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Entrevista ao Cónego João Aguiar Campos

Igreja Viva, 9 de maio de 2013 


A Igreja detém ainda muitos órgãos de comunicação social em Portugal. Como olha para o futuro da imprensa de inspiração cristã? Eu acho que a imprensa de inspiração cristã tem futuro, porque é uma necessidade da imprensa na sua generalidade. O nosso tempo é um tempo mediático. O que não se vê, o que não se ouve, o que não se lê, não existe. Nas conversas diárias as pessoas dizem “vi hoje na televisão...” ou “li hoje no jornal...”. Não podemos consentir, nós os crentes, que por omissão pecaminosa, Deus fique ausente do quotidiano, no meio de uma sociedade em evidente crise comunicacional. Se deixarmos de comunicar, deixamos de ser Igreja, porque a Igreja é isso mesmo, é comunicação. No meio da ditadura do relativismo, a comunicação social da Igreja deve manter viva a busca de sentido e garantir espaço para a nossa sede de infinito. Para responder a esta necessidade, temos naturalmente de nos organizar. Precisamos urgentemente de uma pastoral da comunicação a sério, porque sem ela podemos ter abundância de meios, mas não teremos eficácia e eficiência no uso desses meios. A necessidade desta pastoral, presente em todos os setores da pastoral, é hoje, mais do que nunca, sublinhada. O trabalho dos órgãos de comunicação social não é uma atividade complementar, mas tem uma implicação em todos os aspetos da missão da Igreja. A comunicação deve fazer parte integrante de todos os planos pastorais, dada a necessidade do seu contributo para qualquer apostolado. Esta é, repito, uma urgência da Igreja portuguesa. Poderíamos ler e reler um diretório sobre comunicação social da Igreja, publicado pela conferência episcopal italiana. Até porque os brasileiros, que estão à nossa frente neste domínio, não tiveram vergonha de recorrer a um documento de bispos italianos.

Foi muitos anos director do mais importante diário regional do Minho e, provavelmente, um dos maiores do país na sua categoria. Que balanço faz desse período? Faço um balanço, pessoalmente, positivo. Para mim foi muito gratificante trabalhar num jornal da Arquidiocese, cristão e de publicação diária, mas também trabalhar com a equipa e com as pessoas que compunham a empresa, desde a administração aos jornalistas. Naturalmente, também foi um tempo de transformações na própria empresa. O jornal, ao qual o monsenhor Silva Araújo tinha dado grande impulso, entrou também numa outra etapa. Tinha ganho a cor e uma nova apetência do ponto de vista do consumidor. Fica sempre com um sabor amargo quanto às possibilidades de expansão do jornal e quanto à necessidade de dotar o jornal para ser rápido e profundo a pensar. O que é que eu quero dizer com isto? Estamos a atravessar uma fase em que a informação é debitada, mas é pouco lida ou comentada. Hoje, a informação quase esbarra connosco no telemóvel, nos ecrãs das ruas, nos nossos portáteis, mas não chega até nós com um olhar mais profundo. A informação aparece como acontecimento, mas não chega até nós descascada. É muito superficial. Nesse aspeto, a Igreja deve ter os seus órgãos de comunicação dotados de gente que saiba fazer esta análise mais profunda dos acontecimentos. 

Atualmente lidera um dos principais grupos de informação em Portugal, o grupo Renascença. Como se sente nesse papel? Em todos os lugares por onde passo tento sentir-me padre e um padre chamado a comunicar. Neste caso particular, não através das formas tradicionais, como as pregações ou homilias, mas a orientar a comunicação de uma grande praça. Sinto que também a Renascença está a encarar a crise com valentia. Estamos a diversificar as nossas formas de estar. Hoje a rádio não é apenas rádio. Para além dos quatro canais que o grupo possui – a Renascença, a RFM, a Mega Hits e a Rádio Sim – temos mais três rádios simplesmente on-lin, um jornal digital semanal que é distribuído para cerca de 75 mil emails, e ainda uma web TV ligada à RFM e à informação da Renascença. Estamos realmente naquelas plataformas que o consumidor de informação exige. Neste ambiente e nesta civilização digital, o consumidor tudo agora e na plataforma que está mais à mão. Quer ver o acontecimento e reagir e comentar o mesmo acontecimento. A Renascença é uma rádio a evoluir e encara com otimismo o futuro.

Como vê o actual panorama da comunicação social? O panorama da comunicação social vejo-o com preocupação. Os meios de comunicação social vivem os efeitos de uma convulsão económico-financeiras, que tem implicações diretas no investimento publicitário e comercial. O mercado publicitário, nos últimos anos, perdeu 300 milhões de euros. Trata-se de um setor em acentuada queda. Esta crise apanhou os meios de comunicação social num processo de transformação e adaptação ao universo digital. À falta de dinheiro, soma-se a urgência de transformações tecnológicas, o que implica um investimento num modo de fazer as coisas que ainda não traz ingressos. Toda a gente está na internet, mas a internet ainda não cobre todo o investimento que nela se faz, cujos números ainda não são negócio. A isto acrescenta-se a exigência da diferenciação através dos conteúdos. Para isso, é necessário investimento. Como hoje falta o dinheiro, assistimos a uma progressiva redução de qualidade de conteúdos. Basta olhar para as televisões. Juntam-se meia dúzia de pessoas, que se dizem famosas, ou então faz-se um palco ao ar livre e faz-se disto conteúdo. São formas baratas de fazer as coisas. É uma dieta que quando já não pode atingir as gorduras, começa a atingir os músculos e o cérebro. Não há dinheiro para fazer jornalismo de investigação. A juntar a estes fatores, no que toca ao jornalismo de inspiração católica, temos o problema do rejuvenescimento dos públicos. Hoje estamos muito envelhecidos. A últimas estatística que consultei indica que os leitores da imprensa de inspiração cristã anda na ordem dos 65 anos. Temos que recuperar os mais jovens. 

O que deve diferenciar a missão de um órgão de comunicação social católico em relação aos demais? É o tempo e espaço dedicado à informação religiosa? Penso que não deveremos somar mais páginas ou conteúdos religiosos aos já existentes. Ao fazermos isso, estamos a pescar dentro de um aquário. Há que ter, sim, uma capacidade de análise, seja na seleção, seja no tratamento da informação. Devemos encarar todos os desafios e problemas dos homens do nosso tempo e lê-los com olhos crentes. Não estou a menosprezar a informação religiosa. A informação religiosa é uma informação jornalística que deve ser tratada como outra informação qualquer. Não temos que estar sempre a aspergir água benta. É mais importante que nunca o olhar cristão sobre aquilo que se passa, um olhar de esperança quando estamos a atravessar um momento de particular crise. 

O Papa pede-nos, este ano, para reflectirmos na importância crescente das redes sociais na comunicação em sociedade. Pensa que a Igreja já está suficientemente representada nestes meios? A Igreja tem feito um grande esforço - e estou a falar inclusive da Igreja de Braga, que já marca aí uma presença interessante - para estar presente nesta praça habitada e partilhada por milhões de pessoas, com as suas culturas e interesses. Não se fala essencialmente de instrumentos digitais, mas de um meio que corresponde a uma grande praça. Este mundo digital é, de facto, um novo continente. O Papa diz-nos que, para que este lugar seja ecologicamente habitável, os que aí estão devem comportar-se responsavelmente. Devem ser autênticos. Não apenas se comunicam ideias, mas há a própria pessoa a comunicar-se. Nesta rede não há apenas troca de informação, mas da própria autenticidade. Por isso é importante não calar a própria diversidade. É um desafio para os crentes partilhar na rede, testemunhar na rede a mensagem de Cristo e os valores da pessoa humana. A verdade é, em si mesma, discreta e deve fazer-se ouvir no meio de muitos ruídos e de vozes que falam bem mais alto. É uma linguagem de uma mensagem testemunhada. A partir desta presença dos cristãos, os outros frequentadores da praça podem sentir-se atraídos pelo contacto pessoal com o próprio Jesus Cristo. Do digital podemos chegar ao real. Mesmo que não o façam, já sofreram um impacto. O que não podemos é perder por falta de comparência. Teremos que dar contas a Nosso Senhor se não usarmos os meios que temos disponíveis. O Papa Bento XVI, que viveu neste tempo de grandes transformações, apelou a nós, padres, para utilizarmos mais este meio digital e que fossemos apóstolos destes meios. 

O que destacaria da Mensagem de Bento XVI para o 47.º Dia da Comunicação Social? Eu penso que tem cada vez menos medo. Acho é que a Igreja continua, felizmente, prudente. Não basta pensar que ao utilizar uma nova tecnologia ela vá ter os efeitos positivos que em si mesma comporta. Por exemplo, a Igreja ao entrar no mundo digital, não pode perder de vista o conteúdo e a dificuldade de plasmar este conteúdo num ambiente muito virtual e emotiva. Penso que, sendo prudentes, não podemos estar ausentes. Sendo modernos, não podemos ser tão apaixonados pela tecnologia que abandonemos os meios mais tradicionais, como é a catequese, a imprensa ou o contacto pessoal com os crentes. Temos que estar aí, mas estar aí com conteúdo e não por moda.

É um homem da Arquidiocese de Braga. No seu entender, agora mais externo, a nossa diocese tem futuro? Naturalmente com esperança. A Arquidiocese de Braga sofreu, como a maior parte das dioceses, os problemas da crise vocacional. Apesar disso, tem conseguido progredir positivamente neste aspeto, bem como noutros aspetos da pastoral. É uma diocese que aposta num laicado bem formado e ativo, noemadamente aproveitando os recursos humanos formados na Universidade Católica. Ao nível do episcopado temos tido bispos dinâmicos e suficientemente jovens, com uma organização cuidada e pastoralmente mais presente e com o aproveitamento de todas as soluções. Penso que uma vez ou outra pode não se ver claro, mas tanto o clero mais jovem como o clero mais idoso tem capacidade e oportunidade para construir a Igreja. Gostava muito que uma diocese, onde estão instalados santuários tão importantes, tivesse uma pastoral dos santuários mais aproveitada, não apenas do ponto de vista turístico, mas também na purificação e formação da piedade popular. É preciso ainda um laicado que não seja encarado como um remendo, mas que seja ativo e cumpra a sua própria vocação. Fizemos há anos um sínodo, e penso que as suas dinâmicas foram sendo suficientemente aproveitadas. A Arquidiocese de Braga está a fazer caminho. Destaco ainda o bom aproveitamento que a Igreja de Braga faz dos seus espaços e infra-estruturas, bem como da iniciativa de muitos dos seus departamentos pastorais. 

Durante a Semana das Vocações, os Seminários Arquidiocesanos de Braga levaram a palco a peça teatral “As peripécias de um aldeão em Lisboa”. Por isso, pergunto: é fácil um “homem do Gerês” viver na capital lisboeta? Não é. Eu não posso falar pelos outros homens do Gerês. Para mim, que sou alguém muito ligado à família e aos amigos, foi mais difícil. Cheguei a Lisboa e senti-me desenraizado. A minha vida aqui em Lisboa começa às 05h30 da manhã. Faço as minhas orações e rapidamente consulto os sites de informação, porque o mundo não parou enquanto eu dormia. Apanho o eléctrico pelas 07h00 e sigo para a igreja da Encarnação onde rezo e celebro a eucaristia. Tomo o pequeno-almoço já na rádio. Durante o dia não me pertenço a mim mesmo. Tenho que assinar contratos, ouvir pessoas, escutar políticos na ponta da linha, entre outros afazeres relacionados com as responsabilidades que detenho. Por volta das 20h00 regresso a casa, contacto com a família ou com um ou outro amigo, e descanso. Não é fácil, mas também não quero que pensem que sou um mártir. Assumi uma missão, mas como qualquer missão tem os seus espinhos. Eu gosto da comunicação. Também tenho agora a responsabilidade do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais, ao qual dedico uma tarde por semana. 

Entre o clero de Braga, o Cón. João Aguiar é conhecido pelo seu lado extremamente humorístico. A par de uns teólogos contemporâneos, corrobora da teoria que o humor pode ser uma via de diálogo com Deus? O humor inteligente e delicado é a tradução da alegria cristã nas diversas circunstâncias. Deus é alegria. Nós não podemos ser tão sérios, que sejamos simplesmente sisudos, mas também não podemos ser tão brincalhões, que nos tornemos banais. O humor é esta grande capacidade de dizer as coisas sérias de uma forma acessível e, ao mesmo tempo, assertiva. Nosso Senhor também não usou a linguagem rabínica do seu tempo, mas utilizou a linguagem das metáforas e das histórias do quotidiano. Penso que uma Igreja sisuda é uma Igreja pouco crente. 

Como é que está a viver este Ano da Fé? Estou a vivê-lo com o entusiasmo de quem diariamente vai meditando no credo. Por exemplo, aqui em Lisboa foi lançada uma iniciativa de recitar o credo nas suas duas ou três fórmulas. Estou a vivê-lo como um desafio para o aprofundamento da minha pertença, fazendo com que Deus esteja mais presente na minha vida. A fé tem que ser uma fé fundamentada. Não se trata de um puro sentimento. Depois, é uma relação com uma pessoa. Por isso mesmo, é importante que ao olhar para mim, os outros possam ver também Jesus Cristo. Testemunhando alegria, disponibilidade e um certo entusiasmo, independente daquilo que nos possa acontecer, penso que estamos a ser testemunho do próprio Cristo. 

Discurso Direto: 
Literatura: Diários Miguel Torga 
Música: Luís Represas 
Cinema: Música no Coração 
Local: Jerusalém 
Gastronomia: Arroz de feijão com paio e salpicão

© Departamento Arquidiocesano de Comunicação Social, 2013 

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João Aguiar




Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.5.13 | Sem comentários

«Quem tem ouvidos para ouvir, oiça»


Santiago Casanova Miralles, membro da equipa do projeto «iMisión», reflete sobre a relação entre as redes sociais e a vida, discordando daqueles que dizem que as redes sociais não têm nada a ver com a vida do dia a dia. E recorda ainda a importância que Jesus Cristo dá ao anúncio do Evangelho. Há alguma relação entre as redes sociais e a Ressurreição? 

A mim, parece-me estranho que haja tantas pessoas que digam que as redes sociais são uma realidade virtual que não tem nada a ver com a vida. Por favor! Aqueles que as frequentamos com fluidez e assiduidade já percebemos — e continuamos a percebê-lo diariamente — que as redes sociais são como a própria vida! Cada um tem de se associar a esses lugares de encontro e perceber o que está a acontecer, quem se passeia por lá e que tipo de relações se estabelecem. Vou dar um exemplo de grande atualidade e muito pastoral.
Estamos em tempo de Páscoa. Todos os que seguimos Jesus celebramos com alegria que Jesus ressuscitou, que está vivo, que já não há motivo para a falta de esperança nem para a tristeza. A luz vence as trevas, a vida vence a morte. Jesus salvou-nos. Há alguma relação entre as redes sociais e a Ressurreição?

Gosto - Partilhar ou Favorito - Retweetar 

Há pessoas na vida, como nas redes sociais, que não gostam de se comprometer em demasia. Mas também não querem estar afastadas; por isso, relacionam-se à sua maneira, mas não geram muita vida à sua volta. São os assíduos ao «gosto» do Facebook ou aos favoritos do Twitter. Pessoas que acumulam experiências, que lêem tudo, que estão em todas, que se inscrevem aqui e ali, colecionadoras de sentimentos, emoções, momentos, fotografias, recordações. Estão lá, presentes à sua maneira. Lêem tudo e guardam para si, acumulando talentos, enterrando tesouros e guardando pérolas. Certamente que têm razões para isso e que o Senhor as conhece. Talvez exista algo que as impeça de gritar, de se mostrarem, de se atirarem de cabeça... Se és uma dessas pessoas, gostaria de te escutar em silêncio, aberto à tua verdade.
Há outros que não aguentam, que entendem que a vida não é só sua e que quando alguém encontra um tesouro, vende tudo o que tem para o conseguir. São pessoas multiplicadoras, geradoras de correntes, de movimento... São testemunhas do bem, Madalenas que correm a anunciar que se encontraram com o Mestre, coxos e cegos que contam o seu milagre porque será semente de fé para outros... São pessoas que entendem a vida em comunidade, coerentes com a sua aposta em fazer parte de algo maior do que elas próprias.
Vale a pena dizer que as ferramentas dos meios de comunicação social que calculam o nível de influência de qualquer pessoa na rede valorizam as respostas, os retwetes, os comentários... participação ativa. Jesus, que também sabia um pouco de comunicação social, pede a Madalena e às mulheres, e depois aos apóstolos: Ide e anunciai. Não basta que vós saibais a Boa Notícia! Porque será boa e será notícia se for transmitida, propagada, anunciada... A Boa Notícia só é boa quando não fica só para um. 

Amigos? Seguidores?

Há os que são amigos de todos, que nem sequer conhecem os amigos. Há os das amizades raras, profundas e cultivadas e aqueles que se rodeiam de conhecidos a quem nem sequer perguntariam as horas. Existem os que seguem muitos só porque são seguidos por eles, os que só seguem os que têm a mesma opinião, os que só seguem os que são populares e os que nem a família conhecem, quase. As redes sociais não se parecem com a vida? Então! Mas o melhor é que também existem os que conhecem bem as pessoas desconhecidas porque se oferecem para acolher e se dão a conhecer. Existem os que conectam, os que se apoiam, os que se unem, os que constroem algo que vale a pena... Isto é mais real do que muitos «avatares» com pernas e braços com quem me cruzo no dia a dia.
E há pessoas que rezam umas pelas outras, que vivem juntas a sua fé, que se apoiam, que se amam, que se escrevem, que se animam, que se apoiam à distância... E a mim isso cheira-me a um Jesus real, vivo e ressuscitado.
Quem tem ouvidos para ouvir, oiça. Se quiser, claro...

© Santiago Casanova Miralles — www.imision.org —
© Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa de prévia autorização

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Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2013 – Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.5.13 | Sem comentários

Redes sociais e nova evangelização


Susana Hortigosa García, co-fundadora do projeto «iMisión», propõe duas premissas imprescindíveis na «bagagem» do missionário na rede: a internet não é um mero instrumento, a internet é um lugar, um novo continente que faz parte da vida real; ser e estar na internet em nome da missão e não para proveito próprio.  

Um dos cenários mais recorrentes quando se fala de Nova Evangelização são as redes sociais na internet. Mas qual é a linguagem e quais são as regras neste território, para muitos de nós inexplorado? Oferecemo-vos duas premissas imprescindíveis na «bagagem» do missionário na rede.
Há pouco tempo, num curso sobre evangelização nas redes sociais, um dos formadores começou a sua intervenção com um vídeo. Era um fragmento da película «A Missão»: um jesuíta entra na selva, oboé em riste, procurando estabelecer com os nativos algo parecido com um diálogo; mas é recebido com uma não demasiada cordialidade. Terminada a cena, o conferencista questionou-nos sobre os paralelismos que encontrávamos entre a situação que tínhamos visto e a de quem pretende evangelizar na internet.
Vieram à baila os instrumentos, as linguagens, os idiomas, os códigos. Insuspeitas semelhanças entre o oboé e o computador, entre o oboé e o Facebook, entre o oboé e... O conferencista olhava atónito para nós. Não entendia como estavamos a passar por cima do mais evidente: o religioso estava num lugar desconhecido, mas tinha lá ido para evangelizar.
Ora, isto acontece porque, queiramos ou não, continuamos a pensar na internet como um instrumento e não como um lugar. A internet, longe de ser um simples meio de comunicação ou um passatempo para informáticos e adolescentes com problemas de sociabilização, converteu-se num autêntico novo continente; um continente habitado e a fervilhar de atividade, onde a maioria da população passa boa parte da sua vida.
Segundo a última sondagem da AIMC (Associação para a Investigação de Meios de Comunicação), em Espanha, no ano de 1996, apenas 392 pessoas tinham usado a internet no último mês referente ao momento da sondagem. Segundo o mesmo organismo, em 2012, 24 204 pessoas estiveram na internet no último mês e 10 029 delas tinham-na visitado no dia anterior. Isto significa que 85, 5% dos espanhóis visita a internet mais do que uma vez ao dia. 

Ser e estar

Nós, os internautas, conhecemos outras pessoas na rede, compramos, divertimo-nos, lemos, partilhamos as coisas de que gostamos, jogamos, assistimos a aulas, vemos filmes, escutamos música, informamo-nos, falamos com os nossos amigos ou com desconhecidos. A linha entre a internet e a «vida real» é cada vez mais difusa, pela simples razão de que o que se faz na internet é uma parte da vida real.
Existe neste novo continente uma lei não escrita, mas escrupulosamente respeitada. Trata-se da meritocracia. Na internet, não importa como te chamas ou o cargo que ocupas noutros locais: tens que ganhar o respeito dos outros pelas tuas próprias forças. Isto, que à partida parece uma boa perspetiva, é um dos maiores inimigos do missionário na internet. A coluna vertebral da missão é o despojar-se de si mesmo para se entregar a Cristo e ao próximo. Contudo, na internet tudo é visível e multitudinário. 
Uma pequena habilidade no momento certo pode ser recompensada de um modo desproporcionado. Um exemplo: eu sigo no «Spotify» (uma plataforma de música onlline) um rapaz que tem 68 288 seguidores, simplesmente porque uma manhã levantou-se e decidiu fazer uma lista de músicas que se tornou popular. Com este sistema de recompensa, corre-se o risco de que a missão acabe por ser a «minha» missão: o meu projeto, a minha página web, os meus seguidores; e o esforço evangelizador vá degradando num esforço para conseguir mais um «gosto» ou mais um comentário elogioso. 
Por isso, neste continente mais do que em nenhum outro, é necessário manter vivos os versos do salmista: «Não a nós, Senhor, não a nós, mas para glória do teu nome». Assim, manter esta presença necessária de um testemunho fiel a Cristo, estando «sempre prontos para apresentar a todos os que vos pedirem a razão da vossa esperança; sempre, antes de mais, com doçura, respeito e reta consciência».

© Susana Hortigosa García — www.imision.org —
© Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2013 – Laboratório da fé
Postado por Anónimo | 8.5.13 | Sem comentários

Mensagem do Papa para o Dia Mundial das Comunicações Sociais: 12 de maio de 2013


Amados irmãos e irmãs,
Encontrando-se próximo o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2013, desejo oferecer-vos algumas reflexões sobre uma realidade cada vez mais importante que diz respeito à maneira como as pessoas comunicam actualmente entre si; concretamente quero deter-me a considerar o desenvolvimento das redes sociais digitais que estão a contribuir para a aparição duma nova ágora, duma praça pública e aberta onde as pessoas partilham ideias, informações, opiniões e podem ainda ganhar vida novas relações e formas de comunidade.
Estes espaços, quando bem e equilibradamente valorizados, contribuem para favorecer formas de diálogo e debate que, se realizadas com respeito e cuidado pela privacidade, com responsabilidade e empenho pela verdade, podem reforçar os laços de unidade entre as pessoas e promover eficazmente a harmonia da família humana. A troca de informações pode transformar-se numa verdadeira comunicação, os contactos podem amadurecer em amizade, as conexões podem facilitar a comunhão. Se as redes sociais são chamadas a concretizar este grande potencial, as pessoas que nelas participam devem esforçar-se por serem autênticas, porque nestes espaços não se partilham apenas ideias e informações, mas em última instância a pessoa comunica-se a si mesma.
O desenvolvimento das redes sociais requer dedicação: as pessoas envolvem-se nelas para construir relações e encontrar amizade, buscar respostas para as suas questões, divertir-se, mas também para ser estimuladas intelectualmente e partilhar competências e conhecimentos. Assim as redes sociais tornam-se cada vez mais parte do próprio tecido da sociedade enquanto unem as pessoas na base destas necessidades fundamentais. Por isso, as redes sociais são alimentadas por aspirações radicadas no coração do homem.
A cultura das redes sociais e as mudanças nas formas e estilos da comunicação colocam sérios desafios àqueles que querem falar de verdades e valores. Muitas vezes, como acontece também com outros meios de comunicação social, o significado e a eficácia das diferentes formas de expressão parecem determinados mais pela sua popularidade do que pela sua importância intrínseca e validade. E frequentemente a popularidade está mais ligada com a celebridade ou com estratégias de persuasão do que com a lógica da argumentação. Às vezes, a voz discreta da razão pode ser abafada pelo rumor de excessivas informações, e não consegue atrair a atenção que, ao contrário, é dada a quantos se expressam de forma mais persuasiva. Por conseguinte os meios de comunicação social precisam do compromisso de todos aqueles que estão cientes do valor do diálogo, do debate fundamentado, da argumentação lógica; precisam de pessoas que procurem cultivar formas de discurso e expressão que façam apelo às aspirações mais nobres de quem está envolvido no processo de comunicação. Tal diálogo e debate podem florescer e crescer mesmo quando se conversa e toma a sério aqueles que têm ideias diferentes das nossas. «Constatada a diversidade cultural, é preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem também a receber um enriquecimento da mesma e a dar-lhe aquilo que se possui de bem, de verdade e de beleza» (Discurso no Encontro com o mundo da cultura, Belém, Lisboa, 12 de Maio de 2010).
O desafio, que as redes sociais têm de enfrentar, é o de serem verdadeiramente abrangentes: então beneficiarão da plena participação dos fiéis que desejam partilhar a Mensagem de Jesus e os valores da dignidade humana que a sua doutrina promove. Na realidade, os fiéis dão-se conta cada vez mais de que, se a Boa Nova não for dada a conhecer também no ambiente digital, poderá ficar fora do alcance da experiência de muitos que consideram importante este espaço existencial. O ambiente digital não é um mundo paralelo ou puramente virtual, mas faz parte da realidade quotidiana de muitas pessoas, especialmente dos mais jovens. As redes sociais são o fruto da interacção humana, mas, por sua vez, dão formas novas às dinâmicas da comunicação que cria relações: por isso uma solícita compreensão por este ambiente é o pré-requisito para uma presença significativa dentro do mesmo.
A capacidade de utilizar as novas linguagens requer-se não tanto para estar em sintonia com os tempos, como sobretudo para permitir que a riqueza infinita do Evangelho encontre formas de expressão que sejam capazes de alcançar a mente e o coração de todos. No ambiente digital, a palavra escrita aparece muitas vezes acompanhada por imagens e sons. Uma comunicação eficaz, como as parábolas de Jesus, necessita do envolvimento da imaginação e da sensibilidade afectiva daqueles que queremos convidar para um encontro com o mistério do amor de Deus. Aliás sabemos que a tradição cristã sempre foi rica de sinais e símbolos: penso, por exemplo, na cruz, nos ícones, nas imagens da Virgem Maria, no presépio, nos vitrais e nos quadros das igrejas. Uma parte consistente do património artístico da humanidade foi realizado por artistas e músicos que procuraram exprimir as verdades da fé.
A autenticidade dos fiéis, nas redes sociais, é posta em evidência pela partilha da fonte profunda da sua esperança e da sua alegria: a fé em Deus, rico de misericórdia e amor, revelado em Jesus Cristo. Tal partilha consiste não apenas na expressão de fé explícita, mas também no testemunho, isto é, no modo como se comunicam «escolhas, preferências, juízos que sejam profundamente coerentes com o Evangelho, mesmo quando não se fala explicitamente dele» (Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2011). Um modo particularmente significativo de dar testemunho é a vontade de se doar a si mesmo aos outros através da disponibilidade para se deixar envolver, pacientemente e com respeito, nas suas questões e nas suas dúvidas, no caminho de busca da verdade e do sentido da existência humana. A aparição nas redes sociais do diálogo acerca da fé e do acreditar confirma a importância e a relevância da religião no debate público e social.
Para aqueles que acolheram de coração aberto o dom da fé, a resposta mais radical às questões do homem sobre o amor, a verdade e o sentido da vida – questões estas que não estão de modo algum ausentes das redes sociais – encontra-se na pessoa de Jesus Cristo. É natural que a pessoa que possui a fé deseje, com respeito e tacto, partilhá-la com aqueles que encontra no ambiente digital. Entretanto, se a nossa partilha do Evangelho é capaz de dar bons frutos, fá-lo em última análise pela força que a própria Palavra de Deus tem de tocar os corações, e não tanto por qualquer esforço nosso. A confiança no poder da acção de Deus deve ser sempre superior a toda e qualquer segurança que possamos colocar na utilização dos recursos humanos. Mesmo no ambiente digital, onde é fácil que se ergam vozes de tons demasiado acesos e conflituosos e onde, por vezes, há o risco de que o sensacionalismo prevaleça, somos chamados a um cuidadoso discernimento. A propósito, recordemo-nos de que Elias reconheceu a voz de Deus não no vento impetuoso e forte, nem no tremor de terra ou no fogo, mas no «murmúrio de uma brisa suave» (1 Rs 19, 11-12). Devemos confiar no facto de que os anseios fundamentais que a pessoa humana tem de amar e ser amada, de encontrar um significado e verdade que o próprio Deus colocou no coração do ser humano, permanecem também nos homens e mulheres do nosso tempo abertos, sempre e em todo o caso, para aquilo que o Beato Cardeal Newman chamava a «luz gentil» da fé.
As redes sociais, para além de instrumento de evangelização, podem ser um factor de desenvolvimento humano. Por exemplo, em alguns contextos geográficos e culturais onde os cristãos se sentem isolados, as redes sociais podem reforçar o sentido da sua unidade efectiva com a comunidade universal dos fiéis. As redes facilitam a partilha dos recursos espirituais e litúrgicos, tornando as pessoas capazes de rezar com um revigorado sentido de proximidade àqueles que professam a sua fé. O envolvimento autêntico e interactivo com as questões e as dúvidas daqueles que estão longe da fé, deve-nos fazer sentir a necessidade de alimentar, através da oração e da reflexão, a nossa fé na presença de Deus e também a nossa caridade operante: «Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine» (1 Cor 13, 1).
No ambiente digital, existem redes sociais que oferecem ao homem actual oportunidades de oração, meditação ou partilha da Palavra de Deus. Mas estas redes podem também abrir as portas a outras dimensões da fé. Na realidade, muitas pessoas estão a descobrir – graças precisamente a um contacto inicial feito on line – a importância do encontro directo, de experiências de comunidade ou mesmo de peregrinação, que são elementos sempre importantes no caminho da fé. Procurando tornar o Evangelho presente no ambiente digital, podemos convidar as pessoas a viverem encontros de oração ou celebrações litúrgicas em lugares concretos como igrejas ou capelas. Não deveria haver falta de coerência ou unidade entre a expressão da nossa fé e o nosso testemunho do Evangelho na realidade onde somos chamados a viver, seja ela física ou digital. Sempre e de qualquer modo que nos encontremos com os outros, somos chamados a dar a conhecer o amor de Deus até aos confins da terra.
Enquanto de coração vos abençoo a todos, peço ao Espírito de Deus que sempre vos acompanhe e ilumine para poderdes ser verdadeiramente arautos e testemunhas do Evangelho. «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura» (Mc 16, 15).

Vaticano, 24 de Janeiro – Festa de São Francisco de Sales – do ano 2013.
BENEDICTUS PP. XVI
www.vatican.va

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Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2013 – Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.1.13 | Sem comentários
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