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ESCUTAR A MELODIA DO PRESENTE


Estamos a viver momentos históricos marcados por processos de transformação, o que provoca sempre um clima de perturbação, até de intranquilidade. Neste sentido, este nosso tempo requer respostas novas para perguntas originais e, porventura, não previstas. Os desafios são apaixonantes, tanto a nível familiar e cultural, como em termos relativos à economia e à política. Precisamos de novos «olhares», na linha de caminhos já iniciados (recordemos o Advento e Natal sob a temática do «olhar… pela primeira vez»). Somos convidados a reinterpretar e a reorganizar a nossa vida, a assumir uma nova atitude de escuta, a «retornar à audição» (José Tolentino Mendonça) dos desafios atuais. No meio desta trama, situa-se a Quaresma que nos é dada a viver, tempo que também nos interpela de um modo novo e inaudito, ao qual temos de responder e em cujo processo temos de participar com uma proposta de conversão e de esperança. «Há tanta coisa que nos está a ser dita e que nós simplesmente não escutamos!».

Quaresma: escutar a melodia do presente

«Tempo de renovação para a Igreja, para as comunidades e para cada um dos fiéis, a Quaresma é sobretudo um ‘tempo favorável’ de graça» (Francisco, Mensagem para a Quaresma). Compete-nos discernir de que modo e com que sentimentos queremos viver a dinâmica quaresmal. Trata-se, juntamente com a Páscoa, de um tempo catecumenal, de renovação batismal, que nos convida a rever o nosso caminho de fé no seguimento de Jesus Cristo. Não é repetição de momentos cultuais, nem de práticas tradicionais. Não se trata de um acontecimento cíclico que voltamos a atravessar mais um ano. Cada tempo litúrgico é um repto à novidade e à esperança, situa-se no horizonte de sentido, para encontrarmos chaves de aprofundamento do mistério cristológico, fraterno e comunitário que não tem limites e que nos enriquece cada vez que voltamos a ele com um coração inquieto e inventivo.
Uma das chaves que propomos passa pela «mística» do sentido da audição: «escutar a melodia do presente» (José Tolentino Mendonça). Aqui, «o desafio é atirar-se para os braços da vida e ouvir aí o bater do coração de Deus. Sem fugas. Sem idealizações». De facto, «a escuta talvez seja o sentido de verificação mais adequado para acolher a complexidade do que uma vida é. […] Na Regra de São Bento há uma expressão essencial, se queremos perceber como se ativa uma escuta autêntica: ‘Abre o ouvido do teu coração’. Quer dizer: a escuta não se faz apenas com o ouvido exterior, mas com o sentido do coração. A escuta não é apenas a recolha do discurso sonoro. Antes de tudo, é atitude, é inclinar-se para o outro, é disponibilidade para acolher o dito e o não dito, o entusiasmo da história ou o seu avesso, a sua dor».
A escuta do outro, para nós, só é plena com a escuta do Outro, que, nesta Quaresma, nos convoca para a Aliança, «com a sucessão dos episódios do Antigo Testamento: a Aliança de Deus com Noé, com Abraão, com Moisés na dádiva da Lei, a fidelidade de Deus à Sua aliança com a libertação do povo do Exílio, e, finalmente, a Nova Aliança escrita no coração. Este último tema, da Nova Aliança, escatológica, anunciada pelos Profetas, [...] leva o ouvinte da Palavra àquela aliança nova e eterna que Cristo realizou na Sua morte e ressurreição e que nos sacramentos pascais é oferecida a todos» (Mario Chesi).

Laboratório da Fé vivida

«A prática da escuta, na tradição bíblica, está muito ligada à fé. É a escuta que funda a radicação crente. [...] Não há fé que não nasça da escuta, de uma escuta profunda, de uma escuta até ao fim» (José Tolentino Mendonça). Eis outra das chaves fundamentais do nosso itinerário pastoral: a fé vivida na prática das obras de misericórdia. Por um lado, a necessidade de voltar a escutar a fonte primeira e autêntica que é a pessoa de Jesus Cristo: viver na escuta da Boa Nova de Jesus Cristo. Por outro lado, a necessidade de abrir o «ouvido do coração»: deixar de ser um coração de pedra, duro, rotineiro, indiferente e individualista, para ser um coração de carne, contemplativo, sensível, compassivo, solidário, misericordioso. Um coração semelhante ao de Jesus Cristo. Um coração disposto a «escutar a melodia do presente» revelada na vida do outro que merece a nossa maior atenção. «A Quaresma é um tempo propício para mostrar este interesse pelo outro, através de um sinal – mesmo pequeno, mas concreto – da nossa participação na humanidade que temos em comum» (Francisco, Mensagem para a Quaresma).

© Laboratório da fé, 2015


Quaresma, Ano B, Ano Pastoral 2014'15

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.2.15 | Sem comentários

SABOREAR A PRESENÇA DE DEUS


«A Bíblia é para comer» — escreve José Tolentino Mendonça, numa das notas que compõem a segunda parte da obra «A mística do instante» (ed. Paulinas). Saborear Deus! Saborear a Bíblia, palavra de Deus! Eis o «sentido» que propomos para os domingos do «Tempo Comum». O facto de, em português, assumir a designação de «comum» não significa que se trata de um tempo «fraco» (em contraponto com os chamados tempos «fortes»), pelo contrário é um «tempo fortíssimo» (Mario Chesi). O itinerário que propomos consiste em aprimorar o paladar, em fazer um «MasterChef» da saborosa presença de Deus na vida de cada ser humano. «Um grande mestre e pedagogo brasileiro, Rubem Alves [faleceu o ano passado], dizia que a coisa mais importante é a cozinha. Um professor, antes de levar o aluno para a sala, devia fazê-lo passar pela cozinha. A cozinha não dá o alimento, dá o desejo. O paladar não é uma máquina de satisfação, é uma máquina de criar desejo» (José Tolentino Mendonça), criar desejo de Deus!

Tempo Comum: saborear Deus

Um dos aspetos mais significativos do Ano Litúrgico é sua dinâmica contemplativa: em primeiro lugar, centra-se na vida de Jesus Cristo; em segundo lugar, envolve-nos na vida de um povo com o qual Deus preparou a realização desses acontecimentos. Vamos (continuar a) concentrar a nossa atenção neste segundo aspeto, apoiados nos textos bíblicos da primeira leitura de cada domingo. Mas sem deixar de lado o primeiro, até porque as primeiras leituras (ao domingo) procuram «um ato, uma profecia ou um ensinamento do Antigo Testamento que tenha relação com o evangelho que se lerá e nos prepare um pouco para o escutar. Às vezes, como são pedaços curtos e como não estamos, porventura, muito formados no conhecimento do Antigo Testamento, estas primeiras leituras passam um pouco despercebidas. Se temos tempo e vontade, pode ser bom procurá-las na Bíblia e ler a passagem anterior e posterior, com as notas de pé de página que possa haver, e assim ficaremos mais inteirados e passaremos a conhecer um pouco melhor os livros do Antigo Testamento» (Josep Lligadas, «Celebrar o Ano Litúrgico», ed. Paulinas).
Acompanhar a vida dum povo, através dos textos proclamados na primeira leitura de cada domingo, permite-nos saborear cada palavra e cada gesto para neles descobrir o sabor de Deus, não só nesses acontecimentos narrados, mas também na nossa própria história. «Quando é que saboreamos? Quando detemos o mero exercício de devoração do mundo; quando se introduz uma lentidão interior; quando contemplamos com as papilas gustativas; quando o nosso corpo contempla; quando, todo concentrado, ele observa, surpreende-se, avizinha, entreabre o segredo, deixa essa espécie de epifania revelar-se. O sabor é sempre uma forma de intimidade que supõe o contacto profundo» (José Tolentino Mendonça).
A meta é compreendermos que «o paladar não é indiferente ao amor de Deus como não é de todo indiferente a qualquer amor. Deus saboreia-se, Deus é sabor». Ora, «o sabor não é uma coisa que possuímos exteriormente; é, como em todas as experiências que requerem uma arte de ser, uma coisa em que nos tornamos».

Laboratório da Fé vivida

«O sabor revela, ilumina, dissemina-se por dentro de nós até tornar-se vida». A sequência dos domingos «durante o ano» (interrompida pelos tempos de Quaresma e Páscoa) é um tempo adequado para fazermos o exercício de saborear calmamente a presença de Deus na nossa vida. Calmamente, pois «sem lentidão não há paladar. Talvez precisemos, por isso, de voltar a essa arte tão humana que é a lentidão. Os nossos estilos de vida parecem irremediavelmente contaminados por uma pressão que não dominamos; não há tempo a perder; queremos alcançar as metas o mais rapidamente que formos capazes; os processos desgastam-nos, as perguntas atrasam-nos, os sentimentos são um puro desperdício: dizem-nos que temos de valorizar resultados, apenas resultados. […] Uma alternativa será porventura resgatar a nossa relação com o tempo. Por tentativas, por pequenos passos. Ora, isso não acontece sem um abrandamento interno. […] A lentidão anota os pequemos tráficos de sentido, o manuseamento diversificado da luz, as trocas de sabor».

© Laboratório da fé, 2015


Tempo Comum, Ano B, Ano Pastoral 2014'15

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.1.15 | Sem comentários

VOLTA A OLHAR O HOMEM PELA PRIMEIRA VEZ


A História da Salvação desvela-se numa aproximação progressiva de Deus ao ser humano, de modo mais explícito a partir de Abr(a)ão, o pai dos crentes, convidado a levantar os olhos. E à medida que Deus se aproxima, o ser humano tem a possibilidade de se «deixar ver» e também de «ver» a Deus. Há um verdadeiro intercâmbio de olhares! Da parte de Deus, a aproximação ao humano culmina numa jovem, filha de Israel, natural de Nazaré: Maria. Nela, o Verbo de Deus faz-se carne, humanidade frágil. E, nela, a carne é envolvida pela glória divina: a «imagem e semelhança» do princípio encontram a sua profundidade mais plena em Jesus Cristo, Deus nascido de uma mulher. Neste Filho, é-nos oferecido um irmão e é-nos concedida uma paternidade insólita: a divina. Somos filhos de Deus Pai; não somos escravos nem marionetas de um deus falsificado. É necessário que o nosso coração se dilate a fim de que nele haja lugar para este Menino que nos fala da ternura de Deus.

Natal: volta a olhar o homem pela primeira vez

Natal é a festa do humano. Do humano, mas a partir de Deus. Todavia, Deus valoriza o humano de uma forma diferente da nossa. Nós preferimos valorizar os bonitos, os fortes, os poderosos, os inteligentes… os ricos. Deus mostra o valor divino do humano a partir daqueles que nos parecem menos humanos, aqueles e aquelas a quem tantas vezes excluímos da festa da humanidade. É, por isso, que Deus inaugura a festa do humano entre nós com a revelação, em primeiro lugar, aos que vivem na «periferia»: aos excluídos (pastores) e aos que «não são dos nossos» (magos). Por isso, o Natal, festa do humano, apresenta-se como um desafio a converter o nosso olhar ao verdadeiramente e mais profundamente humano.
Em continuidade com o Advento, propomos um tempo de Natal sob o signo do «olhar», mergulhados na «mística do instante» ou «de olhos abertos». «A mística de olhos abertos não se dirige a um Deus distante: ela vive na consciência de estar continuamente diante dele. [...] De facto, se acontece não o vermos, não é por estar demasiado distante, mas por ser demasiado próximo» (José Tolentino Mendonça). Assim também proclama o poeta: «Queres saber o lugar da morada de Deus? Volta a olhar o homem pela primeira vez. Pois o Verbo de Deus acampou entre nós».
Isaías continua também a ser o nosso «guia», o profeta que nos desafia a ter os olhos sempre bem abertos. Agora, a sua profecia joga com a figura do mensageiro e das sentinelas, ambos imprescindíveis, na antiguidade, para anunciar o perigo ou o êxito. Desta vez, o mensageiro traz notícias de paz e de vitória. Uma imagem reforçada pelos verbos: «anuncia a paz, traz a boa notícia, proclama a salvação». E são as sentinelas que «veem com os próprios olhos o Senhor». Este anúncio libertador e salvador, primeiro circunscrito a Jerusalém, estende-se a toda a humanidade: «todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus». Hoje, para nós, cristãos, a boa notícia (evangelho) não é que as «ruínas de Jerusalém» recuperam a esperança e a alegria; elas são um símbolo de como Deus nunca abandona o seu povo e de como é preciso abrir os olhos, quais sentinelas dos tempos hodiernos, cheias de alegria, «porque veem com os próprios olhos o Senhor».

Laboratório da Fé vivida

«O modo como vemos decide a qualidade do nosso viver». José Saramago, na epígrafe do «Ensaio sobre a cegueira», recorda: «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara». Natal é tempo de reparar, «de ‘tomar conta da Palavra para que Ela tome conta de nós’. A Palavra com letra maiúscula ou, se preferirmos, o Verbo que se fez homem e veio habitar connosco. O nascimento de Cristo significa, por isso, o apelo a uma palavra diferente da nossa parte. Uma palavra vinculada a Cristo, inspirada nos gestos e nas ações que Ele realizou, uma palavra que seja testemunho para a sociedade» (Mensagem de Natal do Arcebispo). Entre os gestos realizados por Jesus Cristo destaca-se a forma como olha cada pessoa. «No olhar de Jesus, encontramos o olhar amoroso de Deus que anda à procura do Homem nos sítios mais improváveis, para transformar o seu coração. […] Jesus é o protagonista, é sua a iniciativa, mesmo que o motivo seja a nossa cegueira, a nossa maneira de viver ou de interpretar este instante». Jesus «Cristo é o terapeuta do olhar. Estende-nos a ponte para passarmos do ver ao contemplar e do simples olhar à visão da fé».

© Laboratório da fé, 2014



Volta a olhar o homem pela primeira vez

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.12.14 | Sem comentários

VOLTA A OLHAR O MUNDO PELA PRIMEIRA VEZ


A Liturgia não é uma mera repetição de rubricas que recordam a progressiva revelação de Deus e a sua ação salvadora ao longo dos tempos. Como acontece em cada dia da nossa existência, também a celebração litúrgica nos abre à novidade do presente, um presente de graça sempre nova e renovada. O Advento também é para nós, hoje, homens e mulheres do século vinte e um, com a vantagem de já sabermos que a espera teve o seu pleno cumprimento em Jesus Cristo. Sabemos que Deus se implicou na vida concreta da Humanidade, representada pelo povo de Israel, no Antigo Testamento. E continua a implicar-se, hoje, na vida de cada homem e mulher. Os acontecimentos históricos não estão fora do olhar de Deus e da sua maneira amorosa de agir. Por isso, no Advento, é preciso assinalar não só a esperança da vinda do Messias ao povo de Israel do Antigo Testamento, mas a sua vinda ao nosso momento atual. Neste sentido, propomos um Advento sob o signo do «olhar», mergulhados na «mística do instante»: «A mística do instante pede para tomarmos (mais) a sério a nossa humanidade como narra­tiva de Deus que ‘vive neste mundo’» (José Tolentino Mendonça).

Advento: volta a olhar o mundo pela primeira vez

Isaías evoca a presença contínua de Deus na história: recorda que Deus já «desceu» em outras ocasiões históricas do povo de Israel; e continua a fazê-lo, a «descer» à nossa vida. A história humana tem como primeiro protagonista o próprio Deus; embora se trate dum protagonismo partilhado, pois Deus quer precisar do ser humano para exercer o seu protagonismo. Deus quer fazer-se — se é permitido dizê-lo assim — cada vez mais próximo da nossa vida; e nada nem ninguém o fará mudar de atitude.
O profeta reconhece a iniciativa primordial e única de Deus: «Nunca […] os olhos viram que um Deus, além de Vós, fizesse tanto em favor dos que n’Ele esperam» (Isaías 63, 3). Então, o Advento dá-nos a esperança de que os factos fundamentais da memória de Israel serão novamente atualizados no presente. Assim, desafia-nos a centrar o nosso olhar em tudo o que de bom e de belo Deus continua a fazer no mundo, quando as pessoas se deixam guiar pelo seu Espírito Santo. Por isso, o Advento é também tempo de balanço: olho para o que fiz de bom e de belo ao longo do ano; procuro descobrir como Deus se fez e se faz presente nas minhas vivências concretas, nos instantes que me são dados viver. «Um exercício espiritual importante é percorrermos nós, com o nosso olhar, a criação, a nossa e a do mundo, ao encontro do olhar maravilhado de Deus». Pode ser necessário mudar de atitude, mudar de espiritualidade, mudar de vida, mudar de «lente», «olhar a porta entreaberta do instante».
Chegou a hora de concentrar os nossos esforços no sentido de experienciar «uma espiritualidade que encare os sentidos como caminho que conduz e porta que nos abre ao encontro de Deus». E mais: «Se acreditamos que é com olhos de amor que Deus nos olha, então confiaremos também que os seus olhos partem em busca dos nossos». «E pensar naquilo que Marcel Proust escreveu: ‘A verdadeira viagem de descoberta não consiste em buscar novas paisagens, mas em adquirir um novo olhar’». Quando o ser humano «volta a olhar o mundo pela primeira vez» fica a «saber de que cor são os sonhos de Deus».

Laboratório da Fé vivida

«A fé é uma grande escola do olhar». E «a vida é o imenso laboratório para a atenção, a sensibilidade e o espanto que nos permite reconhecer em cada instante, por mais precário e escasso que seja, a reverberação de uma fantástica presença: os passos do próprio Deus». A fé vivida é uma questão de abrir os olhos. «Isto de abrir os olhos para a vida é muito importante. E é muito raro. […] Ora, é preciso abrir os olhos para que o medo dê lugar à alegria» em viver a fé. Além disso, «a visão torna o mundo uma janela, mas percebemos que há outras dimensões igualmente fulcrais do olhar. A começar pela dimensão da reflexividade [...]. O olhar é fundamental para celebrarmos o encontro connosco próprios e com os outros. [...] De modo semelhante, o olhar é essencial para nos lançarmos na aventura da procura de sentido para a vida». Em cada semana, propomos orientar o nosso olhar ao ritmo de uma palavra: descoberta, pão, alegria, encontro. «Como se opera em nós a transformação do olhar? — é o que deveríamos perguntar» ao longo deste Advento.

© Laboratório da fé, 2014


Volta a olhar o mundo pela primeira vez
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.11.14 | Sem comentários

Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia [1]


«Estamos na terceira etapa do nosso plano pastoral. A fé professada e celebrada continua em fé vivida, isto é, a fé transforma-se em vida e transforma a nossa vida. Orienta-nos o desejo de alcançarmos o fruto da unidade profunda entre a fé e a caridade. […] Está em causa a capacidade de ‘reaprender a gramática elementar da caridade’, cujo fio condutor se encontra na prática das obras de misericórdia: dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede; vestir os nus; dar pousada aos peregrinos; assistir os doentes; visitar os presos; sepultar os mortos; dar bons conselhos; ensinar os ignorantes; corrigir os que erram; consolar os tristes; perdoar as injúrias; suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo; rezar a Deus por vivos e defuntos» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga para 2014+15).

Ser misericordiosos

Jesus Cristo, no evangelho segundo Lucas, no contexto das bem-aventuranças, apresenta a «regra de ouro» que consiste em amar a todos, inclusive os inimigos; e acrescenta: «Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso» (Lucas 6, 36). Mais do que uma ordem, estas palavras de Jesus são a revelação de uma possibilidade: elas atestam a possibilidade do ser humano participar da misericórdia de Deus, ou seja, de dar vida, de mostrar ternura e amor, de perdoar, de co-sofrer com quem sofre, de sentir a unicidade do outro e de lhe estar próximo, de suportar o outro e de ter paciência com a sua lentidão e as suas incapacidades.
Em várias passagens do Antigo Testamento, Deus é designado como «misericordioso e compassivo» — esse é o seu nome: «Deus misericordioso e clemente, vagaroso na ira, cheio de bondade e de fidelidade» (Êxodo 34, 6); «És um Deus misericordioso e compassivo, paciente e grande em bondade e fidelidade» (Salmo 86, 15); «O SENHOR é misericordioso e compassivo, é paciente e cheio de amor» (Salmo 103, 8); «O SENHOR é bondoso e compassivo» (Salmo 111, 4). Ora, no Novo Testamento, Jesus Cristo, através da sua maneira de ser e de viver, apresenta-se como o rosto humano de Deus, isto é, da sua misericórdia e compaixão: «Compadecido, Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: «Quero, fica purificado» (Marcos 1, 41); «Jesus viu uma grande multidão e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor» (Marcos 6, 34); «O Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: «Não chores» (Lucas 7, 13). O discípulo, cada um de nós, seguindo o Mestre, pela fé e pelo amor, também pode viver a misericórdia e a compaixão. Eis o caminho para alcançar o fruto de uma unidade profunda entre a fé e a caridade!

Viver a misericórdia

Na Bíblia, a misericórdia não é apenas uma emoção, um sentimento perante o sofrimento do outro: ela nasce como ressonância aguda do sofrimento do outro dentro de mim mas, depois, torna-se ética, práxis e virtude. É o que acontece com o samaritano da parábola, que faz tudo o que está ao seu alcance para aliviar concretamente os sofrimentos daquele homem deixado moribundo à beira do caminho: «‘E quem é o meu próximo?’. Tomando a palavra, Jesus respondeu: ‘Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: “Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar”. Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?’. Respondeu: ‘O que usou de misericórdia para com ele’. Jesus retorquiu: ‘Vai e faz tu também o mesmo’» (Lucas 10, 29-37). A misericórdia deve ser feita: «Vai e faz tu também o mesmo» — diz Jesus Cristo ao doutor da Lei, a quem contou a parábola do samaritano. Assim, os discípulos ficam a conhecer a vontade de Deus; e também sabem como eles próprios devem querê-la e praticá-la: seguindo as pegadas de Jesus Cristo e aprendendo com Ele, que é «manso e humilde de coração» (Mateus 11, 29).

As obras da fé

Ser misericordiosos e viver a misericórdia concretiza-se no mandamento do amor apresentado por Jesus Cristo. Este amor só pode ser concreto e visível, efetivo e não simplesmente afetivo, operante e prático, e não só íntimo e inexpressivo. A Carta de Tiago é muito clara ao recordar que a fé sem obras está «completamente morta»: «De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: ‘Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome’, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta. Mais ainda: poderá alguém alegar sensatamente: ‘Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me então a tua fé sem obras, que eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha fé» (Tiago 2, 14-18).
O Antigo Testamento já tinha enumerado algumas das obras visíveis da caridade, que constituem atos de libertação do pobre e do necessitado: «repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus» (Isaías 58, 7).
O Novo Testamento encontra, na página do Juízo Universal de Mateus (25, 31-46), uma exemplificação e uma lista de seis gestos de caridade que, se forem feitos a um pobre, a um pequeno, são feitos, de facto, ao próprio Jesus Cristo: «Tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo».

As obras de misericórdia

A elaboração doutrinal de uma «lista» das obras de misericórdia, que hoje conhecemos como expressões da unidade profunda entre a fé e a caridade, longe de querer esgotar as possibilidades da misericórdia, deve ser acolhida como um desafio à criatividade crente no concreto da história, para que a caridade não seja apenas um gesto «bom», mas também «profético». Só desta forma se poderá dizer que na raiz das obras de misericórdia está presente o rosto do Deus misericordioso e a necessidade do ser humano: elas nascem da experiência do amor de Deus e cumprem o mandamento do amor ao próximo.
Como vimos, são vários os fundamentos bíblicos para a elaboração de uma «lista» com as «obras de misericórdia materiais», tal como as designamos hoje.
As «obras de misericórdia espirituais» devem ter surgido a partir da interpretação alegórica do capítulo 25 de Mateus por parte de Orígenes: as obras aí indicadas têm um valor «material», mas também «espiritual».
Entre outros escritos, esta dupla dimensão material e espiritual das obras de misericórdia é expressa por Santo Agostinho através do binómio «dar e perdoar: dar dos bens que possuis e perdoar os males que sofres» .
Uma lista definitiva das obras de misericórdia não é confirmada até ao fim do primeiro milénio: provavelmente, só no século doze assistimos à fixação de uma lista estereotipada de sete obras de misericórdia, as chamadas corporais (seis do capítulo 25 de Mateus, mais a sepultura dos mortos referida no livro de Tobias: «Durante o reinado de Sal­manasar, eu dava muitas es­molas aos meus irmãos, forne­cen­do pão aos esfomeados e vestindo os nus, e se encontrava morto al­guém da mi­nha linhagem, atirado para junto dos muros de Nínive, dava-lhe sepul­tura. Enterrei também aque­­­les que Senaquerib mandara matar, quando regressou, fugindo da Ju­deia, du­rante o tempo do castigo que o rei do céu mandou sobre os que blas­fe­ma­vam. De facto, na sua ira, o rei man­dou matar a muitos. Eu, então, rou­bava os corpos para os sepultar. Depois, quando o rei procurava os corpos, não os conseguia encontrar» [Tobite 1, 16-18]), à qual se somará — com certeza pelo menos a partir de Tomás de Aquino — a lista das sete obras de misericórdia espirituais. Aliás, é bem conhecido o fascínio exercido pelo número sete e pelos septenários sobre o espírito do homem medieval, a ponto de a Idade Média ter celebrado «o triunfo do sete» : «O sete é símbolo de ordem e de totalidade, síntese quase mágica de unidade e de multiplicidade» . Com o septenário, a multiplicidade das obras de misericórdia fica de certo modo sintetizada e dotada de unidade. Ainda na Idade Média, a par do septenário, desenvolve-se um sistema binário pelo qual, por exemplo, aos sete pecados se associam sete virtudes, muitas vezes descritas de modo correspondente e paralelo aos pecados.

© Laboratório da fé, 2014 
Este texto foi elaborado a partir da obra de Luciano Manicardi intitulada «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’» (páginas 61 a 75) publicada em português pelas edições Paulinas





Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.10.14 | Sem comentários

Reflexão mensal sobre as obras de misericórdia


«Uma unidade profunda entre a fé e a caridade» — este «fruto esperado» para este ano pastoral servirá de mote para uma reflexão mensal sobre as obras de misericórdia. «Está em causa a capacidade de ‘reaprender a gramática elementar da caridade’, cujo fio condutor se encontra na prática das obras de misericórdia» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga para 2014+15).

  • Em outubro, o tema será «a tradição das obras de misericórdia» tendo por base a obra de Luciano Manicardi, «A caridade dá que fazer: Redescobrindo a atualidade das ‘obras de misericórdia’», publicada em português pelas edições Paulinas. 
Nos meses seguintes, duas obras de misericórdia (uma material e uma espiritual), a saber: 
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.10.14 | Sem comentários

Reflexão semanal sobre Doutrina Social da Igreja


«Viver a fé!» — é o título geral da iniciativa que se vai desenvolver em quarenta e duas reflexões sobre a «fé vivida», no sentido de «aprofundar os conteúdos da Doutrina Social da Igreja». As reflexões, elaboradas a partir do Compêndio da Doutrina Social da Igreja, vão ser publicadas, no «Laboratório da fé», ao ritmo de uma por semana, até finais de julho de dois mil e quinze.


Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.10.14 | Sem comentários
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