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MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O DIA MUNDIAL DA PAZ


Resumo do número 6
Um ponto importante brota da reflexão sobre as origens da crise económica que domina o mundo atual. Apesar dos alertas lançados ao longo dos tempos — disso são testemunha as palavras de João Paulo II (em 1979): o «perigo de que, enquanto progride enormemente o domínio do ser humano sobre o mundo das coisas, ele perca os fios essenciais deste seu domínio e, de diversas maneiras, submeta a elas a sua humanidade, e ele próprio se torne objeto de multiforme manipulação, se bem que muitas vezes não diretamente percetível» —, a verdade é que muitas pessoas procuraram e continuam a procurar «o bem-estar, a felicidade e a segurança no consumo e no lucro fora de toda a lógica duma economia saudável». Por isso, é preciso despertar para «a redescoberta da fraternidade na economia». Até porque a origem das crises está profundamente relacionada com o «progressivo afastamento do ser humano de Deus e do próximo, com a ambição desmedida de bens materiais, por um lado, e o empobrecimento das relações interpessoais e comunitárias, por outro». O caminho para uma solução eficaz passa pelo repensar dos «modelos de desenvolvimento económico», pela mudança dos «estilos de vida», pela recuperação das «virtudes da prudência, temperança, justiça e fortaleza». Estas podem ajudar a «redescobrir os laços fraternos» para além da «maximização do próprio lucro individual», ajudando assim a «construir e manter uma sociedade à medida da dignidade humana».

© Laboratório da fé, 2014



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Fraternidade, fundamento e caminho para a paz, Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.1.14 | Sem comentários

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O DIA MUNDIAL DA PAZ


Resumo do número 4
Sugerindo a leitura das Encíclicas de Paulo VI (sobre o desenvolvimento dos povos) e João Paulo II (sobre a solicitude social da Igreja), o papa Francisco reitera que «a fraternidade é fundamento e caminho para a paz». No pensamento de Paulo VI, os «mais favorecidos» são os primeiros a sentir o dever de «trabalhar juntos para construir o futuro comum da humanidade», em três dimensões: «o dever de solidariedade, que exige que as nações ricas ajudem as menos avançadas; o dever de justiça social, que requer a reformulação em termos mais corretos das relações defeituosas entre povos fortes e povos fracos; o dever de caridade universal, que implica a promoção de um mundo mais humano para todos, um mundo onde todos tenham qualquer coisa a dar e a receber, sem que o progresso de uns seja obstáculo ao desenvolvimento dos outros». No pensamento de João Paulo II, a paz apresenta-se como «um bem indivisível: ou é bem de todos, ou não o é de ninguém». Neste sentido, há alguns critérios de ação que são fundamentais: vencer a «avidez do lucro» e a «sede de poder» com a disponibilidade para «estar pronto a ‘perder-se’ em benefício do próximo». Este não pode ser visto como «instrumento», mas como «semelhante». Sem esquecer que o próximo é um «irmão», uma «imagem viva de Deus Pai, resgatada pelo sangue de Jesus Cristo e tornada objeto da ação permanente do Espírito Santo». Esta consciência «conferirá ao nosso olhar sobre o mundo como que um novo critério» para o interpretar e transformar.

© Laboratório da fé, 2014



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Fraternidade, fundamento e caminho para a paz, Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.1.14 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


O papa João Paulo II, no dia 12 de novembro de 1997, dedicou uma Audiência Geral ao tema «A Mãe da unidade e da esperança» para comentar o número 69 do oitavo capítulo da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) do II Concílio do Vaticano. 
O referido número, o último do capítulo, destaca o culto mariano entre os cristãos «que não pertencem à comunidade católica», a quem os Padres conciliares chamam de «irmãos separados». Nesta exposição, João Paulo II enuncia os vários temas que continuam a causar discordância entre os católicos e as demais confissões religiosas cristãs, nomeadamente os protestantes e os ortodoxos. Entre estes últimos e os católicos, o Papa destaca a unidade da «fé na maternidade divina de Maria, na sua Virgindade perene, na sua perfeita santidade, na sua intercessão materna junto do Filho». A terminar, o papa João Paulo II recorda o pedido expresso no texto conciliar: «confiar a unidade dos cristãos a Maria».

Caríssimos Irmãos e Irmãs:
1. Depois de ter ilustrado as relações entre Maria e a Igreja, o Concílio Vaticano II alegra-se em constatar que a Virgem é honrada também pelos cristãos que não pertencem à comunidade católica. «Muito alegra e consola este Sagrado Concílio saber que não falta, mesmo entre os irmãos separados, quem preste a honra devida à Mãe do Senhor e Salvador...» (LG, 69; cf. Redemptoris Mater, 29-34). Justamente podemos dizer que a maternidade universal de Maria, mesmo que faça aparecer ainda mais dolorosas as divisões entre os cristãos, constitui um grande sinal de esperança para o caminho ecuménico.
Muitas Comunidades protestantes, por causa de uma particular concepção da graça e da eclesiologia, opuseram-se à doutrina e ao culto mariano, considerando a cooperação de Maria na obra da salvação prejudicial à única mediação de Cristo. Nesta perspectiva, o culto da Mãe faria concorrência, por assim dizer, à honra devida ao Filho.
2. Todavia, em tempos recentes, o aprofundamento do pensamento dos primeiros reformadores pôs em relevo posições mais abertas em relação à doutrina católica. Os escritos de Lutero manifestam, por exemplo, amor e veneração a Maria, exaltada como modelo de todas as virtudes: ele defende a excelsa santidade da Mãe de Deus e, às vezes, afirma o privilégio da Imaculada Conceição, compartilhando com outros Reformadores a fé na Virgindade perpétua de Maria.
O estudo do pensamento de Lutero e de Calvino, e também a análise de alguns textos de cristãos evangélicos, contribuíram para suscitar uma renovada atenção de alguns protestantes e anglicanos a diversos temas da doutrina mariológica. Alguns chegaram mesmo a posições muito próximas às dos católicos, no que se refere aos pontos fundamentais da doutrina sobre Maria, como por exemplo a maternidade divina, a virgindade, a santidade e a maternidade espiritual.
A preocupação de ressaltar o valor da presença da mulher na Igreja favorece o esforço por reconhecer o papel de Maria na história da salvação.
Todos estes dados constituem outros tantos motivos de esperança para o caminho ecuménico. O profundo desejo dos católicos seria de poder compartilhar, com todos os seus irmãos em Cristo, a alegria que deriva da presença de Maria na vida, segundo o Espírito.
3. O Concílio recorda, entre os irmãos que «prestam a honra devida à Mãe do Senhor e Salvador», especialmente os Orientais, «que acorrem com fervor e devoção para venerar a Mãe de Deus sempre Virgem» (LG, 69).
Como resulta das numerosas manifestações de culto, a veneração por Maria representa um significativo elemento de comunhão entre católicos e ortodoxos.
Contudo, restam algumas divergências acerca dos dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção, ainda que inicialmente essas verdades tenham sido ilustradas por alguns teólogos orientais — basta pensar em grandes escritores como Gregório Palamas ( †1359), Nicolau Cabasilas († depois de 1396), Jorge Scholarios († depois de 1472).
Todavia essas divergências, talvez mais de formulação que de conteúdo, não devem fazer esquecer a comum fé na maternidade divina de Maria, na sua Virgindade perene, na sua perfeita santidade, na sua intercessão materna junto do Filho. Como recordou o Concílio Vaticano II, o «ardente fervor» e a «alma devota» irmanam ortodoxos e católicos no culto à Mãe de Deus.
4. No final da Lumen Gentium, o Concílio convida a confiar a unidade dos cristãos a Maria: «Todos os fiéis dirijam súplicas insistentes à Mãe de Deus e Mãe dos homens para que Ela, que assistiu com suas orações aos alvores da Igreja, também agora, exaltada no céu acima de todos os Anjos e Bem-aventurados, interceda junto de Seu Filho, na comunhão de todos os Santos» (Ibid.).
Assim como na comunidade primordial a presença de Maria promovia a unanimidade dos corações, que a oração consolidava e tornava visível (cf. Act 1, 14), assim também a mais intensa comunhão com Aquela a quem Agostinho chama «mãe da unidade» (Sermo 192, 2;PL 38, 1013), poderá impelir os cristãos a gozarem o dom tão almejado da unidade ecuménica.
À Virgem Santa dirigem-se as nossas incessantes orações para que, assim como no início sustentou o caminho da comunidade cristã unida na oração e no anúncio do Evangelho, assim hoje com a sua intercessão obtenha a reconciliação e a plena comunhão entre os crentes em Cristo.
Mãe dos homens, Maria conhece bem as necessidades e as aspirações da humanidade. O Concílio pede-Lhe de modo particular que interceda a fim de que «as famílias dos povos, quer se honrem do nome de cristão, quer desconheçam ainda o Salvador, se reúnam em paz e concórdia no único Povo de Deus, para glória da Santíssima e indivisa Trindade» (LG, 69).
A paz, a concórdia e a unidade, objecto da esperança da Igreja e da humanidade, ainda parecem distantes. Contudo, constituem uma dádiva do Espírito a ser pedida incessantemente, pondo-se na escola de Maria e confiando na sua intercessão.
5. Com esse pedido os cristãos compartilham a expectativa d’Aquela que, repleta das virtudes da esperança, sustém a Igreja em caminho rumo ao porvir de Deus.
Tendo alcançado pessoalmente a bem-aventurança por ter «acreditado que teriam cumprimento as coisas que foram ditas da parte do Senhor» (Lc 1, 45), a Virgem acompanha os fiéis — e a Igreja inteira — a fim de que, entre as alegrias e as tribulações da vida presente, sejam no mundo os verdadeiros profetas da esperança que não desilude.

© Copyright 1997 - Libreria Editrice Vaticana — www.vatican.va —

João Paulo II - Karol Józef Wojtyła
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.5.13 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


O papa João Paulo II, no dia 29 de outubro de 1997, dedicou uma Audiência Geral ao tema «Devoção mariana e culto das imagens» para comentar o número 67 do oitavo capítulo da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) do II Concílio do Vaticano. 
Os cristãos são convidados a serem «promotores» do culto mariano, tendo por base a oração do «Rosário» (terço) e do «Angelus». Além disso, também se reafirma as decisões sobre o culto das imagens definidas no II Concílio de Niceia, que se realizou no ano de 787. Nesta reflexão, João Paulo II destaca essas mesmas decisões, citando-as e valorizando não só a validade como também a utilidade do culto das imagens de Jesus Cristo, de Maria e dos Santos. Em particular, o Papa refere que as imagens de Maria ajudam os cristãos a «estabelecer relações mais vivas com ela».
Depois, dirigindo-se aos pregadores e aos teólogos, convida-os a terem uma dupla atitude: evitar tanto o exagero como a demasiada estreiteza, tendo sempre presente que o culto mariano tem como objetivo orientar os fiéis para Jesus Cristo. 
A terminar, os cristãos recebem «alguns critérios para viverem de maneira autêntica a sua relação filial com Maria».

Caríssimos Irmãos e Irmãs
1. Depois de ter justificado doutrinalmente o culto da Bem-aventurada Virgem, o Concílio Vaticano II exorta todos os fiéis a tornarem-se os seus promotores: «Muito de caso pensado ensina o sagrado Concílio esta doutrina católica, e ao mesmo tempo recomenda a todos os filhos da Igreja que fomentem generosamente o culto da Santíssima Virgem, sobretudo o culto litúrgico, que tenham em grande estima as práticas e exercícios de piedade para com Ela, aprovado no decorrer dos séculos pelo magistério» (LG, 67).
Com esta última afirmação os Padres conciliares, sem chegar a determinações particulares, queriam reafirmar a validade de algumas orações como o Rosário e o Angelus, caras à tradição do povo cristão e frequentemente encorajadas pelos Sumos Pontífices, como meios eficazes para alimentar a vida de fé e a devoção à Virgem.
2. O texto conciliar prossegue pedindo aos crentes que «mantenham fielmente tudo aquilo que no passado foi decretado acerca do culto das imagens de Cristo, da Virgem e dos Santos» (LG, 67).
Repropõe assim as decisões do II Concílio de Niceia, que se realizou no ano 787 e confirmou a legitimidade do culto das imagens sagradas, contra quantos queriam destruí-las, considerando-as inadequadas para representar a divindade (cf. Redemptoris Mater, 33).
«Nós definimos — declararam os Padres daquela assembleia conciliar — com todo o rigor e cuidado que, à semelhança da representação da cruz preciosa e vivificante, assim as venerandas e sagradas imagens pintadas quer em mosaico quer em qualquer outro material adaptado, devem ser expostas nas santas igrejas de Deus, nas alfaias sagradas, nos paramentos sagrados, nas paredes e mesas, nas casas e ruas; sejam elas a imagem do Senhor Deus e Salvador nosso Jesus Cristo, ou a da imaculada Senhora nossa, a Santa Mãe de Deus, dos santos anjos, de todos os santos e justos» (DS, 600).
Evocando essa definição, a Lumen Gentium quis reafirmar a legitimidade e a validade das imagens sagradas em relação a algumas tendências que têm em vista eliminá-las das igrejas e dos santuários, a fim de concentrar toda a atenção em Cristo.
3. O II Concílio de Niceia não se limita a afirmar a legitimidade das imagens, mas procura ilustrar a sua utilidade para a piedade cristã: «Com efeito, quanto mais frequentemente estas imagens forem contempladas, tanto mais os que as virem serão levados à recordação e ao desejo dos modelos originários e a tributar- lhes, beijando-as, respeito e veneração » (DS, 601).
Trata-se de indicações que valem de modo particular para o culto da Virgem. As imagens, os ícones e as estátuas de Nossa Senhora, presentes nas casas, nos lugares públicos e em inúmeras igrejas e capelas, ajudam os fiéis a invocar a sua presença constante e o seu misericordioso patrocínio nas diferentes circunstâncias da vida. Ao tornarem concreta e quase visível a ternura materna da Virgem, elas convidam a dirigir- se a Ela, a suplicar-lhe com confiança e a imitá-la, acolhendo com generosidade a vontade divina.
Nenhuma das imagens conhecidas reproduz o rosto autêntico de Maria, como já reconhecia Santo Agostinho (De Trinitate 8, 7); contudo, ajudam-nos a estabelecer relações mais vivas com Ela. Deve ser encorajado, portanto, o uso de expor as imagens de Maria nos lugares de culto e noutros edifícios, para sentir a sua ajuda nas dificuldades e o apelo a uma vida cada vez mais santa e fiel a Deus.
4. Para promover o correcto uso das sagradas efígies, o Concílio de Niceia recorda que «a honra tributada à imagem, na realidade, pertence àquele que nela é representado; e quem venera a imagem, venera a realidade daquele que nela é reproduzido» (DS, 601).
Assim, adorando na imagem de Cristo a Pessoa do Verbo Encarnado, os fiéis realizam um genuíno acto de culto, que nada tem em comum com a idolatria.
De maneira análoga, ao venerar as representações de Maria, o crente realiza um acto destinado em definitivo a honrar a pessoa da Mãe de Jesus.
5. O Vaticano II exorta, porém, os teólogos e os pregadores a evitarem tanto exageros como atitudes de demasiada estreiteza na consideração da dignidade singular da Mãe de Deus. E acrescenta: «Estudando, sob a orientação do magistério, a Sagrada Escritura, os santos Padres e Doutores, e as liturgias da Igreja, expliquem como convém as funções e os privilégios da Santíssima Virgem, os quais dizem todos respeito a Cristo, origem de toda a verdade, santidade e piedade» (LG, 67).
A autêntica doutrina mariana é assegurada pela fidelidade à Escritura e à Tradição, assim como aos textos litúrgicos e ao Magistério. A sua característica imprescindível é a referência a Cristo: tudo, de facto, em Maria deriva de Cristo e para Ele está orientado.
6. O Concílio oferece, por fim, aos crentes alguns critérios para viverem de maneira autêntica a sua relação filial com Maria: «E os fiéis lembrem-se de que a verdadeira devoção não consiste numa emoção estéril e passageira, mas nasce da fé, que nos faz reconhecer a grandeza da Mãe de Deus e nos incita a amar filialmente a nossa mãe e a imitar as suas virtudes» (LG, 67).
Com estas palavras os Padres conciliares advertem contra a «vã credulidade» e o predomínio do sentimento. Eles têm em vista sobretudo reafirmar que a devoção mariana autêntica, procedendo da fé e do amoroso reconhecimento da dignidade de Maria, impele ao afecto filial para com ela e suscita o firme propósito de imitar as suas virtudes.

© Copyright 1997 - Libreria Editrice Vaticana — www.vatican.va —

João Paulo II - Karol Józef Wojtyła
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.5.13 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


O papa João Paulo II, no dia 22 de outubro de 1997, dedicou uma Audiência Geral ao tema «Natureza do culto mariano» para comentar o número 66 do oitavo capítulo da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) do II Concílio do Vaticano. 
O culto a Maria não se pode equiparar à «adoração» divina, começa por explicar o Papa, para explicar a natureza do culto dedicado a Maria: «Há uma distância infinita entre o culto mariano e o que é dirigido à Trindade». Apesar disso, entre ambos existe uma continuidade: o culto a Maria conduz o cristão até à adoração da Trindade. Em vários parágrafos, João Paulo II explicita esta continuidade em relação à adoração do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A terminar, faz uma breve referência à distinção que existe entre o culto mariano e a veneração dos santos.

Queridos Irmãos e Irmãs,
1. O Concílio Vaticano II afirma que o culto da Bem-aventurada Virgem, «tal como sempre existiu na Igreja, embora inteiramente singular, difere essencialmente do culto de adoração, que se presta por igual ao Verbo encarnado, ao Pai e ao Espírito Santo, e favorece-o poderosamente» (LG, 66).
Com estas palavras, a Constituição Lumen gentium reafirma as características do culto mariano. A veneração dos fiéis para com Maria, embora superior ao culto dirigido aos outros Santos, é entretanto inferior ao culto de adoração reservado a Deus, do qual difere essencialmente. Com o termo «adoração» é indicada a forma de culto que o homem presta a Deus, reconhecendo-O Criador e Senhor do universo. Iluminado pela revelação divina, o cristão adora o Pai «em espírito e verdade» (Jo 4, 23). Com o Pai, adora Cristo, Verbo encarnado, exclamando com o apóstolo Tomé: «Meu Senhor e meu Deus!» (Jo 20, 28). No mesmo acto de adoração inclui, por fim, o Espírito Santo, que «com o Pai e o Filho é adorado e glorificado» (DS, 150), como recorda o Símbolo Niceno-Constantinopolitano.
Os fiéis, quando invocam Maria como «Mãe de Deus» e contemplam nela a mais alta dignidade conferida a uma criatura, não lhe atribuem, porém, um culto igual ao das Pessoas divinas. Há uma distância infinita entre o culto mariano e o que é dirigido à Trindade e ao Verbo encarnado.
Daí resulta que a mesma linguagem com a qual a comunidade cristã se dirige à Virgem, embora por vezes evocando os termos do culto a Deus, assume significado e valor inteiramente diversos. Assim, o amor que os crentes nutrem por Maria difere daquele que se deve a Deus: enquanto o Senhor deve ser amado sobre todas as coisas com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente (cf. Mt 22, 37), o sentimento que une os cristãos à Virgem repropõe no plano espiritual o afecto dos filhos para com a mãe.
2. Entre o culto mariano e o prestado a Deus há, porém, uma continuidade: com efeito, a honra devida a Maria está ordenada e conduz à adoração da Santíssima Trindade.
O Concílio recorda que a veneração dos cristãos à Virgem, «favorece poderosamente » o culto prestado ao Verbo encarnado, ao Pai e ao Espírito Santo. Acrescenta depois, em perspectiva cristológica, que «as várias formas de piedade para com a Mãe de Deus, aprovadas pela Igreja, dentro dos limites de sã e recta doutrina, segundo os diversos tempos e lugares e de acordo com a índole e o modo de ser dos fiéis, têm a virtude de fazer com que, honrando a mãe, melhor se conheça, ame e glorifique o Filho, por quem tudo existe (cf. Cl 1, 15-16) e no qual “aprouve a Deus que residisse toda a plenitude” (Cl 1, 19), e também melhor se cumpram os seus mandamentos» (LG, 66).
Desde os primórdios da Igreja o culto mariano é destinado a promover a adesão fiel a Cristo. Venerar a Mãe de Deus significa afirmar a divindade de Cristo. Com efeito, os Padres do Concílio de Éfeso, ao proclamarem Maria Theotokos, «Mãe de Deus», quiseram confirmar a fé em Cristo, verdadeiro Deus.
A mesma conclusão do relato do primeiro milagre de Jesus, obtido em Caná por intercessão de Maria, evidencia como a sua acção tem por fim a glorificação do Filho. De facto, o Evangelista diz: «Foi este o primeiro milagre de Jesus. Realizou-o em Caná da Galileia. Manifestou a Sua glória e os Seus discípulos acreditaram n’Ele» (Jo 2, 11).
3. O culto mariano favorece além disso, em quem o pratica segundo o espírito da Igreja, a adoração do Pai e do Espírito Santo. Com efeito, ao reconhecer o valor da maternidade de Maria, os crentes descobrem nela uma manifestação especial da ternura de Deus Pai.
O mistério da Virgem Mãe põe em evidência a acção do Espírito Santo, que operou no seu seio a concepção do Filho e continuamente guiou a sua vida.
Os títulos de Consoladora, Advogada, Auxiliadora, atribuídos a Maria pela piedade do povo cristão, não ofuscam, mas exaltam a acção do Espírito Consolador e dispõem os crentes a beneficiar dos seus dons.
4. O Concílio recorda, por fim, que o culto mariano é «inteiramente singular» e sublinha a sua diferença a respeito da adoração de Deus e da veneração dos Santos.
Ele possui uma peculiaridade irrepetível porque se refere a uma pessoa singular, devido à sua perfeição pessoal e à sua missão.
Inteiramente excepcionais, com efeito, são os dons conferidos a Maria pelo amor divino, como a santidade imaculada, a maternidade divina, a associação à obra redentora e sobretudo ao sacrifício da Cruz.
O culto mariano exprime o louvor e o reconhecimento da Igreja por esses dons extraordinários. A Ela, que se tornou Mãe da Igreja e Mãe da humanidade, recorre o povo cristão, animado de confidência filial, para solicitar a sua intercessão materna e obter os bens necessários à vida terrena, em vista da bem-aventurança eterna.

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João Paulo II - Karol Józef Wojtyła
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.5.13 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


O papa João Paulo II, no dia 15 de outubro de 1997, dedicou uma Audiência Geral ao tema «O culto da Bem-aventurada Virgem» para comentar a quarta parte do oitavo capítulo da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) do II Concílio do Vaticano. 
O Papa inicia a sua reflexão dizendo que o culto a Maria está relacionado com o mistério da Encarnação: «a admirável decisão divina de ligar para sempre a identidade humana do Filho de Deus a uma mulher». Interligada com o culto da maternidade divina está o culto da maternidade universal de Maria. 
Em seguida, recorda o testemunho dos textos evangélicos sobre a «presença do culto mariano desde os primórdios da Igreja», nomeadamente nos dois primeiros capítulos do evangelho segundo Lucas. 
O testemunho dos evangelhos prolonga-se na iconografia e nos textos dos Padres da Igreja do segundo e terceiro séculos cristãos. Desde sempre, os cristãos manifestam uma «inseparabilidade entre o culto mariano e o culto atribuído a Jesus», que perdura até aos nossos dias. 
O Papa recorre ao número 66 da «Lumen Gentium» para mostrar que o culto mariano teve um forte incremento com a declaração do Concílio de Éfeso, em 431: Maria é Mãe de Deus («Theotokos»). 
Por tudo isto, «podemos bem dizer que o culto mariano se desenvolveu até aos nossos dias em admirável continuidade, alternando-se períodos florescentes e períodos críticos que, contudo, tiveram muitas vezes o mérito de promover ainda mais a sua renovação».

Caríssimos Irmãos e Irmãs:
1. «Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher...» (Gálatas 4, 4). O culto mariano funda-se sobre a admirável decisão divina de ligar para sempre, como recorda o apóstolo Paulo, a identidade humana do Filho de Deus a uma mulher, Maria de Nazaré.
O mistério da maternidade divina e da cooperação de Maria na obra redentora suscita nos crentes de todos os tempos uma atitude de louvor, quer para com o Salvador quer Àquela que O gerou no tempo, cooperando assim na redenção.
Um ulterior motivo de reconhecido amor pela Bem-aventurada Virgem é oferecido pela sua maternidade universal. Ao escolhê-la como Mãe da humanidade inteira, o Pai celeste quis revelar a dimensão, por assim dizer materna, da Sua ternura divina e da Sua solicitude pelos homens de todas as épocas.
No Calvário, Jesus com as palavras: «Eis aí o teu filho», «Eis aí a tua mãe» (João 19, 26-27), dava Maria já antecipadamente a todos aqueles que haveriam de receber a boa nova da salvação e estabelecia assim as premissas do Seu afecto filial por Ela. Seguindo João, os cristãos prolongariam, com o culto, o amor de Cristo pela Sua mãe, acolhendo-a na própria vida.
2. Os textos evangélicos dão testemunho da presença do culto mariano desde os primórdios da Igreja. Os dois primeiros capítulos do Evangelho de São Lucas parecem recolher a atenção particular dos judeus cristãos para com a Mãe de Jesus, os quais manifestavam o seu apreço por Ela e conservavam ciosamente as suas memórias.
Nas narrações da infância, além disso, podemos captar as expressões iniciais e as motivações do culto mariano, sintetizadas nas exclamações de Isabel: «Bendita és tu entre as mulheres... Feliz daquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor!» (Lucas 1, 42.45).
Traços de uma veneração já difundida na primeira comunidade cristã estão presentes no cântico do Magnificat: «Todas as gerações me hão-de chamar ditosa » (Lucas 1, 48). Ao colocar nos lábios de Maria essa expressão, os cristãos reconheciam- lhe uma grandeza singular, que haveria de ser proclamada até ao fim do mundo.
Além disso, os testemunhos evangélicos (cf. Lucas 1, 34-35; Mateus 1, 23 e João 1, 13), as primeiras fórmulas de fé e uma passagem de Santo Inácio de Antioquia (cf. Smirn. 1, 2: SC 10, 155), confirmam a particular admiração das primeiras comunidades pela virgindade de Maria, intimamente ligada ao mistério da Encarnação.
O Evangelho de João, indicando a presença de Maria no início e no fim da vida pública do Filho, deixa supor entre os primeiros cristãos uma consciência viva do papel exercido por Maria na obra da Redenção, em plena dependência de amor por Cristo.
3. O Concílio Vaticano II, ao ressaltar o carácter particular do culto mariano, afirma: «Exaltada por graça do Senhor e colocada, logo a seguir a seu Filho, acima de todos os anjos e homens, Maria que, como mãe santíssima de Deus, tomou parte nos mistérios de Cristo, é com razão venerada pela Igreja com culto especial» (LG, 66).
Ao aludir, depois, à oração mariana do terceiro século «Sub tuum praesidium » — «Sob a tua protecção» —, acrescenta que essa peculiaridade emerge desde o início: «Na verdade, a Santíssima Virgem é, desde os tempos mais antigos, honrada com o título de Mãe de Deus, e sob a sua protecção se acolhem os fiéis, em todos os perigos e necessidades » (ibid.).
4. Esta afirmação encontra confirmação na iconografia e na doutrina dos Padres da Igreja, desde o segundo século. Em Roma, nas catacumbas de Priscila, é possível admirar a primeira representação de Nossa Senhora com o Menino, enquanto no mesmo tempo São Justino e Santo Ireneu falam de Maria como da nova Eva que, com a fé e a obediência, repara a incredulidade e a desobediência da primeira mulher. Segundo o Bispo de Lião, não era suficiente que Adão fosse resgatado em Cristo, mas «era justo e necessário que Eva fosse restaurada em Maria» (Dem., 33). Ele sublinha desse modo a importância da mulher na obra de salvação e põe como fundamento aquela inseparabilidade entre o culto mariano e o culto atribuído a Jesus, que percorrerá os séculos cristãos.
5. O culto mariano expressou-se inicialmente na invocação de Maria como «Theotokos», título que teve confirmação autorizada, depois da crise nestoriana, pelo Concílio de Éfeso que se realizou no ano 431.
A mesma reacção popular à posição ambígua e oscilante de Nestório, que chegou a negar a maternidade divina de Maria, e o sucessivo acolhimento jubiloso das decisões do Sínodo Efésio confirmam a radicação do culto da Virgem entre os cristãos. Todavia, «foi sobretudo a partir do Concílio de Éfeso que o culto do Povo de Deus para com Maria cresceu admiravelmente, na veneração e no amor, na invocação e na imitação...» (LG, 66). Ele expressou-se de modo especial nas festas litúrgicas, entre as quais, desde o início do século V, assumiu particular relevo «o dia de Maria Theotokos», celebrado a 15 de Agosto em Jerusalém e que se tornou sucessivamente a festa da «Dormitio» ou da Assunção.
Sob a influência do «Protoevangelho de Tiago» foram, além disso, instituídas as festas da Natividade, da Conceição e da Apresentação, que contribuíram de maneira notável para evidenciar alguns importantes aspectos do mistério de Maria.
6. Podemos bem dizer que o culto mariano se desenvolveu até aos nossos dias em admirável continuidade, alternando-se períodos florescentes e períodos críticos que, contudo, tiveram muitas vezes o mérito de promover ainda mais a sua renovação. Após o Concílio Vaticano II, o culto mariano parece destinado a desenvolver-se em harmonia com o aprofundamento do mistério da Igreja e em diálogo com as culturas contemporâneas, para se arraigar sempre mais na fé e na vida do povo de Deus peregrino sobre a terra.
© Copyright 1997 - Libreria Editrice Vaticana — www.vatican.va —

João Paulo II - Karol Józef Wojtyła
Postado por Anónimo | 24.5.13 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


O papa João Paulo II, no dia três de setembro de 1997, dedicou uma Audiência Geral ao tema «Maria, modelo da santidade da Igreja» para comentar o número 65, que pertence ao oitavo capítulo da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) do II Concílio do Vaticano. Nas audiências anteriores, o Papa abordou a virgindade e a maternidade de Maria como modelo da Igreja. Agora, reflete sobre a santidade, tendo como ponto de partida a relação esponsal entre Cristo e a Igreja e a diferença que existe entre os membros da Igreja e Maria. Esta é para todos um «modelo de virtudes». Neste sentido, Maria «representa para a comunidade dos crentes o paradigma da autêntica santidade que se realiza na união com Cristo». Em terceiro lugar, parte das virtudes teologais — fé, esperança, caridade — para insistir na relação de precedência e de modelo que Maria tem para com a Igreja, da qual também ela faz parte. A reflexão termina com uma referência ao exemplo de Maria na missão apostólica da Igreja: «Maria continua a sustentar a comunidade cristã e todos os crentes no generoso empenho pelo anúncio do Evangelho».

Caríssimos Irmãos e Irmãs:
1. Na Carta aos Efésios, São Paulo ilustra a relação esponsal entre Cristo e a Igreja, com as seguintes palavras: «Cristo amou a Igreja, e por ela Se entregou, para a santificar, purificando-a no baptismo da água pela palavra da vida, para a apresentar a Si mesmo como Igreja gloriosa sem mancha nem ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e imaculada» (Efésios 5, 25-27).
O II Concílio do Vaticano retoma as afirmações do Apóstolo e recorda que, «na Santíssima Virgem, a Igreja alcançou já a perfeição», enquanto «os fiéis ainda têm de trabalhar por vencer o pecado e crescer na santidade» (LG, 65).
É assim ressaltada a diferença que existe entre os fiéis e Maria, pertencendo embora ambos à santa Igreja, que se tornou por Cristo «sem mancha nem ruga». Com efeito, enquanto os fiéis recebem a santidade por meio do batismo, Maria foi preservada de toda a mancha de pecado original e antecipadamente remida por Cristo. Os fiéis, além disso, embora libertados «da lei do pecado» (cf. Romanos 8, 2), ainda podem ceder à tentação e a fragilidade humana continua a manifestar-se na vida deles. «Todos nós pecamos em muitas coisas», afirma a Carta de Tiago (3, 2). Por este motivo o Concílio de Trento ensina: «Ninguém pode evitar, na sua vida inteira, todo o pecado mesmo venial» (DS 1573). A esta regra, contudo, faz excepção por privilégio divino a Virgem Imaculada, como o mesmo Concílio de Trento recorda (ibid.).
2. Não obstante os pecados dos seus membros, a Igreja é antes de tudo a comunidade daqueles que são chamados à santidade e se empenham cada dia por alcançá-la.
Neste árduo caminho rumo à perfeição, eles sentem-se encorajados por Aquela que é «modelo de virtudes». O Concílio observa que «a Igreja, meditando piedosamente na Virgem, e contemplando- a à luz do Verbo feito homem, penetra mais profundamente, cheia de respeito, no insondável mistério da Encarnação, e mais e mais se conforma com o seu Esposo» (LG, 65).
A Igreja, portanto, olha para Maria. Não só contempla o dom maravilhoso da sua plenitude de graça, mas esforça-se por imitar a perfeição que n’Ela é fruto da plena adesão ao preceito de Cristo: «Sede, pois, perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste» (Mateus 5, 48). Maria é a inteiramente santa. Ela representa para a comunidade dos crentes o paradigma da autêntica santidade que se realiza na união com Cristo. A vida terrena da Mãe de Deus é, com efeito, caracterizada pela perfeita sintonia com a pessoa do Filho e pela dedicação total à obra redentora por Ele realizada.
Dirigindo o olhar para a intimidade materna que se desenvolveu no silêncio da vida de Nazaré e se aperfeiçoou na hora do sacrifício, a Igreja empenha-se em imitá-la no seu caminho quotidiano. Desse modo, conforma-se cada vez mais com o seu Esposo. Unida como Maria à cruz do Redentor, a Igreja, através das dificuldades, contradições e perseguições que renovam na sua vida o mistério da Paixão do seu Senhor, põe-se na constante busca da plena configuração com Ele.
3. A Igreja vive de fé, reconhecendo «naquela que acreditou que teriam cumprimento as coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor» (Lucas 1, 45), a primeira e perfeita expressão da sua fé. Neste itinerário de abandono confiante rumo ao Senhor, a Virgem precede os discípulos, aderindo à Palavra divina num contínuo crescendo, que investe todas as etapas da sua vida e se propaga na própria missão da Igreja.
O seu exemplo encoraja o Povo de Deus a praticar a sua fé e a aprofundar e desenvolver o seu conteúdo, conservando e meditando no coração os acontecimentos da salvação.
Maria torna-se para a Igreja também modelo de esperança. Ao escutar a mensagem do anjo, a Virgem é a primeira a orientar a sua esperança para o Reino sem fim, que Jesus tinha sido enviado para estabelecer.
Ela permanece firme junto da cruz do Filho, à espera da realização da promessa divina. Depois do Pentecostes a Mãe de Jesus sustém a esperança da Igreja, ameaçada pelas perseguições. Ela é, pois, para a Comunidade dos crentes e para cada um dos cristãos a Mãe da esperança, que encoraja e guia os seus filhos na expectativa do Reino, sustentando-os nas provas quotidianas e no meio das vicissitudes, mesmo trágicas, da história.
Em Maria, por fim, a Igreja reconhece o modelo da sua caridade. Observando a situação da primeira comunidade cristã, descobrimos que a unanimidade dos corações, manifestada à espera do Pentecostes, está associada à presença da Virgem Santa (cf. Atos dos Apóstolos 1, 14). E graças precisamente à caridade irradiante de Maria é possível conservar em todos os tempos no interior da Igreja a concórdia e o amor fraterno.
4. O Concílio põe em evidência expressamente o papel de exemplaridade, desempenhado por Maria em relação à Igreja na sua missão apostólica, com as seguintes anotações: «Na sua acção apostólica, a Igreja olha com razão para aquela que gerou a Cristo, o qual foi concebido por acção do Espírito Santo e nasceu da Virgem precisamente para nascer e crescer também no coração dos fiéis, por meio da Igreja. E, na sua vida, deu a Virgem exemplo daquele afecto maternal de que devem estar animados todos quantos cooperam na missão apostólica que a Igreja tem de regenerar os homens» (LG, 65).
Depois de ter cooperado na obra de salvação com a maternidade, com a associação ao sacrifício de Cristo e com a ajuda materna à Igreja nascente, Maria continua a sustentar a comunidade cristã e todos os crentes no generoso empenho pelo anúncio do Evangelho.

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João Paulo II - Karol Józef Wojtyła
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.5.13 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


O papa João Paulo II, no dia 20 de agosto de 1997, dedicou uma Audiência Geral ao tema «Maria, modelo da virgindade da Igreja» para comentar o número 64, que pertence ao oitavo capítulo da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) do II Concílio do Vaticano. João Paulo II começa por afirmar: «A Igreja é Mãe e Virgem». Na sequência da reflexão anterior, o Papa dedica-se agora ao tema da virgindade de Maria como modelo da «virgindade» da Igreja. Esta característica — «virgem» — aplica-se à Igreja em sentido espiritual, uma vez que não corresponde e nem pretende corresponder ao estado de vida de todos os membros da Igreja. Relembrando que o primeiro modelo de castidade é sempre Jesus Cristo, o Papa destaca também o exemplo de Maria para todos os crentes, em qualquer estado de vida. A terminar, evoca o texto conciliar para exortar os fiéis «a olharem para Maria, a fim de a imitarem na fé 'virginalmente íntegra', na esperança e na caridade».

Caríssimos Irmãos e Irmãs:
1. A Igreja é Mãe e Virgem. O Concílio, depois de ter afirmado que ela é mãe segundo o modelo de Maria, atribui-lhe o título de virgem, explicando o seu significado: «E também ela é virgem, pois guarda fidelidade total e pura ao seu Esposo e conserva virginalmente, à imitação da Mãe do seu Senhor e por virtude do Espírito Santo, uma fé íntegra, uma sólida esperança e uma verdadeira caridade» (LG, 64).
Maria é, pois, modelo também da virgindade da Igreja. A propósito disso, é preciso esclarecer que a virgindade não pertence à Igreja em sentido estrito, pois não representa o estado de vida da grande maioria dos fiéis. Com efeito, em virtude do providencial desígnio divino, a via do matrimónio é a condição mais difundida, e poderíamos dizer, comum de quantos são chamados à fé. O dom da virgindade é reservado a um número limitado de fiéis, chamados a uma particular missão no seio da Comunidade eclesial.
Contudo, referindo a doutrina de Santo Agostinho, o Concílio afirma que a Igreja é virgem em sentido espiritual de integridade na fé, na esperança e na caridade. Portanto, a Igreja não é virgem no corpo de todos os seus membros, mas possui a virgindade do espírito («virginitas mentis») isto é, «a fé íntegra, a esperança sólida, a caridade sincera» (In Io. Tr. 13, 12, PL 35, 1499).
2. A Constituição Lumen Gentium desvela-se, portanto, em recordar que a virgindade de Maria, modelo da virgindade da Igreja, comporta também a dimensão física, pois Ela concebeu virginalmente Jesus por obra do Espírito Santo, sem intervenção de homem.
Maria é Virgem no corpo e Virgem no coração, como aparece da intenção de viver em profunda intimidade com o Senhor, decisivamente manifestada no momento da Anunciação. Portanto, Aquela que é invocada como «Virgem entre as virgens» constitui para todos, sem dúvida, um altíssimo exemplo de pureza e de dom total ao Senhor. Mas de modo especial inspiram-se n’Ela as virgens cristãs e quantos se dedicam, de maneira radical e exclusiva, ao Senhor nas várias formas de vida consagrada.
Assim, depois de ter desempenhado um papel importante na obra da salvação, a virgindade de Maria continua a influir beneficamente sobre a vida da Igreja.
3. Não esqueçamos que o primeiro e excelso modelo de toda a vida casta é certamente Cristo. Maria, contudo, constitui o especial modelo da castidade vivida por amor do Senhor Jesus.
Ela encoraja todos os cristãos a viverem com particular empenho a castidade segundo o próprio estado, e a confiarem no Senhor nas diversificadas circunstâncias da existência. Aquela que é por excelência Santuário do Espírito Santo, ajuda os crentes a redescobrirem o próprio corpo como templo de Deus (cf. 1 Cor 6, 19) e a respeitarem a sua nobreza e santidade.
Para a Virgem olham os jovens em busca de um amor autêntico, e invocam a sua ajuda materna para perseverar na pureza.
Maria recorda aos cônjuges os valores fundamentais do matrimónio, ajudando-os a superar a tentação do desânimo e a dominar as paixões que tentam subjugar-lhes o coração. A sua total dedicação a Deus constitui para eles um forte estímulo a viverem na fidelidade recíproca, a fim de nunca cederem às dificuldades que insidiam a comunhão conjugal.
4. O Concílio exorta os fiéis a olharem para Maria, a fim de a imitarem na fé «virginalmente íntegra», na esperança e na caridade.
Conservar a integridade da fé representa uma tarefa empenhativa para a Igreja, chamada a uma vigilância constante, mesmo à custa de sacrifícios e de lutas. Com efeito, a fé da Igreja é ameaçada, não só por aqueles que rejeitam a mensagem do Evangelho, mas sobretudo por quantos, acolhendo somente uma parte da verdade revelada, recusam compartilhar de modo pleno o inteiro património de fé da Esposa de Cristo.
Essa tentação, que encontramos desde as origens da Igreja, continua infelizmente a estar presente na sua vida, impelindo-a a aceitar só em parte a Revelação ou a dar à Palavra de Deus uma interpretação restrita e pessoal, conforme à mentalidade dominante e aos desejos individuais. Tendo aderido plenamente à Palavra do Senhor, Maria constitui para a Igreja um insuperável modelo de fé «virginalmente íntegra», que acolhe com docilidade e perseverança a totalidade da Verdade revelada. E com a sua constante intercessão, obtém para a Igreja a luz da esperança e a chama da caridade, de cujas virtudes foi para todos exemplo incomparável na sua vida terrena.

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João Paulo II - Karol Józef Wojtyła
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.5.13 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


O papa João Paulo II, no dia 13 de agosto de 1997, dedicou uma Audiência Geral ao tema «Maria e a maternidade da Igreja» para comentar o número 63, que pertence ao oitavo capítulo da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) do II Concílio do Vaticano. O Papa comenta os adjetivos «eminente» e «única» atribuídos pelo Concílio à maternidade de Maria; e destaca a fé e a obediência de Maria, atitudes presentes no momento da Anunciação. Depois, refere-se à Igreja, para quem Maria tem de ser vista como um «modelo». Também aponta a relação dos cristãos com Maria como uma prova da sua influência na vida da Igreja: orações, devoções, peregrinações. «Ambas as mães, a Igreja e Maria, são essenciais para a vida cristã — conclui o Papa — ambas fazem reconhecer o mesmo amor divino que deseja comunicar-se aos seres humanos».

Caríssimos Irmãos e Irmãs:
1. É precisamente na maternidade divina que o Concílio divisa o fundamento da particular relação que associa Maria à Igreja. Lemos na Constituição dogmática Lumen gentium que «pelo dom e missão da maternidade divina, que a une a seu Filho Redentor, e pelas suas singulares graças e funções, está também a Virgem intimamente ligada à Igreja» (n.º 63). A este mesmo pressuposto faz sempre referência a citada Constituição dogmática sobre a Igreja, para esclarecer as prerrogativas de «tipo» e «modelo», que a Virgem exerce em relação ao Corpo Místico de Cristo: «Com efeito, no mistério da Igreja, a qual é também com razão chamada mãe e virgem, a bem-aventurada Virgem Maria foi adiante, como modelo eminente e único de virgem e mãe» (ibid.).
A maternidade de Maria é definida «eminente e única», pois constitui um facto singular e irrepetível: Maria, com efeito, antes de exercer a sua função materna para com os homens, é a Mãe do Filho unigénito de Deus feito homem. A Igreja, ao contrário, é mãe enquanto gera espiritualmente Cristo nos fiéis, e portanto exerce a sua maternidade em relação aos membros do Corpo Místico.
Assim, a Virgem constitui para a Igreja um modelo superior, precisamente devido à unicidade da sua prerrogativa de Mãe de Deus.
2. A Lumen gentium, ao aprofundar a maternidade de Maria, recorda que esta se realizou também com disposições eminentes da alma: «Porque, acreditando e obedecendo, gerou na terra, sem ter conhecido varão, por obra e graça do Espírito Santo, o Filho do eterno Pai; nova Eva, que acreditou sem a mais leve sombra de dúvida, não na serpente antiga, mas no mensageiro celeste » (LG, 63).
Destas palavras emerge com clareza que a fé e a obediência de Maria na Anunciação constituem para a Igreja virtudes a imitar e, num certo sentido, dão início ao seu itinerário materno no serviço aos homens chamados à salvação.
A maternidade divina não pode estar isolada da dimensão universal, que lhe foi atribuída pelo plano salvífico de Deus, o qual o Concílio não hesita em reconhecer: «Ela deu à luz um Filho, que Deus estabeleceu primogénito de muitos irmãos (cf. Rm 8, 29), isto é, dos fiéis, para cuja geração e educação Ela coopera com amor de mãe» (LG, 63).
3. A Igreja torna-se mãe, tomando como modelo Maria. A respeito disso, o Concílio afirma: «A Igreja que contempla a sua santidade misteriosa e imita a sua caridade, cumprindo fielmente a vontade do Pai, torna-se também ela própria mãe, pela fiel recepção da palavra de Deus: efectivamente, pela pregação e pelo Baptismo gera, para vida nova e imortal, os filhos concebidos por acção do Espírito Santo e nascidos de Deus» (LG, 64).
Analisando esta descrição da obra materna da Igreja, podemos observar aqui como, dum certo modo, o nascimento do cristão está ligado ao nascimento de Jesus, e é como que um seu reflexo: os cristãos são «concebidos por obra do Espírito Santo» e a geração deles, fruto da pregação e do Baptismo, assemelha-se assim à do Salvador.
Além disso a Igreja, ao contemplar Maria, imita-lhe a caridade, o fiel acolhimento da Palavra de Deus e a docilidade no cumprimento da vontade do Pai. Realiza, seguindo o exemplo da Virgem, uma fecunda maternidade espiritual.
4. A maternidade da Igreja, porém, não torna supérflua a de Maria que, continuando a exercer a sua influência sobre a vida dos cristãos, contribui para atribuir à Igreja uma feição materna. À luz de Maria, a maternidade da Comunidade eclesial, que poderia parecer bastante geral, é chamada a manifestar-se de modo mais concreto e pessoal em relação a cada homem remido por Cristo.
Ao mostrar-se como Mãe de todos os crentes, Maria suscita neles relações de autêntica fraternidade espiritual e de diálogo incessante.
A experiência quotidiana de fé, em cada época e em todos os lugares, põe em evidência o facto de muitos precisarem de confiar a Maria as necessidades da vida quotidiana, abrindo confiantes o seu coração para pedirem a sua intercessão materna e obterem a sua alentadora protecção.
As orações dirigidas a Maria pelos homens de todos os tempos, as numerosas formas e manifestações do culto mariano, as peregrinações aos Santuários e aos lugares que recordam as maravilhas operadas por Deus Pai, mediante a Mãe de seu Filho, demonstram a extraordinária influência exercida por Maria na vida da Igreja. O amor do Povo de Deus pela Virgem sente a exigência de entretecer relações pessoais com a Mãe celeste. Ao mesmo tempo, a maternidade espiritual de Maria sustém e incrementa o exercício concreto da maternidade da Igreja.
5. Ambas as mães, a Igreja e Maria, são essenciais para a vida cristã. Poder-se-ia dizer que a primeira exerce uma maternidade mais objectiva, e a outra mais interior.
A Igreja torna-se mãe na pregação da Palavra de Deus, na administração dos sacramentos e em particular no Baptismo, na celebração da Eucaristia e no perdão dos pecados.
A maternidade de Maria exprime-se em todos os sectores da difusão da graça, de modo particular no quadro das relações pessoais.
Trata-se de duas maternidades inseparáveis: com efeito, ambas fazem reconhecer o mesmo amor divino que deseja comunicar-se aos seres humanos.

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João Paulo II - Karol Józef Wojtyła
Postado por Anónimo | 20.5.13 | Sem comentários

Encontro Mundial das Famílias

No Rio de Janeiro, Brasil: outubro de 1997


No II Encontro Mundial das Famílias (1997, no Rio de Janeiro, Brasil), o papa João Paulo II apresentou a família como «comunidade de amor e de vida, sobre a qual se apoiam todas as demais comunidades e sociedades». Na homilia da eucaristia de encerramento, a partir das leituras bíblicas proclamadas, o Papa falou do ato criador do ser humano — homem e mulher — e da instituição divina do matrimónio. Este é o «fundamento de uma família sadia e responsável». Depois, desafiou todas as famílias a viver a santidade, exortando-as: «Sede portadores de paz e de alegria no seio do lar; a graça eleva e aperfeiçoa o amor, e com ele vos concede as virtudes familiares indispensáveis da humildade, do espírito de serviço e de sacrifício, do afeto paterno e filial, do respeito e da mútua compreensão».

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
1. «O Senhor nos bendiga em toda a nossa vida» (Salmo Responsorial)
Dou graças a Deus por ter permitido encontrar-me novamente convosco, famílias de todo o mundo, para reafirmar solenemente que sois a «esperança da humanidade»!
O primeiro Encontro Mundial com as Famílias teve lugar em Roma, em (mil novecentos e noventa e quatro) 1994. O seguinte se conclui hoje no Rio de Janeiro. [...]
A família é esta particular e, ao mesmo tempo, fundamental comunidade de amor e de vida, sobre a qual se apoiam todas as demais comunidades e sociedades. Por isso, invocando as bênçãos do Altíssimo pelas famílias, rezamos juntos por todas aquelas grandes sociedades, que aqui representamos. Rezamos pelo futuro das nações e dos Estados, como também pelo futuro da Igreja e do mundo.
De facto, através da família, toda a existência humana é orientada para o futuro. Nela, o homem vem ao mundo, cresce e amadurece. Nela, ele se torna um cidadão sempre mais maduro do seu país, e um membro da Igreja sempre mais consciente. A família é também o primeiro e fundamental ambiente, onde cada homem distingue e realiza a própria vocação humana e cristã. A família, enfim, é uma comunidade insubstituível por qualquer outra. É o que se entrevê nas leituras da liturgia de hoje.
2. Diante do Messias se apresentam os representantes da ortodoxia judaica, os fariseus, a perguntar se é lícito o marido repudiar a mulher. Cristo, por sua vez, pergunta o que é que Moisés ordenou-lhes; eles respondem que Moisés lhes tinha permitido escrever uma certidão de divórcio, e despedi-la. Mas Cristo lhes diz: «Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento. No entanto, desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!» (Marcos 10, 5-9).
Cristo refere-se ao início. Este início está contido no Livro do Génesis, onde encontramos a descrição da criação do homem. Conforme lemos no primeiro capítulo deste Livro, Deus fez o homem à própria imagem e semelhança, criou o homem e a mulher (cf. Génesis 1, 27), e disse: "Frutificai e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a» (Génesis 1, 28). Conforme a segunda descrição da criação, que a primeira leitura da liturgia de hoje propõe, a mulher foi criada do homem. Assim refere a Escritura: «Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor fez uma mulher, e levou-a para junto do homem. «Eis agora aqui - disse o homem - o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem». Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne» (Génesis 2, 21-24).
3. A linguagem utiliza as categorias antropológicas do ambiente antigo, mas é de uma extraordinária profundidade: exprime, de modo realmente espetacular, as verdades essenciais. Tudo o que foi descoberto posteriormente pela reflexão humana e pelo conhecimento científico, nada mais fez do que explicitar aquilo que, ali na raiz, já se achava.
O Livro do Génesis mostra, antes de mais nada, a dimensão cósmica da criação. O aparecimento do homem dá-se no imenso horizonte da criação de todo o cosmo: não é por acaso que isso tem lugar no último dia da criação do mundo. O homem entra na obra do Criador, no momento em que se acharam predispostas todas as condições para ele poder existir. O homem é uma das criaturas visíveis; ao mesmo tempo, porém, somente dele se afirma na Sagrada Escritura que foi feito «à imagem e semelhança de Deus». Esta união admirável do corpo e do espírito constitui uma inovação decisiva, no processo da criação. Com o ser humano, toda a magnificência da criação visível abre-se à dimensão do espiritual. A inteligência e a vontade, o conhecimento e o amor – tudo isto entra no cosmo visível, no momento mesmo da criação do homem. Entra precisamente manifestando, desde o início, a compenetração da vida corporal com a espiritual. Assim o homem deixa seu pai e sua mãe, e une-se à sua mulher, tornando-se uma só carne; mas esta união conjugal enraiza-se contemporaneamente no conhecimento e no amor, ou seja, na dimensão espiritual.
O Livro do Génesis fala disto tudo com uma linguagem que lhe é própria, que é, ao mesmo tempo, maravilhosamente simples e completa. O homem e a mulher, chamados a viver no processo da criação cósmica, se apresentam no limiar da própria vocação, trazendo em si próprios a capacidade de procriar em colaboração com Deus, que diretamente cria a alma de cada novo ser humano. Através do conhecimento recíproco e do amor, e ao mesmo tempo pela união corporal, chamarão à existência seres semelhantes a eles – e, tal como eles, feitos «à imagem e semelhança de Deus». Darão a vida aos próprios filhos, como eles próprios a receberam de seus pais. Esta é a verdade, ao mesmo tempo, simples e grande sobre a família, como ela surge das páginas do Livro do Génesis e do Evangelho: no plano de Deus, o matrimónio — o matrimónio indissolúvel — é o fundamento de uma família sadia e responsável.
4. Com traços breves mas incisivos, Cristo descreve no Evangelho o desígnio original de Deus criador. Mas este relato fá-lo-á também a Carta aos Hebreus, proclamada na Segunda Leitura: «Deus, origem e fim de todas as coisas, queria conduzir muitos filhos para a sua glória. Convinha, pois, que tornasse perfeito pelo sofrimento Aquele que os devia levar à salvação. Na verdade, Jesus que santifica e os homens que são santificados são todos da mesma descendência» (Hebreus 2,10-11). A criação do homem tem o seu fundamento no eterno Verbo de Deus. Tudo o que Deus chamou a existência, fê-lo pela ação deste Verbo, o eterno Filho, por meio do qual tudo foi criado. Também o homem foi criado através do Verbo, e foi criado como homem e mulher. A aliança conjugal tem sua origem no Verbo eterno de Deus. N'Ele, foi criada a família. N'Ele, a família é eternamente pensada por Deus, imaginada e realizada. Por Cristo, ela adquire seu caráter sacramental, a sua santificação.
O texto da Carta aos Hebreus lembra que a santificação do matrimónio, como a de qualquer outra realidade humana, foi realizada por Cristo com o preço da sua paixão e cruz. Ele se manifesta aqui como o novo Adão. Se é certo que, na ordem da natureza, todos somos originários de Adão, na ordem da graça e da santificação todos procedemos de Cristo. A santificação da família tem a sua fonte no caráter sacramental do matrimónio.
Aquele que santifica – isto é, Cristo – e todos aqueles que devem ser santificados – vós, pais e mães; vós, famílias – vos apresentais juntos diante de Deus-Pai com esta súplica ardente, que Ele abençoe o que realizou em vós mediante o sacramento do matrimónio. E nesta prece estão todos os casais e todas as famílias que vivem sobre a face da terra. Deus, o único Criador do universo é, com efeito, a fonte da vida e da santidade.
5. Pais e famílias do mundo inteiro, deixai que vo-lo diga: Deus chama-vos à santidade! Ele mesmo escolheu-nos «por Jesus Cristo, antes da criação do mundo — diz-nos S. Paulo — para que sejamos santos na sua presença» (Efésios 1, 4). Ele ama-vos loucamente, Ele deseja a vossa felicidade, mas quer que saibais conjugar sempre a fidelidade com a felicidade, pois não pode haver uma sem a outra. Não deixeis que a mentalidade hedonista, a ambição e o egoísmo entrem nos vossos lares. Sede generosos com Deus. Não poderia deixar de recordar, mais uma vez, que a família está ao «serviço da Igreja e da sociedade no seu ser e agir, enquanto comunidade íntima de vida e de amor» (A família no mundo de hoje, 50). A mútua doação abençoada por Deus, perpassada de fé, esperança e caridade, permitirá alcançar a perfeição e a mútua santificação de cada um dos esposos. Servirá, em outras palavras, como núcleo santificador da própria família, e de expansão da obra de evangelização de todo o lar cristão.
Queridos irmãos e irmãs, que grande tarefa tendes por diante! Sede portadores de paz e de alegria no seio do lar; a graça eleva e aperfeiçoa o amor, e com ele vos concede as virtudes familiares indispensáveis da humildade, do espírito de serviço e de sacrifício, do afeto paterno e filial, do respeito e da mútua compreensão. E, como o bem é por si mesmo difusivo, faço votos também de que a vossa adesão à pastoral familiar seja, na medida das vossas possibilidades, um incentivo a irradiar generosamente o dom que está em vós, primeiramente entre os filhos, depois àqueles casais — talvez parentes e amigos — que estão afastados de Deus ou passam por momentos de incompreensão ou de desconfiança. Neste caminho em direção ao Jubileu do ano dois mil, convido todos os que me ouvem a este revigoramento da fé e do testemunho de cristãos, a fim de que, com a graça de Deus, haja uma verdadeira conversão e renovamento pessoal no seio das famílias de todo o mundo (cf.Tertio Millennio adveniente, 42). Que o espírito da Sagrada Família de Nazaré reine em todos os lares cristãos!
Famílias do Brasil, da América Latina e do mundo inteiro, o Papa, a Igreja apoiam-se em vós. Tende confiança: Deus está conosco!

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Papa João Paulo II
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.5.13 | Sem comentários

Encontro Mundial das Famílias: Jubileu das Famílias

Em Roma, Itália: outubro de 2000


No Ano 2000, para celebrar o Jubileu da Encarnação, o papa João Paulo II, promoveu vários encontros setoriais a que deu também o nome de «Jubileu». Assim decorreu o III Encontro Mundial das Famílias (outubro de 2000, em Roma, Itália) como «Jubileu das Famílias». No discurso de acolhimento, o Papa recordou o tema do encontro — «Os filhos: primavera da família e da sociedade» — explicitando que «os filhos são 'primavera' [...], representam o florescimento do amor conjugal». As dificuldades vividas pelas crianças motivadas pelas mais diversas causas foram também abordadas: «às vezes os filhos são sentidos mais como uma ameaça do que como uma dádiva». Também em relação às famílias em crise, «desfeitas», João Paulo II recordou que «a Igreja não se sente chamada a expressar um juízo severo e desinteressado, mas antes a fazer penetrar a luz da palavra de Deus em tantos dramas humanos, acompanhada do testemunho da sua misericórdia». Por fim, convidou os pais e as mães a proclamarem sempre o «valor da família e o respeito da vida humana».

1. É com grande alegria que vos dou as boas-vindas, caríssimas famílias aqui reunidas das mais diversificadas regiões do mundo! Saúdo também as famílias que, debaixo de todos os céus, se encontram agora unidas a nós mediante a rádio e a televisão, associando-se a este Jubileu das Famílias. [...]
Recentemente, tive a alegria de ir como peregrino a Nazaré, o lugar onde o Verbo se fez carne. Nessa visita levei todos vós no meu coração, rezando com ardor por vós à Sagrada Família, sublime modelo de todas as famílias.
E é precisamente o clima espiritual da Casa de Nazaré que desejamos reviver nesta noite. O grande espaço que nos congrega, entre a Basílica e a colunata de Bernini, serve-nos de casa, uma grande casa ao ar livre. Aqui reunidos como uma verdadeira família, «um só coração e uma só alma» (cf. Atos 4, 32), podemos intuir e fazer nosso o sabor doce e íntimo daquela casa humilde, onde Maria e José viviam entre oração e trabalho, e Jesus «lhes era submisso» (Lucas 2, 51), tomando gradualmente parte na vida comum.
2. Olhando para a Sagrada Família, casais cristãos, sois estimulados a interrogar-vos acerca das tarefas que Cristo vos confia, na vossa maravilhosa e comprometedora vocação.
Por isso, o tema do vosso Jubileu — «Os filhos: primavera da família e da sociedade» — pode oferecer-vos sugestões significativas. Não são precisamente as crianças que fazem uma espécie de «exame» contínuo aos pais? Não o fazem apenas com os seus frequentes «por quê?», mas com o seu próprio rosto, ora risonho, ora velado pela tristeza. Como que inscrito em todo o seu modo de ser há um interrogativo, que se exprime das maneiras mais diversas, por vezes mesmo através dos caprichos, e que poderíamos traduzir em perguntas como estas: mãe, pai, amais-me? Sou verdadeiramente um dom para vós? Aceitais-me como sou? Esforçais-vos por fazer sempre o meu bem genuíno?
Talvez estas perguntas se façam mais com os olhos que com as palavras, mas elas obrigam os pais à sua grande responsabilidade e, de certa forma, são-lhes o eco da voz de Deus.
3. Os filhos são «primavera»: qual é o significado desta metáfora escolhida para o vosso Jubileu? Ela leva-nos para aquele horizonte de vida, de cores, de luz e de cântico que é próprio da estação primaveril. Os filhos são tudo isto por natureza. Eles são a esperança que continua a florescer, um projecto que recomeça permanentemente, o porvir que se abre de forma incessante.
Representam o florescimento do amor conjugal, que neles se encontra e se consolida. Ao nascerem, trazem uma mensagem de vida que, em última análise, remete para o próprio Autor da vida. Necessitados de tudo como eles são, de maneira especial nas primeiras fases da existência, constituem naturalmente um apelo à solidariedade.
Não foi por acaso que Jesus convidou os discípulos a terem um coração de crianças (cf. Marcos 10, 13-16). Dilectas famílias, hoje quereis dar graças pelo dom dos filhos e, ao mesmo tempo, receber a mensagem que Deus vos transmite através da sua existência.
4. Infelizmente, como bem sabemos, a situação das crianças no mundo nem sempre é aquela que deveria ser. Em muitas regiões, e paradoxalmente nos países de maior bem-estar, ter filhos tornou-se uma opção decidida com grande perplexidade, muito além da prudência que é justamente necessária para uma procriação responsável. Dir-se-ia que às vezes os filhos são sentidos mais como ameaça que como dádiva.
Depois, o que dizer do outro triste cenário da infância ultrajada e explorada, para o qual chamei a atenção inclusivamente na Carta às Crianças?
Porém, nesta noite encontrais-vos aqui para dar testemunho da vossa convicção, fundamentada na confiança em Deus, de que é possível inverter esta tendência. Estais aqui reunidos para uma «festa da esperança», fazendo vosso o «realismo» concreto desta virtude cristã fundamental.
5. Com efeito, a situação das crianças constitui um desafio para a sociedade inteira, um desafio que interpela diretamente as famílias. Ninguém mais que vós, estimados pais, pode constatar quanto é essencial para os filhos poderem contar convosco, com ambas as vossas figuras paterna e materna na complementaridade dos vossos dons. Não, não é um passo em frente na civilização secundar tendências que obscurecem esta verdade elementar e pretendem afirmar-se também a nível legal.
Não são porventura as crianças já demasiado penalizadas pelo flagelo do divórcio? Como é triste para uma criança ter de se resignar a dividir o seu amor entre pais em conflito! Muitos filhos ficarão psicologicamente marcados para sempre devido à provação a que a divisão dos pais os submeteram.
6. Diante de inúmeras famílias desfeitas, a Igreja não se sente chamada a expressar um juízo severo e desinteressado, mas antes a fazer penetrar a luz da palavra de Deus em tantos dramas humanos, acompanhada do testemunho da sua misericórdia. Este é o espírito com que a pastoral familiar procura enfrentar também as situações dos fiéis que divorciaram e voltaram a casar-se. Eles não são excluídos da comunidade; pelo contrário, são convidados a participar na sua vida, percorrendo um caminho de crescimento no espírito das exigências evangélicas. Sem deixar de lhes revelar a verdade acerca da desordem moral objectiva em que se encontram e das consequências que daí derivam para a prática sacramental, a Igreja pretende demonstrar-lhes toda a sua proximidade maternal.
Cônjuges cristãos, estai certos disto: o Sacramento do matrimónio garante-vos a graça necessária para perseverardes no amor recíproco, do qual os vossos filhos têm tanta necessidade quanto do pão.
Hoje sois chamados a interrogar-vos sobre esta profunda comunhão entre vós, enquanto pedis a abundância da misericórdia divina.
7. Ao mesmo tempo, não podeis evitar o interrogativo essencial sobre a vossa missão de educadores. Tendo dado a vida aos vossos filhos, estais comprometidos também em acompanhá-los nas orientações e opções de vida, da maneira apropriada à sua idade, garantindo-lhes todos os seus direitos.
No nosso tempo, o reconhecimento dos direitos da criança conheceu um progresso indubitável, mas ainda é motivo de aflição a negação prática destes direitos, como se manifesta em numerosos e terríveis atentados contra a sua dignidade. É preciso vigiar, a fim de que o bem da criança seja colocado sempre em primeiro lugar. Desde o momento em que se deseja ter um filho. A tendência a recorrer a práticas moralmente inaceitáveis na geração trai a absurda mentalidade de um «direito ao filho», que tomou o lugar do justo reconhecimento de um «direito do filho» a nascer e depois a crescer de maneira plenamente humana. Como é diversa e meritória, ao contrário, a prática da adopção! Um verdadeiro exercício de caridade, que visa o bem dos filhos antes das exigências dos pais.
8. Caríssimos, comprometamo-nos com todas as nossas forças, em defender o valor da família e o respeito da vida humana, desde o momento da conceção. Trata-se de valores que pertencem à «gramática» fundamental do diálogo e da convivência humana entre os povos. Formulo votos veementes por que tanto os governos e os parlamentos nacionais como as Organizações internacionais e, de modo particular, a Organização das Nações Unidas, não deixem que esta verdade se extravie. A todos os homens de boa vontade, que acreditam nestes valores, peço que unam eficazmente os próprios esforços, para que eles prevaleçam na prática da vida, nas orientações culturais e nos mass media, nas opções políticas e nas legislações dos povos.
9. A vós, queridas mães, que tendes dentro de vós um instinto incoercível pela defesa da vida, dirijo um sentido apelo: sede sempre fonte de vida, nunca de morte!
A vós, pais e mães, digo: fostes chamados para a excelsa missão de colaborar com o Criador na transmissão da vida (cf. Carta às Famílias, 8); não tenhais medo da vida! Proclamai juntos o valor da família e da vida, pois sem estes valores, não há um futuro digno do homem!
O maravilhoso espectáculo das vossas tochas acesas nesta Praça vos acompanhe por muito tempo, como um sinal d'Aquele que é a Luz e vos chama a iluminar com o vosso testemunho o caminho da humanidade pelas vias do novo milénio!

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Papa João Paulo II
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.5.13 | Sem comentários

Encontro Mundial das Famílias

Em Manila, Filipinas: janeiro de 2003


No IV Encontro Mundial das Famílias (2003, em Manila, Filipinas), o Papa João Paulo II referiu-se ao tema — «A família cristã, boa nova para o terceiro milénio» — para «sublinhar a sublime missão da família que, tendo acolhido o Evangelho e deixando-se iluminar pela sua mensagem, assume o inevitável compromisso de tornar-se sua testemunha». Em primeiro lugar, o Papa pediu às famílias para viverem a sua vocação que nasce do sacramento do matrimónio, destacando o graça recebida pelo sacramento que é fonte de amor e de alegria. Em seguida, apresentou a família como «património da humanidade», salientando que «o futuro da humanidade passa pela família». Nesse sentido, desafiou as famílias a serem protagonistas na Igreja e no mundo. A terminar, apresentou a oração, dando o exemplo do Rosário, como «garantia de unidade num estilo de vida coerente».

1. Com a mente e a oração estou convosco, amadas famílias das Filipinas e de mais diversas regiões da terra, que vos congregastes em Manila para o vosso IV Encontro Mundial: saúdo-vos afectuosamente em nome do Senhor!
Nesta ocasião, tenho a alegria de enviar uma saudação cordial e propiciadora das melhores bênçãos para todas as famílias do mundo, que vós representais: a todas «graça, misericórdia e paz da parte de Deus Pai e da de Jesus Cristo, nosso Senhor» (1Timóteo 1, 2). [...]
2. Sei que, na sessão teológico-pastoral que acabastes de celebrar, aprofundastes o tema: «A família cristã, boa nova para o terceiro milénio». Escolhi estas palavras para o vosso Encontro Mundial, a fim de sublinhar a sublime missão da família que, tendo acolhido o Evangelho e deixando-se iluminar pela sua mensagem, assume o inevitável compromisso de tornar-se sua testemunha.
Queridas famílias cristãs, anunciai com alegria ao mundo inteiro o tesouro maravilhoso de que sois portadoras enquanto igrejas domésticas! Esposos cristãos, na vossa comunhão de vida e amor, na vossa mútua entrega e no acolhimento generoso dos filhos, sede em Cristo luz do mundo! O Senhor pede-vos para serdes cada dia uma lâmpada que não fica escondida, mas é colocada «em cima do velador e assim alumia a todos os que estão em casa» (Mateus 5, 15).
3. Antes de mais nada, sede «boa nova para o terceiro milénio», vivendo com empenho a vossa vocação. O matrimónio, que um dia mais ou menos distante celebrastes, é o vosso modo específico de ser discípulos de Jesus, de contribuir para a edificação do Reino de Deus, de caminhar para a santidade a que é chamado todo o cristão. Como afirma o II Concílio do Vaticano, os esposos cristãos, cumprindo a sua missão conjugal e familiar, «avançam sempre mais na própria perfeição e mútua santificação» (Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual — «Gaudium et Spes», 48).
Acolhei plenamente e sem reservas o amor que, no sacramento do matrimónio, Deus Se antecipa a dar-vos, tornando-vos assim capazes de amar (cf. 1João 4, 19). Permanecei sempre ancorados nesta certeza, a única que pode dar sentido, força e alegria à vossa vida: o amor de Cristo jamais se afastará de vós, não vacilará a sua aliança de paz convosco (cf. Isaías 54, 10). Os dons e o chamamento de Deus são irrevogáveis (cf. Romanos 11, 29). Ele gravou o vosso nome nas palmas das suas mãos (cf. Isaías 49, 16).
4. A graça, que recebestes no matrimónio e que perdura no tempo, provém do coração trespassado do Redentor, que Se imolou no altar da Cruz pela Igreja, sua esposa, afrontando a morte para a salvação de todos.
Por isso, esta graça traz consigo a peculiaridade da sua origem: é a graça do amor que se oferece, do amor que se dá e perdoa; do amor altruísta, que se esquece da dor própria; do amor fiel até à morte; do amor fecundo de vida. É a graça do amor benevolente, que tudo crê, tudo suporta, tudo espera, tudo desculpa, do amor que não tem fim e sem o qual tudo o mais nada é (cf.  Coríntios 13, 7-8).
Com certeza que isto não é sempre fácil, e na vida diária não faltam as ciladas, as tensões, o sofrimento e mesmo o cansaço. Mas, no vosso caminho, não estais sozinhos. Convosco vive e atua Jesus, como esteve em Caná da Galileia, numa hora de aflição para aqueles esposos recém-casados. De facto, o Concílio lembra também que o Salvador vem ao encontro dos esposos cristãos e permanece com eles para que, assim como Ele amou a Igreja e Se entregou por ela, de igual modo os esposos, dando-se um ao outro, se amem com perpétua fidelidade (cf. Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual — «Gaudium et Spes», 48).
5. Esposos cristãos, sede «boa nova para o terceiro milénio», testemunhando com convicção e coerência a verdade acerca da família.
A família fundada sobre o matrimónio é património da humanidade, constitui um bem grande e sumamente precioso, necessário para a vida, o desenvolvimento e o futuro dos povos. Segundo o plano da criação estabelecido desde o princípio (cf. Mateus 19, 4.8), aquela é o âmbito onde a pessoa humana, feita à imagem e semelhança de Deus (cf. Génesis 1, 26), é concebida, nasce, cresce e se desenvolve. A família, enquanto formadora por excelência de pessoas (cf. A família cristã no mundo de hoje, 19-27), é indispensável para uma verdadeira «ecologia humana» (Centesimus annus, 39).
Agradeço os testemunhos que destes nesta tarde e que acompanhei com atenção. Fazem-me recordar a experiência adquirida como sacerdote, como Arcebispo em Cracóvia e ao longo destes quase 25 anos de Pontificado: como já afirmei mais vezes, o futuro da humanidade passa pela família (cf. A família no mundo de hoje — «Familiaris consortio», 86).
Recomendo-vos, queridas famílias cristãs, que testemunheis com a vida de cada dia que, mesmo entre muitas dificuldades e obstáculos, é possível viver em plenitude o matrimónio como experiência repleta de sentido e como «boa nova» para os homens e mulheres do nosso tempo. Sede protagonistas na Igreja e no mundo: isto é uma exigência que brota do próprio matrimónio que celebrastes, do vosso ser igreja doméstica, da missão conjugal que vos caracteriza como células primordiais da sociedade (cf. «Apostolicam Actuositatem», 11).
6. Finalmente, para serdes «boa nova para o terceiro milénio», queridos esposos cristãos, não esqueçais que a oração em família é garantia de unidade num estilo de vida coerente com a vontade de Deus.
Recentemente, ao proclamar o Ano do Rosário, recomendei esta devoção mariana como oração da família e pela família: de facto, ao recitar o Rosário, «põe-se Jesus no centro, partilham-se com Ele alegrias e sofrimentos, colocam-se nas suas mãos necessidades e projectos, e d'Ele se recebe a esperança e a força para o caminho» (O Rosário da Virgem Maria, 41).
Enquanto vos confio a Maria, Rainha da Família, para que acompanhe e sustente a vossa vida, tenho a alegria de anunciar-vos que o V Encontro Mundial das Famílias realizar-se-á em Valência, Espanha, no ano 2006.
Concedo agora a todos a minha Bênção, que vos deixo com uma recomendação: com a ajuda de Deus, fazei do Evangelho a regra fundamental da vossa família, e da vossa família uma página do Evangelho escrita para o nosso tempo!

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Papa João Paulo II

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.5.13 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


O papa João Paulo II, no dia 28 de maio de 1997, dedicou uma Audiência Geral ao tema «Maria e o dom do Espírito Santo» para comentar o número 59, que pertence ao oitavo capítulo da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) do II Concílio do Vaticano. O Papa sublinha a presença orante de Maria junto dos Apóstolos para evocar a efusão do Espírito Santo para si mesma e para a Comunidade. «Na comunidade cristã a oração de Maria reveste um significado peculiar: favorece o advento do Espírito, solicitando a Sua acção no coração dos discípulos e no mundo».

Caríssimos Irmãos e Irmãs:
1. Percorrendo o itinerário da vida da Virgem Maria, o II Concílio do Vaticano recorda a sua presença na comunidade que espera o Pentecostes: «Tendo sido do agrado de Deus não manifestar solenemente o mistério da salvação humana antes que viesse o Espírito prometido por Cristo, vemos que, antes do dia de Pentecostes, os Apóstolos “perseveravam unanimemente em oração, com as mulheres, Maria Mãe de Jesus e Seus irmãos” (Atos 1, 14), implorando Maria, com as suas orações, o dom daquele Espírito, que já sobre si descera na anunciação» (LG 59). A primeira comunidade constitui o prelúdio do nascimento da Igreja; a presença da Virgem contribui para lhe delinear o rosto definitivo, fruto do dom do Pentecostes.
2. No clima de espera, predominante no Cenáculo após a Ascensão, qual é a posição de Maria em relação à descida do Espírito Santo?
O Concílio sublinha expressamente a sua presença orante em vista da efusão do Paráclito: Ela implora «com as suas orações o dom do Espírito». Esta observação resulta particularmente significativa, a partir do momento que na Anunciação o Espírito Santo já havia descido sobre ela, recobrindo-a com a «sua sombra» e dando origem à Encarnação do Verbo. Tendo já feito uma experiência muito singular acerca da eficácia desse dom, a Virgem Santíssima estava na condição de o poder apreciar mais do que qualquer outro; com efeito, à intervenção misteriosa do Espírito Ela devia a sua maternidade, que fazia dela a via de ingresso do Salvador no mundo. Diversamente daqueles que estavam presentes no Cenáculo em trépida espera, Ela, plenamente consciente da importância da promessa de seu Filho aos discípulos (cf. João 14, 16), ajudava a comunidade a dispor-se bem para a vinda do «Paráclito». A sua singular experiência, então, enquanto a fazia desejar ardentemente a vinda do Espírito, empenhava-a também em predispor mentes e corações daqueles que estavam ao seu lado.
3. Durante aquela oração no Cenáculo, em atitude de comunhão profunda com os Apóstolos, com algumas mulheres e com os «irmãos» de Jesus, a Mãe do Senhor invoca o dom do Espírito para si mesma e para a Comunidade. Era oportuno que a primeira efusão do Espírito sobre ela, ocorrida em vista da maternidade divina, fosse renovada e fortalecida. Com efeito, ao pé da cruz, Maria tinha sido investida de uma nova maternidade, em relação aos discípulos de Jesus. Precisamente esta missão exigia um renovado dom do Espírito. A Virgem desejava-o, portanto, em vista da fecundidade da sua maternidade espiritual. Enquanto na hora da Encarnação o Espírito Santo tinha descido sobre ela, como pessoa chamada a participar dignamente no grande mistério, agora tudo se realiza em função da Igreja, da qual Maria é chamada a ser tipo, modelo e mãe. Na Igreja e para a Igreja Ela, lembrando- se da promessa de Jesus, espera o Pentecostes e implora para todos uma multiplicidade de dons, segundo a personalidade e a missão de cada um.
4. Na comunidade cristã a oração de Maria reveste um significado peculiar: favorece o advento do Espírito, solicitando a Sua acção no coração dos discípulos e no mundo. Assim como na Encarnação o Espírito havia formado no seu seio virginal o corpo físico de Cristo, de igual modo agora no Cenáculo o mesmo Espírito desce para animar o Seu Corpo Místico. O Pentecostes, portanto, é fruto também da incessante oração da Virgem, que o Paráclito acolhe com favor singular, porque é expressão do amor materno dela para com os discípulos do Senhor. Contemplando a poderosa intercessão de Maria, que espera o Espírito Santo, os cristãos de todos os tempos, no longo e fatigoso caminho rumo à salvação, recorrem com frequência à sua intercessão para receber com maior abundância os dons do Paráclito.
5. Respondendo à oração da Virgem e da comunidade reunida no Cenáculo no dia de Pentecostes, o Espírito Santo cumula da plenitude dos seus dons a Virgem e os presentes, operando neles uma profunda transformação em vista da difusão da Boa Nova. À Mãe de Cristo e aos discípulos são concedidos nova força e novo dinamismo apostólico para o crescimento da Igreja. Em particular, a efusão do Espírito conduz Maria a exercer a sua maternidade espiritual de modo singular, através da sua presença cheia de caridade e do seu testemunho de fé. Na Igreja nascente, Ela entrega aos discípulos, como tesouro inestimável, as suas recordações sobre a Encarnação, sobre a infância, sobre a vida oculta e sobre a missão do Filho divino, contribuindo para fazer com que Ele seja conhecido e para fortalecer a fé dos crentes. Não possuímos nenhuma informação sobre a atividade de Maria na Igreja primitiva, mas é lícito supor que, mesmo depois do Pentecostes, Ela tenha continuado a viver uma existência escondida e discreta, vigilante e eficaz. Iluminada e conduzida pelo Espírito, exerceu uma influência profunda sobre a comunidade dos discípulos do Senhor.

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João Paulo II - Karol Józef Wojtyła
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.5.13 | Sem comentários

Mês de maio, Mês de Maria


O papa João Paulo II, nos dias 26 de fevereiro e 5 de março de 1997, dedicou uma Audiência Geral ao tema da presença de «Maria nas bodas de Caná». Na sequência do comentário ao capítulo mariano da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) do II Concílio do Vaticano, o Papa destaca a disponibilidade de Maria para cooperar com Deus na missão do seu Filho, Jesus Cristo. 
Na primeira Audiência, apresenta o pedido de Maria como cheio de atualidade para todos os tempos: «O pedido de Maria: 'Fazei o que Ele vos disser', conserva um seu valor sempre actual para os cristãos de todas as épocas, e é destinado a renovar o seu efeito maravilhoso na vida de cada um. Ela exorta a uma confiança sem hesitação, sobretudo quando não se compreendem o sentido e a utilidade de quanto Cristo pede». A terminar, João Paulo II refere que este episódio das bodas de Caná nos anima a ser «corajosos na fé».
Na segunda Audiência, João Paulo II, segue ainda mais de perto o texto do número 58 da «Lumen Gentium» — Constituição Dogmática sobre a Igreja do II Concílio do Vaticano. Além de refletir sobre a importância da presença de Maria para a ação de Jesus Cristo, também dedica uma parte ao tema do matrimónio, motivado pela circunstância que estava a acontecer em Caná. Antes de terminar dizendo que «em Caná, Maria inicia o caminho da fé da Igreja, precedendo os discípulos e orientando para Cristo a atenção dos servos», refere ainda a ligação de Caná com o Sacramento da Eucaristia.

Caríssimos Irmãos e Irmãs:
1. No episódio das bodas de Caná, São João apresenta a primeira intervenção de Maria na vida pública de Jesus e põe em relevo a sua cooperação na missão do Filho.
Desde o início da narração, o evangelista avisa que «a mãe de Jesus estava presente» (2, 1) e, como que a querer sugerir que essa presença está na origem do convite dirigido pelos esposos ao próprio Jesus e aos Seus discípulos (cf. Redemptoris Mater, 21), acrescenta: «Jesus e os Seus discípulos foram convidados para as bodas» (2, 2). Com tais observações, João parece indicar que em Caná, como no evento fundamental da Encarnação, Maria é aquela que introduz o Salvador.
O significado e o papel que assume a presença da Virgem, manifestam-se quando vem a faltar o vinho. Ela, experiente e prudente dona de casa, percebe isso imediatamente e intervém para que não termine a alegria de todos e, principalmente, para socorrer os esposos em dificuldade.
Dirigindo-se a Jesus com as palavras: «Não têm vinho» (Jo. 2, 3), Maria exprime- Lhe a sua preocupação por essa situação, aguardando uma Sua intervenção resolutiva. Mais precisamente, segundo alguns exegetas, a Mãe espera um sinal extraordinário, dado que Jesus não tinha vinho à disposição.
2. A escolha de Maria, que teria podido, talvez, providenciar noutro lugar o vinho necessário, manifesta a coragem da sua fé porque, até àquele momento, Jesus não tinha realizado algum milagre, nem em Nazaré, nem na vida pública.
Em Caná a Virgem mostra mais uma vez a sua total disponibilidade a Deus. Ela que, na Anunciação, crendo em Jesus antes de O ver, contribuíra para o prodígio da concepção virginal, aqui, confiando no poder não ainda revelado de Jesus, suscita o Seu «primeiro sinal», a prodigiosa transformação da água em vinho. Desse modo, ela precede na fé os discípulos que, como refere João, hão-de crer depois do milagre: Jesus «manifestou a Sua glória e os Seus discípulos acreditaram n’Ele» (Jo. 2, 11). Antes, obtendo o sinal prodigioso, Maria oferece- lhes um apoio à fé.
3. A resposta de Jesus às palavras de Maria: «Que temos nós com isso, mulher A minha hora ainda não chegou » (Jo. 2, 4) exprime uma aparente rejeição, quase pondo à prova a fé de Maria.
Segundo uma interpretação, Jesus a partir do momento que inicia a Sua missão, parece colocar em discussão a natural relação de filho, chamado em causa pela mãe. A frase, na língua falada do ambiente, quer, de facto, evidenciar uma distância entre as pessoas, com a exclusão da comunhão de vida. Esta distância não elimina respeito e estima; o termo «mulher», com o qual Ele Se dirige à mãe, é usado numa aceção que retornará nos diálogos com a Cananeia (cf. Mateus 15, 28), com a Samaritana (cf. João 4, 21), com a adúltera (cf. João 8, 10) e com Maria Madalena (cf. João 20, 13), em contextos que manifestam uma relação positiva de Jesus com as Suas interlocutoras.
Com a expressão: «Que temos nós com isso, mulher?», Jesus pretende colocar a cooperação de Maria no plano da salvação que, empenhando a sua fé e a sua esperança, pede a superação do seu papel natural de mãe.
4. De maior relevo aparece a motivação formulada por Jesus: «A Minha hora ainda não chegou» (João 2, 4).
Alguns estudiosos do texto sagrado, seguindo a interpretação de Santo Agostinho, identificam essa «hora» com o evento da Paixão. Para outros, porém, ela refere-se ao primeiro milagre em que haveria de ser revelado o poder messiânico do profeta de Nazaré. Outros, ainda, pensam que a frase é interrogativa e prolonga a pergunta anterior: «Que temos nós com isso, mulher? A Minha hora ainda não chegou». Jesus faz com que Maria entenda que afinal Ele já não depende dela, mas deve tomar a iniciativa para realizar a obra do Pai. Maria, então, abstém-se docilmente de insistir junto d’Ele e dirige-se, ao contrário, aos servidores para os convidar a ser-Lhe obedientes.
Em todo o caso a sua confiança no Filho é recompensada. Jesus, a Quem ela deixou totalmente a iniciativa, realiza o milagre, reconhecendo a coragem e a docilidade da Mãe: «Disse-lhes Jesus: “Enchei de água essas talhas”; e encheram- nas até à borda» (João 2, 7). Também a obediência deles, portanto, contribui para a obtenção do vinho em abundância.
O pedido de Maria: «Fazei o que Ele vos disser», conserva um seu valor sempre actual para os cristãos de todas as épocas, e é destinado a renovar o seu efeito maravilhoso na vida de cada um. Ela exorta a uma confiança sem hesitação, sobretudo quando não se compreendem o sentido e a utilidade de quanto Cristo pede.
Assim como na narração da Cananeia (Mateus 15, 24-26), a aparente rejeição de Jesus exalta a fé da mulher, assim as palavras do Filho: «A Minha hora ainda não chegou», juntamente com o cumprimento do primeiro milagre, manifestam a grandeza da fé que a Mãe tem e a força da sua oração.
O episódio das bodas de Caná anima-nos a ser corajosos na fé e a experimentar na nossa existência a verdade da palavra evangélica: «Pedi e vos será dado» (Mateus 7, 7; Lucas 11, 9).



Em Caná, Maria levou Jesus a realizar o primeiro milagre


Queridos Irmãos e Irmãs
1. Ao narrar a presença de Maria na vida pública de Jesus, o II Concílio do Vaticano recorda a sua participação em Caná por ocasião do primeiro milagre: «Nas bodas de Caná, movida de compaixão, levou Jesus Messias a dar início aos Seus milagres (cf. João 2, 1-11)» (LG 58).
Seguindo a esteira do evangelista João, o Concílio faz notar o papel discreto e, ao mesmo tempo, eficaz da Mãe que, com a sua palavra, leva o Filho ao «primeiro sinal». Ela, embora exerça uma influência discreta e materna, com a sua presença resulta, no final, determinante. A iniciativa da Virgem aparece ainda mais surpreendente, se se considera a condição de inferioridade da mulher na sociedade judaica. Em Caná, com efeito, Jesus não só reconhece a dignidade e o papel do génio feminino, mas, acolhendo a intervenção de Sua Mãe, oferece-lhe a possibilidade de ser participante na obra messiânica. Não contrasta com esta intenção de Jesus o apelativo «Mulher», com o qual Ele se dirige a Maria (cf. João 2, 4). Ele, de facto, não contém em si nenhuma conotação negativa e será de novo usado por Jesus em relação à Mãe, aos pés da Cruz (cf. João 19, 26). Segundo alguns intérpretes, este título «Mulher» apresenta Maria como a nova Eva, mãe de todos os crentes na fé.
O Concílio, no texto citado, usa a expressão «movida de compaixão», deixando entender que Maria era inspirada pelo seu coração misericordioso. Tendo divisado a eventualidade do desapontamento dos esposos e dos convidados pela falta de vinho, a Virgem compadecida sugere a Jesus que intervenha com o seu poder messiânico.
A alguns o pedido de Maria parece desproporcionado, porque subordina a um acto de piedade o início dos milagres do Messias. À dificuldade respondeu Jesus mesmo que, com o seu assentimento à solicitação materna, demonstra a superabundância com que o Senhor responde às expectativas humanas, manifestando também quanto pode o amor de uma mãe.
2. A expressão «dar início aos milagres», que o Concílio retomou do texto de João, chama a nossa atenção. O termo grego «archè», traduzido por início, princípio, foi usado por João no Prólogo do seu Evangelho: «No princípio já existia o Verbo» (1, 1). Esta significativa coincidência induz a estabelecer um paralelo entre a primeira origem da glória de Cristo na eternidade e a primeira manifestação da mesma glória na sua missão terrena.
Ressaltando a iniciativa de Maria no primeiro milagre e recordando depois a sua presença no Calvário, aos pés da Cruz, o evangelista ajuda a compreender como a cooperação de Maria se estende à inteira obra de Cristo. O pedido da Virgem coloca-se no interior do desígnio divino de salvação.
No primeiro sinal operado por Jesus os Padres da Igreja divisaram uma forte dimensão simbólica, acolhendo, na transformação da água em vinho, o anúncio da passagem da antiga à nova Aliança. Em Caná, precisamente a água das jarras, destinada à purificação dos Judeus e ao cumprimento das prescrições legais (cf. Marcos 7, 1-15), torna-se o vinho novo do banquete nupcial, símbolo da união definitiva entre Deus e a humanidade.
3. O contexto de um banquete de núpcias, escolhido por Jesus para o Seu primeiro milagre, remete ao simbolismo matrimonial, frequente no Antigo Testamento para indicar a Aliança entre Deus e o Seu povo (cf. Oseias 2, 21; Jeremias 2, 1-8; Salmo 44; etc.) e no Novo Testamento para significar a união de Cristo com a Igreja (cf. João 3, 28-30; Efésios 5, 25-32; Apocalipse 21, 1-2; etc.).
A presença de Jesus em Caná manifesta, além disso, o projecto salvífico de Deus a respeito do matrimónio. Nessa perspectiva, a falta de vinho pode ser interpretada como alusiva à falta de amor, que infelizmente, não raro, ameaça a união esponsal. Maria pede a Jesus que intervenha em favor de todos os esposos, que só um amor fundado em Deus pode libertar dos perigos da infidelidade, da incompreensão e das divisões. A graça do Sacramento oferece aos esposos esta força superior de amor, que pode corroborar o empenho da fidelidade também nas circunstâncias difíceis.
Segundo a interpretação dos autores cristãos, o milagre de Caná contém, além disso, um profundo significado eucarístico. Realizando-o na proximidade da solenidade da Páscoa judaica (cf. João 2, 13), Jesus manifesta, como na multiplicação dos pães (cf. João 6, 4), a intenção de preparar o verdadeiro banquete pascal, a Eucaristia. Esse desejo, nas bodas de Caná, parece sublinhado ainda mais pela presença do vinho, que alude ao sangue da Nova Aliança, e pelo contexto de um banquete.
Desse modo Maria, depois de ter estado na origem da presença de Jesus na festa, obtém o milagre do vinho novo, que prefigura a Eucaristia, sinal supremo da presença do seu Filho ressuscitado entre os discípulos.
4. No final da narração do primeiro milagre de Jesus, que se tornou possível pela fé sólida da Mãe do Senhor no seu divino Filho, o evangelista João conclui: «Os Seus discípulos acreditaram n’Ele» (2, 11). Em Caná, Maria inicia o caminho da fé da Igreja, precedendo os discípulos e orientando para Cristo a atenção dos servos.
A sua perseverante intercessão encoraja, além disso, aqueles que às vezes se encontram diante da experiência do «silêncio de Deus». Eles são convidados a esperar para além de toda a esperança, confiando sempre na bondade do Senhor.

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João Paulo II - Karol Józef Wojtyła
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.5.13 | Sem comentários
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