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CELEBRAR O DOMINGO DA EPIFANIA


É Natal, plenamente Natal! Com a Epifania — palavra que significa «manifestação» — o Natal recebe toda a sua plenitude: «os gentios recebem a mesma herança» (segunda leitura). Jesus Cristo não veio à terra apenas para os cristãos, mas para todos os seres humanos, homens e mulheres, para todas as nações, ricas e pobres, como recorda a profecia de Isaías (primeira leitura). Tal é a amplitude do mistério, «uma grande paz até ao fim dos tempos» (salmo): maravilha da salvação oferecida aos que, na noite, sabem levantar os olhos para ver a estrela e decidem pôr-se a caminho (evangelho). Para eles (e para nós), «uma grande alegria»!

«A sua glória te ilumina»
A primeira leitura proposta para o domingo da Epifania, retirada do profeta Isaías, expressa o mistério do dia com uma espécie de pregão: «Levanta-te e resplandece, Jerusalém, porque chegou a tua luz e brilha sobre ti a glória do Senhor. […] As nações caminharão à tua luz e os reis ao esplendor da tua aurora». A luz como sinal de salvação volta a ser o tema dominante. Em estreita sintonia com esta palavra usam-se termos como resplandece, brilha, ilumina, esplendor, aurora.
A terceira parte do livro de Isaías («Terceiro Isaías») serve-se da imagem de Jerusalém, símbolo da presença de Deus, para afirmar que todos os povos hão de ir ao encontro da cidade, o mesmo é dizer, de Deus. Apesar de humilhada ao longo da história (um dos principais exemplos dessa humilhação foi a destruição levada a cabo por Nabucodonosor e o consequente exílio para a Babilónia), agora, com a presença de Deus, Jerusalém atrairá a si todos os povos, todas as religiões, todas as culturas, todas as pessoas. E trazem consigo os seus melhores dons. A cidade de Deus voltará a ser o orgulho dos povos e nela reinará a justiça e a paz; nunca mais haverá noite, pois será iluminada pelo próprio Deus: «A sua glória te ilumina».
No contexto litúrgico, o trecho exprime o sentido da festa: a universalidade da salvação. O centro não é propriamente a cidade em si mesma, mas o facto de nela se manifestar a presença de Deus. A luz de Deus é para todos!
As palavras do profeta, carregadas de esperança, convidam os seus ouvintes a levantar o ânimo e a experimentar a misericórdia de Deus. Hoje, a profecia converte-nos em testemunhas do movimento de Israel da escuridão para a luz; do desespero para a esperança; da consternação para o bem-estar; da violência para a paz; do ódio para o amor.

Neste Ano Santo, Deus quer fazer brilhar a luz da sua misericórdia em cada pessoa. E quer precisar da nossa colaboração comprometida e alegre. Assim, o Natal desafia-nos a gerar amor. Jesus Cristo é Deus connosco, é o amor de Deus presente na nossa carne. O Natal é a revelação da gratuidade e da misericórdia, do amor e da alegria do Evangelho. «Quando dizemos ‘é Natal’ estamos a dizer: Deus disse ao mundo a sua última, mais profunda e formosa palavra numa Palavra feita carne [...]. E esta Palavra significa: eu amo-vos, a ti, mundo, e a vós, seres humanos» (Karl Rahner).

© Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.1.16 | Sem comentários

GERAR AMOR


O Natal inverte o conceito de Deus e de Humanidade. O Deus omnipotente, imutável, eterno, imortal, invisível, converte-se num menino envolvido em panos e deitado numa manjedoura. Também se inverte a imagem da Humanidade, pois com o nascimento de Jesus Cristo fica confirmado que os valores supremos já não são a riqueza e o poder, mas a simplicidade, a pequenez, a beleza, a bondade e a ternura das crianças. A criança torna-se, assim, a referência mais importante, o modelo do Reino de Deus. Jesus Cristo identifica-se com as crianças e é a elas, aos pequeninos, a quem o Pai revela os mistérios do Reino. No Natal de Jesus Cristo antecipa-se a mensagem das bem-aventuranças, a mensagem da misericórdia. O Menino não só nos revela o rosto misericordioso do Pai, como também nos revela o rosto misericordioso do ser humano, humaniza-nos: mostra-nos como ser realmente irmãos e irmãs, como ser pessoas humanas, como ser filhos e filhas de Deus, como, na nossa vida, gerar amor.

Natal: gerar amor

Natal é irrupção do amor, da novidade, do diferente, do alternativo: Deus faz-se criança e as crianças tornam-se o centro da história! E esta novidade é tão forte que irradia a sua luz em toda a parte, até na celebração pagã do solstício de inverno. A Igreja primitiva cristianizou a data pagã do dia 25 de dezembro que era a festa do solstício de inverno: transformou a celebração do sol, estrela, luz do mundo, na celebração do Sol, Jesus Cristo, Luz do mundo. A luz da promessa transforma-se em luz da presença: «um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado».
Jesus Cristo é Deus connosco, é o amor de Deus presente na nossa carne. O Natal é a revelação da gratuidade e da misericórdia, do amor e da alegria do Evangelho. «Quando dizemos ‘é Natal’ estamos a dizer: Deus disse ao mundo a sua última, mais profunda e formosa palavra numa Palavra feita carne [...]. E esta Palavra significa: eu amo-vos, a ti, mundo, e a vós, seres humanos» (Karl Rahner). A espiritualidade de gestação, neste contexto, favorece a descoberta do «admirável amor» de Deus manifestado e oferecido em Jesus Cristo. De facto, a dinâmica da gestação desafia a suscitar amor, a proporcionar as condições necessárias para gerar amor em cada vida humana, em cada um de nós. Não há dúvida da importância fulcral do amor na vida humana. «Existimos porque temos um instinto amoroso, que é inexplicável. É este gesto amoroso que funda o humano» (Gonçalo M. Tavares). Gerar vida é também gerar amor. 
Nos passos de Jesus Cristo, o cristão, discípulo missionário, «está seguro do amor e da ternura de seu Pai e, para Ele, essa ternura é a única capaz de libertar os seres humanos, de fazê-los nascer para o amor. Ler o Evangelho com esses olhos permite descobrir como Jesus não autoriza a fuga do coração, da afetividade, das relações, da condição humana» (Uma nova oportunidade para o Evangelho. Para uma pastoral da gestação, ed. Paulinas). Feliz tempo de Natal que nos é dado como oportunidade para gerar amor. Nas famílias que acolhem um novo nascimento, contemplemos o amor gerado pela possibilidade de abraçar e acariciar o recém-nascido. Nas famílias que celebram momentos festivos, contemplemos o amor gerado pela alegria do encontro. Há tantas (outras) circunstâncias simples da vida que podem gerar amor!

Laboratório da Fé anunciada

Debrucemo-nos sobre o presépio que desde o tempo de Francisco de Assis surge nos templos e nas casas: um menino nasce no lugar onde se guardavam os animais; os seus pais envolvem-no em panos e deitam-no numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. O nascimento deste menino é anunciado aos pastores que pertenciam às «periferias» da sociedade. Mas este menino é proclamado Salvador e Senhor, é Deus connosco. Ele está no meio de nós, habita em nós. Ele vem ao nosso encontro: «quando alguém dá um pequeno passo em direção a Jesus, descobre que Ele já aguardava de braços abertos a sua chegada» (Francisco, Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual — «Evangelii Gaudium» [EG], 3). Em consequência, este encontro com os «braços abertos» do menino no presépio gera o amor que nos impele ao anúncio. Na verdade, «se uma pessoa experimentou verdadeiramente o amor de Deus que o salva, não precisa de muito tempo de preparação para sair a anunciá-lo» (EG 120). O encontro com Jesus Cristo faz gerar amor e fé anunciada!

© Laboratório da fé, 2015



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.12.15 | Sem comentários

CELEBRAR O DIA DE NATAL


Na manhã deste dia, nada fica na mesma: ele corre, o mensageiro da boa nova (primeira leitura), Deus está no meio de nós! É inaudito, inacreditável, como se costuma dizer… Mas sim, hoje, «Deus falou-nos por seu Filho» (segunda leitura), nasceu na nossa humanidade, o «Verbo fez-se carne» (evangelho), luz nas nossas trevas, Filho Primogénito que nos vem dar a conhecer o rosto misericordioso do Pai… Não há palavras suficientes para explicar o mistério. Como dizer a nossa alegria? Como expressar o nosso agradecimento? «Adorem-no todos os Anjos de Deus». E nós? Cantai, aclamai, exultai de alegria, «cantai ai Senhor um cântico novo» (salmo). É Natal: a nossa alegria exprima a nossa fé!

«Traz a boa nova»
No texto proposto para primeira leitura da «Missa do dia» de Natal, o poeta/profeta anuncia o «evangelho» aos exilados. Há um mensageiro que atravessa o deserto com a primeira notícia do resultado da batalha entre Deus e os poderes do Império. O mensageiro traz o evangelho, «traz a boa nova». E qual é essa boa nova? «O teu Deus é Rei». Este facto traz uma vida nova à cidade de Sião, Jerusalém. E até são «belos» os pés do mensageiro, apesar de atravessar os montes.
As sentinelas, debruçadas sobre os muros de Jerusalém destruída, gritam com alegria o que estão a ver: o regresso de Deus. Pelos verbos usados, facilmente se percebe que se trata de uma boa notícia. Gritam de alegria, porque vai acabar o exílio a que tinham sido submitos pelo império babilónico (ao longo de mais de cinquenta anos). Por isso, as sentinelas cantam e dançam de alegria. Até as «ruínas de Jerusalém» são convidadas a exultar de alegria, «porque o Senhor consola o seu povo».Não se trata duma atitude resignada, mas uma intervenção ativa que muda as circunstâncias da comunidade.
Deus «resgata Jerusalém»: a cidade e o povo são objeto privilegiado do amor divino e, por isso, podem viver em liberdade. Ao ver a força do poder de Deus («o seu santo braço»), os impérios inimigos mudarão as suas políticas desumanizadoras. O «nosso Deus» é um Deus que liberta e salva. Compreender isto é, sem dúvida, uma boa nova.

As palavras do «Segundo Isaías» têm um eco especial no nosso coração. O profeta convida a não ceder face à situação de derrota supostamente evidente. Não é salutar promover qualquer tipo de rancor e/ou desilusão. É verdade que o povo se sente abandonado, afastado da sua terra. Mas há sempre uma réstia de esperança! Eis que as promessas messiânicas alcançam o seu cumprimento. Haverá maior alegria?! Não é caso para menos. O anúncio da intervenção salvadora de Deus, em Jerusalém, é antecipação e figura da intervenção definitiva de Deus, em Belém, no nascimento do seu Filho. É um nascimento salvador, que rompe todas as fronteiras, que «traz a boa nova» a todos os desconsolados e cansados deste mundo. Hoje, aos que levantam questões que lhes parecem não ter resposta, é necessário que os cristãos levem a boa nova, sejam discípulos missionários da alegria do Evangelho. Deus está no meio de nós!

© Laboratório da fé, 2015


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.12.15 | Sem comentários

VOLTA A OLHAR O HOMEM PELA PRIMEIRA VEZ


A História da Salvação desvela-se numa aproximação progressiva de Deus ao ser humano, de modo mais explícito a partir de Abr(a)ão, o pai dos crentes, convidado a levantar os olhos. E à medida que Deus se aproxima, o ser humano tem a possibilidade de se «deixar ver» e também de «ver» a Deus. Há um verdadeiro intercâmbio de olhares! Da parte de Deus, a aproximação ao humano culmina numa jovem, filha de Israel, natural de Nazaré: Maria. Nela, o Verbo de Deus faz-se carne, humanidade frágil. E, nela, a carne é envolvida pela glória divina: a «imagem e semelhança» do princípio encontram a sua profundidade mais plena em Jesus Cristo, Deus nascido de uma mulher. Neste Filho, é-nos oferecido um irmão e é-nos concedida uma paternidade insólita: a divina. Somos filhos de Deus Pai; não somos escravos nem marionetas de um deus falsificado. É necessário que o nosso coração se dilate a fim de que nele haja lugar para este Menino que nos fala da ternura de Deus.

Natal: volta a olhar o homem pela primeira vez

Natal é a festa do humano. Do humano, mas a partir de Deus. Todavia, Deus valoriza o humano de uma forma diferente da nossa. Nós preferimos valorizar os bonitos, os fortes, os poderosos, os inteligentes… os ricos. Deus mostra o valor divino do humano a partir daqueles que nos parecem menos humanos, aqueles e aquelas a quem tantas vezes excluímos da festa da humanidade. É, por isso, que Deus inaugura a festa do humano entre nós com a revelação, em primeiro lugar, aos que vivem na «periferia»: aos excluídos (pastores) e aos que «não são dos nossos» (magos). Por isso, o Natal, festa do humano, apresenta-se como um desafio a converter o nosso olhar ao verdadeiramente e mais profundamente humano.
Em continuidade com o Advento, propomos um tempo de Natal sob o signo do «olhar», mergulhados na «mística do instante» ou «de olhos abertos». «A mística de olhos abertos não se dirige a um Deus distante: ela vive na consciência de estar continuamente diante dele. [...] De facto, se acontece não o vermos, não é por estar demasiado distante, mas por ser demasiado próximo» (José Tolentino Mendonça). Assim também proclama o poeta: «Queres saber o lugar da morada de Deus? Volta a olhar o homem pela primeira vez. Pois o Verbo de Deus acampou entre nós».
Isaías continua também a ser o nosso «guia», o profeta que nos desafia a ter os olhos sempre bem abertos. Agora, a sua profecia joga com a figura do mensageiro e das sentinelas, ambos imprescindíveis, na antiguidade, para anunciar o perigo ou o êxito. Desta vez, o mensageiro traz notícias de paz e de vitória. Uma imagem reforçada pelos verbos: «anuncia a paz, traz a boa notícia, proclama a salvação». E são as sentinelas que «veem com os próprios olhos o Senhor». Este anúncio libertador e salvador, primeiro circunscrito a Jerusalém, estende-se a toda a humanidade: «todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus». Hoje, para nós, cristãos, a boa notícia (evangelho) não é que as «ruínas de Jerusalém» recuperam a esperança e a alegria; elas são um símbolo de como Deus nunca abandona o seu povo e de como é preciso abrir os olhos, quais sentinelas dos tempos hodiernos, cheias de alegria, «porque veem com os próprios olhos o Senhor».

Laboratório da Fé vivida

«O modo como vemos decide a qualidade do nosso viver». José Saramago, na epígrafe do «Ensaio sobre a cegueira», recorda: «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara». Natal é tempo de reparar, «de ‘tomar conta da Palavra para que Ela tome conta de nós’. A Palavra com letra maiúscula ou, se preferirmos, o Verbo que se fez homem e veio habitar connosco. O nascimento de Cristo significa, por isso, o apelo a uma palavra diferente da nossa parte. Uma palavra vinculada a Cristo, inspirada nos gestos e nas ações que Ele realizou, uma palavra que seja testemunho para a sociedade» (Mensagem de Natal do Arcebispo). Entre os gestos realizados por Jesus Cristo destaca-se a forma como olha cada pessoa. «No olhar de Jesus, encontramos o olhar amoroso de Deus que anda à procura do Homem nos sítios mais improváveis, para transformar o seu coração. […] Jesus é o protagonista, é sua a iniciativa, mesmo que o motivo seja a nossa cegueira, a nossa maneira de viver ou de interpretar este instante». Jesus «Cristo é o terapeuta do olhar. Estende-nos a ponte para passarmos do ver ao contemplar e do simples olhar à visão da fé».

© Laboratório da fé, 2014



Volta a olhar o homem pela primeira vez

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.12.14 | Sem comentários

MANUAL BÁSICO DE ASTRONOMIA


O Natal é um tempo estranho: olhamos uns para os outros com menos indiferença e, juntos, sentimo-nos impelidos a partilhar a alegria, mesmo sob as incertezas da crise. A luz vacilante de uma estrela perdida na imensidade do céu é capaz de guiar a sabedoria dos três magos. O Deus da pobreza incarna na simplicidade de uma manjedoura, enquanto o deus da riqueza, aquele que pretendemos adorar com a mesma devoção, materializa-se nas ruas comerciais, debaixo da fria luz dos escaparates. Tal como fazemos hoje com tantas famílias de deslocados e desfavorecidos, naqueles dias decidimos fechar a nossa porta à família de Belém. Agora, concedemos-lhe apenas um lugar simbólico entre os bonequinhos de plástico e as refeições exageradas, no conforto suave do aquecimento das nossas casas.
Viver o Natal não requer preparativos supérfluos. É, sobretudo, uma disposição interior: significa estar especialmente atentos aos sinais de esperança que existem nos acontecimentos e nas coisas que nos rodeiam, a qualquer raio de luz que possa iluminar as nossas trevas pessoais. A partir da escuridão da nossa vida, como os Magos do Oriente, também nós somos convidados a seguir a estrela. Não é fácil. Requerem-se qualidades de astrónomo, mas vale a pena tentá-lo. Aqui vão algumas pistas.
Em primeiro lugar: é preciso sentir a nossa própria escuridão e reconhecê-la. Só quem se sabe necessitado da luz de Deus pode colocar-se no caminho da procura. Quem pensa que já a tem dentro de si como num cofre fechado à chave não precisa de Deus; basta-se a si mesmo. Assim, para começar faz falta ter consigo um saudável desejo de ir à procura.
Segundo: procuremos ver mais além. Há tantos que pensam que a lamparina da sua casa é a estrela que procuram. Infelizmente, perdem a vastidão eterna que separa as galáxias. Se queremos encontrar a estrela, procuremos ver mais além de nós mesmos, mais além do nosso umbigo, mais além da nossa janela, mais além dos nossos preconceitos. 
Terceiro: sejamos mais otimistas. Há quem nunca procure, porque parte sempre da convicção desanimada de que não vai encontrar nada de novo. Não sejas incrédulo, toma o olho do telescópio e observa a noite dos astros. Procura especialmente próximo dos sem-sentido e das desolações, porque são lugares pródigos em estrelas. Só um bom astrónomo conhece o tamanho enorme de uma estrela, embora não pareça mais do que um ponto vacilante no meio da noite. «Grande» e «pequeno» são termos muito relativos. Não há nada grande para o universo, não há nada pequeno para Deus.
Quarto: sejamos perseverantes. Quando encontrares a tua estrela, segue-a sem hesitações. O caminho pode durar muitos anos ou até a maior parte da tua vida. Às vezes, poderá parecer uma travessia inútil, porque haverá noites de nevoeiro; ou porque, a cada passo que damos na procura, a estrela parecerá afastar-se outro tanto de nós e, embora desejemos a sua luz, parecer-nos-á cada vez mais longe. Mas se aprendemos a olhar o horizonte duma estrela, poderemos atravessar com esperança até o deserto mais inóspito. É para isso que servem as estrelas: para nos animar na caminhada.
E quinto: logo que a tua estrela te mostre o caminho, aprende, como os Magos, a deixar-te tocar pelo mistério, a adorar em silêncio e a reconhecer que há enigmas tão grandes que silenciam a alma. Quando isto acontecer, não digas nada. Apenas contempla em silêncio. E depois oferece, como os Magos, o melhor do que honestamente guardas no teu coração.

© Juan V. Fernández de la Gala — eclesalia
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2014

Preparar o domingo da Sagrada Família (Ano A), no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.1.14 | 3 comentários

Dos «Capítulos» de São Máximo Confessor, abade


O Verbo de Deus nasceu segundo a carne uma vez por todas. Mas pela sua bondade e condescendência para com os homens, deseja nascer sempre segundo o espírito para aqueles que O procuram, e faz-Se menino que se vai formando neles à medida que crescem as suas virtudes. Ele manifestou-Se em proporção com a capacidade de cada um, capacidade que Ele conhece perfeitamente. E se não Se comunica com toda a sua dignidade e grandeza, não é porque não o deseje, mas porque conhece as limitações das faculdades receptivas de cada um. Assim, o Verbo de Deus revela-Se sempre a nós do modo que nos convém, e contudo ninguém pode conhecê-lo perfeitamente, por causa da grandeza do mistério.
Por isso, o Apóstolo de Deus, considerando a força do mistério, exclama sabiamente: Jesus Cristo ontem e hoje e para sempre, entendendo que se trata de um mistério sempre novo, que nunca envelhece para a compreensão da inteligência humana.
Cristo, que é Deus, nasce e faz-Se homem, assumindo um corpo e uma alma racional, Ele por quem tudo o que existe saiu do nada. No Oriente, uma estrela brilha em pleno dia e conduz os Magos ao local onde jaz o Verbo Encarnado, para demonstrar misticamente que o Verbo, contido na Lei e nos Profetas, supera o conhecimento sensível e conduz os gentios à luz de um conhecimento superior.
Com efeito, a palavra da Lei e dos Profetas, religiosamente entendida, é como a estrela que conduz ao conhecimento do Verbo Encarnado todos aqueles que são chamados pela graça, segundo o desígnio de Deus.
Deus faz-Se homem perfeito, sem que Lhe falte nada do que é próprio da natureza humana, à excepção do pecado (o qual, aliás, não era inerente à natureza humana). Faz-Se homem perfeito, a fim de provocar a voracidade insaciável do dragão infernal, ávido e impaciente por devorar a sua presa, isto é, a humanidade de Cristo. Mas ao devorar esta carne, ela havia de converter-se em veneno mortal e causa da sua ruína total, por força da divindade que em seu interior levava oculta. Ao contrário, esta mesma força divina serviria de remédio para a natureza humana, restituindo-lhe a graça original.
Assim como o dragão infernal, tendo inoculado o seu veneno na árvore da ciência, havia corrompido a natureza do homem que saboreara o seu fruto, também agora, tentando devorar a carne do Senhor, ficou arruinado e destruído pela virtude da divindade que nela habitava.
A Encarnação divina é um grande mistério e nunca deixará de ser mistério. Como pode o Verbo, que está em pessoa e essencialmente na carne, existir ao mesmo tempo em pessoa e essencialmente no Pai? Como pode o Verbo, totalmente Deus por natureza, fazer-Se totalmente homem por natureza, sem detrimento algum da natureza divina, segundo a qual é Deus, nem da nossa, segundo a qual Se fez homem?
Só a fé pode apreender estes mistérios, a fé que é precisamente a substância e o fundamento das realidades que ultrapassam toda a percepção e raciocínio da mente humana.

© Conferência Episcopal Portuguesa – Liturgia das Horas
Centuria 1, 8-13: PG 90, 1182-1186


Rezar o Natal e a Epifania, no Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.1.14 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


O Secretariado de Liturgia da diocese do Porto, num artigo do jornal «Voz Portucalense» (2 de janeiro de 2013) evoca o tema da luz, relacionando o tempo de Natal com a celebração da Páscoa: a luz natalícia, característica do Natal e da Epifania, aponta para a «apoteose que acontece na Páscoa, na noite santa, em que Cristo, a luz do mundo, sem ocaso, ilumina e se reflete sobre todas as coisas». Entretanto, entre um e outro acontecimento situa-se a festa da Apresentação de Jesus no Templo (2 de fevereiro), onde de novo se destaca o tema da luz. «A celebração litúrgica, na sua rica gramática simbólica, dá um lugar de relevo à luz, de modo muito especial, na Páscoa e no Natal. O símbolo da luz introduz-nos na participação do mistério de Cristo. Neste sentido, se compreendem as velas que colocamos no altar, o Círio pascal que preside às celebrações principais, a lâmpada que arde diante do Santíssimo Sacramento, as velas que levamos nas procissões, a vela que se acende no batismo, na profissão de fé, o círio que se coloca diante do féretro, etc. A nossa existência, ritmada pela luz, manifesta-se, marcada por Cristo que diz: 'Eu sou a luz do mundo… Vós sois a luz do mundo!'».

A liturgia também se compreende como um jogo de luz. Desde a orientação das igrejas, os estilos arquitetónicos, a própria ação litúrgica, os ritos, os tempos litúrgicos e os lugares, etc., não são alheios aos fenómenos cósmicos, mas inserem-se, neles, num realismo impressionante, repleto de sentido. Por isso, podemos dizer que estão marcados por este jogo da luz. Neste sentido, o Natal volta-se para a Páscoa: a luz que surge, estabelece um ritmo que aponta para a sua apoteose que acontece na Páscoa, na noite santa, em que Cristo, a luz do mundo, sem ocaso, ilumina e se reflete sobre todas as coisas, ao longo de todo o ano (ano litúrgico) e celebrações (celebrações litúrgicas).
«Santo é o dia que nos trouxe a luz. Vinde, adorai o Senhor. Hoje, uma grande luz desceu sobre a terra». Assim cantámos no Natal, evocando a luz que veio para «o povo que andava nas trevas» (Isaías 9, 2), o esplendor da glória do Senhor que envolveu os pastores (Lucas 2, 9), Cristo, esplendor da glória do Pai (Hebreus 1, 3), Vida, luz dos homens (João 1, 4), Luz que resplandece em Jerusalém, que conduz as nações e os reis (Isaías 60, 1.3), estrela que guia os Magos (Mateus 2, 2), etc.
O Natal e a Epifania são, com efeito, festas da Luz. Quarenta dias, após as festas natalícias, lembrando o acontecimento luminoso, se evoca Cristo luz «para iluminar as nações» que, vindo ao encontro do seu povo fiel, é a luz verdadeira que não tem ocaso. Nesse dia (2 de fevereiro), o povo reúne-se, acende as velas e o sacerdote abençoa a luz. O povo encaminha-se para a igreja com as velas acesas.
«Aqui temos um símbolo, belo e expressivo, entre muitos: a vela. Não te digo nada de novo, aliás; com certeza já o sentiste muitas vezes. Repara como ela se ergue no candelabro. Assenta o pé largo e pesado. O fuste ergue-se seguro. A vela levanta-se bem apertada e circundada pela arandela (aparador) bem espalmada. A sua figura vai-se adelgaçando ligeiramente; firmemente modelada por mais que suba. Assim está no espaço, esbelta, em pureza imaculada e cor levemente acentuada, distinta, por uma forma clara, de toda a mistura. Suspensa ao alto, está a chama e nela transforma a vela, o seu corpo puro em radiante luz. Diante dela não sentes acordar qualquer coisa de nobre?! Vê como está ali, imperturbável no seu posto, atirada ao alto, pura e honrosa. Nota como tudo nela se proclama: 'Estou pronta!'. Como ela está onde deve, diante de Deus. Nada nela foge e nada se subtrai. Tudo, límpida prontidão. E, em seu determinismo, consome-se incessantemente em luz e ardor. Talvez digas: 'que sabe disso a vela? Se ela não tem alma!'. Pois dá-lhe tudo! Deixa que se torne expressão tua. Faz com que, diante dela, desperte toda a disposição nobre: 'Senhor, aqui me tens!'. Sentirás, então, a sua atitude esbelta e pura, como expressão do teu próprio sentimento. Faz com que toda a tua disposição se robusteça de modo a atingir a felicidade indefectível. Então sentirás: 'Senhor, naquela vela, estou eu diante de Ti'. Não fujas ao teu destino. Persevera. Deixa-te de querer saber continuamente o porquê e o para quê. O sentido mais profundo da vida está em comunicarmo-nos em verdade e amor de Deus, tal como a vela se consome em luz e ardor» (R. Guardini, Sinais Sagrados).
A Bíblia aplica, este simbolismo da luz, a Deus que «habita numa luz inacessível» (1Timóteo 6, 16). «Deus é luz e n’Ele não há treva» (1João 1,5). E o salmista: «Meu Deus, como sois grande, vestido de esplendor e majestade, envolvido de luz, como de um manto» (Salmo 104, 2). E a Liturgia: «único Deus vivo e verdadeiro… permaneceis, eternamente, na luz inacessível… criastes o universo para encher de bênçãos todas as criaturas e a muitas alegrar na claridade da vossa luz» (Anáfora IV).
Mas este simbolismo litúrgico refere-se, sobretudo, a Cristo: «o Verbo era a luz verdadeira que ilumina todo o homem» (João 1,9); «Eu sou a luz do mundo: quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida» (João 8, 12): palavras proclamadas por Jesus na festa das Tendas, a festa das luzes, no Templo de Jerusalém. Este simbolismo atravessa toda a Bíblia, desde a primeira (faça-se a luz: Génesis 1, 3) até à última (a nova Jerusalém iluminada pela glória de Deus e a sua lâmpada é o Cordeiro… aí não haverá noite: Apocalipse 21, 23ss).
Naturalmente, a celebração litúrgica, na sua rica gramática simbólica, dá um lugar de relevo à luz, de modo muito especial, na Páscoa e no Natal. O símbolo da luz introduz-nos na participação do mistério de Cristo. Neste sentido, se compreendem as velas que colocamos no altar, o Círio pascal que preside às celebrações principais, a lâmpada que arde diante do Santíssimo Sacramento, as velas que levamos nas procissões, a vela que se acende no batismo, na profissão de fé, o círio que se coloca diante do féretro, etc. A nossa existência, ritmada pela luz, manifesta-se, marcada por Cristo que diz: «Eu sou a luz do mundo… Vós sois a luz do mundo!».

© SDL | Voz Portucalense
© Adaptação de Laboratório da fé, 2014



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Laboratório da fé celebrada, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.1.14 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


«Purificar e evangelizar a religiosidade popular» — é um dos objetivos propostos pela Arquidiocese de Braga, no programa pastoral para 2013+14, subordinado à temática da «fé celebrada». A este propósito partilhamos o artigo publicado pelo Secretariado de Liturgia da diocese do Porto no jornal «Voz Portucalense» (3 de janeiro de 2007) sobre o tempo de Natal a partir das sugestões do «Diretório sobre a Piedade Popular» (PPP) de 17 de dezembro de 2001: «A piedade popular, precisamente porque intui os valores inerentes ao mistério do Natal, é chamada a cooperar na salvaguarda da memória da manifestação do Senhor, de modo que a forte tradição religiosa conexa com o Natal não se torne terreno de operações de consumismo e infiltrações de neopaganismo».

Uma reflexão atenta… deve conduzir a um esforço concreto para harmonizar, na medida do possível, os exercícios de piedade com os ritmos e as exigências da Liturgia; mas «sem fundir ou confundir as duas formas de piedade»; e, consequentemente, evitar a confusão e a mistura híbrida da Liturgia com os exercícios de piedade; não opor a Liturgia aos exercícios de piedade ou, contra o sentir da Igreja, eliminar estes, criando um vazio que, muitas vezes, não é preenchido com grande prejuízo do povo fiel (DPP, 74).
No tempo de Natal, a Igreja celebra o mistério da manifestação do Senhor: o seu nascimento humilde em Belém, anunciado aos pastores, primícias de Israel que acolhe o Salvador; a epifania aos Magos «vindos do Oriente» (Mateus 2, 1), primícias dos gentios, que em Jesus recém-nascido reconheceram e adoraram o Cristo Messias; a teofania junto do rio Jordão, em que Jesus é proclamado pelo Pai «Filho muito amado» (Mateus 3, 17) e inaugura publicamente o seu ministério messiânico; o sinal realizado em Caná com que Jesus «manifestou a sua glória e os discípulos creram nele» (João 2, 11) — cf. DPP, 106.
No tempo do Natal, além destas celebrações que dão o seu sentido primordial, ocorrem outras que estão intimamente relacionadas com o mistério da manifestação do Senhor: o martírio dos Santos Inocentes (28 de dezembro), cujo sangue foi derramado por causa do ódio contra Jesus e da recusa da sua soberania por parte de Herodes; a memória do Nome de Jesus, a 3 de janeiro; a festa da Sagrada Família (domingo dentro da Oitava), em que se celebra o santo núcleo familiar no qual «Jesus crescia em sabedoria, idade e graça diante de Deus e dos homens» (Lucas 2, 52); a solenidade do primeiro dia de janeiro, memória intensa da maternidade divina, virginal e salvífica de Maria; e, se bem que já fora dos limites do tempo natalício, a festa da Apresentação do Senhor (2 de fevereiro), celebração do encontro do Messias com o seu povo, representado por Simão e Ana, e momento da profecia messiânica de Simeão (cf. DPP, 107).
Grande parte do rico e complexo mistério da manifestação do Senhor ecoa amplamente em expressões próprias na piedade popular. Ela está particularmente atenta aos acontecimentos da infância do Salvador, em que se manifestou o seu amor por nós. Na verdade, a piedade popular percebe intuitivamente:
– o valor da «espiritualidade do dom», própria do Natal: «um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado» (cf. Isaías 9, 5), dom que é expressão do amor infinito de Deus que «tanto amou o mundo que lhe entregou o seu Filho Unigénito» (João 3, 16);
– a mensagem de solidariedade que o evento do Natal traz consigo: solidariedade com o homem pecador, pelo qual, em Jesus, Deus se fez homem «por nós homens e para nossa salvação»; solidariedade com os pobres porque o Filho de Deus «sendo rico se fez pobre» para nos «enriquecer com a sua pobreza» (2Coríntios 8, 9);
– o valor sagrado da vida e o evento admirável que acontece em cada parto de mulher, dado que foi através do parto de Maria que o Verbo da vida veio para o meio dos homens e se tornou visível (cf. 1João 1, 2);
– o valor da alegria e da paz messiânica, a que os homens de todos os tempos aspiram profundamente: os Anjos anunciam aos pastores que nasceu o Salvador do mundo, o «Príncipe da paz» (Isaias 9, 5) e desejam «paz na terra aos homens que Deus ama» (Lucas 2, 14);
– o ambiente de simplicidade e de pobreza, de humildade e de confiança em Deus que envolve os acontecimentos do nascimento do menino Jesus.
A piedade popular, precisamente porque intui os valores inerentes ao mistério do Natal, é chamada a cooperar na salvaguarda da memória da manifestação do Senhor, de modo que a forte tradição religiosa conexa com o Natal não se torne terreno de operações de consumismo e infiltrações de neopaganismo (cf. DPP, 108).

© SDL | Voz Portucalense
© Adaptação de Laboratório da fé, 2013



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Laboratório da fé celebrada, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 31.12.13 | Sem comentários

UMA GRANDE LUZ


A luz artificial gera demasiadas sombras e nevoeiros. Sombras de ausências, nevoeiros de tristeza, sombras de enfermidade, nevoeiros de famílias desfeitas, sombras de desemprego, nevoeiros de objetivos não atingidos… cada um conhece e sofre as suas sombras e os seus nevoeiros. Parece uma contradição: quando as festas natalícias convidam a «estar bem» surgem com mais intensidade as sombras e nevoeiros. Luzes acesas por todo o lado, adornos, compra de presentes, sorteios, cabazes, consumo, ceias e mais ceias… todo um ritual pagão que disfarça a realidade e embeleza-a com alguns rasgos de religiosidade. Porventura, dir-se-á que é demasiado artificial para ser autêntico!

Natal: uma grande luz!

«Uma grande luz!». Através de um hino litúrgico, Isaías dá-nos uma indicação: o ADN do Invisível é a luz. Esta claridade deslumbrante é como as lâmpadas dos faróis que guiam os barcos. É essa mesma claridade que encontramos na «luz da fé». Esta é «a expressão com que a tradição da Igreja designou o grande dom trazido por Jesus. […] Urge recuperar o carácter de luz que é próprio da fé, pois, quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam também por perder o seu vigor» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «A luz da fé» [«Lumen Fidei»], 1.4).
A verdade é que a celebração do tempo de Natal tem a ver com as sombras e os nevoeiros em que Deus nasce: num presépio, pobre e recusado, colocado numa manjedoura, Deus apresenta-se como luz na escuridão, como esperança no meio da confusão, como promessa na deceção. No meio da noite brilha a luz! Uma grande luz! Não é uma luz artificial. É autêntica. É nova. Nunca mais se apaga. Ilumina tudo e todos. O Natal é a celebração de um Deus que vem para iluminar a nossa vida.
Nós, aqueles que queremos seguir Jesus Cristo e o confessamos como Filho de Deus; aqueles que acreditamos que no mistério da Incarnação nos foi revelada a verdadeira imagem de Deus, que nunca mais permanecerá escondido; aqueles que ainda nos atrevemos a ficar emocionados ao dar um beijo ao Menino, como se fossemos pastores; aqueles que nos colocamos sob a proteção de Maria, a Mãe de Deus, no início de cada ano; aqueles que ainda sonhamos com os Magos do Oriente e acreditamos na luz que pode guiar e iluminar a nossa vida; todos nós, de raças e línguas diferentes, de expressões e costumes diversificados, de abraços e linguagens multiformes, todos nós, continuamos a ter motivos para celebrar o Natal.
A luz da fé desafia-nos a uma nova atitude diante das sombras e nevoeiros do nosso mundo. Natal é sinal de vida e motivo de compromisso. Celebrar o Natal é olhar para a realidade com os olhos de Deus. Ao contemplar o presépio onde Deus nasce, vemos os «presépios» da injustiça e da violência, do ódio e da guerra… onde tantos homens e mulheres estão mergulhados. Ao contemplar o presépio, vemos famílias desalojadas, expulsas das suas casas, sem pão nem mesa, sem sítio para viver com dignidade. «Tomemos consciência que o mundo pode e deve mudar. Se abrirmos bem os olhos, conseguiremos ver que os pés descalços são muitos e variados. Por isso, o melhor presente que podemos oferecer é ajudar a calçar os pés descalços com a nossa misericórdia e acreditar nas nossas capacidades. Não percamos tempo! Temos diante de nós a oportunidade de devolver a alegria» (Mensagem do Arcebispo de Braga, Dom Jorge Ortiga).

Laboratório da Fé celebrada

Não sabemos exatamente onde Maria deu à luz o seu filho. Mas o texto bíblico precisa: «deitou-o numa manjedoura». Este detalhe está carregado de sentido. A manjedoura é o lugar onde os animais se alimentam. Ora, a vida de Jesus Cristo é uma total entrega à humanidade. Ele alimenta os homens e as mulheres com as suas palavras e com a sua vida. Este é o sentido das representações próprias dos séculos quarto e quinto, onde a manjedoura aparece sob a forma de um altar semelhante aos das primeiras basílicas. Contemplemos a manjedoura. Jesus Cristo vai-se oferecer, na sua última ceia, vai dar-se como alimento para todos, oferece toda a sua vida, dá-se totalmente para nos alimentar. Uma bela de viver o Natal é celebrar a Eucaristia. «Tendo em conta a temática do nosso ano pastoral, a liturgia é, por assim dizer, o berço onde Cristo ‘nasce’ em cada celebração, fazendo-se presente, para nos encher dessa vida nova» (Mensagem do Arcebispo). Celebrar o Natal é acolher a chegada de «uma grande luz».

© Laboratório da fé, 2013

Uma grande luz
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.12.13 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


O Secretariado de Liturgia da diocese do Porto, num artigo do jornal «Voz Portucalense» (7 de dezembro de 2011) procura mostrar que a escolha do dia 25 de dezembro para a celebração do Natal está mais relacionada com a Páscoa do que com o festa romana ao deus sol. Trata-se mais de uma «questão de fé» do que uma «manifestação religiosa». Na tentativa de determinar o dia exato da Páscoa, os cristãos (séculos II-III) chegaram a duas hipóteses: 25 de março e 6 de abril. «A partir daqui é só fazer o 'cômputo': nove meses após a conceção e início da vida humana do Verbo de Deus há que celebrar o seu Nascimento. Daí as datas de 25 de dezembro e/ou 6 de janeiro. Por outras palavras: a festa de Natal é uma projeção da celebração da Páscoa! (Os biblistas dizem-nos algo de semelhante na exegese dos relatos da infância de Mateus e Lucas…».

Por que razão celebramos o Natal do Senhor a 25 de dezembro?
Desde o século XVIII que se generalizou, e quase recolheu consenso, a chamada hipótese da «história das religiões». Segundo esta teoria, o 25 de dezembro foi escolhido em Roma por ser a data do solstício de Inverno no Calendário Juliano. Nessa data, o imperador romano Aureliano estabeleceu no ano 274 o «dies natalis solis invicti», isto é, a festa do aniversário do sol invencível, suscitando grande adesão das populações pagãs. Após a paz de Constantino (ano 313), as autoridades eclesiásticas terão instituído em Roma, na mesma data de 25 de Dezembro, a celebração litúrgica do Natal. Desse modo dissuadiam os seus fiéis das celebrações pagãs e mostravam que Jesus Cristo é o verdadeiro sol invicto: «Sol da Justiça» anunciado por Malaquias; «Sol Nascente» cantado por Zacarias no «Benedictus»… As províncias orientais do império romano seguiriam outros calendários que fixavam o solstício a 6 de janeiro e, por isso, escolheram essa data para celebrar o mistério da Incarnação. Num segundo momento e com a comunicação entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente os ocidentais acolheram também a celebração do dia 6 de janeiro (Epifania) e os Orientais passaram a celebrar também a Natividade a 25 de dezembro.
Será que as coisas se passaram mesmo assim? No início do século XX o grande estudioso das origens do culto cristão que foi Louis Duchesne chamou a atenção para uma explicação diferente conhecida pela Igreja Antiga: a «teoria do cômputo». Poucos lhe deram atenção, tão sedutora e convincente parecia a explicação tirada da história das religiões, em moda nessa época. Mas trabalhos mais recentes sobre as origens do ano litúrgico de Thomas J. Talley, entre outros, obrigam a reformular os manuais dando novo crédito à «teoria do cômputo».
Hoje, por exemplo, sabemos que os Donatistas, no Norte de África, celebravam o Natal a 25 de dezembro antes de 311, numa época de perseguições em que não seria verosímil que os cristãos abraçassem uma data promovida por imperadores romanos pagãos e pouco amistosos... Pelos vistos também nunca existiu qualquer calendário egípcio que fixasse o solstício de Inverno a 6 de janeiro. Entretanto, um estudo atento das obras de Clemente de Alexandria permite concluir que esse ilustre catequeta do século II, independentemente de especulações à volta de solstícios ou equinócios, pensava que o nascimento de Cristo tinha tido lugar no dia 6 de janeiro…
Que diz, então, essa teoria do «cômputo» que teremos de levar mais a sério ao tentar explicar ao povo de Deus o motivo da escolha dos dias 25 de dezembro/6 de janeiro para a celebração do mistério da Incarnação? Os primeiros cristãos pensavam que Jesus – e do mesmo modo outras grandes figuras da história da salvação – viveu na terra um número exato de anos. Por isso, a data da sua morte devia coincidir com a da sua conceção. Ora, na tentativa de transpor o dia 14 de Nisan – dia da crucifixão e morte de Jesus – para uma data fixa do calendário solar, os cristãos do século II-III encontraram duas datas, conforme as regiões do Império: 25 de março (Palestina, Roma, Norte de África…) ou 6 de abril (Ásia Menor; Egito…). A partir daqui é só fazer o «cômputo»: nove meses após a conceção e início da vida humana do Verbo de Deus há que celebrar o seu Nascimento. Daí as datas de 25 de dezembro e/ou 6 de janeiro. Por outras palavras: a festa de Natal é uma projeção da celebração da Páscoa! (Os biblistas dizem-nos algo de semelhante na exegese dos relatos da infância de Mateus e Lucas…)
Esta «nova» – melhor dito: revalorizada – explicação da escolha do dia 25 de dezembro para a nossa celebração do Natal de Jesus não significa que tenhamos de ignorar o natural influxo da coincidência de calendário com os festivais pagãos do solstício tanto na promoção pastoral da festa como nas temáticas da pregação e da eucologia. Os cristãos não vivem fora do mundo ou num mundo à parte. Mas há uma conclusão interessante a tirar: celebrar o Natal de Jesus a 25 de dezembro foi na origem – e talvez deva voltar a ser – mais uma questão de fé do que uma «manifestação religiosa». É tempo – quem sabe se a famigerada «crise» não poderá ajudar? – de nos convertermos de um Natal demasiado pagão a um Natal mais cristão...

© SDL | Voz Portucalense
© Adaptação de Laboratório da fé, 2013



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Laboratório da fé celebrada, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.12.13 | Sem comentários

CELEBRAR O NATAL

UMA LITURGIA SIMPLES E BELA

Apresentamos algumas sugestões para concretizar o fruto esperado deste ano pastoral: «uma liturgia simples e bela, sinal da comunhão entre Deus e os seres humanos».



Natal: noite, aurora, dia


  • A liturgia do Natal propõe três (ou quatro se contarmos com a Vigília) celebrações próprias: Noite, Aurora, Dia. Em cada uma delas são propostas leituras e orações próprias. A indicação comum é que essas leituras são intercambiáveis. Significa que, onde não há correspondência com o ritmo temporal das celebrações (missa do galo, missa da aurora, missa do dia), pode-se fazer uma escolha a partir das várias leituras propostas. A nossa proposta é a seguinte: Isaías 9, 2-7 (primeira leitura da missa da noite); Salmo 96 (da missa da aurora); Tito 3, 4-7 (segunda leitura da missa da aurora); João 1, 1-18 (evangelho da missa do dia). O critério principal desta escolha está associado à temática da luz que preside ao tempo de Advento e de Natal (Ano A, 2013+14). Uma nota final a este propósito: onde se celebra a «missa do galo» não se deve omitir o relato da natividade segundo Lucas (2, 1-14); e até se pode acrescentar a continuação do relato, conforme o evangelho da missa da aurora (2, 15-20).
  • Estivemos vigilantes pela vinda do Senhor, procuramos a esperança em tempo de «nevoeiro». Eis a luz que se levanta. Isaías convida o povo a exultar de alegria: Deus cumpriu a sua promessa ao dar a David um descendente. Oito séculos depois, estas palavras aplicam-se a Jesus Cristo, cujo nascimento suscita o nosso louvor. Deus dá a sua graça, para salvação de todos os seres humanos. E nós somos convidados, como os pastores, a reconhecê-lo num menino envolvido em panos e deitado numa manjedoura. Acolhamos a revelação deste mistério, com a admiração e ternura de Maria e de José e com a alegria dos pastores.



Arte de celebrar

ACOLHER OS OCASIONAIS, OS VISITANTES. Neste dia, em alguns lugares, aumentam os participantes nas celebrações. Uns são praticantes ocasionais outros estão de visita aos familiares. Em qualquer dos casos, convém acolher bem estas pessoas que não são habituais na comunidade. Um acolhimento à entrada da igreja é fundamental para que cada um se sinta bem, para que a sua presença seja sinal de alegria. Sem cair numa explicação inútil dos ritos, algumas introduções ou comentários podem ser úteis para ajudar a interiorizar a fé celebrada. Uma folha com os cânticos pode-se revelar preciosa: aí podem estar também algumas indicações para ajudar a celebrar melhor, tais como: as referências bíblicas dos textos escolhidos; as orações do Glória, do Credo, do Pai nosso; alguma indicação sobre a forma de comungar o Corpo de Cristo; a frase-chave do tempo de Natal; uma saudação natalícia, etc...



Fé celebrada com a comunidade

  • «Uma grande luz»! — é a temática proposta para acompanhar a celebração e vivência do tempo de Natal, apoiada nos textos bíblicos da primeira leitura (Isaías). Somos convidados a celebrar «uma grande luz» que nos visita, depois de termos caminhado «à luz do Senhor» (Advento). Para o início da celebração (procissão de entrada), seguimos a mesma proposta dos domingos de Advento: entrada em silêncio; breve paragem no meio da assembleia; proclamação da frase-chave («O povo que andava nas trevas viu uma grande luz»); cântico de entrada. 
  • Vela de Natal: duas propostas. A primeira segue o ritmo de Advento: após a primeira leitura, acende-se a vela de Natal, acompanhada por um breve comentário: «O nascimento de um descendente de David consolou o seu povo. Deus cumpre as suas promessas. Para nós, o profeta Isaías anuncia o nascimento de Jesus. 'O povo que andava nas trevas viu uma grande luz'!». A segunda proposta consiste em transportar o Círio Pascal na procissão da entrada, acompanhado pelas quatro velas de Advento. Neste caso, o breve comentário substitui a proclamação da frase-chave referida anteriormente.



Fé celebrada com a catequese

  • Deus dá-nos o melhor presente: Jesus Cristo. Temos oportunidade de nos reunirmos para celebrar este grande dom. Em família, trocamos presentes. Infelizmente, perto ou longe de nós, nem todas as crianças tiveram essa oportunidade... As crianças podem trazer um presente para colocar junto do altar (ou do lugar onde está o presépio) no momento da apresentação dos dons. Depois, anuncia-se quando e a quem vão ser entregues, em nome das crianças da comunidade.

© Laboratório da fé, 2013

Celebrar o Natal, no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.12.13 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


O Secretariado de Liturgia da diocese do Porto, num artigo do jornal «Voz Portucalense» (14 de dezembro de 2011) explica o sentido do tempo de Natal, no contexto do Ano Litúrgico. O texto põe em destaque a relação profunda entre o ciclo de Natal e o ciclo da Páscoa: «De facto, o ciclo da Incarnação (Advento-Natal-Epifania) mais não é do que uma projeção do ciclo pascal (Quaresma-Páscoa-Pentecostes)». 

[...] O Ano Litúrgico mais não é do que o desdobramento pelo ciclo de um ano do mistério de Cristo que é sempre integralmente celebrado em cada Eucaristia. Já São Paulo o ensinou à primeira geração cristã: «Todas as vezes que comerdes desse pão e beberdes desse cálice, anunciareis a morte do Senhor até que Ele venha» (1Coríntios 11, 26).
Entretanto, se é verdade que o mistério de Cristo – anunciado, contemplado, celebrado e vivido desde a perspetiva da sua consumação pascal – é sempre uno e íntegro, a perceção e experiência que dele se pode ter é sempre parcial, limitada, fragmentária, sequencial, diacrónica. Por isso a Igreja, na sua solicitude pedagógica e maternal, querendo proporcionar aos seus filhos o alimento sólido e integral de todo o mistério vivificante do Seu Divino Esposo, decidiu parti-lo e reparti-lo em pequeninos. E assim foi organizando progressivamente o ano litúrgico. É o que a Constituição conciliar sobre a Sagrada Liturgia explica no seu número 102: «A santa mãe Igreja considera seu dever celebrar em determinados dias do ano, a memória sagrada da obra de salvação do seu divino Esposo. ... Distribui todo o mistério de Cristo pelo correr do ano, da Encarnação e Nascimento à Ascensão, ao Pentecostes, e à expectativa da feliz esperança e da vinda do Senhor».
Os dois focos a partir dos quais se desenha a elipse do ano litúrgico são o domingo e a páscoa anual. De facto, o «ciclo da Incarnação» (Advento-Natal-Epifania) mais não é do que uma projeção do ciclo pascal (Quaresma-Páscoa-Pentecostes). E não admira porque até a data do Natal parece ter sido calculada a partir da data da Páscoa…
Algo de paralelo parece ter acontecido na redação dos Evangelhos: do núcleo primitivo do anúncio (Paixão, Morte, Ressurreição) vai-se remontando, progressivamente, até ao início da vida pública de Jesus (São Marcos) à infância de Jesus (Mateus e Lucas). E a exegese bíblica mostra-nos como a redação dos relatos evangélicos da infância de Jesus pressupõe a experiência pascal que, de algum modo, antecipa.
A emergência da celebração litúrgica do Natal/Epifania e a sua progressiva importância pastoral está também relacionada com o progresso da reflexão teológica sobre o mistério de Cristo e de Maria, ocasionado pelos debates que levaram à fixação do dogma trinitário e cristológico nos séculos IV e V. É natural que as aquisições dos primeiros concílios ecuménicos (principalmente Niceia, Éfeso e Calcedónia),
tenham enriquecido o conteúdo da celebração litúrgica dos mistérios da Incarnação do Verbo e da Maternidade de Maria. Basta ler a pregação de Santo Agostinho e do papa S. Leão Magno para confirmar isso mesmo.
Na génese deste ciclo também teve o seu peso a Liturgia da Palestina, com celebrações ligadas aos lugares do nascimento de Jesus na Gruta de Belém e na basílica da Natividade. Há notícias antigas de uma celebração comemorativa da natividade nesse lugar. A celebração nesse lugar de uma vigília solene (descrita por Egéria, cerca do ano 383), será determinante na introdução de uma celebração noturna no Natal.
A celebração atual da solenidade do Natal desdobra-se em 4 Missas: Vigília (na tarde de 24 de Dezembro), Meia noite (do galo), Aurora e Dia. Cada uma destas celebrações dispõe de formulários completos com leituras e orações próprias.
A missa da meia-noite inspira-se na tradição que situa em plena noite o nascimento de Jesus. As narrações apócrifas falam do encantamento da natureza e da gruta inundada de luz. Ao mistério do Natal aplica-se o texto de Sabedoria 18, 13-14: «Quando um silêncio profundo tudo envolvia e a noite ia a meio do seu curso, a vossa Palavra omnipotente, ó Deus, desceu do céu, do seu trono real, qual guerreiro invencível». A missa caracteriza-se pela leitura do relato evangélico do nascimento de Jesus (Lucas 2, 1-14). O canto dos anjos, com que termina este trecho, está na génese do Glória, hino que assume uma tonalidade particular neste dia. Na missa da aurora, lê-se a perícope que narra o encontro dos pastores com o Menino. Os textos desenvolvem o simbolismo da luz. Na missa do Dia, anuncia-se o mistério da Incarnação segundo a teologia de S. João (1, 1-18) e Hebreus. Os grandes temas dos textos litúrgicos (Luz, Encontro, Permuta [=
Commercium] admirável, Núpcias, nova Criação…) não limitam o Natal à perspectiva da crónica (o nascimento do Menino Jesus) mas apresentam-no como «Mistério» (manifestação da Salvação), perspetiva já valorizada por São Leão Magno (séc. V).

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Laboratório da fé celebrada, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.12.13 | Sem comentários

PREPARAR O NATAL

25 DE DEZEMBRO DE 2013


Isaías 9, 2-7 (1-6)

O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz começou a brilhar. Multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento. Rejubilam na vossa presença, como os que se alegram no tempo da colheita, como exultam os que repartem despojos. Vós quebrastes, como no dia de Madiã, o jugo que pesava sobre o povo, o madeiro que ele tinha sobre os ombros e o bastão do opressor. Todo o calçado ruidoso da guerra e toda a veste manchada de sangue serão lançados ao fogo e tornar-se-ão pasto das chamas. Porque um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado. Tem o poder sobre os ombros e será chamado «Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz». O seu poder será engrandecido numa paz sem fim, sobre o trono de David e sobre o seu reino, para o estabelecer e consolidar por meio do direito e da justiça, agora e para sempre. Assim o fará o Senhor do Universo.



O povo... viu uma grande luz


Este hino de Isaías é provavelmente um hino litúrgico, próprio da entronização do rei. Sobe um novo rei ao trono de David e é proclamado como Rei Ideal, luz do povo, libertador, Príncipe perfeito. É a esperança do povo, presença da Justiça de Deus. O povo sabe que o seu destino depende do Rei, presença de Deus, capaz de levar o povo a cumprir a Aliança ou de estragar tudo e pôr em perigo a Promessa.
A Igreja viu desde sempre neste texto um anúncio perfeito de Jesus Cristo, plenitude desta esperança, presença da libertação de Deus. Nenhum rei histórico de Judá ou de Israel foi assim. Historicamente, este hino foi apenas um sonho, uma esperança. Em Jesus é um cumprimento, um sonho tornado realidade. Deus connosco é o Reino, a realização de todas as esperanças.

© José Enrique Galarreta, www.feadulta.com
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

Preparar o Natal (Ano A), no Laboratório da fé, 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.12.13 | Sem comentários

PREPARAR O NATAL

25 DE DEZEMBRO DE 2013


Celebrar o Natal parece muito fácil: há um bom ambiente, a religiosidade popular liga bem com a liturgia... Mas esta facilidade pode-se converter também num empecilho: porque pensamos que tudo acontecerá por si só e não dedicamos o tempo necessário a prepará-lo; ou, ao contrário, com medo que a celebração seja sempre igual todos os anos, empenhamo-nos em introduzir-lhe muitas coisas novas que acabam por ser um impedimento a viver com paz esta celebração, em cada ano repetida, mas também em cada ano esperada. Então, nem uma coisa nem outra: tem de se preparar bem, mas respeitando o que nos é oferecido pela própria liturgia.
O que não temos de deixar de fazer, isso sim, é aproveitar os momentos adequados para fazer com que o mistério do Deus feito homem seja realidade na vida concreta deste momento. Sem dúvida, que o estilo do papa Francisco, a sua maneira de estar próximo daquilo que ocorre no nosso mundo, as prioridades que tem apresentado, são uma marca neste sentido. O mais importante é que cada um, em cada lugar, descubra a melhor forma de viver e de transmitir a imensa alegria de contemplar o Deus feito humano, pobre, e o desafio a saber encontrá-lo em todos os lugares onde se manifesta: desde o pão e o vinho da Eucaristia até ao rosto dos abandonados deste mundo; desde qualquer pequeno gesto de ternura ou qualquer bom esforço que se tenha concretizado até às lutas pela justiça e pela dignidade em qualquer lugar do mundo.
Algumas coisas a ter em conta para ajudar a viver este tempo podem ser as seguintes:

As leituras

As leituras do dia de Natal e de todas as outras festas têm muita força. Escutadas ano após ano produzem um sentimento de alegria reencontrada. Por isso, será muito importante cuidar que em todas as celebrações se proclamem bem as leituras e se lhes dê toda a sua importância. Seguramente que nos dirão muito mais do que todos os comentários que lhes possamos fazer.

Os cânticos

É outro elemento da alegria reencontrada nestas festas. Tendo em conta dois níveis: os cânticos da celebração litúrgica e os cânticos populares. Na celebração litúrgica, procuraremos que sejam cânticos que transmitam o sentido daquilo que celebramos e que sejam conhecidos, cânticos a que todos se possam associar sem demasiada dificuldade (o que não impede de introduzir, de vez em quando, algum cântico novo). Quanto aos cânticos populares, serão usados na veneração da imagem do menino Jesus e nalgum encontro festivo que possamos organizar; ficaria bem fazer uma folha com a letra desses cânticos e distribuí-la com o incentivo de que sejam cantados, por exemplo, diante do presépio, em família.

O dia de Natal

A missa do galo continua a ser, em muitos lugares, o momento culminante das festas natalícias, se bem que há locais em que as mudanças dos costumes a relegaram para segundo plano. Em qualquer caso, é preciso assegurar que se possa viver este dia com a máxima intensidade festiva. Preparando com mais dedicação a missa principal, mas assegurando também que os que participam nas outras missas possam experimentar a mesma alegria da Boa Nova do Deis feito humano. Como já dissemos, dando todo o relevo às leituras e aos cânticos, proclamando o pregão de Natal, apresentando uma homilia que transmita a ternura de Deus para com todos os homens e mulheres, juntando, se parecer oportuno, algum ponto especial, desde que não tire protagonismo aquilo que é central... Tenhamos em conta que as leituras das três missas são intercambiáveis. E se há missa no dia 24 pela tarde ou ao anoitecer, em geral será melhor não fazer as leituras da missa da vigília, mas de uma das três missas próprias de Natal.

O dia da Epifania

A Epifania é a segunda grande festa de Natal. Celebramos a manifestação de Deus a todos os povos da terra, representados naqueles personagens vindos do Oriente. Já o dissemos e repetimo-lo: há que transmitir hoje, com todos os meios ao nosso alcance, a alegria da universalidade da salvação de Deus.

Além das celebrações

O tempo de Natal é um tempo de muita atividade social. Por isso, para não esquecermos o sentido cristão daquilo que celebramos, haverá que convidar a viver as celebrações, mas também a procurar conjuntamente outras ajudas. Ter um presépio em casa será uma delas. E também o será, embora possa ser mais complicado, ter algum tempo para ler, por exemplo, os relatos do nascimento de Jesus (capítulos 1 e 2 de Mateus e de Lucas) ou também ler poesia natalícia ou, melhor ainda, rezar a Liturgia das Horas...

© Josep Lligadas, Misa dominical
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor

Preparar o Natal (Ano A), no Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.12.13 | Sem comentários

ANO CRISTÃO


«A Igreja 'distribui todo o mistério de Cristo pelo correr do ano, da Incarnação e Nascimento à Ascensão, ao Pentecostes, à expectativa da feliz esperança e da vinda do Senhor. Com esta recordação dos mistérios da Redenção, a Igreja oferece aos fiéis as riquezas das obras e merecimentos do seu Senhor, a ponto de os tornar como que presentes a todo o tempo, para que os fiéis, em contacto com eles, se encham de graça da salvação' (SC 102). O Ano Litúrgico constitui o alimento principal e a melhor pedagogia para crescer na incorporação em Cristo. O Ano Litúrgico deve ser o nervo da vida da comunidade» (Programa Pastoral [2013+14] da Arquidiocese de Braga, Portugal).

«O Ano Litúrgico é a sobreposição do percurso do ano normal com os mistérios da vida de Cristo, desde a encarnação até ao regresso glorioso» (YOUCAT 186). Nele recordamos e celebramos os principais acontecimentos da História da Salvação.
É importante recordar que o Ano Litúrgico celebra só e sempre o mistério de Cristo como centro da história salvífica e portanto «o domingo é o centro do tempo cristão, pois ao domingo celebramos a Ressurreição de Cristo, e cada domingo é uma pequena Páscoa» (YOUCAT 187).

Ciclo do Natal

Advento: inicia o Ano Litúrgico; começa quatro domingos antes do Natal e termina no dia 24 de dezembro. É um tempo de verdadeira espera, de alegria e de preparação para receber Jesus. A cor litúrgica é o roxo.
Natal: celebrado no dia 25 de dezembro com muita alegria, pois é a festa do Nascimento do Salvador, a Encarnação do Filho de Deus. Estende-se até a festa do Batismo de Jesus e a sua cor litúrgica é o branco.

Ciclo da Páscoa

Quaresma: começa na Quarta-Feira de Cinzas e termina no Domingo de Ramos, quando começa a Semana Santa. Compreende cinco semanas que nos preparam para a Páscoa, em sintonia com os quarenta anos que o povo de Israel passou no deserto e os quarenta dias em que Jesus foi tentado também no deserto. É um tempo de intenso sacrifício, jejum, esmola, oração, penitência e conversão. A cor litúrgica é o roxo.
O Tríduo Pascal – Quinta-Feira Santa, Sexta-feira Santa e Sábado Santo – conduz ao ponto máximo do Ano Litúrgico: o Domingo da Ressurreição. 
Tempo Pascal: a celebração da Páscoa não se restringe ao Domingo da Ressurreição. Estende-se ao longo de cinquenta dias até à solenidade de Pentecostes, a descida do Espírito Santo. A cor litúrgica é o branco.

Tempo Comum

Entre estes dois grandes ciclos temos o Tempo Comum. É o tempo que nos mostra o amor de Deus pelo ser humano e a Sua presença no mundo, um tempo de esperança e acolhimento da Palavra de Deus. Composto por 34 semanas, é dividido em duas partes: 
1.ª parte: começa após o Batismo de Jesus e acaba na terça-feira antes da Quarta-Feira de Cinzas.
2.ª parte: começa na segunda-feira após o Pentecostes e vai até o sábado anterior ao 1.º domingo do Advento. No último domingo do Tempo Comum, e portanto do Ano Litúrgico, celebramos a solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo. A cor litúrgica é o verde.

Todo o Ano Litúrgico é cadenciado por festas do Senhor, de Maria e dos santos, nas quais a Igreja exalta a graça de Deus, que conduziu a humanidade à salvação.

© YOUCAT | Paulus
© Adaptação de Laboratório da fé, 2013
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Laboratório da fé celebrada, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.11.13 | Sem comentários
— palavra para quinta-feira depois da epifania —

— Evangelho segundo Lucas 4, 14-22a

Naquele tempo, Jesus voltou para a Galileia, com a força do Espírito, e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos. Foi então a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado e levantou-Se para fazer a leitura. Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir o livro, encontrou a passagem em que estava escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres; Ele Me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor». Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. Começou então a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir». Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam da mensagem da graça que saía da sua boca.

— Ele Me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos

Este relato é fundamental na narrativa de Lucas! É também fundamental para compreendermos a proposta (religiosa) de Jesus Cristo. Ele dirige-se à sua terra, Nazaré, o lugar «onde Se tinha criado», para apresentar o seu programa: «proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos orpimidos». 
É uma citação do profeta Isaías. A novidade não está no conteúdo do texto. A novidade consiste na afirmação de Jesus: «cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura». Ao tomar este texto como programático na vida de Jesus, o evangelista ensina-nos que a religiosidade proposta por Jesus Cristo vai muito para além do culto a Deus. 
Jesus anuncia que vai realizar uma religião fundada na luta pela liberdade e pela salvação de cada pessoa. É esta forma de viver a religiosidade que nos interessa e nos ocupa? Preferimos uma religiosidade apenas alicerçada no culto, na prática devocional, sem qualquer relação vital?
O «hoje» referido no texto aplica-se a Jesus. E aplica-se a este dia que estamos a viver. Hoje, é a hora de anunciar o Evangelho à maneira de Jesus Cristo. O Ano da Fé não me pode deixar indiferente à força desta Boa Nova. Jesus confia-me um programa de vida ativo, voltado para o bem do outro. Este é o caminho (mais rápido) para redescobrir a alegria da fé.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.1.13 | Sem comentários
— catequese do Papa Bento XVI — 

Queridos irmãos e irmãs, 
O Filho Unigénito de Deus encarnou e fez-Se homem, para nos tornar participantes da sua natureza divina. Entre os usos e costumes do período natalício, conta-se a troca de presentes em sinal de amizade e estima. Pois bem! Na Noite de Natal, vimos Jesus assumir a nossa humanidade, para nos dar a sua divindade: ao fazer-Se carne, quis dar-Se a Si mesmo aos homens. Jesus é o presente maior. Quem não consegue dar algo de si mesmo, dá sempre demasiado pouco! Por vezes, procura-se compensar ou substituir com coisas materiais o compromisso de nos darmos a nós próprios. O mistério da encarnação mostra que Deus não procede assim; não Se limita a dar-nos coisas, mas quis dar-Se a Si mesmo no seu Filho Unigénito. Ele fez-Se verdadeiramente um de nós, para nos comunicar a sua própria vida; e fê-lo, não com a investida de um soberano que subjuga o mundo com o seu poder, mas com a humildade dum Menino. Em Jesus, manifesta-se plenamente o homem ao homem. > > >

— catequeses do Papa Bento XVI para o Ano da Fé — 



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.1.13 | Sem comentários
— palavra para terça-feira depois da epifania —

— Evangelho segundo Marcos 6, 34-44

Naquele tempo, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-se deles, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou então a ensiná-los demoradamente. Como a hora ia já muito adiantada, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «O local é deserto e a hora já vai adiantada. Manda-os embora, para irem aos casais e aldeias mais próximas comprar de comer». Jesus respondeu-lhes: «Dai-lhes vós mesmos de comer». Disseram-Lhe eles: «Havemos de ir comprar duzentos denários de pão, para lhes darmos de comer?» Jesus perguntou-lhes: «Quantos pães tendes? Ide ver». Eles foram verificar e responderam: «Temos cinco pães e dois peixes». Ordenou-lhes então que os fizessem sentar a todos, por grupos, sobre a verde relva. Eles sentaram-se, repartindo-se em grupos de cem e de cinquenta. Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao Céu e pronunciou a bênção. Depois partiu os pães e foi-os dando aos discípulos, para que eles os distribuíssem. Repartiu por todos também os peixes. Todos comeram até ficarem saciados; e encheram ainda doze cestos com os pedaços de pão e de peixe. Os que comeram dos pães eram cinco mil homens.

 — Todos comeram até ficarem saciados

Dois mais cinco é igual a cinco mil (5 + 2 = 5000). Esta é a matemática do Evangelho. É assim que Jesus faz contas. Os discípulos só sabem a lógica matemática habitual. Para eles, cinco pães e dois peixes apenas serviriam para saciar a fome de alguns dos presentes. Com Jesus, dá para todos. «Todos comeram até ficarem saciados». E ainda sobram doze cestos!
Este milagre da divisão dos pães e dos peixes remete-nos quase sempre para a categoria da caridade, para a partilha com os mais pobres. Mas, na verdade, é muito mais do que isso. É preciso sentar-se à mesma mesa com todos, para partilhar a alegria da refeição. Era o sentido primeiro da «Eucaristia». Hoje, é cada vez mais difícil perceber o verdadeiro sentido do Sacramento da Eucaristia.
A crise que estamos a atravessar prova que, nós, cristãos, continuamos tão longe da matemática do Evangelho. Enquanto não formos capazes de pôr à disposição de todos os nossos cinco pães e dois peixes, para que todos possam comer até ficarem saciados (e ainda sobrarem doze cestos), continuaremos a fazer as contas numa lógica muito distante daquela que é proposta e vivida por Jesus Cristo. Será que me posso chamar cristão sem partilhar tudo o que tenho?!

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.1.13 | Sem comentários
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