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Mistério da fé! [11]


Os sinais e símbolos (cf. tema 3) ocupam um lugar importante no contexto da vida humana; o mesmo acontece no contexto litúrgico. Por isso, dedicamos este tema à explicação dos sinais e símbolos associados ao Sacramento do Batismo. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Romanos 13, 11-14; Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1234 a 1245 e 1262 a 1284]

«Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo»

— diz Paulo aos cristãos de Roma. O batizado situa-se na aurora de um tempo novo assinalado pela passagem das trevas para a luz e pelo uso de uma nova «veste». Estas comparações exprimem a intensidade da relação que, pelo Batismo, se realiza entre Jesus Cristo o os cristãos (batizados): somos iluminados interiormente pela sua presença, para o tornarmos visível nas ações que realizamos, isto é, para sermos consequentes com a nossa situação de batizados.

Sinal da cruz

Há quem coloque uma marca nos bens pessoais. Há também quem use o emblema do clube, da associação, da instituição... É um sinal de pertença e de identificação. O sinal do cristão é a cruz. Ser marcado com o sinal da cruz ou traçar sobre si o sinal da cruz é manifestar a pertença a Jesus Cristo (e à Igreja). «O sinal da cruz, no princípio da celebração, manifesta a marca de Cristo impressa naquele que vai passar a pertencer-Lhe, e significa a graça da redenção que Cristo nos adquiriu pela sua cruz» (CIC 1235).

Unção com óleo

Na língua portuguesa distingue-se «óleo» de «azeite». No uso litúrgico, embora se trate de azeite, a terminologia comum é a primeira («óleo»), embora se referia ao produto retirado das azeitonas («azeite»). Na história bíblica, a escolha do rei, do sacerdote, do profeta, era assinalada com uma unção: óleo derramado sobre a cabeça do escolhido (eleito). Além disso, o óleo também servia como tonificador. Recordemos, por exemplo, o uso do óleo como protetor solar ou para fazer massagens... Na celebração do batismo fazem-se duas unções: no peito e na testa. Estas são feitas com a forma do sinal da cruz. «O óleo é sinal de resistência ao pecado. Não se trata de pensar que o óleo seja algo de mágico que ‘imuniza o corpo’ contra o mal. O óleo não é feitiço. É um símbolo, e quer transmitir a força divina. Sem esforço, ninguém, por mais ungido que tenha sido, consegue vencer o mal e o pecado» (José Bortolini, «Os Sacramentos na tua vida», São Paulo, Lisboa 1995, 27-28). Este é o sentido da primeira unção feita com o óleo dos catecúmenos (nome para designar os que se preparam para o batismo): «O poder de Cristo te fortaleça». A segunda unção, feita com o óleo do crisma, está associada à prática bíblica (unção do rei, do sacerdote, do profeta): «permaneças, eternamente, membro de Cristo sacerdote, profeta e rei». Sobre este óleo daremos mais pormenores ao abordarmos o Sacramento da Confirmação (ou Crisma).

Água

«Elemento da Natureza essencial à vida, é tomado, correntemente, com muitos valores e sentidos: sacia a sede, limpa, é fonte de vida, origina a força hidráulica… Em registo religioso, também serve para simbolizar realidades profundas: a pureza interior, sobretudo. Por isso, se encontram abluções ou banhos sagrados, em todas as culturas e religiões, nas margens do Ganges para os Hindus, do Nilo para os Egípcios, do Jordão para os Judeus. Para os Cristãos, a água serve para simbolizar expressivamente o que Cristo e a sua salvação são para nós» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia», ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 23). No Batismo, está associada à «vida nova em Cristo» (cf. tema 9).

Veste branca

«A veste branca simboliza que o batizado ‘se revestiu de Cristo’» (CIC 1243). Na prática habitual dos primeiros séculos, o Batismo era celebrado na Vigília Pascal. «Os batizados, ao saírem da piscina, do ‘mergulho’ do Batismo, vestiam uma veste branca e conservavam-na toda a semana, até ao domingo seguinte. [...] Era uma semana de comemoração do Batismo» (José Ribólla, «Os Sacramentos trocados em miúdo», Editora Santuário, Aparecida 1990, 53).

Vela (luz)

«A vela, acesa no círio pascal, significa que Cristo iluminou o neófito. Em Cristo, os batizados são ‘a luz do mundo’» (CIC 1243). O Círio Pascal simboliza Jesus Cristo ressuscitado, vivo no meio de nós. Por isso, a vela não se acende a partir de uma outra vela qualquer! «A vela do Batismo quer dizer a quem é batizado: Jesus é a luz da tua vida! Procura andar nessa luz e serás feliz!» (José Bortolini..., 23).

«Seguindo, com participação atenta, os gestos e as palavras desta celebração, os fiéis são iniciados nas riquezas que este sacramento significa e realiza em cada novo batizado» (CIC 1234).



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Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.12.13 | Sem comentários

Mistério da fé! [10]


O Batismo associa a si aspetos que devem ser tidos em conta, na preparação, na celebração e até depois da celebração. Quem, como, quando e onde — são questões que sintetizam alguns desses pontos. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Atos dos Apóstolos 2, 14-41; Catecismo da Igreja Católica, números 1229 a 1233 e 1246 a 1261]

«Peça cada um o batismo»

— responde Pedro à pergunta feita pelos que ouviram o seu discurso após a ressurreição de Jesus Cristo, de acordo com o livro dos Atos dos Apóstolos. Ninguém fica indiferente diante da revelação de Cristo ressuscitado. E os que escutam fazem a pergunta que será usada pelos catecúmenos durante o rito de admissão ao batismo: «Que devemos fazer?». Pedro apresenta-lhes um programa de conversão que encaminha para a celebração do batismo e a inserção na comunidade dos cristãos.

Quem pode ser batizado?

«Todo o ser humano ainda não batizado — e só ele — é capaz de receber o Batismo» (Catecismo da Igreja Católica [CIC], 1246). Para concretizar esta afirmação, a Igreja prevê três possibilidades, de acordo com a idade: crianças (nos primeiros anos de vida); crianças e adolescentes em idade de catequese; jovens e adultos. «A única predisposição para o Batismo é a fé» (Catecismo Jovem da Igreja Católica [YOUCAT], 196). Aos jovens e adultos é proposto um itinerário («catecumenado» – cf. tema 7) com etapas celebrativas ao longo do percurso, conforme o Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos (RICA). Este ritual também possui o capítulo próprio para as crianças em idade de catequese (Ritual da Iniciação Cristã das Crianças em idade de catequese): «Este rito destina-se às crianças que, não tendo sido batizadas na infância e tendo atingido a idade da discrição e da catequese, se apresentam para receber a iniciação cristã [...]. A iniciação deve prolongar-se, se for necessário, por vários anos» (RICA. Preliminares, 306-307). Para as crianças «que, por não terem chegado ainda à idade do uso da razão, não podem professar fé própria» existe um ritual próprio (Ritual do Batismo das Crianças. Preliminares, 1). A celebração do batismo das crianças «pressupõe que os pais cristãos introduzam o batizando na fé» (YOUCAT 197). Além disso, «o Batismo das crianças exige um catecumenado pós-batismal. [...] É o espaço próprio da catequese» (CIC 1231). Em todos os casos, é essa a missão dos padrinhos: «devem ser pessoas de fé sólida, capazes e preparados para ajudar o novo batizado, criança ou adulto, no seu caminho de vida cristã» (CIC 1255).

Quem pode batizar?

«Quem preside normalmente a uma celebração batismal é o bispo, um presbítero ou um diácono. Em caso de emergência, qualquer cristão, ou mesmo qualquer pessoa, pode batizar, derramando água sobre a cabeça do batizando e dizendo a fórmula batismal: ‘Eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo’. O Batismo é tão importante, que até uma pessoa que não é cristã pode ser o seu ministro. Ela apenas tem de ter a intenção de fazer o que a Igreja faz quando batiza» (YOUCAT 198).

Como é celebrado o batismo?

Há a fórmula breve, usada em caso de «emergência», perigo de morte. De facto, «o rito essencial do Batismo consiste em mergulhar na água o candidato ou em derramar água sobre a sua cabeça, invocando o nome da Santíssima Trindade» (CIC 1278). Mas há outros elementos simbólicos usados na celebração solene do Batismo. Vamos apresentá-los no próximo tema.

Quando se pode batizar?

Já sabemos que a Igreja prevê a possibilidade de celebrar o batismo em qualquer etapa da vida, atendendo à especificidade de cada pessoa. Agora, apresentamos dois pontos importantes retirados do Ritual da Celebração do Batismo das Crianças (Preliminares, 8-9): «deve fazer-se dentro das primeiras semanas após o nascimento da criança»; «recomenda-se que o sacramento seja celebrado na Vigília Pascal ou ao domingo».

Onde se pode batizar?

Sem excluir outras possibilidades, o lugar mais apropriado para a celebração do Sacramento do Batismo é a igreja paroquial (onde residem os pais): «para se ver mais claramente que o Batismo é o sacramento da fé da Igreja e da agregação ao povo de Deus, celebrar-se-á habitualmente na igreja paroquial» (Ritual da Celebração do Batismo das Crianças. Preliminares, 10).

«O Batismo insere na comunhão com Cristo e assim dá vida. [...] O Batismo é um dom; o dom da vida. Mas um dom deve ser acolhido, deve ser vivido. Um dom de amizade exige um ‘sim’. [...] É o nosso ‘sim’ a Cristo, o ‘sim’ à vida no tempo e na eternidade» (Bento XVI, Homilia a 8 de janeiro de 2006).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.12.13 | Sem comentários

Mistério da fé! [9]


«O Batismo constitui o nascimento para a vida nova em Cristo» (Catecismo da Igreja Católica, 1277). Esta referência a um novo nascimento — já presente no diálogo entre Jesus Cristo e Nicodemos (cf. João 3, 1-21) — constitui um dos aspetos fundamentais do Sacramento do Batismo. Não se trata de voltar ao ventre materno; trata-se de assumir uma nova identidade, uma vida nova em Cristo [Para ajudar a compreender melhor, ler: Romanos 6, 1-11; Catecismo da Igreja Católica, números 1217 a 1228]

«Pelo Batismo... caminhemos numa vida nova»

— escreve Paulo na Carta aos cristãos de Roma. Este texto é uma das catequese mais esclarecidas sobre o significado do batismo cristão. Antes de Jesus Cristo, a prática do batismo estava associada apenas aos rituais de purificação. Tal é, por exemplo, o significado do batismo praticado por João Batista, no rio Jordão. Na Carta aos Romanos, Paulo coloca em evidência a novidade do batismo cristão e a sua ligação com a Páscoa de Jesus Cristo (Ressurreição). Nos primeiros séculos, um dos momentos significativos do ritual do Batismo consistia em entrar e sair da água. Os batistérios expressavam bem esta dimensão: o catecúmeno tinha de descer umas escadas para entrar e sair da água. Paulo compara esta ação com a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Era uma imitação da entrada de Jesus Cristo ao túmulo e da saída vitoriosa do Ressuscitado. Assim, o simbolismo do sacramento torna-se radicalmente eficaz. A existência do batizado é completamente renovada. Esta ligação entre o Batismo e a Ressurreição permite a conclusão de Paulo: o Batismo faz morrer para o pecado (para tudo o que nos afasta de Deus) e renascer para uma vida nova, representada pelo sair da água, pela veste branca e pela vela acesa a partir do Círio Pascal.

Batismo

«O Batismo é o bilhete de identidade do cristão, a sua certidão de nascimento e o ato de nascimento na Igreja. Todos vós conheceis o dia em que nascestes e festejais o vosso aniversário, não é verdade? Todos nós festejamos o aniversário. [...] Quem de vós se recorda da data do seu próprio Batismo? [...] Quando voltardes para casa, perguntai em que dia fostes batizados, procurai, porque este é o vosso segundo aniversário. O primeiro é do nascimento para a vida e o segundo é do nascimento na Igreja» (Francisco, Audiência Geral de 13 de novembro de 2013).

Vida nova em Cristo

«O Batismo faz-nos cristãos, quer dizer: de Cristo. Somos incorporados em Cristo e tornamo-nos ‘outros Cristos’. Aqui está a nossa vocação cristã: tornarmo-nos seguidores de Cristo. Assimilaremos os sentimentos de Cristo, os seus critérios de vida, espelharemos as suas atitudes. E isto tudo, não numa simples ‘imitação’ como numa representação teatral. Mas Cristo vai tornar-se a nossa vida, para podermos dizer como São Paulo: ‘Já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim’ (Gálatas 2, 20)» (José Ribólla, «Os Sacramentos trocados em miúdo», Editora Santuário, Aparecida 1990, 41). Com esta afirmação, Paulo reconhece em si mesmo uma nova identidade. O mesmo acontece com todos os batizados, com cada um de nós. «No Batismo, o Senhor entra na vossa vida pela porta do vosso coração. Já não estamos um ao lado do outro ou um contra o outro. Ele atravessa todas estas portas. A realidade do Batismo consiste nisto: Ele, o Ressuscitado, vem; vem até vós e une a sua vida com a vossa conservando-vos dentro do fogo vivo do seu amor. Passais a ser uma unidade: sim, um só com Ele e, deste modo, um só entre vós. Num primeiro momento, isto pode parecer bastante teórico e pouco realista. Mas quanto mais viverdes a vida de batizados, tanto mais podereis experimentar a verdade desta palavra. [...] Esta natureza íntima do Batismo como dom de uma nova identidade é representada pela Igreja através de elementos sensíveis» (Bento XVI, Homilia de 22 de março de 2008). De facto, o Ritual do Batismo expressa, com gestos e palavras (símbolos simples e concretos), esta nova identidade do cristão. «Mergulhar na água é morrer, emergir é respirar e viver. O Batismo, ser mergulhado na água, é morrer para renascer para a vida nova do Espírito. [...] A veste branca é a imagem visível do nosso corpo tornado nova criatura porque revestido de Cristo» (Carlo Maria Martini, «O corpo», Paulinas, Prior Velho, 2003, 56-57).

«Sentes-te forte, com o vigor que Cristo te oferece com a sua morte e ressurreição? Ou sentes-te abatido, esgotado? O Batismo dá-te força e luz. Sentes-te iluminado, com aquela luz que vem de Cristo? És homem e mulher de luz?» (Francisco, Audiência Geral de 13 de novembro de 2013).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.12.13 | Sem comentários

Mistério da fé! [8]


O Batismo é o primeiro sacramento e o primeiro dos sacramentos. «O Batismo, porta da vida e do reino, é o primeiro sacramento da nova lei, que Cristo propôs a todos para terem a vida eterna, e, em seguida, confiou à sua Igreja, juntamente com o Evangelho» (Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos. Preliminares Gerais, 3). Neste tema, apresentamos o fundamento do Sacramento do Batismo associado ao mandato de Jesus Cristo ressuscitado confiado aos discípulos [Para ajudar a compreender melhor, ler: Mateus 28, 16-20; Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1213 a 1216]

«Ide... fazei discípulos... 

batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo»

— é, segundo a narração de Mateus, o mandato que Jesus Cristo ressuscitado confia aos (onze) discípulos. A presença terrena de Jesus Cristo continua com a presença missionária dos discípulos (até ao fim dos tempos). A fórmula batismal explicitamente trinitária — «em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo» — é única em todos os escritos do Novo Testamento. É provável que tenha origem na prática litúrgica já existente na comunidade a que pertence o evangelista Mateus.

Batismo

O Batismo é o primeiro dos sacramentos, o ponto de partida da Iniciação Cristã (cf. tema 7), «o fundamento de toda a vida cristã, o pórtico da vida no Espírito (‘porta da vida espiritual’) e a porta que dá acesso aos outros sacramentos» (Catecismo da Igreja Católica», 1213). A palavra «batismo» deriva do «grego, ‘baptisma’, que, por sua vez, vem de ‘bapto’ (banhar) e de ‘baptizdo’ (submergir, mergulhar na água). O seu sentido original é, portanto, banho, ablução externa, embora entendendo-a no seu sentido de purificação e vida nova» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 47).

Mandato de Cristo

Nos relatos evangélicos segundo Mateus e Marcos há uma referência ao mandato confiado aos discípulos: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (Mateus 28, 19-20); «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo» (Marcos 16, 15-16). Jesus Cristo apresenta-se como aquele que ressuscitou de entre os mortos e que tem plena autoridade para encarregar os discípulos de continuarem até ao fim dos tempos a atividade que tinha iniciado. Os discípulos são enviados («Ide») ao mundo inteiro para proclamar o Evangelho, «fazer» discípulos, batizar e ensinar «a cumprir tudo» o que aprenderam de Jesus Cristo. O (novo) discipulado concretiza-se na adesão aos ensinamentos de Jesus Cristo («acreditar») e na participação na vida da Trindade através da celebração do Sacramento do Batismo. Com esta referência bíblica confirma-se que desde o tempo dos Apóstolos o Batismo tornou-se essencial para a adesão à fé cristã, juntamente com o acolhimento do Evangelho, a Boa Nova de Jesus Cristo. Em primeiro lugar, fica claro que a experiência pascal dos discípulos não é para o próprio consolo interior, mas para assumir uma missão universal. Esta missão é confiada por Jesus Cristo para que anunciem o Evangelho a «todos os povos», ao «mundo inteiro». O anúncio do Evangelho não tem nenhum tipo de fronteiras: geográficas, económicas, políticas, sociais, culturais... É universal por natureza. Hoje, esta continua a ser a missão confiada a todos os discípulos, a todos os cristãos. O Batismo não é para um consolo próprio, mas para dar continuidade à missão. O papa Francisco tem insistido com frequência na importância do mandato de Cristo: «Não se fechem, por favor! Isto é um perigo: fecharmo-nos na paróquia, com os amigos, no movimento, com aqueles que pensam as mesmas coisas que eu... Sabeis o que sucede? Quando a Igreja se fecha, adoece, fica doente. Imaginai um quarto fechado durante um ano; quando lá entras, cheira a mofo e há muitas coisas que não estão bem. A uma Igreja fechada sucede o mesmo: é uma Igreja doente. A Igreja deve sair de si mesma. Para onde? Para as periferias existenciais, sejam quais forem…, mas sair. Jesus diz-nos: ‘Ide pelo mundo inteiro! Ide! Pregai! Dai testemunho do Evangelho!’» (Francisco, Vigília de Pentecostes, 18 de maio de 2013). Em segundo lugar, a missão não consiste em transmitir uma «ideologia» ou uma simples «doutrina». A missão está associada ao batismo: «Quem acreditar e for batizado será salvo».

O Sacramento do Batismo é muito mais do que um simples rito ou ritual. Celebrar o Batismo significa mergulhar a totalidade da vida em Jesus Cristo para assumir uma vida nova.






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 28.11.13 | Sem comentários

Mistério da fé! [7]


A entrada numa comunidade — grupo, associação, instituição, coletividade — está (sempre) associada a uma «iniciação», a um processo que se desenvolve em várias etapas. Por isso, logo no princípio da Igreja se estabeleceu um percurso para a «iniciação» dos cristãos. Este processo deu origem aos Sacramentos da Iniciação Cristã. Sabes quais são? Vamos apresentá-los neste e nos próximos temas [Para ajudar a compreender melhor, ler: Atos 8, 26-40; Catecismo da Igreja Católica (CIC), números 1212 e 1275]

«Como poderei compreender, sem alguém que me oriente»

— questiona o etíope, no diálogo narrado no livro dos Atos dos Apóstolos. Esta inquietação manifesta a disponibilidade para «ser iniciado» no conhecimento, neste caso, de Jesus Cristo e do seu estilo de vida. Assemelha-se, por isso, à pergunta — «Mestre, onde moras?» — feita pelos primeiros discípulos (cf. tema 6).

Sacramentos

«Para transmitir um conteúdo meramente doutrinal, uma ideia, talvez bastasse um livro ou a repetição de uma mensagem oral; mas aquilo que se comunica na Igreja [...] é a luz nova que nasce do encontro com o Deus vivo, uma luz que toca a pessoa no seu íntimo, no coração, envolvendo a sua mente, vontade e afetividade, abrindo-a a relações vivas na comunhão com Deus e com os outros. Para se transmitir tal plenitude, existe um meio especial que põe em jogo a pessoa inteira: corpo e espírito, interioridade e relações. Este meio são os sacramentos celebrados na liturgia da Igreja: neles, comunica-se uma memória encarnada, ligada aos lugares e épocas da vida, associada com todos os sentidos; neles, a pessoa é envolvida, como membro de um sujeito vivo, num tecido de relações comunitárias» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé, «A Luz da Fé» — «Lumen Fidei», 40).

Iniciação

O vocábulo «iniciação», de origem latina («initiatio»), remete para o ponto de partida de uma caminhada, a entrada e participação de alguém numa nova realidade. No contexto religioso, «a iniciação é um processo presente em muitas religiões, [...] e compreende não só um doutrinamento, mas também uma série de ritos ‘iniciáticos’ que exprimem um novo nascimento, pelo qual alguém é ‘iniciado’ no mistério e admitido como membro de uma comunidade ou grupo» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho, 2007, 145-146).

Cristã

A entrada na comunidade dos cristãos foi sempre apoiada numa «iniciação». Começou de forma simples: evangelização, conversão, batismo, participação ativa na Igreja. Ao longo dos tempos foram introduzidos rituais em cada etapa. Nos séculos V-VI aparece já com clareza o itinerário sacramental da Iniciação Cristã: Batismo, Confirmação e Eucaristia. Mas «aquilo que, durante séculos, foi um processo unitário dos três sacramentos, [...], a pouco e pouco, foi-se fragmentando, no Ocidente, com o Batismo nos primeiros meses de vida; mais tarde, a Confirmação, cuja administração foi sendo reservada ao bispo; e a primeira Eucaristia, recomendada para a idade do uso da razão. Agora, por motivos pastorais, a Confirmação tende a diferir-se ainda para mais tarde, mantendo-se a idade da primeira Eucaristia. Na Igreja do Oriente, conserva-se a unidade dos três sacramentos» (DEL).

Catecumenado

As alterações produzidas no processo de Iniciação Cristã foram revistas no II Concílio do Vaticano, que determinou a criação de um ritual para as crianças e outro para os adultos. Neste sentido, foi recuperado o processo de «catecumenado» (o termo tem origem no grego «katêchéo», que significa «fazer eco», «instruir por palavra», «ensinar de viva voz»). O episódio do etíope, nos Atos dos Apóstolos (8, 26-40), mostra a génese deste processo. «O catecumenado tinha como característica fazer o caminho em grupo, com expressiva participação da comunidade, não só por meio dos padrinhos, mas pelo seu acompanhamento em relação ao grupo de catecúmenos. Consistia numa série de reuniões de catequese e de oração, com gestos simbólicos rituais. [...] A meio da Vigília Pascal, celebravam, na comunidade, os três sacramentos da iniciação: Batismo, Confirmação e primeira Eucaristia» (DEL, 62-64). Atualmente, a Iniciação Cristã dos adultos desenvolve-se em quatro etapas (pré-catecumenado, catecumenado, eleição, mistagogia) e em três ‘ritos’ de passagem de uma a outra (admissão ao catecumenado, rito de eleição para a preparação próxima, na Quaresma, e a celebração dos três sacramentos, na Vigília Pascal).

«Através dos sacramentos da iniciação cristã – Batismo, Confirmação e Eucaristia – são lançados os alicerces de toda a vida cristã (Catecismo da Igreja Católica, 1212).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.11.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [43]


A estrutura do Batismo, a sua configuração como renascimento no qual recebemos um nome novo e uma vida nova, ajuda-nos a compreender o sentido e a importância do Batismo das crianças. Uma criança não é capaz de um ato livre que acolha a fé: ainda não a pode confessar sozinha e, por isso mesmo, é confessada pelos seus pais e pelos padrinhos em nome dela. A fé é vivida no âmbito da comunidade da Igreja, insere-se num «nós» comum. Assim, a criança pode ser sustentada por outros, pelos seus pais e padrinhos, e pode ser acolhida na fé deles que é a fé da Igreja, simbolizada pela luz que o pai toma do círio na liturgia batismal. Esta estrutura do Batismo põe em evidência a importância da sinergia entre a Igreja e a família na transmissão da fé. Os pais são chamados — como diz Santo Agostinho — não só a gerar os filhos para a vida, mas a levá-los a Deus, para que sejam, através do Batismo, regenerados como filhos de Deus, recebam o dom da fé [38]. Assim, juntamente com a vida, é-lhes dada a orientação fundamental da existência e a segurança de um bom futuro; orientação esta, que será ulteriormente corroborada no sacramento da Confirmação com o selo indelével do Espírito Santo.

[38] Cf. De nuptiis et concupiscentia, I, 4, 5: PL 44, 413 (« Habent quippe intentionem generandi regenerandos, ut qui ex eis saeculi filii nascuntur in Dei filios renascantur »)

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»] — pdf

  • A luz da fé — números publicados no Laboratório da fé > > >



Refletir... saborear

  • O batismo das crianças tem sentido (e importância)
  • A criança não pode sozinha confessar a fé
  • Os pais e padrinhos confessam a fé em nome da criança
  • A fé é vivida na comunidade (Igreja)
  • A fé insere-se num «nós» comum
  • A luz que o pai toma do Círio Pascal simboliza a fé da Igreja
  • Há uma sinergia entre a Igreja e a família na transmissão da fé
  • Tem sentido batizar uma criança?
  • Que relação existe entre a fé dos pais e a fé da Igreja?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [42]


Quais são os elementos batismais que nos introduzem nesta nova «forma de ensino»? Sobre o catecúmeno é invocado, em primeiro lugar, o nome da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. E deste modo se oferece, logo desde o princípio, uma síntese do caminho da fé: o Deus que chamou Abraão e quis chamar-Se seu Deus, o Deus que revelou o seu nome a Moisés, o Deus que, ao entregar-nos o seu Filho, nos revelou plenamente o mistério do seu Nome, dá à pessoa batizada uma nova identidade filial. Desta forma, se evidencia o sentido da imersão na água que se realiza no Batismo: a água é, simultaneamente, símbolo de morte, que nos convida a passar pela conversão do «eu» tendo em vista a sua abertura a um «Eu» maior, e símbolo de vida, do ventre onde renascemos para seguir Cristo na sua nova existência. Deste modo, através da imersão na água, o Batismo fala-nos da estrutura encarnada da fé. A ação de Cristo toca-nos na nossa realidade pessoal, transformando-nos radicalmente, tornando-nos filhos adotivos de Deus, participantes da natureza divina; e assim modifica todas as nossas relações, a nossa situação concreta na terra e no universo, abrindo-as à própria vida de comunhão d’Ele. Este dinamismo de transformação próprio do Batismo ajuda-nos a perceber a importância do catecumenato, que hoje — mesmo em sociedades de antigas raízes cristãs, onde um número crescente de adultos se aproxima do sacramento batismal — se reveste de singular relevância para a nova evangelização. É o itinerário de preparação para o Batismo, para a transformação da vida inteira em Cristo.
Para compreender a ligação entre o Batismo e a fé, pode ajudar-nos a recordação de um texto do profeta Isaías, que já aparece associado com o Batismo na literatura cristã antiga: «Terá o seu refúgio em rochas elevadas, terá (…) água em abundância» (Isaías 33, 16) [37]. Resgatado da morte pela água, o batizado pode manter-se de pé sobre «rochas elevadas», porque encontrou a solidez à qual confiar-se; e, assim, a água de morte transformou-se em água de vida. O texto grego descrevia-a como água «pistòs», água «fiel»: a água do Batismo é fiel, podendo confiar-nos a ela porque a sua corrente entra na dinâmica de amor de Jesus, fonte de segurança para o nosso caminho na vida.

[37] Cf. Epistula Barnabae, 11, 5: SC 172, 162

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»] — pdf

  • A luz da fé — números publicados no Laboratório da fé > > >



Refletir... saborear

  • A invocação da Trindade (Pai, Filho, Espírito Santo) oferece uma síntese do caminho da fé
  • No Batismo, a Trindade dá à pessoa uma nova identidade filial
  • No Batismo, a imersão na água é símbolo da morte: conversão
  • No Batismo, a imersão na água é símbolo da vida: renascer com Cristo
  • No Batismo, a água da morte torna-se em água da vida
  • O Batismo, pela imersão na água, fala-nos da estrutura encarnada da fé
  • No Batismo, a ação de Cristo, transforma-nos radicalmente
  • No Batismo, a ação de Cristo, torna-nos filhos adotivos de Deus
  • No Batismo, a ação de Cristo, torna-nos participantes da natureza divina
  • O Batismo modifica todas as nossas relações
  • O Batismo modifica a nossa situação concreta no mundo
  • O Batismo abre-nos à vida de comunhão (em Deus)
  • O catecumenato (preparação para o Batismo) é fundamental
  • Qual o sentido da invocação da Trindade, no Batismo?
  • O que simboliza a imersão na água, no Batismo?
  • Qual é a ação de Cristo, no Batismo?
  • É importante a preparação para o Batismo?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.9.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [41]


A transmissão da fé verifica-se, em primeiro lugar, através do Batismo. Poderia parecer que este sacramento fosse apenas um modo para simbolizar a confissão de fé, um ato pedagógico para quem precise de imagens e gestos, e do qual seria possível fundamentalmente prescindir. Mas não é assim, como no-lo recorda uma palavra de São Paulo: «Pelo Batismo fomos sepultados com Cristo na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova» (Romanos 6, 4); nele, tornamo-nos nova criatura e filhos adotivos de Deus. E mais adiante o Apóstolo diz que o cristão foi confiado a uma «forma de ensino» («typos didachés»), a que obedece de coração (cf. Romanos 6, 17): no Batismo, o ser humano recebe também uma doutrina que deve professar e uma forma concreta de vida que requer o envolvimento de toda a sua pessoa, encaminhando-a para o bem; é transferido para um novo âmbito, confiado a um novo ambiente, a uma nova maneira comum de agir, na Igreja. Deste modo, o Batismo recorda-nos que a fé não é obra do indivíduo isolado, não é um ato que o ser humano possa realizar contando apenas com as próprias forças, mas tem de ser recebida, entrando na comunhão eclesial que transmite o dom de Deus: ninguém se batiza a si mesmo, tal como ninguém vem sozinho à existência. Fomos batizados.

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»] — pdf

  • A luz da fé — números publicados no Laboratório da fé > > >



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  • O Batismo é um meio de transmissão da fé
  • O Batismo não é apenas um modo de simbolizar a confissão da fé
  • O Batismo não é apenas um ato pedagógico
  • Pelo Batismo, tornamo-nos novas criaturas
  • Pelo Batismo, tornamo-nos filhos adotivos de Deus
  • No Batismo, recebemos uma doutrina 
  • No Batismo, recebemos uma forma concreta de vida
  • No Batismo, está envolvida a totalidade da pessoa
  • Pelo Batismo, somos introduzidos num novo ambiente
  • Pelo Batismo, somos introduzidos numa nova maneira comum de agir
  • Pelo Batismo, tornamo-nos membros da Igreja
  • O Batismo recorda que a fé não é um ato isolado
  • O Batismo recorda que a fé  é recebida na comunhão eclesial
  • Ninguém se batiza a si mesmo
  • Que importância tem a celebração do Batismo?
  • O que acontece, no indivíduo, pelo Batismo?
  • O Batismo interfere na vida, na maneira de viver?
  • Que relação existe entre o Batismo e a Igreja?
  • É possível dizer que a fé como um ato isolado, apenas pessoal?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.9.13 | Sem comentários

As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Reflexões sobre o sacerdócio ministerial
Tendo estes antecedentes mais latos como pano de fundo, podemos analisar agora o sacerdócio ministerial. O ministério do sacerdote ordenado só pode ser entendido como uma chamada ministerial particular para estar ao serviço do sacerdócio de todos os batizados. Tal relação é afirmada no Catecismo da Igreja Católica (CIC): «Enquanto o sacerdócio comum dos fiéis se realiza no desenvolvimento da vida batismal — vida de fé, esperança e caridade, vida segundo o Espírito —, o sacerdócio ministerial está ao serviço do sacerdócio comum, ordena-se ao desenvolvimento da graça batismal de todos os cristãos» (CIC 1547). É o sacerdócio dos batizados que determina a forma do sacerdócio ministerial, e não o contrário. A «Lumen Gentium» 10 estabeleceu a ligação necessária entre o sacerdócio batismal e o sacerdócio ministerial. Essa relação seria especificada noutros textos conciliares.
No seu Decreto sobre o Ministério e a Vida dos Sacerdotes («Presbyterorum Ordinis» [PO]), o Concílio concebe o sacerdócio ministerial como um serviço ao sacerdócio dos batizados. Fá-lo, em primeiro lugar, através da ênfase dada ao ministério da Palavra (PO 4). O sacerdote é chamado a pregar a boa-nova de Jesus Cristo por palavras e por obras. Se nós, os cristãos, quisermos fazer da nossa vida comum um sacrifício vivo oferecido a Cristo, precisamos de ser alimentados e inspirados pela Palavra de Deus. O sacerdote deve estar tão «apanhado» pelo amor de Cristo, que esse amor impregne a sua pregação, permitindo-lhe transportar o mistério do amor de Cristo para os outros. Ao mesmo tempo, deve ser um observador perspicaz da condição humana, capaz de identificar a graça oculta de Deus já em ação nas vidas das pessoas a quem serve. Escreve o Concílio que: «A pregação sacerdotal, não raro dificílima nas circunstâncias hodiernas do mundo, se deseja tocar de forma mais eficaz as almas dos ouvintes, não se deve limitar a expor de modo geral e abstrato a Palavra de Deus, mas sim aplicar às circunstâncias concretas da vida a verdade perene do Evangelho» (PO 4). A pregação, para ser eficaz, requer tanto um profundo empenhamento no poder evangélico do Evangelho, como uma profunda compreensão das complexidades da vida moderna.
O sacerdote também servirá o sacerdócio batismal mediante o exercício do seu ministério sacramental dentro e não acima da comunidade cristã, de modo especial quando preside à liturgia eucarística (PO 5). O sacerdote reúne, para o culto, o povo de Deus que lhe foi confiado. Ele preside à liturgia, unindo as orações do povo, recebendo os seus dons e oferecendo-os ao Pai na pessoa de Cristo e em união com toda a assembleia eucarística. Na celebração da Eucaristia, a ligação profunda entre o sacerdócio ministerial e o sacerdócio batismal torna-se plenamente manifesta. Isso deve-se ao facto de a natureza sacrificial da Eucaristia atuar em duas direções. Recordemos o que foi dito atrás. Na economia cristã, o sacrifício começa sempre com a ação de Deus, não com a nossa. O primeiro movimento da Eucaristia é a autodoação de Deus em Jesus Cristo, oferecido para nossa salvação, pelo poder do Espírito Santo. Reconhecemo-lo na evocação dos atos salvíficos de Deus, feita na liturgia da Palavra e na oração eucarística recitada pelo sacerdote.
É só como grata resposta à autodoação de Deus, em Cristo, que a nossa própria oferta eucarística faz sentido. Levamos os nossos humildes dons ao altar, como símbolo das nossas vidas, acreditando que esses simples dons entrarão no dinamismo eterno da autodoação de Cristo. Em «Deus caritas est» (Deus é Amor), o papa Bento XVI escreveu que na celebração da Eucaristia «entramos na pró­pria dinâmica da sua autodoação [de Cristo]» (13). Tanto Santo Ireneu como Santo Agostinho descreveram a Eucaristia como uma espécie de pedagogia divina na qual somos «iniciados» no paradigma pascal, na forma sacerdotal do amor cristão. Não nos deve surpreender que os Padres da Igreja primitiva descrevessem com tanta frequência a Eucaristia como uma dupla transformação: a transformação dos elementos eucarísticos e a transformação da comunidade reunida. Assim, é sob a presidência eucarística do sacerdote que os batizados são formados na «gramática» sacerdotal e pascal do amor cristão e enviados em missão ao mundo. O ministério sacerdotal do sacerdote realiza-se mais profundamente quando ele preside à Eucaristia e no seu papel específico de oferecer o sacrifício eucarístico em favor do povo, mas não se limita ao domínio da liturgia. Todo o ministério sacramental do sacerdote, como, aliás, todo o seu ministério, deve ser visto como uma forma de convidar os homens e as mulheres a entrar no poder transformador do amor sacrificial de Cristo.
Finalmente, o Decreto «Presbyterorum Ordinis» aborda o ministério pastoral do sacerdote como líder pastoral do povo (PO 6). Aqui, o sacerdote também serve o sacerdócio batismal. Fá-lo através da liderança pastoral, através da promoção da maturidade do Povo de Deus e através da ordenação dos muitos dons dos batizados, de tal modo que esses dons possam edificar a Igreja, ao serviço da sua missão no mundo.
Vemos, no tratamento dado ao sacerdócio ministerial, o emprego de uma estrutura conciliar comum: o triplo ministério de Cristo*, como sacerdote, profeta e rei. Durante séculos, esse triplo ministério fora aplicado ao ministério dos ordenados, como se vê no Decreto sobre o Sacerdócio. Contudo, pela primeira vez, o Concílio ensinaria que todos os batizados participam desse triplo ministério. Com efeito, a nossa análise anterior do desenvolvimento feito pela «Lumen Gentium» 10 do sacerdócio batismal fazia parte de uma abordagem mais alargada da participação de todos os batizados no ministério de Cristo como sacerdote, profeta e rei. Não devemos menosprezar a importância de tal desenvolvimento. Empregando as «tria munera»*, o Concílio fundamentou toda a Igreja, e não só o clero, nas missões de Cristo e do Espírito Santo. É o Espírito Santo que capacita todos os batizados para participar na obra de Cristo como sacerdote, profeta e rei. Mais uma vez, isso aplica-se a todos os fiéis. Todos os cristãos são chamados à obra sacerdotal de oferecerem as suas vidas como sacrifício espiritual, todos são chamados a escutar e proclamar a Palavra, e todos são chamados a trabalhar pela vinda do Reino de Deus. Este desenvolvimento teológico forneceu ainda mais uma forma pela qual o Concílio foi capaz de transcender as tendências para a existência de uma Igreja dualista, e para nos fazer passar a uma Igreja baseada na unidade da fé, no Batismo e na missão cristã. Com efeito, a obra sacerdotal do Povo de Deus leva-o a participar na missão da Igreja no mundo, tema do nosso próximo capítulo.

* O «triplo ministério de Cristo» é muitas veies referido em latim como «triplex munus» ou «tria munera». Esta formulação teológica foi desenvolvida pela primeira vez pelo grande reformista João Calvino, sendo mais tarde introduzida na teologia católica por especialistas em direito canónico. Embora essa expressão tenha sido convencionalmente utilizada pelo Direito Canónico e pela Teologia católica em referência a posições de liderança, o Concílio Vaticano II parecia convidar a um significado mais lato, ao aplicá-la a todos os batizados. Nesse sentido, o Concílio estava a seguir o trabalho pioneiro de Yves Congar, que desenvolveu uma teologia do laicado com base nessa aplicação mais alargada.

© Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
© Paulinas Editora, 2012
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização da editora

Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


  • Sacerdócio batismal e ministerial [1]  [2]  [3]


Reflexões sobre a Igreja no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.8.13 | Sem comentários

As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Reflexões sobre o sacerdócio batismal
No seu sentido mais básico, um sacerdote é alguém que oferece um sacrifício. Em certo sentido, ambos os termos, «sacerdote» e «sacrifício», podem ser problemáticos nos nossos dias. Verifica--se um mal-estar generalizado na sociedade ocidental frente à noção de sacrifício. Ian Bradley sugere que as noções de sacrifício não assentam bem numa cultura centrada em autorrealização, gratificação imediata, consumo gritante e autoabsorção vazia de sentido. Muitos, hoje em dia, rejeitam a noção de sacrifício religioso devido às suas conotações com matança ritual e outros atos de violência que pretendiam aplacar a Deus. Esta associação com a violência é largamente moldada pelo sacrifício tal como este funcionava nas antigas religiões fora da tradição judaico-cristã. Nessas religiões antigas, sacrifício podia assumir muitas formas, mas geralmente envolvia a matança ritual de um animal, a fim de aplacar ou restaurar a comunhão com algum deus. Dentro deste antigo paradigma religioso, o sacerdote é apenas aquele que oferece formalmente o sacrifício a Deus ou aos deuses.
A existência desta forma de entender o sacrifício e o sacerdócio noutras tradições religiosas antigas pode criar um problema para os cristãos, para quem as noções de sacerdócio e sacrifício devem ser entendidas de uma forma muitíssimo diferente. Por exemplo, mesmo no Antigo Testamento, embora houvesse muitas formas diferentes de sacrifício ritual, nenhuma delas era realmente oferecida para aplacar um Deus irado. Com efeito, à medida que os antigos conceitos hebraicos de sacrifício se foram desenvolvendo, o sacrifício sangrento de propiciação passou a ser entendido menos como uma ação humana destinada a restabelecer a relação com Deus, e mais como uma ação divina que pretendia restaurar a relação de Deus com a humanidade. Além disso, na tradição profética bíblica, nota-se o abandono total do sacrifício ritual em favor de uma vida sacrificial e das obras de justiça.
No Novo Testamento, um dos conceitos cristãos dominantes de sacrifício tem as suas raízes na teologia da «quenose» [em grego «kenosis»] de Paulo. O famoso hino de São Paulo aos Filipenses fala da «quenose» de Cristo, do seu autoesvaziamento de todas as prerrogativas divinas, numa radical autodoação ao mundo. Este pensamento encerra um importante princípio teológico. A ação sacrificial nunca começa com a humanidade a oferecer um sacrifício a Deus. Pelo contrário, é Deus que, num movimento descendente, dá início à obra de reconciliação, vindo a nós com um amor vulnerável, de autodoação. A noção cristã da morte propiciatória de Cristo, pelo menos nos escritos de Paulo, também não constituem, tecnicamente, uma expiação «por substituição», visto que, para Paulo, «o mistério pascal não é um acontecimento que ocorre simplesmente em nosso favor; é, antes, qualquer coisa em que nós estamos intimamente envolvidos; o tema da vida através da morte e da ressurreição deveria ser realizado através das nossas próprias vidas». 
A intuição mais profunda da nossa tradição cristã é que Jesus não foi oferecido como vítima por outro, a fim de aplicar ou pacificar Deus. Pelo contrário, Jesus é Aquele que se oferece livremente como a vítima inocente de uma ação violenta que não é perpetrada contra Ele por Deus, mas por uma humanidade pecadora. É por isso que a forma radical do sacrifício único de Cristo é completamente incompreensível sem a ressurreição. É a cruz e a ressurreição juntas, o mistério pascal como um todo, que revela ao mundo que a gramática profunda do cosmo, na intenção divina, não é um sacrifício violento, mas amor vulnerável, de auto­doação. Na vida, morte e ressurreição de Cristo encontramos um amor que ultrapassa todas as fronteiras, um amor que exclui apenas aqueles que se excluem a si próprios. É esse amor, e só esse amor, que merece ser chamado sacrifício cristão. 
Esta reflexão sobre a ação sacerdotal de Cristo que se oferece a si próprio como dom sacrificial pelo mundo, uma abordagem teológica testificada de modo tão profundo na carta aos Hebreus, rege a forma como devemos pensar na vida sacerdotal de todos os batizados. A vida sacerdotal dos cristãos comuns é sustentada pela ação sacerdotal e pelo amor sacrificial de Cristo. O seu amor de autodoação, manifestado na cruz e na ressurreição, torna-se a fonte da nossa própria capacidade de amar. Só através de uma dependência viva de Cristo podemos fazer da «gramática» pascal da autodoação a profunda «gramática» de autodoação das nossas vidas. 
James Alison apresenta uma imagem maravilhosa para comunicar o que significa viver o nosso sacerdócio batismal. Imaginem, sugere Alison, que vivem na Albânia, em 1989, e que acabaram de ouvir, na rádio, que o Muro de Berlim caiu. O poder do mal, que é o regime comunista, foi derrotado. Agora, os comunistas podem continuar no poder na Albânia, mas isso não importa, porque você sabe, e eles sabem que você sabe, que tudo acabou. Você começa a celebrar, pois sabe que os dias da «besta» estão contados. Ora, isso não significa que a polícia estatal e os «apparatchiks» do partido deixarão de agir como violentos opressores. Exteriormente, na Albânia, tudo pode parecer como se nada tivesse mudado, mas, na realidade, tudo mudou, e você agora sabe que é apenas uma questão de tempo até que os efeitos da queda do Muro de Berlim cheguem às ruas da Albânia. E, por isso, você começa já a celebrar, e, celebrando agora, talvez a sua celebração apresse a propagação dessa derrota decisiva para o seu próprio país.
O mesmo se passa na vida cristã. Qualquer coisa de decisivo ocorreu para o mundo, no acontecimento de Cristo. E, pelo nosso Batismo, devemos viver da realidade libertadora dessa «qualquer coisa» que aconteceu em Cristo. Devemos viver dessa realidade mesmo que, ao nível das aparências superficiais, nada pareça ter mudado. As vidas dos cristãos comuns são sacerdotais, na medida em que nos rendermos ao poder do amor de autodoa­ção, encarnado na autodoação salvífica de Jesus. Como Alison afirma, de forma provocadora, viver o nosso sacerdócio batismal significa estar envolvido «no início da celebração de um novo regime, mesmo que o antigo regime ainda não tenha tido notícia da sua própria queda».

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Catherine E. Clifford e Richard R. Gaillardetz, As «chaves» do Concílio, Paulinas Editora, Prior Velho, 2012 (material protegido por leis de direitos autorais)


  • Sacerdócio batismal e ministerial [1]  [2]  [3]  [4]


Reflexões sobre a Igreja no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.8.13 | Sem comentários

As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


O sacerdócio batismal e ministerial no magistério conciliar
Quando os bispos conciliares receberam o projeto de documento sobre a Igreja, durante a primeira sessão do Concílio, ficaram desapontados com a sua qualidade global. Uma importante exceção foi o capítulo sobre os leigos, que oferecia uma reflexão bastante positiva sobre o papel dos leigos na Igreja e no mundo. O capítulo começava com uma reflexão sobre o sacerdócio universal de que todos os crentes participam em virtude do seu Batismo. Os redatores do documento invocavam a experiência do movimento da Ação Católica* durante as últimas décadas, afirmando os direitos e os deveres dos leigos. Afirmavam ainda que os leigos eram chamados não só a um envolvimento mais ativo no reino secular, mas também a uma participação mais plena na vida da Igreja. Este material seria conservado e desenvolvido ainda mais nas redações posteriores do documento.
O projeto da Constituição foi substancialmente reelaborado entre a primeira e a segunda sessão do Concílio. Compreendia agora quatro capítulos. O primeiro intitulava-se «O mistério da Igreja» e incorporava uma visão muito mais bíblica e trinitária da Igreja do que o esquema preparatório. O segundo capítulo era sobre a hierarquia, e o terceiro intitulava-se «O Povo de Deus e os Leigos em particular». O último capítulo era sobre o chamamento universal à santidade. Uma mudança ulterior deste novo esquema seria proposta durante a sessão intermédia. O cardeal Leo Suenens, da Bélgica, sugeriu que o terceiro capítulo — «O Povo de Deus e os Leigos» — fosse dividido e que o material sobre o Povo de Deus passasse a formar um capítulo separado, imediatamente a seguir ao capítulo de abertura e antes do capítulo sobre a hierarquia. Esse novo capítulo ofereceria uma das descrições da Igreja mais profundas, feitas pelo Concílio:
Este povo messiânico tem por cabeça Cristo, «o qual foi entregue pelos nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação» (Romanos 4, 25) e, tendo agora alcançado um nome superior a todo o nome, reina glorioso nos Céus. É condição deste povo a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus, em cujos corações o Espírito Santo habita como num templo. A sua lei é o novo mandamento, o de amar como o próprio Cristo nos amou (cf. João 13, 34). Por último, tem por fim o Reino de Deus, o qual, começado na terra pelo próprio Deus, se deve desenvolver até ser também por Ele consumado no fim dos séculos, quando Cristo, nossa vida, aparecer (cf. Colossenses 3, 4) e «a própria criação for libertada do domínio da corrupção, para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus» (Romanos 8, 21). Por isso é que este povo messiânico, ainda que não abranja de facto todos os homens, e não poucas vezes apareça como um pequeno rebanho, é, contudo, para todo o género humano, o mais firme germe de unidade, de esperança e de salvação. Estabelecido por Cristo como comunhão de vida, de caridade e de verdade, é também por Ele assumido como instrumento de redenção universal e enviado a todo o mundo como luz do mundo e sal da terra (LG 9).
Talvez não haja nenhuma passagem nos documentos conciliares que resuma de forma tão poética os temas característicos empregues pelo Concílio nas suas reflexões sobre a Igreja. Nesta bela passagem, encontramos a determinação do Concílio em recuperar uma linguagem mais bíblica para refletir sobre a Igreja. Aqui, também vemos o rico fundamento cristológico e a nova apreciação do papel do Espírito Santo. Este texto apresenta a Igreja como povo enviado ao mundo em missão para servir o Reino vindouro de Deus. Por fim, este texto reflete a orientação mais escatológica do Concílio, ao pôr em destaque uma Igreja que olha para o futuro com humildade e esperança.
O que foi dito acima diz respeito a todo o Povo de Deus. Este capítulo apresenta a fé, o Batismo e o discipulado como realidades fundacionais na Igreja. A sua colocação antes do capítulo sobre a hierarquia sugeria uma recuperação das convicções da Igreja primitiva de que o ministério da hierarquia deve ser visto no contexto da dignidade comum de todos os batizados.
É neste capítulo sobre o Povo de Deus que encontramos o texto-chave que nos ocupa, uma passagem que explora tanto o sacerdócio ministerial como o sacerdócio de todos os crentes. Todos os cristãos, em virtude do seu Batismo, participam do sacerdócio de Cristo, e todos eles são chamados a entregar toda a sua vida a «um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus» (LG 10). Este sacerdócio comum, como ensina o Concílio, diverge «essencialmente e não só em grau» do sacerdócio ministerial, embora ambos partilhem igualmente do sacerdócio único de Cristo. Esta recuperação conciliar da antiga teologia do sacerdócio dos batizados é tanto mais notável porquanto, durante séculos, fora um tema que se identificara fortemente com a teologia de Lutero e de outros reformadores.
Esta passagem é muitas vezes citada, mas menos frequentemente entendida. Por exemplo, há uma tendência para equacionar «o sacerdócio comum dos crentes» como um sacerdócio dos leigos. Tal leitura assume que o Concílio estava a colocar dois grupos diferentes de sacerdotes dentro da Igreja, um dos leigos e outro do clero. Trata-se de uma leitura perigosamente errada do magistério conciliar. Com efeito, o Concílio estava a descrever duas realidades sacerdotais interligadas. O sacerdócio de todos os fiéis era sinónimo do discipulado cristão; todos os cristãos, tanto leigos como clérigos, participam deste sacerdócio comum em virtude do seu Batismo. Todos eles são chamados a fazer da sua vida «um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus».
O sacerdócio ministerial foi colocado então em relação com o sacerdócio dos fiéis. Isso sugere que a identidade sacerdotal não pode ser descoberta por contraposição e separação; só pode ser descoberta fazendo a pergunta mais básica: Que significa viver o sacerdócio comum dos fiéis? Quais são as exigências do autêntico discipulado cristão? Só quando tivermos uma noção das respostas a estas perguntas poderemos analisar de que modo o sacerdócio ministerial deve ser entendido.

* Ação Católica: Movimento de renovação espiritual que começou em Itália e se dedicou ao fomento da participação dos leigos na missão da Igreja mediante a sua atividade apostólica no mundo. Em 1930, o papa Pio XI aprovou formalmente a Ação Católica como movimento abrangente dos leigos. Em 1938, atingiu os 500 000 membros, em toda a Europa.

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  • Sacerdócio batismal e ministerial [1]  [2]  [3]  [4]


Reflexões sobre a Igreja no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.8.13 | Sem comentários

As «chaves» do Concílio


Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


Cristo Nosso Senhor, Pontífice escolhido de entre os homens (cf. Hebreus 5, 1-5), fez do novo povo um «reino sacerdotal para seu Deus e Pai» (Apocalipse 1, 6; cf. 5, 9-10). Na verdade, os batizados, pela regeneração e pela unção do Espírito Santo, são consagrados para serem casa espiritual, sacerdócio santo, para que, por meio de todas as obras próprias do cristão, ofereçam oblações espirituais e anunciem os louvores daquele que os chamou das trevas à sua luz admirável (cf. 1Pedro 2, 4-10). Por isso, todos os discípulos de Cristo, perseverando na oração e louvando a Deus (cf. Atos 2, 42-47), ofereçam-se a si mesmos como hóstias vivas, santas, agradáveis a Deus (cf. Romanos 12, 1), dêem testemunho de Cristo em toda a parte e, àqueles que lha pedirem, dêem razão da esperança da vida eterna que neles habita (cf. 1Pedro 3, 15). 0 sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico, embora se diferenciem essencialmente e não apenas em grau, ordenam-se mutuamente um ao outro; pois um e outro participam, a seu modo, do único sacerdócio de Cristo. Com efeito, o sacerdote ministerial, pelo seu poder sagrado, forma e conduz o povo sacerdotal, realiza o sacrifício eucarístico, fazendo as vezes de Cristo, e oferece-o a Deus em nome de todo o povo; os fiéis, pelo seu lado, concorrem para a oblação da Eucaristia em virtude do seu sacerdócio real, que exercem na receção dos sacramentos, na oração e ação de graças, no testemunho da santidade de vida, na abnegação e na caridade atuante (LG 10).

Antecedentes
Os Atos dos Apóstolos referem que foi em Antioquia que os primeiros seguidores de Jesus foram inicialmente chamados «cristãos». Estes primeiros seguidores de Jesus referiam-se muitas vezes a si próprios como «discípulos» (Atos 6, 1; 9, 1) ou, simplesmente, como «os santos» (Romanos 1, 7; 1Coríntios 1, 2). O termo «discípulo» aparece no Novo Testamento mais de duzentas vezes. Esses nomes refletiam a profunda solidariedade que os primeiros cristãos tinham uns para com os outros. A sua atitude refletia-se nas palavras de São Paulo: «Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher, porque todos vós sois um só em Cristo Jesus» (Gálatas 3, 28). As distinções de classe entre a primeira geração de crentes não tinham lugar formal na vida da Igreja. Quando as primeiras divisões começaram a surgir, eram imediatamente condenadas. Por exemplo, Paulo admoestava a comunidade de Corinto por nela haver sinais de estratificação social evidentes na forma como celebrava a Eucaristia. As Igrejas do Novo Testamento também não conheciam qualquer distinção formal entre a liderança da Igreja e o resto da comunidade; não havia classes distintas de pessoas referidas como clero ou leigos. «Kleros» e os termos derivados (por exemplo, «kleronomia», «kleronomai») referiam-se ao instrumento para deitar sortes e o seu uso no Novo Testamento sugeria a «sorte» ou «herança» recebida por todos os crentes como povo de Deus. Além disso, o termo grego que designa sacerdote, «hiereus», nunca foi aplicado a determinado grupo de ministros no seio da comunidade; ou se aplicava ao próprio Cristo (Hebreus 2, 17; 3, 1; 4, 14-15) ou a todo o povo de Deus, como em 1Pedro: «Vós, porém, sois raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus, a fim de proclamardes as maravilhas daquele que vos chamou das trevas para a sua luz admirável; vós que outrora não éreis um povo, mas que agora sois povo de Deus, vós, que não tínheis alcançado misericórdia, e que agora alcançastes misericórdia» (1Pedro 2, 9-10).
Toda a comunidade cristã tinha um caráter «sacerdotal», na medida em que a sua vida comunitária devia participar da «obra sacerdotal» de Cristo. A mesma convicção foi expressa em Romanos 12: «Por isso vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus. Seja este o vosso verdadeiro culto, o espiritual» (versículo 1). Paulo acreditava que o ato espiritual mais básico de um cristão não era o que sucedia no lugar da assembleia eclesial; era algo que empenhava a sua vida quotidiana. A sua vida devia ser um sacrifício vivo, devido ao poder transformador do único sacrifício de Cristo.
À medida que a Igreja ia crescendo e se ia desenvolvendo nos primeiros séculos, a consciência sacerdotal de toda a Igreja manteve-se, mesmo quando a distinção entre os chamados ao ministério público (o clero) e o resto da comunidade cristã se tornou mais acentuada. No século III, tomou-se mais comum distinguir entre os cristãos ordenados (o clero) e os não ordenados (os leigos), embora a prioridade do seu Batismo permanecesse.
Contudo, no fim do primeiro milénio, a distinção entre o clero e os leigos tinha-se tornado gradualmente mais rígida. O influente canonista Graciano, do século XII, apresenta a questão de forma muito direta: «Há dois tipos de cristãos: os clérigos e os leigos». Esta ideia de classes continuaria a ser um elemento essencial da eclesiologia católica; podia encontrar-se ainda no Código de Direito Canónico de 1917. É durante este período que a liturgia se toma quase exclusivamente um assunto clerical. Os leigos tinham ficado reduzidos a espectadores, e foram deixando cada vez mais de receber a Comunhão. Ao mesmo tempo, o aparecimento do monasticismo provocou uma segunda distinção, entre o leigo e o monge, que era chamado a uma forma mais elevada de santidade. Como afirma Edward Hahnenberg, «se os leigos eram vistos em contraposição com o clero em termos de liderança e de atividade, agora eram vistos em contraposição com o monge em termos de santidade».
O ensinamento bíblico relativo ao sacerdócio de todos os crentes cairia em desuso, até ser reavivado por Martinho Lutero, no século XVI. Infelizmente, a recuperação feita por Lutero da antiga ideia de que todos os cristãos eram sacerdotes pelo seu Batismo levou-o a repudiar a legitimidade do sacerdócio ministerial (ordenado) da Igreja. O resultado foram quatro séculos de polémica entre protestantes e católicos, em que o protestantismo daria especial destaque ao sacerdócio de todos os crentes, enquanto o catolicismo defenderia com vigor a legitimidade do sacerdócio ministerial. O sacerdócio de todos os crentes no magistério católico só voltaria a ser alvo de séria atenção no Concílio Vaticano II.

© Richard R. Gaillardetz - Catherine E. Clifford
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  • Sacerdócio batismal e ministerial [1]  [2]  [3]  [4]


Reflexões sobre a Igreja no Laboratório da fé



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.8.13 | Sem comentários

O Papa Francisco alerta contra uma «Igreja adormecida», sem a «coragem de anunciar»


A Igreja não pode fazer de «baby-sitter» (ama) dos cristãos; tem de ser «mãe». Por isso, os leigos têm de redescobrir a sua responsabilidade de batizados — afirmou o Papa Francisco esta quarta-feira (17 de abril), na missa que presidiu em Santa Marta, dirigida a um grupo de empregados do Instituto de Obras da Religião, o Banco Vaticano.
Segundo relata a Rádio Vaticano, o Papa sublinhou que «os primeiros cristãos tinham apenas a força do batismo» que «lhes dava a coragem apostólica, a força do Espírito», inclusive nas perseguições. Os primeiros cristãos «deixaram a sua casa, levaram consigo poucas coisas; não tinham qualquer segurança, mas foram de lugar em lugar para anunciar a Palavra. São simples fiéis, apenas batizados há um ano ou pouco mais, talvez. Mas tinham a coragem de ir anunciar».
«Eu penso em nós, batizados; sim, nós temos esta força, mas penso: acreditamos nisto, acreditamos que o batismo nos basta, que é suficiente para evangelizar?». Muitas vezes «a graça do batismo está um pouco esquecida e nós estamos fechados nos nossos pensamentos, nas nossas coisas. Ou às vezes pensamos: «Sou cristão: recebi o batismo, fiz a confirmação, a primeira comunhão, tenho a cédula de vida cristã. E agora dorme tranquilo: és cristão».
«Mas onde está — questionou o Papa — a força do Espírito que te empurra para a frente?». Quando anunciamos «a Igreja converte-se numa Igreja mãe que gera filhos, para nós vivermos como filhos da Igreja. Mas quando não o fazemos, a Igreja converte-se, não em mãe, mas em Igreja baby-sitter, que cuida da criança para a adormecer. É uma Igreja adormecida. Pensemos no nosso batismo, na responsabilidade do nosso batismo»!
Francisco recordou também as perseguições do Japão, no século XVII, quando os missionários católicos foram expulsos e as comunidades cristãs ficaram duzentos anos sem presbíteros. No seu regresso, os missionários encontraram «todas as comunidades no seu lugar, todos batizados, todos catequizados, todos casados pela Igreja», graças à obra dos batizados.
«Temos uma grande responsabilidade, nós, os batizados: anunciar Cristo, levar por diante a Igreja, a maternidade fecunda da Igreja. Ser cristão não é fazer uma carreira escolar para se tornar advogado ou médico cristão. Não. Ser cristão é um presente que nos faz caminhar, com a força do Espírito, no anúncio de Jesus Cristo», disse o Papa Francisco.

© Religión Digital
© Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

Papa Francisco, abril de 2013



Postado por Anónimo | 17.4.13 | Sem comentários
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