (cf. 1Pedro 1, 6-9).
  • A fé não nos faz «parar de sofrer»: na nossa vida há alegria e sofrimento; dor e gozo, solidão e companhia... Mas, em muitas ocasiões, também nos dói o «silêncio de Deus». Precisamos de olhar para a cruz com confiança segura. Com uma esperança «confiável» (é Deus que promete uma mudança da situação). De forma nenhuma entenderemos essa mudança, se não contarmos, na nossa experiência de vida, com a vida eterna.

Interiorizando

  • Sou preguiçoso(a) nas coisas da fé? Deixo-me levar pelas mudanças de ânimo? Tomo consciência da minha fidelidade para a ter presente nos momentos difíceis. «Ser fiel na obscuridade ao que se viu claramente na luz».

  • Que belo, quando a fé me leva a tornar presente Jesus Cristo na vida dos outros! A fé tem que me ajudar a ser cada vez mais parecido com Jesus Cristo, de modo que quem me vê possa ver Jesus Cristo.

  • Quando a fé se reduz a magia ou a superstição ou a mera crença... pode até parecer que sou mais ou o mais crente, mas não é assim. Com esse tipo de comportamento posso estar a desviar muita gente de Deus. Então, o meu testemunho de fé não é credível.

  • De uma vez por todos, tenho que assumir que não procuro Deus para «deixar de sofrer», mas para aprender a sofrer. Tenho que me tornar «discípulo da cruz», para aprender que só através dela conseguirei chegar à luz.

  • O silêncio de Deus nota-se quando me parece que está longe de mim, que não faz caso de mim, que não se importa comigo, que não me escuta... Tantas vezes saem da minha boca as palavras de Jesus Cristo, na cruz: «Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?»... Então,que dizer?: «em tuas mãos, entrego o meu espírito», «como a criança no colo da mãe».

© Pedro Jaramillo
© Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

Partilha connosco a tua reflexão!


Bento XVI, Carta Apostólica «A porta da fé»
Postado por Anónimo | 21.11.13 | Sem comentários
  • Recentes
  • Arquivo