Mostrar mensagens com a etiqueta Tempo Comum. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tempo Comum. Mostrar todas as mensagens

SABOREAR A PRESENÇA DE DEUS


«A Bíblia é para comer» — escreve José Tolentino Mendonça, numa das notas que compõem a segunda parte da obra «A mística do instante» (ed. Paulinas). Saborear Deus! Saborear a Bíblia, palavra de Deus! Eis o «sentido» que propomos para os domingos do «Tempo Comum». O facto de, em português, assumir a designação de «comum» não significa que se trata de um tempo «fraco» (em contraponto com os chamados tempos «fortes»), pelo contrário é um «tempo fortíssimo» (Mario Chesi). O itinerário que propomos consiste em aprimorar o paladar, em fazer um «MasterChef» da saborosa presença de Deus na vida de cada ser humano. «Um grande mestre e pedagogo brasileiro, Rubem Alves [faleceu o ano passado], dizia que a coisa mais importante é a cozinha. Um professor, antes de levar o aluno para a sala, devia fazê-lo passar pela cozinha. A cozinha não dá o alimento, dá o desejo. O paladar não é uma máquina de satisfação, é uma máquina de criar desejo» (José Tolentino Mendonça), criar desejo de Deus!

Tempo Comum: saborear Deus

Um dos aspetos mais significativos do Ano Litúrgico é sua dinâmica contemplativa: em primeiro lugar, centra-se na vida de Jesus Cristo; em segundo lugar, envolve-nos na vida de um povo com o qual Deus preparou a realização desses acontecimentos. Vamos (continuar a) concentrar a nossa atenção neste segundo aspeto, apoiados nos textos bíblicos da primeira leitura de cada domingo. Mas sem deixar de lado o primeiro, até porque as primeiras leituras (ao domingo) procuram «um ato, uma profecia ou um ensinamento do Antigo Testamento que tenha relação com o evangelho que se lerá e nos prepare um pouco para o escutar. Às vezes, como são pedaços curtos e como não estamos, porventura, muito formados no conhecimento do Antigo Testamento, estas primeiras leituras passam um pouco despercebidas. Se temos tempo e vontade, pode ser bom procurá-las na Bíblia e ler a passagem anterior e posterior, com as notas de pé de página que possa haver, e assim ficaremos mais inteirados e passaremos a conhecer um pouco melhor os livros do Antigo Testamento» (Josep Lligadas, «Celebrar o Ano Litúrgico», ed. Paulinas).
Acompanhar a vida dum povo, através dos textos proclamados na primeira leitura de cada domingo, permite-nos saborear cada palavra e cada gesto para neles descobrir o sabor de Deus, não só nesses acontecimentos narrados, mas também na nossa própria história. «Quando é que saboreamos? Quando detemos o mero exercício de devoração do mundo; quando se introduz uma lentidão interior; quando contemplamos com as papilas gustativas; quando o nosso corpo contempla; quando, todo concentrado, ele observa, surpreende-se, avizinha, entreabre o segredo, deixa essa espécie de epifania revelar-se. O sabor é sempre uma forma de intimidade que supõe o contacto profundo» (José Tolentino Mendonça).
A meta é compreendermos que «o paladar não é indiferente ao amor de Deus como não é de todo indiferente a qualquer amor. Deus saboreia-se, Deus é sabor». Ora, «o sabor não é uma coisa que possuímos exteriormente; é, como em todas as experiências que requerem uma arte de ser, uma coisa em que nos tornamos».

Laboratório da Fé vivida

«O sabor revela, ilumina, dissemina-se por dentro de nós até tornar-se vida». A sequência dos domingos «durante o ano» (interrompida pelos tempos de Quaresma e Páscoa) é um tempo adequado para fazermos o exercício de saborear calmamente a presença de Deus na nossa vida. Calmamente, pois «sem lentidão não há paladar. Talvez precisemos, por isso, de voltar a essa arte tão humana que é a lentidão. Os nossos estilos de vida parecem irremediavelmente contaminados por uma pressão que não dominamos; não há tempo a perder; queremos alcançar as metas o mais rapidamente que formos capazes; os processos desgastam-nos, as perguntas atrasam-nos, os sentimentos são um puro desperdício: dizem-nos que temos de valorizar resultados, apenas resultados. […] Uma alternativa será porventura resgatar a nossa relação com o tempo. Por tentativas, por pequenos passos. Ora, isso não acontece sem um abrandamento interno. […] A lentidão anota os pequemos tráficos de sentido, o manuseamento diversificado da luz, as trocas de sabor».

© Laboratório da fé, 2015


Tempo Comum, Ano B, Ano Pastoral 2014'15

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.1.15 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


Ezequiel (nome que se pode interpretar como: «Deus fortaleça») é sacerdote e, ao mesmo tempo, profeta. [A leitura do livro de Ezequiel decorre durante duas semanas: décima nona e vigésima, nos anos pares]. Escreve durante o período difícil e dramático do exílio de Babilónia, que teve início em 597 antes de Cristo, dez anos antes da segunda deportação, que verá também a destruição de Jerusalém e do seu Templo. A sua pregação coloca-se entre 593 (cf. 1, 2) e 571 (cf. 29, 17) e não pode ser entendida se não for considerada em estreita relação com os factos históricos vividos pelo povo nesse momento. Deportado com o primeiro grupo de exilados, Ezequiel escreve para aqueles que se encontram no exílio, mas também para aos que ficaram na Pátria (há oráculos que parecem ser dirigidos precisamente a estes). Antes da destruição de Jerusalém, as suas palavras são de dura condenação, na tentativa de levar os seus compatriotas, que permaneceram no País, a compreender que as consequências das suas ações podem ser desastrosas. Depois de o pior ter acontecido e após ter feito luto e silêncio, a situação mudou radicalmente: o exílio parece nunca mais acabar e o desespero parece crescer. É então que Ezequiel se torna arauto de esperança e anuncia um novo começo, que será obra do próprio Deus. Ele purificará o seu Povo, reuni-lo-á e fá-lo-á regressar à Pátria. Castigará os pastores que não cuidaram do rebanho e Ele mesmo se preocupará com as ovelhas dispersas.
Esquematicamente podemos dividir o Livro de Ezequiel em três partes:
  • capítulos 1–24: com a narração da vocação e da missão (capítulos 1-3, que na verdade constituem um prelúdio a todo o Livro) e as palavras de censura e de condenação contra Judá antes da queda de Jerusalém;
  • capítulos 25–32: contêm – elemento presente em todos os profetas – oráculos de juízo e de condenação contra as nações estrangeiras;
  • capítulos 33–48: o anúncio de salvação para Judá, depois da queda de Jerusalém. Para maior precisão, esta última parte pode, por sua vez, subdividir-se em três partes: capítulos 33–37: contêm o anúncio da salvação que virá; capítulos 38-39: textos apocalípticos respeitantes à destruição dos inimigos de Israel; capítulos 40–48: a reconstrução do Templo de Jerusalém.
Das palavras de Ezequiel sobressaem a veemência e a paixão do profeta, a sua dor de sacerdote pela má sorte da Cidade Santa e do seu Templo, mas sobretudo a angústia e as esperanças de um homem, filho de um povo cujo caminho de dor e de esperança partilha.

© Tiziano Lorenzin | Editora Paulus
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do editor



  • Ano Litúrgico: ano cristão — textos publicados no Laboratório da fé > > >



Laboratório da fé celebrada, 2014



A Editora Paulus traduziu e publicou (em 2010) uma obra italiana com comentários aos textos bíblicos proclamados nas celebrações eucarísticas. No volume dedicado às primeiras semanas do Tempo Comum («Leccionário Comentado. Regenerados pela Palavra de Deus. Volume 1: Tempo Comum. Semanas I-XVII» — organização de Giuseppe Casarin) faz uma breve apresentação das primeiras semanas do «Tempo Comum» e dos textos bíblicos propostos na Liturgia. A coleção está estruturada à maneira da «lectio divina», acompanhando progressivamente todo o ano litúrgico nos seus tempos fortes, nas suas festas mas também nos dias feriais, todas as vezes que a comunidade cristã é convocada para celebrar a Cristo presente na Palavra e no Pão eucarístico.



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.8.14 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


A Editora Paulus traduziu e publicou (em 2010) uma obra italiana com comentários aos textos bíblicos proclamados nas celebrações eucarísticas. No volume dedicado às primeiras semanas do Tempo Comum («Leccionário Comentado. Regenerados pela Palavra de Deus. Volume 1: Tempo Comum. Semanas I-XVII» — organização de Giuseppe Casarin) faz uma breve apresentação das primeiras semanas do «Tempo Comum» e dos textos bíblicos propostos na Liturgia. A coleção está estruturada à maneira da «lectio divina», acompanhando progressivamente todo o ano litúrgico nos seus tempos fortes, nas suas festas mas também nos dias feriais, todas as vezes que a comunidade cristã é convocada para celebrar a Cristo presente na Palavra e no Pão eucarístico.

A partir de quarta-feira da décima sexta semana (Ano Par) até quinta-feira da décima oitava semana (Ano Par) a liturgia propõe alguns dos textos mais significativos do Livro de Jeremias (primeira leitura).
O profeta Jeremias viveu entre o século VII e os primeiros decénios do século VI antes de Cristo, durante um dos períodos mais complexos da história de Jerusalém. O começo da sua atividade está colocado sob o reinado de Josias, inspirador de uma importante reforma religiosa destinada a reconduzir o povo à fé no Senhor, abandonando toda a forma de idolatria. A essa época poderia então remontar a vocação do profeta, narrada no primeiro capítulo do Livro.
A esperança que surgiu durante o reinado de Josias acabou depressa, devido à ação militar do babilónio Nabucodonosor que submeteu grande parte das regiões do Médio Oriente, chegando a cercar e a conquistar Jerusalém, deportando os seus habitantes. Estes dramáticos acontecimentos históricos refletem-se na profecia de Jeremias, o qual vê nos Babilónios o instrumento do castigo de Deus contra os pecados do povo. Os seus oráculos e as ações simbólicas que frequentemente os acompanham, têm por tema a denúncia de uma idolatria cada vez maior, manifestada não só no culto de outras divindades, como ainda numa praxe injusta, baseada em falsas seguranças alimentadas pela riqueza, pelo poder e pela palavra dos profetas mentirosos (cf. a leitura litúrgica das passagens extraídas dos capítulos 2; 7; 13; 18).
Jeremias dirige ao povo que abandonou o Senhor um apelo angustiado com termos duros, para que se converta, se não quer incorrer na pena que, ele prevê, ser realizada no exílio de Babilónia (cf. capítulos 3; 14; 26). A sua pregação encontrou a oposição do rei Joaquim e de outros profetas da corte, os quais procuraram fazê-lo calar de muitos modos. São testemunho desta reação as chamadas «confissões» (a liturgia propõe as dos capítulos 15 e 18), nas quais o profeta, com sinceridade e rebelião, denuncia a Deus as perseguições sofridas. Junto com a denúncia da idolatria, com a ameaça do castigo e com a acusação dos adversários, Jeremias anuncia ao povo no exílio a ação que o Senhor realizará em seu favor, a Nova Aliança, o dom gratuito que permitirá a Israel ser de novo fiel ao seu Deus (cf. capítulos 30; 31).

© Grazia Papola | Editora Paulus
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do editor



  • Ano Litúrgico: ano cristão — textos publicados no Laboratório da fé > > >



Laboratório da fé celebrada, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.7.14 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


A Editora Paulus traduziu e publicou (em 2010) uma obra italiana com comentários aos textos bíblicos proclamados nas celebrações eucarísticas. No volume dedicado às primeiras semanas do Tempo Comum («Leccionário Comentado. Regenerados pela Palavra de Deus. Volume 1: Tempo Comum. Semanas I-XVII» — organização de Giuseppe Casarin) faz uma breve apresentação das primeiras semanas do «Tempo Comum» e dos textos bíblicos propostos na Liturgia. A coleção está estruturada à maneira da «lectio divina», acompanhando progressivamente todo o ano litúrgico nos seus tempos fortes, nas suas festas mas também nos dias feriais, todas as vezes que a comunidade cristã é convocada para celebrar a Cristo presente na Palavra e no Pão eucarístico.

Aquele que na ordem cronológica é o segundo profeta «escritor» da Bíblia, Oseias, está presente no ciclo litúrgico do Tempo Comum (primeira leitura, anos pares) com cinco textos antológicos, distribuídos entre a segunda e a sexta-feira da XIV semana, que constituem uma espécie de amostra da sua pregação.
Tendo vivido, como Amós, no oitavo século antes de Cristo, no reino do Norte, próspero e iníquo, Oseias desempenhou o seu ministério cerca do ano de 750 antes de Cristo. Sabemos bem pouco da sua atividade, como também das suas origens e das suas condições; o que conhecemos bem, pela sua própria declaração apaixonada e apaixonante, é o seu drama familiar. Oseias está casado com Gomer, uma mulher que exerce a prostituição sagrada nos ritos pagãos, da qual teve três filhos que têm nomes de maldição: «Yzreel» («Deus semeou»), o nome da amena localidade que, embora de bom augúrio, se torna símbolo de crueldade devido ao assassínio de Nabot, idealizado por Jezabel e pelo extermínio da casa de Acab, perpetrado por Jeú; «Lo’-ruchamah» («Não-amada») e «Lo’-ammi» («Não-meu-povo»), que exprimem a renegação do amor e da Aliança da parte de Deus.
Oseias lê na sua vida o drama do amor ferido, ou seja, do amor de Deus pelo seu Povo infiel, que é o amor tenaz e incapaz de ceder perante a traição. Assim, o profeta traz à linguagem bíbli­ca uma novidade extraordinária: a utilização da linguagem do amor esponsal para representar a Aliança de Deus com o povo.

© Anna Maria Giorgi | Editora Paulus
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do editor



  • Ano Litúrgico: ano cristão — textos publicados no Laboratório da fé > > >



Laboratório da fé celebrada, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.7.14 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


A Editora Paulus traduziu e publicou (em 2010) uma obra italiana com comentários aos textos bíblicos proclamados nas celebrações eucarísticas. No volume dedicado às primeiras semanas do Tempo Comum («Leccionário Comentado. Regenerados pela Palavra de Deus. Volume 1: Tempo Comum. Semanas I-XVII» — organização de Giuseppe Casarin) faz uma breve apresentação das primeiras semanas do «Tempo Comum» e dos textos bíblicos propostos na Liturgia. A coleção está estruturada à maneira da «lectio divina», acompanhando progressivamente todo o ano litúrgico nos seus tempos fortes, nas suas festas mas também nos dias feriais, todas as vezes que a comunidade cristã é convocada para celebrar a Cristo presente na Palavra e no Pão eucarístico.

O Livro de Amós, do qual leremos nesta semana [décima terceira semana] seis textos (primeira leitura, anos pares), constitui uma compilação de oráculos do mais antigo profeta «escritor», um dos doze profetas menores do cânone bíblico.
Tendo vivido no século VIII antes de Cristo, Amós exerceu o ministério profético no próspero e populoso reino do Norte, separado política e religiosamente de Jerusalém dois séculos antes, e governado até perto de 760 antes de Cristo pelo rei Jeroboão II. Amós, simples vaqueiro e incisor de sicómoros (cortavam-se os sicómoros para lhes extrair o suco amargo e amarelo e os tornar assim comestíveis para o gado), denuncia violentamente o grande pecado de Israel: a injustiça social, que desfigura a relação com o homem, tão grave como o pecado de idolatria, que desfigura a relação com Deus.
O Livro de Amós começa com uma série de sete oráculos «contra as nações» (1, 3 – 2, 5), culminando com um oitavo oráculo contra Israel (2, 6-15). Seguem-se outros oráculos (3, 1 – 6, 14) e visões (7, 1 – 9, 10). O tom do livro, muito sombrio, só ganha luz no final com uma promessa de salvação e de restauração para a casa de David (9, 11-15).

© Anna Maria Giorgi | Editora Paulus
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do editor



  • Ano Litúrgico: ano cristão — textos publicados no Laboratório da fé > > >



Laboratório da fé celebrada, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.6.14 | Sem comentários

VOU FAZER DE TI A LUZ DAS NAÇÕES


A segunda parte do Tempo Comum começa na segunda-feira a seguir ao Pentecostes (último dia de Páscoa) e prolonga-se até ao sábado da trigésima quarta semana (dia anterior ao primeiro domingo de Advento). Contudo, o ritmo dominical é «perturbado» pelas solenidades da Santíssima Trindade, Corpo e Sangue de Cristo e, neste ano, São Pedro e São Paulo. Desta forma, apesar de, no ritmo ferial, já se estar a viver o Tempo Comum, a verdade é que a celebração contínua do domingo só é retomada com a liturgia do décimo quarto domingo (primeiro domingo de julho). Entretanto, a nossa caminhada será alterada com um novo ano pastoral (dedicado à fé vivida) a partir do primeiro domingo de outubro (vigésimo sétimo domingo). É, agora, o momento para retomar a proposta do «Laboratório da fé» apresentada na primeira parte do Tempo Comum: «Vou fazer de ti luz a luz das nações»!

Tempo Comum: vou fazer de ti a luz das nações!

Uma palavra luminosa com um envio missionário: «Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra». Deixemo-la ecoar dentro de nós e não hesitemos em «mastigá-la» para a saborear e para nos deixarmos alimentar por ela. Esta é a nossa missão! O momento presente é uma extraordinária oportunidade para ser «luz das nações», para ser um ponto de luz a apontar a salvação que Deus nos oferece através de Jesus Cristo. «O grande problema surge quando a luz (cristãos) se recusa iluminar em casa, no local de trabalho ou nos momentos de lazer. O problema surge quando queremos esconder a luz que já está em nós (isso é insanidade e acabará por queimar-nos), ou quando aceitamos iluminar mas de uma forma tímida. A Luz deve iluminar ousadamente! Essa é a identidade do cristão» (Cláudia NG Deep, «Sal e luz. Viver em assertividade», Paulus Editora, Lisboa 2010, 20).
Um dos obstáculos ao desafio a ser «luz das nações» é a rotina, o hábito. Mas é o que fazemos por rotina, por hábito, que configura o nosso caráter, a nossa identidade. Aquilo em que realmente acreditamos, que habita o nosso coração, é o que fazemos em cada dia. É o que realizamos dia a dia, o nosso modo de agir quotidiano, que nos faz simpáticos, afáveis, amigos, coerentes, cristãos. Não tenhamos dúvida: é a nossa rotina, os nossos hábitos, que definem o nosso ser. Por isso, este tempo que nos é dado viver não tem nada de «comum»: é também um «tempo forte» para continuar a olhar o mundo com os olhos de Jesus Cristo; é um tempo para deixar que as propostas da Páscoa se tornem ainda mais claras.
«A fé nasce do encontro com o amor gerador de Deus que mostra o sentido e a bondade da nossa vida; esta é iluminada na medida em que entra no dinamismo aberto por este amor, isto é, enquanto se torna caminho e exercício para a plenitude do amor. A luz da fé é capaz de valorizar a riqueza das relações humanas, a sua capacidade de perdurarem, serem fiáveis, enriquecerem a vida comum» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «A luz da fé» — LF], 51). Completamos o itinerário com as reflexões apresentadas no segundo e quarto capítulos da Carta Encíclica sobre a fé. Assim, concluímos a leitura do referido documento conscientes de que «como luz que é, a fé convida-nos a penetrar nela, a explorar sempre mais o horizonte que ilumina, para conhecer melhor o que amamos» (LF 36).

Laboratório da Fé celebrada

«O Ano Litúrgico constitui o alimento principal e a melhor pedagogia para crescer na incorporação em Cristo» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga). Domingo após domingo, luz após luz, respondemos ao convite que o Senhor Jesus Cristo nos faz para estar com ele e com as irmãs e os irmãos que celebram a mesma fé. «Além disso, como boa parte deste tempo coincide com o verão, pode acontecer que este encontro dominical o façamos com gente de outros lugares, porque vamos de férias ou porque, onde vivemos, chegam turistas e veraneantes, e isto faz-nos experimentar que esta convocatória abarca gente muito diversa, crente como nós» (Josep Lligadas, «Celebrar o Ano Litúrgico», Paulinas, Lisboa 2001, 51). Por outro lado, esta época assume condições propícias para potenciar o tempo de oração, de encontro com Deus: «Tomar consciência da presença de Deus que nos habita, descobrir a sua ação em nós» (Programa Pastoral).

© Laboratório da fé, 2014

Vou fazer de ti a luz das nações

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.6.14 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


A Editora Paulus traduziu e publicou (em 2010) uma obra italiana com comentários aos textos bíblicos proclamados nas celebrações eucarísticas. No volume dedicado às primeiras semanas do Tempo Comum («Leccionário Comentado. Regenerados pela Palavra de Deus. Volume 1: Tempo Comum. Semanas I-XVII» — organização de Giuseppe Casarin) faz uma breve apresentação das primeiras semanas do «Tempo Comum» e dos textos bíblicos propostos na Liturgia. A coleção está estruturada à maneira da «lectio divina», acompanhando progressivamente todo o ano litúrgico nos seus tempos fortes, nas suas festas mas também nos dias feriais, todas as vezes que a comunidade cristã é convocada para celebrar a Cristo presente na Palavra e no Pão eucarístico.

Dentro do Tempo Comum estão colocadas algumas solenidades do Senhor: Santíssima Trindade; Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo; Sagrado Coração de Jesus; Cristo Rei do Universo; e quatro solenidades da Virgem Maria e dos santos: Assunção da Virgem Santa Maria; Nascimento de São João Batista; São Pedro e São Paulo; Todos os Santos. A elas devem acrescentar-se as festas do Senhor que, se ocorrerem num domingo, têm a primazia sobre os domingos do Tempo Comum. São elas: a Apresentação do Senhor; a Exaltação da Santa Cruz; a Dedicação da Basílica de Latrão.
Deve ainda realçar-se, como ponto negativo, que com as celebrações dessas solenidades e festas em dia de domingo, é interrompida a leitura continuada do Evangelho, para extrair dele um texto que serve para evidenciar o mistério (no melhor dos casos) ou o tema celebrado.
A propósito da celebração de solenidades e festas, que não pertencem aos grandes ciclos do Ano Litúrgico, deve ainda ter-se presente aquilo que é o objeto próprio da celebração litúrgica. A liturgia não celebra ideias, verdades dogmáticas, temas teológi­cos, devoções particulares, mas celebra acontecimentos salvíficos verificados na História. Recorda algo que aconteceu na História da Salvação, de modo que a salvação presente no acontecimento celebrado possa marcar a assembleia celebrante. Compreende-se assim que certas festas que apareceram na Idade Média, tempo em que não se tinha uma consciência do domingo enquanto dia do Senhor, correm o risco de não estar em uníssono com uma ce­lebração litúrgica correta, de serem vividas não como celebração de um acontecimento salvífico, mas antes de uma ideia, de uma verdade de fé ou de uma devoção.
Como exemplo típico pode citar-se a Festa do «Corpus Domini» [Corpo de Deus] que se desenvolveu no século XIII, a partir da devoção à Sagrada Eucaristia independentemente da celebração. Quer celebrar-se uma verdade: a presença do Senhor Jesus Cristo na Hóstia consa­grada. No entanto, estamos bem longe daquilo que é celebrado na Quinta-Feira Santa, onde a atenção não é colocada numa verdade, mas naquilo que Jesus fez na Última Ceia. Ora, é preciso colocar a atenção não apenas na «presença real»; os textos do Lecionário podem ajudar muito neste ponto.
Sabendo que o Ano Litúrgico é antes de mais a celebração do mistério de Cristo, assinalado pelo domingo, no interior dele po­dem encontrar lugar também as festas dos santos, enquanto eles realizaram nas suas vidas o mistério pascal. São aqueles que so­freram com Cristo e com Ele são glorificados. Porém, é preciso recordar também que as festas dos santos não devem «prevalecer sobre as festas que recordam os mistérios da Salvação» (SC [Constituição Dogmática sobre a Sagrada Liturgia — «Sacrosanctum Concilium»] 111). Isto vale, de igual forma, para outras festas.
De entre os muitos tem um lugar preeminente a Virgem Maria, Mãe de Jesus, como afirma SC 103: «Na celebração deste ciclo anual dos mistérios de Cristo, a santa Igreja venera com especial amor a bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, em quem vê e exalta o mais excelso fruto da Redenção». Se a celebração litúrgica é celebração da obra salvífica de Cristo, Aquela que esteve indissoluvelmente unida a essa obra não poderá deixar de ser objeto da sua celebração.

© Mario Chesi | Editora Paulus
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do editor



  • Ano Litúrgico: ano cristão — textos publicados no Laboratório da fé > > >



Laboratório da fé celebrada, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.6.14 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


O Secretariado de Liturgia da diocese do Porto, num artigo do jornal «Voz Portucalense» (15 de janeiro de 2014) destaca a importância do «Tempo Comum»: «começa na segunda-feira a seguir ao domingo que ocorre depois do dia 6 de janeiro e prolonga-se até à terça-feira antes da Quaresma inclusive; retoma-se na segunda-feira a seguir ao domingo do Pentecostes e termina antes das Vésperas I do domingo I do Advento». Em latim a designação é «per annum»; algumas línguas traduziram por «ordinário»; em português preferiu-se o vocábulo «comum». Sobre este tempo afirma que «não se trata – longe disso – de um tempo débil ou pouco importante, dado que nele se celebra todo o mistério de Cristo na sua globalidade. Em vez de se debruçar sobre um momento particular ou aspeto específico, procura favorecer a vivência comum e comunitária do 'todo', do global, do impreterível mistério de Cristo. Se virmos bem, este não é o 'último' dos tempos litúrgicos, mas o primeiro».

Com a celebração da festa do Batismo do Senhor, encerrou-se o tempo festivo «especial» do Natal/Epifania e entramos no Tempo Comum. Cumpre-se, assim, o número 44 das Normas Gerais que regem o Ano Litúrgico e o Calendário: «O Tempo Comum começa na segunda-feira a seguir ao domingo que ocorre depois do dia 6 de janeiro e prolonga-se até à terça-feira antes da Quaresma inclusive; retoma-se na segunda-feira a seguir ao domingo do Pentecostes e termina antes das Vésperas I do domingo I do Advento».
Comecemos por anotar a designação: em latim é o tempo «per annum» e, efetivamente, preenche a maior parte do ano começando em janeiro, sendo interrompido durante 14 domingos pelo ciclo Quaresma-Páscoa-Tempo Pascal, para prosseguir depois, durante 6 meses até ao advento do ano seguinte. São 33 ou 34 semanas em 52 que tem o ano: quantitativamente, predomina. Concretamente, em 2014 decorre de 13 de janeiro a 4 de março (terça-feira da oitava semana), recomeça em 9 de junho (segunda-feira da décima semana) e termina em 29 de novembro (sábado da 34.ª semana). Tendo apenas 33 semanas, omite-se a semana seguinte àquela em que se interrompe antes da quaresma (em 2014 omite-se a 9.ª semana).
Na maior parte das línguas modernas (inglês, francês, castelhano, italiano…) «per annum» foi traduzido por «ordinário». Estas versões valorizam o contraste entre o «tempo extraordinário» – assim se consideram os tempos litúrgicos «especiais» (Advento, Natal/Epifania, Quaresma, Páscoa e Tempo Pascal) e o tempo «ordinário», quer dizer, «não especial». Por vezes os autores chamam «tempos fortes» aos tempos litúrgicos «especiais» quase insinuando que as 33/34 semanas do tempo «per annum» seriam um tempo «débil», o que não é de modo algum verdade.
Em Portugal, nos primeiros tempos da aplicação da reforma litúrgica esta designação – «Tempo Ordinário» – chegou a ser aceite e teve os seus defensores. Mas não prevaleceu por várias razões: porque é uma terminologia mais jurídica que litúrgica; e porque o adjetivo tem em português uma conotação semântica pejorativa que desaconselhou o seu uso fora do contexto jurídico-canónico. Encontrou-se então a designação «Tempo Comum» que parece traduzir de forma aceitável a caracterização que dele se dá no número 43 das Normas Gerais acima referidas: «Além dos tempos referidos [os tempos «especiais» descritos nos números18-42: Tríduo Pascal, Tempo Pascal, Tempo da Quaresma, Tempo do Natal e Tempo do Advento], que têm características próprias, há ainda trinta e três ou trinta e quatro semanas no ciclo do ano, que são destinadas não a celebrar um aspeto particular do mistério de Cristo, mas o próprio mistério de Cristo na sua globalidade, especialmente nos domingos. Este período é denominado Tempo Comum».
Não se trata – longe disso – de um tempo débil ou pouco importante, dado que nele se celebra todo o mistério de Cristo na sua globalidade. Em vez de se debruçar sobre um momento particular ou aspeto específico, procura favorecer a vivência comum e comunitária do «todo», do global, do impreterível mistério de Cristo. Se virmos bem, este não é o «último» dos tempos litúrgicos, mas o primeiro.
O Ano litúrgico nasceu com o domingo, a festa primordial dos cristãos. No domingo, a Eucaristia faz a Anamnese/memorial da morte e ressurreição do Senhor, Páscoa celebrada no ritmo de cada semana. A princípio não se sentia a necessidade de nada mais: o ano litúrgico mais não era do que «tempo per annum»: celebração sucessiva e ininterrupta do domingo ao longo de todo o ano e de ano para ano. Posteriormente, alguns domingos ganharam uma coloração especial em virtude de neles se celebrarem momentos ou aspetos particularmente importantes do Mistério de Cristo. E surgiram festas e «tempos especiais»: Tríduo Pascal, Tempo Pascal, Quaresma, Natal/Epifania, Advento… Todos eles se acrescentaram ao «Tempo Comum» que é, assim, tempo principal.

© SDL | Voz Portucalense
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014



  • Ano Litúrgico: ano cristão — textos publicados no Laboratório da fé > > >



Laboratório da fé celebrada, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 31.1.14 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


A Editora Paulus traduziu e publicou (em 2010) uma obra italiana com comentários aos textos bíblicos proclamados nas celebrações eucarísticas. No volume dedicado às primeiras semanas do Tempo Comum («Leccionário Comentado. Regenerados pela Palavra de Deus. Volume 1: Tempo Comum. Semanas I-XVII» — organização de Giuseppe Casarin) faz uma breve apresentação das primeiras semanas do «Tempo Comum» e dos textos bíblicos propostos na Liturgia. A coleção está estruturada à maneira da «lectio divina», acompanhando progressivamente todo o ano litúrgico nos seus tempos fortes, nas suas festas mas também nos dias feriais, todas as vezes que a comunidade cristã é convocada para celebrar a Cristo presente na Palavra e no Pão eucarístico.

Nas primeiras quatro semanas do Tempo Comum («anos pares»), a liturgia propõe a escuta dos dois Livros de Samuel (primeira leitura). A narração refere-se a cerca de oitenta anos da história hebraica, de 1050 a 970 antes de Cristo, aproximadamente. Nela são referidas três grandes figuras: Samuel, Saul e David.
No Primeiro Livro de Samuel, a narração é inteiramente do­minada pela figura de Samuel, chamado ainda jovem por Deus a ser juiz de Israel em tempos de crise (1, 1 — 3, 21). Segue-se uma longa narração acerca da Arca da Aliança (4, 1 — 7, 1): a Arca é cap­turada pelos filisteus, transportada para o campo adversário e, finalmente, regressa para junto dos filhos de Israel. Durante a luta contra os filisteus, o povo pede a Samuel um rei. O profeta opõe-se, mas no fim deve ceder e dar um soberano ao povo. É este o segundo grande momento do livro (7, 2 — 8, 22). Saul é escolhido e ungido como rei (9, 11 — 11, 15) e, no entanto, entre o rei e o profeta não há boas relações: o contraste é tal que Samuel anuncia a sua demissão (12, 1-25) e continua a exprimir ao rei a sua insatisfa­ção (13, 1 — 15, 35). É nessa altura que começa a emergir a figura de David, primeiro na corte de Saul (16, 1 — 18, 5), depois como seu adversário e inimigo (18, 6 — 26, 25). Por fim, Saul morre no campo de batalha (27, 1 — 31, 13) e David torna-se rei (2Samuel 1, 1-5 — 5, 16).
Todo o Segundo Livro de Samuel é dominado pelas peripécias de David. Esta história coloca ao leitor uma pergunta: quem é o verdadeiro rei de Israel? A resposta não deixa dúvidas: o único e verdadeiro soberano é o Senhor; o monarca é simplesmente um plenipotenciário de Deus, um ministro Seu. Surge também a crí­tica à monarquia, quando esta, em vez de se submeter à Palavra de Deus, se distancia dela. Finalmente aparece o tema do mes­sianismo ligado a David e à promessa que lhe é feita, tema esse que voltará e será sem dúvida interpretado no Novo Testamento, enquanto referido a Jesus.

© Matteo Crimella | Editora Paulus
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do editor



  • Ano Litúrgico: ano cristão — textos publicados no Laboratório da fé > > >



Laboratório da fé celebrada, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.1.14 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


A Editora Paulus traduziu e publicou (em 2010) uma obra italiana com comentários aos textos bíblicos proclamados nas celebrações eucarísticas. No volume dedicado às primeiras semanas do Tempo Comum («Leccionário Comentado. Regenerados pela Palavra de Deus. Volume 1: Tempo Comum. Semanas I-XVII» — organização de Giuseppe Casarin) faz uma breve apresentação das primeiras semanas do «Tempo Comum» e dos textos bíblicos propostos na Liturgia. A coleção está estruturada à maneira da «lectio divina», acompanhando progressivamente todo o ano litúrgico nos seus tempos fortes, nas suas festas mas também nos dias feriais, todas as vezes que a comunidade cristã é convocada para celebrar a Cristo presente na Palavra e no Pão eucarístico.

Terminado o Tempo de Natal […], o ritmo do Ano Litúrgico prossegue com a primeira parte do Tempo Comum, ou seja, os dias que decorrem entre o final do Tempo de Natal e o início do Tempo da Quaresma.
As primeiras oito semanas são caracterizadas por uma proposta deveras interessante da Palavra de Deus, que é contemplada na perspetiva de todo o percurso ferial que caracteriza as trinta e quatro semanas do Tempo Comum. E isto unido à palavra evangélica que a cada ano é proposta, segundo o mesmo ritmo temático. […]
Nos «anos pares» [nos dias feriais (segunda a sábado), a Liturgia organiza-se em dois ciclos: anos pares e anos ímpares, de acordo com a terminação de cada ano; por exemplo: 2014 termina em quatro logo trata-se de um «ano par»], a leitura começa pelos Livros de Samuel até chegar, sempre através de um percurso do Antigo e do Novo Testamento, até ao Apocalipse.
Nesta panorâmica geral, as primeiras oito semanas podem ser consideradas como uma introdução ao grande panorama da História da Salvação. 
[…]
Nos «anos pares», a leitura é caracterizada pelos dois livros de Samuel durante quatro semanas, juntamente com uma parte do Primeiro Livro dos Reis, o qual continua na semana seguinte. E enquanto a sexta e sétima semana contêm a Carta de Tiago, a oitava encerra parte da Primeira Carta de Pedro e a Carta de Judas. Temos portanto a proposta de vários livros. Se a História contida nos livros de Samuel e dos Reis apresenta as páginas mais características de uma caminhada em que se cruzam os mais variados acontecimentos, sempre narrados como «advertências»; as páginas do Novo Testamento permitem entrar em contacto, através das palavras de Tiago, Pedro e Judas, com os conselhos para a vida em Cristo (não esqueçamos que quer a Carta de Tiago, quer a Primeira Carta de Pedro são verdadeiras e autênticas homilias).

© Manlio Sodi | Editora Paulus
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do editor



  • Ano Litúrgico: ano cristão — textos publicados no Laboratório da fé > > >



Laboratório da fé celebrada, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.1.14 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


A Editora Paulus traduziu e publicou (em 2010) uma obra italiana com comentários aos textos bíblicos proclamados nas celebrações eucarísticas. No volume dedicado às primeiras semanas do Tempo Comum («Leccionário Comentado. Regenerados pela Palavra de Deus. Volume 1: Tempo Comum. Semanas I-XVII» — organização de Giuseppe Casarin) faz uma breve apresentação das primeiras semanas do «Tempo Comum» e dos textos bíblicos propostos na Liturgia. A coleção está estruturada à maneira da «lectio divina», acompanhando progressivamente todo o ano litúrgico nos seus tempos fortes, nas suas festas mas também nos dias feriais, todas as vezes que a comunidade cristã é convocada para celebrar a Cristo presente na Palavra e no Pão eucarístico.

O período do ano litúrgico fora dos tempos característicos chamados «fortes» (Advento, Natal, Quaresma e Páscoa), que são destinados a celebrar um aspeto particular do mistério de Cristo, é chamado «Tempo per annum», isto é, «durante o ano», ou «Tempo Comum». Não deve ser considerado um tempo «fraco», por oposição aos tempos «fortes» do Ano Litúrgico. Denomina-se «Tempo Comum» ou «ordinário» porque deriva de «ordo», que indica uma estrutura fundamental. É sobre ela que se apoiam os «tempos fortes», que têm origem na necessidade de distribuir aquilo que estava concentrado, isto é, passar do mistério pascal considerado como um «todo» para a explicitação de cada um dos seus componentes, mesmo arriscando perder a visão global do mistério. Não se trata, por isso, de um Tempo «fraco»; pelo contrário, é um Tempo «fortíssimo». O Tempo Comum é guiado pela celebração do domingo. Os domingos do Tempo Comum, precisamente porque «destinados não a celebrar um aspeto particular do mistério de Cristo, mas nos quais esse mistério é celebrado na sua globalidade» (Ordenamento do ano litúrgico e do calendário, 43), apresentam-se como o dia do Senhor em toda a sua plenitude pascal, verdadeira Páscoa semanal. São domingos em estado puro pela sua caracterização pascal.
O II Concílio do Vaticano reconhece no domingo «o fundamento e o núcleo de todo o ano litúrgico» (Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia [SC], 106). Este de facto não é mais do que a celebração do mistério pascal, objeto central da fé do cristão. Este mistério, para além da festa anual da Páscoa, é celebrado todas as semanas, domingo após domingo, de modo que toda a existência do cristão seja invadida pela presença salvífica do Senhor ressuscitado. Por isso, o Concílio (SC 106) pôde afirmar que «por tradição apostólica, que teve a sua origem no próprio dia da ressurreição de Cristo, a Igreja celebra o mistério pascal todos os oito dias, no dia que bem se denomina 'dia do Senhor' ou 'domingo'». É por isso que os «dies dominicus» se revelam como a estrutura fundamental, o núcleo originário e originante do Ano Litúrgico.
[...]
O domingo, tal como a Eucaristia que nele é celebrada, remete para a vida: o que foi celebrado deve ser levado para a vida como testemunho e como caridade. Cristo foi recordado e celebrado no seu mistério pascal, ou seja, no dom que fez da Sua vida: «Isto é o meu corpo, ou seja, a minha vida, que será entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim». A memória que se deve fazer não é apenas a do rito, é também a da vida. «Fazei isto» quer dizer: fazei o que Eu fiz, fazei também vós da vossa vida uma dádiva. Este é o ensinamento do mistério pascal de Cristo, de que o domingo e a Eucaristia são memorial. «Quando a assembleia se dispersa e somos enviados para a vida, é toda a vida que deve tornar-se dom de si». Por isso o domingo é o dia da caridade: o viver do cristão, de facto, é um «viver segundo o domingo» (Santo Inácio de Antioquia), ou seja, segundo o mistério pascal de Cristo, que no sinal do pão partido doa a Sua vida para benefício dos homens. Então o domingo e a Eucaristia são o «culmen» da vida do crente, mas ao mesmo tempo são também a «fons», a origem dela. Ambos enviam o fiel ao mundo: de segunda-feira até sábado é o tempo do testemunho, é o tempo de um dia-a-dia melhor, porque na ce­lebração dominical o crente é inspirado e penetrado pela graça da memória do Senhor Ressuscitado. É o tempo de dar um sentido novo a tudo o que se vive.

© Mario Chesi | Editora Paulus
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do editor



  • Ano Litúrgico: ano cristão — textos publicados no Laboratório da fé > > >



Laboratório da fé celebrada, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.1.14 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


O Secretariado de Liturgia da diocese do Porto, num artigo do jornal «Voz Portucalense» (11 de janeiro de 2012) explica o sentido e a importância do chamado «Tempo Comum», que se inicia após a festividade do Batismo de Jesus. «Sem o precioso 'Tempo Comum' as solenidades e tempos 'extraordinários' acabariam por se tornar 'ordinários' e perder relevância». Este tempo — que se divide em duas parte (antes da Quaresma e após o Pentecostes) — é «o tempo por excelência da pastoral eucarística».

Terminado o ciclo festivo do Natal/Epifania, com o seu tempo preparatório (Advento), entramos em dia de semana, sem fazer ruído, no «Tempo Comum». É sempre assim: o ciclo festivo da Incarnação termina com a Festa do Batismo do Senhor – celebração que desde as origens pertence de pleno direito à «Epifania» ou manifestação do Senhor. Como regra, essa festividade deve ocupar o domingo após 6 de Janeiro. Entretanto, dado que entre nós a Epifania foi transferida para o domingo ocorrente entre 2 e 8 de Janeiro, quando esse domingo acontece depois de 6 de Janeiro a Festa do Batismo do Senhor desloca-se para a segunda-feira sucessiva, começando o Tempo Comum na terça-feira seguinte. [...]
O Tempo Comum tem dois períodos, de duração desigual: antes da Quaresma e após o Pentecostes. [...]
O «Tempo Comum» é muitíssimo importante! Perdê-lo, deixá-lo correr em vão, é desperdiçar a parte maior do «ano da graça» que nos é dado para viver ao ritmo do mistério de Cristo. Sim: chamamos «tempos fortes» (porventura indevidamente) aos ciclos da Incarnação (Advento-Natal-Epifania) e da Redenção (Quaresma-Tríduo Pascal-Tempo Pascal). Talvez porque a «força» das dimensões e momentos do mistério de Cristo em que se participa nessas estações se impõe de tal modo à nossa psicologia que se torna quase impossível passar-lhes ao lado, como que distraídos. E então multiplicam-se iniciativas de formação e celebração para colher de forma mais intensa a sua eficácia salvífica. Só que nós não podemos viver sempre ao ritmo da solenidade. Ficaríamos saturados ou extenuados. Não é só o «colesterol» que não aguenta! Precisamos – é também essa uma exigência da psicologia humana – de alternar a intensidade e, até, «excesso» da festa com a normalidade serena e pausada do quotidiano. Sem o precioso «Tempo Comum» as solenidades e tempos «extraordinários» acabariam por se tornar «ordinários» e perder relevância.
Lemos no número 43 das Normas Gerais sobre o Ano Litúrgico: «trinta e três ou trinta e quatro semanas no ciclo do ano são destinadas não a celebrar um aspeto particular do mistério de Cristo, mas o mesmo mistério de Cristo na sua globalidade, especialmente nos domingos. Este período é deno­minado Tempo Comum». Sendo o domingo a grande articulação deste Tempo e sendo a Eucaristia a celebração fulcral do Domingo, então o «Tempo Comum» é o tempo por excelência da pastoral eucarística.
[...]
Se, para muitos dos nossos contemporâneos, a missa dominical deixou de ter importância vital, se as nossas assembleia dão de si uma imagem de envelhecimento e decadência, se o «preceito dominical» já pouco ou nada diz a muitos católicos confortavelmente não praticantes, então torna-se imperioso – e é até capítulo não negligenciável de qualquer proposta de «nova evangelização» – dedicar o melhor das nossas energias a este apostolado da Eucaristia. «Numa época em que para muitos o próprio sentido de Deus é como o sol que de noite declina e desaparece no horizonte, repor a Eucaristia no lugar central da vida das pessoas quer dizer redescobrir o verdadeiro rosto do Deus encarnado, do Deus que é amor, do Deus que veio até nós». (Documento preparatório do 50.º Congresso Eucarístico Internacional, número 21).
Para que tal aconteça, temos de cultivar a «ars celebrandi», ou seja, a arte de celebrar a liturgia, tão recomendada por Bento XVI. Definitivamente temos de deixar para trás toda a incúria e negligência que se repercutem em celebrações descuidadas e pouco atraentes. Temos de trabalhar incansavelmente na preparação de todos os que de algum modo estão envolvidos nas nossas celebrações. E não nos podemos conformar com uma prática cultual que, por falta de sacerdotes – e, agora, até com fartura de diáconos – se resigna a não ter celebração eucarística (e até se habitua a passar bem sem ela).

© SDL | Voz Portucalense
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014



  • Ano Litúrgico: ano cristão — textos publicados no Laboratório da fé > > >



Laboratório da fé celebrada, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.1.14 | Sem comentários

VOU FAZER DE TI A LUZ DAS NAÇÕES


Transportamos a luz do Natal nos nossos olhos e mais ainda no nosso coração! Caminhamos com Jesus Cristo, luz do mundo. E assim vamos continuar o nosso caminho, de luz em luz. Que alegria seguir neste caminho, domingo após domingo, para acolher a presença de Deus!
«A luz apaga a escuridão e traz sabedoria, a luz mostra o que existe, não permite esconder nada, a luz revela a verdade. […] A luz esclarece as situações e é atrevida. A luz atreve-se a iluminar e a revelar a verdade mesmo quando alguém não a quer ver. A luz é afirmativa, afirma-se e afirma o que está à sua volta, não compactua com o oculto e assertivamente aponta o caminho» (Cláudia NG Deep, «Sal e luz. Viver em assertividade», Paulus Editora, Lisboa 2010, 17).

Tempo Comum: vou fazer de ti a luz das nações!

Às escuras não vejo nada, repito apenas a escuridão que tende a ampliar-se e a confundir-nos. Preciso, por isso, da luz de Deus para me olhar. Esta luz de Deus, o «grande dom trazido por Jesus» é a fé, é a «luz da fé». Na verdade, «a fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «A luz da fé» [«Lumen Fidei» — LF], 1.4). A luz da fé é o «grande dom» oferecido pelo Pai, trazido por Jesus Cristo, atualizado pelo Espírito Santo. Neste itinerário, seremos interpelados pelas reflexões (primeiros sete números da Carta Encíclica sobre a fé) do papa Francisco: «Mas, como é este caminho que a fé desvenda diante de nós? Donde provém a sua luz, tão poderosa que permite iluminar o caminho duma vida bem sucedida e fecunda, cheia de fruto?» (LF 7).
Ao longo deste Ano Litúrgico propomos a temática da luz, tendo por base textos do profeta Isaías, que nos vão continuar a acompanhar, na primeira leitura, aos domingos. «Vou fazer de ti a luz das nações». Uma palavra luminosa com um envio missionário: «Vou fazer de ti a luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra». Deixemo-la ecoar dentro de nós e não hesitemos em «mastigá-la» para a saborear e para nos deixarmos alimentar por ela. Esta é a nossa missão!
«O grande problema surge quando a luz (cristãos) se recusa iluminar em casa, no local de trabalho ou nos momentos de lazer. O problema surge quando queremos esconder a luz que já está em nós (isso é insanidade e acabará por queimar-nos), ou quando aceitamos iluminar mas de uma forma tímida. A Luz deve iluminar ousadamente! Essa é a identidade do cristão» (Cláudia NG Deep, 20).
Tomemos como modelo o relato da vocação de Samuel (quarta-feira da primeira semana, «anos pares»: 1Samuel 1-10.19-20). Parece um sumário realista da nossa experiência. «A palavra do Senhor fazia-se ouvir raras vezes e as visões não eram frequentes». Também o nosso quotidiano se torna rarefeito, fragmentário e ausente em relação à escuta da Palavra de Deus. Porém, sublinhemos a frase extraordinária do autor sagrado: «A lâmpada de Deus ainda não se tinha apagado». Deus é fiel à Pessoa Humana e à história. Mesmo em situações e idades agitadas por ventos e turbulências, a nossa confiança reside aí: «a lâmpada de Deus ainda não se tinha apagado». Diz-nos o texto que Samuel ainda não conhecia o Senhor: e nós, conhecêmo-lo? Nas horas noturnas ou solares da nossa vida, nas horas que estamos a viver, rezemos: «Falai, Senhor, que o vosso servo escuta» (cf. José Tolentino Mendonça, «O tesouro escondido. Para uma arte da procura interior», Paulinas Editora, Prior Velho 2011, 9-10).

Laboratório da Fé celebrada

O Ano Litúrgico está destinado a levar-nos a uma contemplação profunda relacionada com a imersão nos grandes mistérios da fé. «O Ano Litúrgico deve ser o nervo da vida da comunidade» (Programa Pastoral da Arquidiocese de Braga). Domingo após domingo, luz após luz, somos convocados para formar comunidade, na escuta a Palavra e na partilhar o Pão. Por isso, o domingo e a eucaristia são o centro da vida cristã. «O domingo, tal como a Eucaristia que nele é celebrada, remete para a vida […]. Ambos enviam o fiel ao mundo: de segunda-feira até sábado é o tempo do testemunho, é o tempo de um dia-a-dia melhor, porque na ce­lebração dominical o crente é inspirado e penetrado pela graça da memória do Senhor Ressuscitado. É o tempo de dar um sentido novo a tudo o que se vive» (Mario Chesi). Acendamos a luz de Deus, a luz da fé, no nosso coração! Cumpra-se a profecia de Isaías: «Vou fazer de ti a luz das nações»!

© Laboratório da fé, 2014

Vou fazer de ti a luz das nações

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.1.14 | Sem comentários
  • Recentes
  • Arquivo