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VIVER O DOMINGO QUINTO DA QUARESMA


Aproxima-se o final trágico de Jesus; Ele presente-o. Contudo, a sua fé inquebrantável no Pai fá-lo intuir, dá-lhe a certeza de que do sofrimento e da morte pode ressurgir a vida: «Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado».
Com esta perspetiva é compreensível a sua estranha afirmação: «Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto». A nossa experiência e opinião vai noutra direção. Custa-nos entender que dê fruto, e menos muito fruto, a dor, o sofrimento, a morte. Mas a nossa fé na ressurreição de Jesus proporciona-nos a convicção de que Ele tinha razão.
Ora, esta perspetiva pode ser exportada para as nossas vidas. O sofrimento, a dor e a morte fazem parte da natureza humana. Por mais que queiramos esconder esta realidade, fugir dela, encontramo-la na própria vida, na nossa família, nos amigos… Jesus oferece-nos outra leitura destas realidades. Não tem nada que ver com procura masoquista da dor. É aceitar o sofrimento inevitável, aquele sobre o qual não podemos ter controlo. Comprovar, ter a certeza, que a doença, mesmo a mais incapacitante, a dor e a morte têm um valor, um valor salvífico. O sofrimento e a morte de Jesus, juntamente com a sua ressurreição, certificam-no.

© Javier Velasco-Arias
© La Biblia compartida — blogue de Javier Velasco-Arias y Quique Fernández
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2015
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor


Viver o domingo quinto da Quaresma (Ano B), no Laboratório da fé, 2015



La biblia compartida — www.laboratoriodafe.net


Javier Velasco-Arias, nasceu no ano de 1956, em Medina del Campo (Espanha); atualmente, vive em Barcelona (desde os onze anos de idade). É biblista, professor de Sagrada Escritura no «Instituto Superior de Ciências Religiosas de Barcelona» e no «Centro de Estudos Pastorais» das dioceses da Catalunha. É responsável e membro de várias associações bíblicas, em Espanha. Na área bíblica, é autor de diversas publicações, além de artigos de temas bíblicos em revistas especializadas e na internet.
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.3.15 | Sem comentários
Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Na Eucaristia, a comunidade cristã solidariza-se com aqueles que nos precederam sob o signo da fé e foram acolhidos no seio de Deus. A festa do dia dois de novembro convida-nos a reavivar a esperança que nos assegura que, apesar dos nossos familiares e amigos já terem deixado este mundo, não nos deixaram a nós, nem nós a eles.
A festa de dois de novembro também nos convida a pensar na morte. A morte dá que pensar. Faz-nos ter em conta a finitude do ser humano, mas também coloca a pergunta sobre a possível transcendência do humano. Isto manifesta-se no facto de nós, humanos, tratarmos os mortos com respeito, não os deixamos abandonados. Quando alguém morre, os seus encarregam-se de celebrar alguma cerimónia ou de partilhar recordações. Aquele que morreu não é um qualquer, é alguém único, irrepetível. E, nas cerimónias fúnebres, que são tão antigas como os seres humanos, subjaz a pergunta sobre a possível permanência do defunto. Até no mundo laico e secular se ouve a expressão, referindo-se ao defunto: «lá onde está» (mas em que ficamos: está enterrado ou «lá onde está»?).
Há uma relação perversa com a morte. Por um lado, é objeto de repulsa e de medo e fazemos qualquer coisa para a evitar. Contudo, na sociedade contemporânea, a morte adquiriu novos rostos. Na noite de 31 de outubro, celebra-se a festa do Halloween. Assim, a morte é motivo de riso, farra, diversão. Em muitas cidades espanholas aparecem adornos, colocados pelas autoridades públicas, para se divertirem à custa da morte. Os bares e as discotecas oferecem todo o tipo de festas para atrair clientes desejosos de rir e brincar com a morte, não sei se para esquecer outras mortes mais reais e lacerantes que os atormentam todos os dias e que se resumem na fragilidade da existência.
As imagens da televisão ou do cinema mostram outra vertente na relação com a morte. As crianças passam o tempo com videojogos onde abundam as execuções. Os adolescentes brincam com a morte pelo prazer da velocidade, da competição ou com o uso de estupefacientes que lhes destroem a vida. Os adultos recorrem às guerras, à violência conjugal, às rivalidades étnicas. Os humanos gostam de se guerrear. Há pessoas religiosas que colocam o sacrifício no centro das suas práticas, uma espécie de execução e de desprezo pelo corpo. São muitas, demasiadas, as realidades que negam o valor da vida.
O cristão acredita na vida. Por isso, espera a ressurreição dos mortos. Esta consideração fundamenta-se no amor e no poder de Deus, o único que pode dar vida a um morto, tal como pode fazer surgir coisas do nada. Esta fé deve fazer-nos críticos com tudo o que, de um modo ou de outro, atenta contra vida e a dignidade da pessoa. Positivamente, esta fé faz-nos viver de outra maneira, seguindo os passos de Cristo, o Vivente por excelência.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.11.14 | Sem comentários

NOVEMBRO: MÊS DA ESCATOLOGIA


O mês de novembro, no coração do outono, remete-nos para as coisas últimas da vida, o final dos tempos. Ao mesmo tempo, coincide com o final do Ano Litúrgico (Ano Cristão), cujas propostas incidem nas referências à morte, ao final dos tempos (na Igreja, usa-se o termo «escatologia»), à esperança na ressurreição, à vida eterna. Os primeiros dias do mês de novembro (Todos os Santos e Fiéis Defuntos) dão o mote para uma renovada reflexão sobre estas temáticas. Neste contexto, também associado ao encerramento do Ano da Fé (24 de novembro de 2013), propomos a expressão do «Credo niceno-constantinopolitano»: «Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir». Esta iniciativa tem ainda como ponto de referência a conferência do Padre Doutor José Tolentino Mendonça, às 21h do dia 21 de novembro de 2013, no Auditório Vita, Braga.

Apresentamos, agora, a reflexão de José Tolentino Mendonça publicada no «Expresso» de 2 de novembro de 2013:

É tão estranho que entre a avalancha de saberes úteis e inúteis que acumula­mos uma vida inteira não esteja este: aprender a morrer. A contemporaneidade fez da morte o seu tabu, o mais temido e ocultado, e deixa-nos completamente impreparados para enfrentar a naturalidade com que a vida a abraça. A morte surge como uma interrupção, um interdito de linguagem mais inconveniente do que uma asneira, uma dor para viver às escondidas, uma intromissão com a qual em nenhum momento contámos. Sobre a morte não sabemos o que dizer, nem o que pensar. E isso constitui, de facto, uma falta enorme.
Montaigne dizia que não morremos por estar doentes, morremos por estar vivos. Talvez seja por aí que devamos recomeçar, religando o que hoje parece tão inconciliável. A morte é uma expressão da vida. A mais enigmática, impenetrável e intraduzível das expressões, certamente. Mas é no interior da vida que temos de compreendê-la. Colhendo o seguinte: ao recolocar-nos dramaticamente perante o mistério que somos, a morte como que resgata a própria exis­tência. É que podemos levar uma vida inteira sem pensar no que ela é: esta surge-nos como um dado óbvio, esventrado de qualquer interrogação, uma certeza assente, sem mais. E não é assim. A morte pode representar no itinerário pessoal, e nos nossos caminhos entrecruzados e comuns, a oportunidade para olharmos a vida mais profundamente. A vida não é só este tráfico de verbos ativos, esta marcha emparedada e sonâmbula, este vogar entre deve e haver, esta contabilidade no lugar da metafísi­ca A vida não é só isto. A morte amplia-a. Revela-lhe um fundo que não vemos. São, por isso, tão necessários os versos de Rilke:
«Senhor, dá a cada um a sua própria morte.
Um morrer que venha dessa vida
que reparte por nós amor, sentido e aflição.
Porque nós somos apenas a casca e a folha
A grande morte, que cada um traz em si,
é o fruto à volta do qual tudo gira.»
Um acontecimento editorial deste outono é a publicação dos escritos de Cicely Saunders, a médica que fundou a primeira unidade de cuidados paliativos, uma das mais fantásticas inovações da saúde no século XX. O livro chama-se «Velai Comigo», tem pouco mais do que setenta páginas e merecia bem ser lido por todos. O que me marcou mais na leitura que fiz foi uma frase repetida continua­mente pela autora: «temos de aprender». Temos de aprender a estar com os outros quando chegar o seu momento, desenvolvendo capacidades até então negligenciadas. Temos de aprender a cuidar da dor e a minorá-la, mas não só com comprimidos: também com o coração, com a presença, com os gestos silenciosos, o respeito, com uma expectativa de coragem. Os doentes não estão à procura de indulgência. Temos de aprender a embalar a fragilidade, a dos outros e a nossa própria, ajudar cada um a reencontrar-se com as coisas e com as memórias certas, a não desesperar, a encontrar um fio de sentido no que está a viver, por ínfimo e trémulo que seja. Temos de aprender a ser suporte, temos de querer eficiência técnica mas também compaixão, temos de reconhecer o valor de um sorriso, ainda que imperfeito, em certas horas extremas. À beira do fim há sempre tanta coisa que começa.
Uma das lembranças que me são mais queridas provém, por exemplo, do último internamento do meu pai. Recordo-me de, por dias e dias, andar de mão dada com ele, muito devagarinho, no grande corredor do hospital. Eu passava-lhe toda a força que podia com a minha mão. Mas a sua mão era maior do que a minha. E sei que ainda é.

© José Tolentino Mendonça
© Expresso, 2 de novembro de 2013

Novembro, mês da escatologia — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.11.13 | Sem comentários

NOVEMBRO: MÊS DA ESCATOLOGIA


O mês de novembro, no coração do outono, remete-nos para as coisas últimas da vida, o final dos tempos. Ao mesmo tempo, coincide com o final do Ano Litúrgico (Ano Cristão), cujas propostas incidem nas referências à morte, ao final dos tempos (na Igreja, usa-se o termo «escatologia»), à esperança na ressurreição, à vida eterna. Os primeiros dias do mês de novembro (Todos os Santos e Fiéis Defuntos) dão o mote para uma renovada reflexão sobre estas temáticas. Neste contexto, também associado ao encerramento do Ano da Fé (24 de novembro de 2013), propomos a expressão do «Credo niceno-constantinopolitano»: «Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir». Esta iniciativa tem ainda como ponto de referência a conferência do Padre Doutor José Tolentino Mendonça, às 21h do dia 21 de novembro de 2013, no Auditório Vita, Braga.

Apresentamos, agora, a (primeira parte da) reflexão de Carlo Maria Martini, retirada do livro «Caminhos Laicais» (ed. Paulinas, Lisboa 1995):

Ilumina, Senhor, a nossa mente, aquece-nos o coração,
como inflamaste o coração dos discípulos de Emaús,
para podermos compreender
a glória que nos prometes,
a vida que nos dás
e o mistério escondido que nos fazes conhecer pela fé.
Maria, nossa mãe,concede-nos compreender o que vives junto do Senhor,
para conseguirmos exprimi-lo na vida, na doença,
na morte, na ressurreição e na glória.
Para isso, dá-nos ó Pai,
a graça do Espírito Santo
que te pedimos por Cristo Nosso Senhor.
Ámen.

Hoje fala-se pouco da morte e do paraíso, mas creio que é muito importante dar espaço nos nossos pensamentos às últimas realidades que nos abrem as portas da verdadeira compreensão do sentido da vida terrena e do desígnio de Deus na história, instigando-nos a agir no quotidiano corajosamente e com entusiasmo.

Pontos de partida

1. O medo da morte é um facto existencial, terrível e impossível de eliminar; é também garantia de viver, porque mobiliza os instintos de conservação, de resistência, de agressividade vital. Não se pode combater o medo da morte com um ato de raciocínio, porque o medo surge por si mesmo, é invencível.
2. O medo da morte é o símbolo de todos os outros medos perante a depressão física, psíquica, social. A morte é, na verdade, o último de tantos dramas de que o homem é protagonista: doença, velhice, sobretudo quando acompanhada de achaques e solidão, cansaço, esgotamentos nervosos, perda de gosto pelo trabalho, pelos encontros, pela natureza; e depois os abalos sociais, como insucessos, perda da fama, do prestígio, da posição que tínhamos conquistado. São outras tantas formas de antecipação da morte e por isso as vivemos com medo, com horror, desejaríamos que não existissem.
3. Estes medos, embora moralmente neutros (já que o medo é um instinto), são, porém, de facto, causa e sinal de escravidão interior, porque nos bloqueiam. Por exemplo, o medo de perder a fama, a estima, leva-nos a agir diversamente de como deveríamos e gostaríamos; o medo de perder uma vida tranquila, a comodidade, obriga tanta gente a uma vida negativa, negligente, pecaminosa. E o medo da morte pode levar a experiências que são uma espécie de substituto; penso, por exemplo, nos excessos de sensualidade, no alcoolismo, na droga.
Por isso, o autor da Carta aos Hebreus afirma que Jesus se tornou participante da nossa carne e do nosso sangue «para reduzir à impotência, pela sua morte, aquele que tinha o império da morte, o demónio, e assim libertar aqueles que, pelo temor da morte, estavam toda a vida sujeitos à escravidão» (Hebreus 2, 14-15). O diabo escraviza muita gente durante toda a vida jogando com o medo da morte e de toda a espécie de diminuição física, psíquica e social.
É, pois, necessário que o homem (e não só o cristão) chegue, não a eliminar o medo da morte, mas sim a ultrapassar, a vencer o medo de tudo o que pode revestir a imagem da morte. Sem esta superação — que é o nó central da existência e o jogo da verdade — não estaremos verdadeiramente com Jesus.
Pode-se fazer trapaças sob muitos aspetos e, por exemplo, fingir fazer o bem, ser caritativo, interessar-se pelos outros. Mas não se pode fingir a coragem diante da morte. Muitas vezes podemos presumir que somos mortificados, de ser capazes de tantas renúncias; mas se somos atingidos por uma doença grave, dentro de nós rebenta qualquer coisa que não conseguimos dominar, revelando-nos que na realidade não enfrentámos nem vencemos o medo de morrer.

© Carlo Maria Martini
© Inst. Miss. Filhas de S. Paulo, 1995
© Adaptação de Laboratório da fé, 2013

Novembro, mês da escatologia — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.11.13 | Sem comentários

Vigília de oração pela paz 

na Síria, no Médio Oriente e em todo o mundo


No dia 7 de setembro de 2013, conforme anunciado pelo Papa, reuniram-se cerca de 100 mil pessoas, na Praça de São Pedro, para jejuar e rezar pela paz na Síria, no Médio Oriente e em todo o mundo. Nessa vigília, que durou desde as 19h até às 23h, o papa Francisco proferiu uma homilia em que destaca a bondade original da Criação e da Humanidade: «o nosso mundo, no coração e na mente de Deus, é 'casa de harmonia e de paz' e espaço onde todos podem encontrar o seu lugar».
Para o Papa, o contrário da «harmonia» não é a «desarmonia», mas o «caos», que gera violência, desavença, confronto, medo. Ora, «a violência e a guerra têm a linguagem da morte!». Ao contrário, a linguagem da paz é o perdão, o diálogo, a reconciliação.
Depois, desafiou os cristãos — e todos os homens e mulheres de boa vontade — a «olhar para a Cruz». Porque «na cruz, podemos ver a resposta de Deus [...]. No silêncio da Cruz, cala-se o fragor das armas e fala a linguagem da reconciliação, do perdão, do diálogo, da paz». 

«Deus viu que isso era bom» (Génesis 1, 12.18.21.25). A narração bíblica da origem do mundo e da humanidade fala-nos de Deus que olha a criação, quase contemplando-a, e repete uma e outra vez: isso é bom. Isso, queridos irmãos e irmãs, permite-nos entrar no coração de Deus e recebermos a sua mensagem que procede precisamente do seu íntimo.
Podemo-nos perguntar: qual é o significado desta mensagem? O que diz esta mensagem para mim, para ti, para todos nós?

Um mundo de harmonia e paz

1. Simplesmente, diz-nos que o nosso mundo, no coração e na mente de Deus, é «casa de harmonia e de paz» e espaço onde todos podem encontrar o seu lugar e sentir-se «em casa», porque «isso é bom». Toda a criação constitui um conjunto harmonioso, bom, mas os seres humanos em particular, criados à imagem e semelhança de Deus, formam uma única família, em que as relações estão marcadas por uma fraternidade real e não simplesmente de palavra: o outro e a outra são o irmão e a irmã que devemos amar, e a relação com Deus, que é amor, fidelidade, bondade, se reflete em todas as relações humanas e dá harmonia para toda a criação. O mundo de Deus é um mundo onde cada um se sente responsável pelo outro, pelo bem do outro. Esta noite, na reflexão, no jejum, na oração, cada um de nós, todos nós pensamos no profundo de nós mesmos: não é este o mundo que eu desejo? Não é este o mundo que todos levamos no coração? O mundo que queremos não é um mundo de harmonia e de paz, em nós mesmos, nas relações com os outros, nas famílias, nas cidades, nas e entre as nações? E a verdadeira liberdade para escolher entre os caminhos a serem percorridos neste mundo, não é precisamente aquela que está orientada pelo bem de todos e guiada pelo amor?

O contrário da «harmonia» não é a «desarmonia», mas o caos

2. Mas perguntemo-nos agora: é este o mundo em que vivemos? A criação conserva a sua beleza que nos enche de admiração; ela continua a ser uma obra boa. Mas há também «violência, divisão, confronto, guerra». Isto acontece quando o ser humano, vértice da criação, perde de vista o horizonte da bondade e da beleza, e se fecha no seu próprio egoísmo.
Quando o ser humano pensa só em si mesmo, nos seus próprios interesses e se coloca no centro, quando se deixa fascinar pelos ídolos do domínio e do poder, quando se coloca no lugar de Deus, então deteriora todas as relações, arruina tudo; e abre a porta à violência, à indiferença, ao conflito. É justamente isso o que nos quer explicar o trecho do Génesis em que se narra o pecado do ser humano: o homem entra em conflito consigo mesmo, percebe que está nu e esconde-se porque sente medo (Génesis 3, 10); sente medo do olhar de Deus; acusa a mulher, aquela que é carne da sua carne (versículo 12); quebra a harmonia com a criação, chega a levantar a mão contra o seu irmão para matá-lo. Podemos dizer que da harmonia se passa à desarmonia? Mas, podemos dizer isso: que da harmonia se passa à desarmonia? Não. Não existe a «desarmonia»: ou existe harmonia ou se cai no caos, onde há violência, desavença, confronto, medo...
É justamente nesse caos que Deus pergunta à consciência do homem: «Onde está o teu irmão Abel?». E Caim responde «Não sei. Acaso sou o guarda do meu irmão?» (Génesis 4, 9). Esta pergunta também se dirige a nós, assim que também a nós fará bem perguntar:
— Acaso sou o guarda do meu irmão? Sim, tu és o guarda do teu irmão! Ser pessoa significa sermos guardas uns dos outros! Contudo, quando se quebra a harmonia, produz-se uma metamorfose: o irmão que devíamos guardar e amar transforma-se em adversário a combater, a suprimir. Quanta violência surge a partir deste momento, quantos conflitos, quantas guerras marcaram a nossa história! Basta ver o sofrimento de tantos irmãos e irmãs. Não se trata de algo conjuntural, mas a verdade é esta: em toda a violência e em toda a guerra fazemos Caim renascer. Todos nós! E ainda hoje prolongamos esta história de confronto entre os irmãos, ainda hoje levantamos a mão contra quem é nosso irmão. Ainda hoje deixamo-nos guiar pelos ídolos, pelo egoísmo, pelos nossos interesses; e esta atitude faz-se mais aguda: aperfeiçoamos as nossas armas, a nossa consciência adormeceu, tornamos mais subtis as nossas razões para nos justificar. Como se fosse uma coisa normal, continuamos a semear destruição, dor, morte! A violência e a guerra trazem somente morte, falam de morte! A violência e a guerra têm a linguagem da morte!
Depois do Dilúvio, cessou a chuva, surge o arco-íris e a pomba traz um ramo de oliveira. Penso também hoje naquela oliveira que os representantes das diversas religiões plantamos em Buenos Aires, na Praça de Maio, no ano 2000, pedindo que não haja mais caos, pedindo que não haja mais guerra, pedindo paz.

A linguagem da reconciliação, do perdão, do diálogo, da paz

3. E neste ponto, pergunto-me: É possível percorrer o caminho da paz? Podemos sair desta espiral de dor e de morte? Podemos aprender de novo a caminhar e percorrer o caminho da paz? Invocando a ajuda de Deus, sob o olhar materno da «Salus Populi romani», Rainha da paz, quero responder: Sim, é possível para todos! Esta noite queria que de todos os cantos da terra gritássemos: Sim, é possível para todos! E mais ainda, queria que cada um de nós, desde o menor até o maior, inclusive aqueles que são chamados a governar as nações, respondesse: — Sim queremos! A minha fé cristã leva-me a olhar para a Cruz. Como eu queria que, por um momento, todos os homens e mulheres de boa vontade olhassem para a Cruz! Na cruz, podemos ver a resposta de Deus: ali à violência não se respondeu com violência, à morte não se respondeu com a linguagem da morte. No silêncio da Cruz, cala-se o fragor das armas e fala a linguagem da reconciliação, do perdão, do diálogo, da paz. Queria pedir ao Senhor, nesta noite, que nós cristãos e os irmãos de outras religiões, todos os homens e mulheres de boa vontade gritassem com força: a violência e a guerra nunca são o caminho da paz! Que cada um olhe dentro da própria consciência e escute a palavra que diz: sai dos teus interesses que atrofiam o teu coração, supera a indiferença para com o outro que torna o teu coração insensível, vence as tuas razões de morte e abre-te ao diálogo, à reconciliação: olha a dor do teu irmão – penso nas crianças: somente nelas... olha a dor do teu irmão, e não acrescentes mais dor, segura a tua mão, reconstrói a harmonia perdida; e isso não com o confronto, mas com o encontro! Que acabe o barulho das armas! A guerra significa sempre o fracasso da paz, é sempre uma derrota para a humanidade. Ressoem mais uma vez as palavras de Paulo VI: «Nunca mais uns contra os outros, não mais, nunca mais... Nunca mais a guerra, nunca mais a guerra! (Discurso às Nações Unidas, 4 de outubro de 1965: ASS 57 [1965], 881). «A paz afirma-se somente com a paz; e a paz não separada dos deveres da justiça, mas alimentada pelo próprio sacrifício, pela clemência, pela misericórdia, pela caridade» (Mensagem para o Dia Mundial da Paz, de 1976: ASS 67 [1975], 671).

Irmãos e irmãs, perdão, diálogo, reconciliação são as palavras da paz: na amada nação síria, no Médio Oriente, em todo o mundo! Rezemos, nesta noite, pela reconciliação e pela paz, e tornemo-nos todos, em todos os ambientes, em homens e mulheres de reconciliação e de paz. Assim seja.

Vaticano, 8 de setembro de 2013
© Copyright - Libreria Editrice Vaticana

A guerra significa sempre o fracasso da paz, é sempre uma derrota para a humanidade
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.9.13 | Sem comentários
— palavra para o dia sete de fevereiro, memória das Chagas de Jesus —



— Evangelho segundo João 19, 28-37

Naquele tempo, sabendo que tudo estava consumado e para que se cumprisse a Escritura, Jesus disse: «Tenho sede». Estava ali um vaso cheio de vinagre. Prenderam a uma vara uma esponja embebida em vinagre e levaram-Lha à boca. Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou: «Tudo está consumado». E, inclinando a cabeça, expirou. Por ser a Preparação da Páscoa, e para que os corpos não ficassem na cruz durante o sábado — era um grande dia aquele sábado — os judeus pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados. Os soldados vieram e quebraram as pernas ao primeiro, depois ao outro que tinha sido crucificado com ele. Ao chegarem a Jesus, vendo-O já morto, não Lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados trespassou-Lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água. Aquele que viu é que dá testemunho e o seu testemunho é verdadeiro. Ele sabe que diz a verdade, para que também vós acrediteis. Assim aconteceu para se cumprir a Escritura, que diz: «Nenhum osso lhe será quebrado». Diz ainda outra passagem da Escritura: «Hão-de olhar para Aquele que trespassaram».

— E, inclinando a cabeça, expirou

Hoje, dia sete de fevereiro, a Igreja que está em Portugal celebra, na liturgia, a memória das «Cinco Chagas» de Jesus. O culto das feridas que marcaram violentamente o corpo de Jesus Cristo tem uma história antiga e viva entre os portugueses. Vários textos literários próximos do início da nacionalidade comprovam esta devoção entre o povo português. Essa importância está também demonstrada com a inscrição das «cinco chagas» na bandeira nacional.
O texto bíblico é retirado do relato dos momentos finais da vida terrena de Jesus Cristo, no evangelho segundo João. «E, inclinando a cabeça, expirou». A morte de Jesus é a maior de todas as «chagas». Tal como o é para qualquer ser humano! Deus, em Jesus Cristo, assumiu em pleno a nossa humanidade. Deus humanizou-se até ao limite, cujo ponto máximo é a experiência da morte. E, no caso, uma experiência brutal de sofrimento e morte. 
Este relato não é uma notícia do acontecido. É, antes, uma leitura pascal do evangelista. Ele «dá testemunho», ele «sabe que o seu testemunho é verdadeiro», «para que também vós acrediteis». Este é objetivo: o leitor/ouvinte, cada um de nós, também pode fazer a mesma experiência de fé. Então, a morte (a nossa morte) é uma «chaga» brutal — que até pode ser violenta —, mas é sempre iluminada pela luz da ressurreição, pela presença do Senhor Jesus Cristo ressuscitado e vivo. 
Ao celebrar as «cinco Chagas», não fiques preso à contemplação do sofrimento de Jesus Cristo. Deixa-te também iluminar pela luz da Vida.

© Laboratório da fé, 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.2.13 | Sem comentários
— A Pastoral da Saúde no laboratório da fé —

Há uns anos atrás, uma grande amiga minha tinha o pai internado, com uma trombose cardíaca súbita. Ela é uma católica romana séria e esforçada (penso que todos os cristãos mais não podem ser que esforçados). Ela não mora em Braga. Então telefonava-me e eu rezava o terço com ela. Eu não sei as estações, mas ela sabe, e depois eu respondia nas orações, exceto na Salve Rainha, que é uma oração que acho muito bonita, mas que não consigo decorar (verdade seja dita, que acho que nunca a ouvi ser dita na minha infância). Rezamos muitos terços assim, à noite. O pai acabou por falecer, e pouco depois a mãe.
Quando foi da mãe, eu estava presente, a senhora a esvair-se num cancro após a Páscoa. Quando as pessoas perceberam que ela estava a partir (estava sedada), começaram a desatinar; eu tinha um terço de plástico na mão, que tinha levado por causa da filha, pois tinha medo que no meio da confusão ela se tivesse esquecido do terço, eu sabia que era importante para ela estar junto à mãe com o terço.
Vai daí toda a gente a chorar, a perder a calma e eu a saber que a moribunda estaria a ouvir. Encostei o seu rosto ao meu, e comecei, alto mas calmamente, a perguntar às pessoas onde estava a fé delas. Perguntei se Jesus, o nosso Senhor, estava morto, ou vivo. E as pessoas começaram a perceber. Eu lembrei-lhes que era época de dar glória a Deus pela vinda de Jesus ressuscitado. As pessoas começaram a acalmar e ela começou a partir, sem energia, mas serena. E de repente, a filha, de joelhos, com o meu terço na mão começou serenamente a rezar em voz alta o terço, e os presentes respondiam. E a sua mãe morreu na mais perfeita paz, conosco a rezar o terço de plástico branco, que nunca me foi devolvido (nem eu o pedi, evidentemente).

Considero (como já o afirmei, em outros contextos) que ser cristão exige uma atitude interior mista de estoicismo e fé firme na construção do reino de Deus. Jesus nunca nos disse que ia ser fácil; não foi fácil para Ele, para os apóstolos, por que seria para nós? E porque não é fácil? perguntam muitos pseudo-cristãos...porque estamos no mundo mas não somos dele; se o fossemos, seria facílimo.
Sempre considerei, porém, que ser cristão é uma dádiva enorme no momento de enfrentar a morte, pelo menos a dos outros (dado que a minha ainda não a vivi), a partir da minha própria experiência pessoal. O sofrimento está lá todo, mas está também a certeza da Páscoa, da ressurreição de quem parte. Rezar o terço com a minha amiga foi uma forma de ela reforçar essa certeza, e de sentir que alguém que ela ama, tem também essa certeza. Pedimos que se fizesse a vontade de Deus e estamos ambas certas que assim foi, pois rezamos e sabemos que muitos mais (vivos e mortos) estavam em comunhão conosco...a comunidade de cristãos que comungam do Amor do Pai.

Aquando a morte da mãe, o que me surpreendeu foi a incapacidade das pessoas (todas auto-consideradas cristãs) acreditarem que aquela pessoa que tanto amá(va)mos ia para o Pai, e que não nos tínhamos que preocupar, e que era hora de darmos graças ao Pai por ela ter estado na nossa vida (era uma pessoa extraordinária em dádiva, em sabedoria, em prudência). Claro que o nosso sofrimento tinha uma razão de ser, porque íamos ficar sem ela, mas a nossa fé diz-nos que é temporário.
O exemplo da sua filha, de joelhos, lágrimas escorrendo pela face, mas rezando pausadamente para que a sua mãe partisse em paz, foi um enorme sinal de fé, confiança no Pai, mas também de amor pela sua mãe. O seu sofrimento era coisa pouca face à necessidade de a entregar em paz nos braços de Deus.

Clara Costa Oliveira
 
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.12.12 | Sem comentários
— palavra para sábado da segunda semana de advento —

— Evangelho segundo Mateus 17, 10-13

Ao descerem do monte, os discípulos perguntaram a Jesus: «Porque dizem os escribas que Elias tem de vir primeiro?» Jesus respondeu-lhes: «Certamente Elias há de vir para restaurar todas as coisas. Eu vos digo, porém, que Elias já veio; mas, em vez de o reconhecerem, fizeram-lhe tudo o que quiseram. Assim também o Filho do homem será maltratado por eles». Então os discípulos compreenderam que Jesus lhes falava de João Baptista.

— Mas Eu digo-vos que Elias já veio e não o reconheceram

Existia, entre os judeus, uma crença popular que sugeria a segunda vinda do profeta Elias (cf. Malaquias 3, 23). Seria uma espécie de precursor. Como Elias ainda não veio, Jesus não pode ser o Messias! Ora, foi essa a missão de João Batista. Por isso, Jesus afirma que «Elias já veio». Como sabemos, este «Elias» (João Batista) foi preso e degolado, teve um fim trágico.
O desenlace final de João Batista aponta para o desenlace final de Jesus Cristo. Ambos vão percorrer o mesmo caminho (prisão e morte), tal como diz o texto: «Assim também o Filho do homem será maltratado». João e Jesus enfrentam os mesmos adversários (poder).
O poder convive mal com a liberdade, com os homens livres que promovem a uma vida autêntica, sem opressão nem qualquer tipo de domínio. A bondade e a misericórdia são o único caminho proposto por Jesus Cristo, mesmo quando se vislumbra a perseguição e a morte!


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.12.12 | Sem comentários
— Laboratório da fé no cinema — 

«A Igreja tem de compreender que não pode estar ausente e deve formar cuidadosamente os agentes que envia para o hospital, para que sejam parte integrante deste processo de recriação de uma arte de morrer. Isto é nova evangelização».

Tenho de confessar que estas palavras do Padre José Nuno Silva, por ocasião da publicação do seu livro «A Morte e o Morrer entre o Deslugar e o Lugar. Precedência da Antropologia para uma Ética da Hospitalidade e Cuidados Paliativos», que agora chegou às livrarias de Portugal, me tem perseguido nos últimos dias a propósito do último filme do mais cruel e severo dos realizadores de cinema. Falo, obviamente, de Michael Haneke e do seu «AMOUR» que venceu, indiscutivelmente, o Festival de cinema de Cannes de 2012. 


O filme é uma obra prima. Os actores, um de oitenta e dois anos e outro de oitenta e cinco, são sublimes. O filme é a história de Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva), um casal de professores de música na reforma. A sua serenidade quotidiana declina-se com leituras de livros, saídas para assistir a concertos, raras visitas da filha (Isabelle Huppert). Mas a um determinado momento Anne, tão amada, começa a mostrar sinais de problemas físicos e neurológicos. 
Anne é vítima de um enfarte que a deixa paralisada de uma parte do corpo e o amor do casal é colocado a dura prova até ao limite e às consequências mais extremas… Anne recusa-se a voltar ao Hospital e exige de George a promessa de que a não mandará para lá. Ela e ele sabem, quase cinicamente, para onde se arrasta (literalmente) a sua vida, mas Georges não a abandona, cuidando dela com amor e controlada exasperação. Ajuda-a no banho, lava-lhe os cabelos, mete-lhe a comida na boca, muda-lhe as fraldas, canta-lhe canções infantis («sur le pont d’Avignon on y danse on y danse») e conta-lhe histórias para que o tempo não os sufoque.
Há uma violência quase inenarrável no modo delicado e feroz com que Haneke expõe a quotidianidade ou narra detalhadamente (e quase de forma mórbida) a demência senil. O seu mérito (ou aquilo que não se lhe pode perdoar) é fazer-nos entrar nas profundidades de um território indesejado e sempre relegado para longe da mente que tocará cada um de nós, mais cedo ou mais tarde, na primeira pessoa ou na pessoa dos que amamos. Haneke ousa o limite do insuportável percorrendo os territórios mais desconhecidos da alma humana, escavando mais fundo, mais em baixo, dentro. Foi assim com a A Pianista; foi assim com A Fita Branca. É assim com Amor. E é assim Michael Haneke, o Realizador austríaco, filosofo, psicólogo e crítico de cinema, que pede aos seus actores octogenários de «não fazer transparecer por nada deste mundo a emoção».
Não há nada de outro mundo ali, tudo é tremendamente violento porque Michael Haneke visa sempre esmurrar o espectador e não deixá-lo em paz. O cinema não é para entreter, mas forçar a aprendizagem do olhar. Neste sentido o cinema é um exercício ético e, como dizia Theodor W. Adorno acerca da moral, o cinema pode ser também uma espécie de uma ciência, «uma ciência triste». 
Haneke nunca procura complacências, mas aposto que ninguém sairá da sala sem que, antes, as lágrimas tenham banhado a nossa vergonha humana e a nossa impotência diante da crueldade inevitável da natureza humana. Durante o filme um grande nó na garganta se vai formando, imperceptível, começando a sufocar-nos, até que no fim um véu de chumbo e de silêncio desce aos nossos corações. Sentimo-nos desolados, inconsolados, taciturnos e perdidos, incapazes de pronunciar qualquer coisa decente ou digna.
Não há no filme nenhuma referência à transcendência, nenhuma conversa sobre a vida para além da morte, sobre o sentido ou sobre a arte do morrer, nenhuma questão sobre a salvação. Apenas se tem saudades da música (mas mesmo essa é, por vezes, insuportável) e da vida imobilizada num álbum de fotografias a preto e branco.
Haverá mesmo uma arte do morrer? Libertar a pessoa que sofre indecentemente pode ser considerado uma arte do morrer? Rilke escreveu versos inspirados a este propósito que são ainda os que me guiam: 
«Ó Senhor, dá a cada um a sua própria morte,
uma morte nascida da sua própria vida,
que lhe deu amor, sentido e aflição». 
Michael Haneke não faz perguntas e não dá respostas. Mas o espectador exige-as no seu íntimo, assim ferido e vulnerável, porque no fundo também o espectador é uma vítima. E é por isso que é tão urgente encontrar respostas para aquelas perguntas-não-feitas. E por isso é que a esperança tem de avançar porque essa é o melhor que o cristianismo tem para dar ao mundo. E é por isso que a esperança é a linguagem da Nova Evangelização, porque a esperança é acreditar que a Terra não é um sonho, mas um corpo vivo, como diz Czesław Miłosz: 
«Esperança»

Esperança surge, quando se acredita
Que a Terra não é um sonho, mas um corpo vivo,
Que não mentem o ouvido, o tacto, a visão
E que todas as coisas que aqui conhecias
São como um jardim visto do portão.
Entrar lá não se pode. Mas ele existe com rigor.
Se melhor olhássemos e com mais sabedoria,
No jardim do mundo uma nova flor
E mais do que uma estrela se avistaria.
Há quem diga que os olhos nos iludem
E que nada existe, apenas apresenta,
Mas justamente esses não têm esperança.
Pensam que ao virar as costas
O mundo desaparecerá de repente
Como que roubado por um delinquente.
Filme: «Amour», de Michael Haneke, com Jean-Louis Trintignat; Emmanuelle Riva; Isabelle Huppert, França 2012. 

Livro: «A Morte e o Morrer entre o Deslugar e o Lugar. Precedência da Antropologia para uma Ética da Hospitalidade e Cuidados Paliativos», de José Nuno da Silva, ed. Afrontamento, Porto 2012.

Poema: «Esperança» de Czesław Miłosz, in Alguns gostam de poesia. Antologia; trad. Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves; ed. Cavalo de Ferro, 2004.

Padre Mário Rui de Oliveira 


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.11.12 | Sem comentários
— creio na vida eterna — 

— «Os que morreram: ressuscitam?»
é a pergunta à qual o Padre Vasco Pinto Magalhães
vai responder, no dia oito de novembro, às 21h,
no Auditório Vita (rua de S. Domingos, Braga).


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.11.12 | Sem comentários
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