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CELEBRAR O DOMINGO DÉCIMO OITAVO


O alimento evocado nos textos bíblicos propostos para o décimo oitavo domingo (Ano B) serve para colocar a questão de fundo sobre a fé, sobre a confiança em Deus: no deserto, quando têm fome, os filhos de Israel esquecem-se que foram libertados do Egito e perdem a confiança em Deus (primeira leitura). Em Cafarnaum, Jesus Cristo convida a multidão a repensar o caminho da fé, a fazer memória daquilo que os seus pais contaram (salmo) e a reconhecer o verdadeiro Pão do Céu, o Pão da Vida (evangelho). Para viver desse pão, é preciso acreditar em Jesus Cristo, o enviado do Pai, e deixar-se renovar pelo Espírito Santo (segunda leitura).

«É o pão que o Senhor vos dá em alimento»
Os factos relacionados com a libertação do Egito são prodigiosos: o Deus dos escravos vence o faraó e os seus deuses. A passagem do mar foi a vitória contra as forças do mal.
O povo de Israel percorre as primeiras etapas do caminho pelo deserto para chegar à «Terra Prometida». Cedo começa a murmurar contra os mediadores, Moisés e Aarão. A passagem do mar deixou o povo no deserto, um lugar de fome, que inevitavelmente conduz à morte. Nessas circunstâncias, o Egito, o lugar da escravidão, é recordado como um lugar onde havia carne e pão. A necessidade de comida faz esquecer que o caminho do deserto conduz à liberdade e ao bem-estar. Estamos perante uma perversão da vida própria de pessoas que não enxergam além dos interesses imediatos: a (suposta) sobrevivência em vez da (verdadeira) liberdade!
O deserto é apresentado, no livro do Êxodo, como uma realidade ambivalente: por um lado, é o lugar das revelações de Deus, da providência solícita para com o seu povo. Mas, por outro, é o lugar dos confrontos com Moisés, o enviado de Deus, o lugar da carência e da nostalgia.
O que realmente surpreende na narração é que Israel não é censurado pelos seus horizontes limitados, antes recebe uma resposta imediata e positiva: «Vou fazer que chova para vós pão do céu». Deus não abandona o seu povo; tampouco se dá por vencido: dá-lhes um alimento diário. É um pão que tem a sua origem nos «armazéns» do céu e não nos armazéns do faraó. Além disso, em contraste com a carne do Egito, a terra da escravidão, Deus providencia as codornizes. O dito «pão do céu» é um alimento desconhecido — «Man-hu?», quer dizer: «Que é isto?». Moisés, o mediador, desvela o seu sentido: «É o pão que o Senhor vos dá em alimento».
O «pão do céu» («maná») torna-se, na história bíblica, o alimento diário dado por Deus, alimento suficiente para caminhar. Eis a prefiguração do «pão da vida», Jesus Cristo: «Tomai, todos, e comei: isto é o Meu Corpo, que será entregue por vós». Agora, a Eucaristia realiza a oferta do alimento, não só suficiente para caminhar, como também «dura até à vida eterna». Hoje, é fundamental ter presente a nossa união pessoal com Jesus Cristo como o objetivo dos nossos encontros eucarísticos (dominicais): unirmo-nos a Jesus, comungar com Ele; «uma comunhão com Cristo na Eucaristia, que transforme a vida» (EG 138).

© Laboratório da fé, 2015


Celebrar o domingo décimo oitavo (Ano B), no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 30.7.15 | Sem comentários

Mistério da fé! [21]


A presença sacramental de Jesus Cristo no pão e no vinho consagrados na eucaristia tem uma (única) finalidade: ser refeição, ser alimento, partilhado em comunidade. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Lucas 24, 13-35; Catecismo da Igreja Católica, números 1384 a 1405]

«Como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão»

— concluiu a narração do encontro de Jesus Cristo com os discípulos de Emaús. «É à mesa que, em Emaús, ocorre uma surpresa. [...] Aquele que era o forasteiro, agora é o anfitrião. Aquele que estava morto convida a partilhar a sua vida. A sequência dos gestos de Jesus à mesa atesta que Ele não só toma o pão como se dá naquele pão, num gesto que reenvia para a dádiva total, na hora máxima da cruz» (José Tolentino Mendonça, «O tesouro escondido. Para uma arte da procura interior, ed. Paulinas, Prior Velho 2011, 105).

Eucaristia

A expressão «fração do pão» foi um dos primeiros nomes para designar a Eucaristia. E durante o primeiro milénio a comunhão foi sempre com pão partido. «A partir dos séculos XI-XII, pensou-se nas ‘formas’ individuais que conhecemos. O Missal determina que se volte ao ‘pão partido’ e que se potencie o gesto simbólico da fração. Explica-o e motiva-o várias vezes, sempre simbolizando a fraternidade [...]. As hóstias pequenas admitem-se só ‘quando assim o exija o número dos comungantes’. É uma pedagogia simbólica simples e profunda: parte-se, reparte-se e partilha-se o Corpo Glorioso de Cristo. Exprime-se visualmente, compartilhando o mesmo Pão, o mistério invisível de um Cristo que se nos dá a todos em alimento, com o que se quer ajudar a que a Eucaristia vá construindo a comunidade» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho 2007, 124-125).

Comunhão

«A Eucaristia constitui o apogeu da obra de salvação de Deus: com efeito, fazendo-se pão partido para nós, o Senhor Jesus derrama sobre nós toda a sua misericórdia e todo o seu amor, a ponto de renovar o nosso coração, a nossa existência e o nosso próprio modo de nos relacionarmos com Ele e com os irmãos. É por isso que geralmente, quando nos aproximamos deste Sacramento, dizemos que ‘recebemos a Comunhão’, que ‘fazemos a Comunhão’: isto significa que no poder do Espírito Santo, a participação na mesa eucarística nos conforma com Cristo de modo singular e profundo, levando-nos a prelibar [provar] desde já a plena comunhão com o Pai, que caracterizará o banquete celestial, onde juntamente com todos os Santos teremos a felicidade de contemplar Deus face a face» (Francisco, Audiência Geral de 5 de fevereiro de 2014). Por isso, a participação na eucaristia «exige» a comunhão. Mas não é suficiente fazê-lo apenas uma vez por ano? «Para um cristão consciente, de fé adulta, hoje, comungar só uma vez por ano, talvez somente para cumprir uma lei, é um absurdo, uma enormidade! Compreendemos que, sendo a Eucaristia uma refeição, faz parte da refeição, o comer. Imagine você convidado para um jantar: entra na sala da refeição, reza as orações da mesa, participa da conversa e... fecha a boca e não come... Pois todas as vezes que participamos numa Eucaristia, numa missa, deveríamos comungar, como a coisa mais ‘natural’» (José Ribólla, «Os Sacramentos trocados em miúdo», Editora Santuário, Aparecida 1990, 116). Uma das dificuldades que se coloca para não comungar está relacionada com o «jejum eucarístico». As normas quanto ao jejum foram variando ao longo da história. Em tempos próximos (meados do século XX) era preciso estar em jejum desde a meia noite anterior. Hoje, recomenda-se uma hora de jejum (beber água e tomar remédios não quebra o jejum). Dito isto, é ainda mais importante perceber o que é verdadeiramente essencial. «Alguns ficam na dúvida sobre os ‘60 minutos’. Perguntam: e 50 minutos?... Ora, o cristão ainda conserva o bom senso para lhe dizer que não é a matemática do relógio que funciona aqui, mas, bom senso mesmo...» (José Ribólla..., 117). Outra questão secundária, mas às vezes sobrevalorizada é a forma de comungar: na mão ou na boca? A decisão compete ao comungante: ambas são válidas e aprovadas pela Igreja. [Para aprofundar as rubricas e outros aspetos relacionados com a celebração da Eucaristia, recomenda-se a leitura da Instrução Geral do Missal Romano: http://bit.ly/1pp0o7X]

«A celebração pode até ser impecável sob o ponto de vista exterior, maravilhosa, mas se não nos levar ao encontro com Jesus corre o risco de não oferecer alimento algum ao nosso coração e à nossa vida» (Francisco, Audiência Geral de 12 de fevereiro de 2014).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.2.14 | Sem comentários

Mistério da fé! [20]


«O que vemos quando nos congregamos para celebrar a Eucaristia, a Missa, já nos faz intuir o que estamos prestes a viver. No centro do espaço destinado à celebração encontra-se o altar, que é uma mesa coberta com uma toalha, e isto faz-nos pensar num banquete» (Francisco, Audiência Geral de 5 de fevereiro de 2014), é a «mesa do Pão» (Liturgia Eucarística). [Para ajudar a compreender melhor, ler: 1Coríntios 10, 16-17; Catecismo da Igreja Católica, números (CIC) 1350 a 1372 e 1383]

«Todos participamos desse único pão»

— escreve Paulo na Primeira Carta aos Coríntios. «A Igreja é o corpo de Cristo: caminha-se ‘com Cristo’ na medida em que se está em relação ‘com o seu corpo’. [...] É precisamente o único Pão eucarístico que nos torna um só corpo» (João Paulo II, Carta Apostólica para o Ano da Eucaristia — «Mane Nobiscum Domine», 20).

Eucaristia

O Sacramento da Eucaristia também está intimamente unido à oferta de Jesus Cristo na cruz. Por isso, é designado como «Santo Sacrifício, porque atualiza o único sacrifício de Cristo Salvador e incluiu a oferenda da Igreja» (CIC 1330). A palavra «sacrifício» é de origem latina: «‘sacrum-facere’ (tornar algo sagrado, ou fazer que uma coisa se converta em sagrada, separada, oferecida). Entende-se o sacrifício como expressão da entrega à divindade, ou por humilde reconhecimento da sua dependência, para lhe dar graças, para expiar os pecados, ou para suplicar a sua ajuda. [...] No Novo Testamento, não tem grande importância o conceito clássico de sacrifício: só o de Jesus Cristo. Assim como Ele é o verdadeiro sacerdote e Mestre, é também de uma vez por todas o Sacrifício definitivo, aquele que, com o seu Sangue, estabelece e rubrica a Nova Aliança.[...] Aos cristãos encarrega-se-lhes que, em toda a sua vida, se unam a esta entrega sacrificial de Cristo, antes de mais com a atitude interior e com o oferecimento do seu corpo, da sua vida« (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho 2007, 268-269).

Mesão do Pão

A segunda mesa presente na Eucaristia é o «lugar» onde decorre o segundo momento central da celebração: a Liturgia Eucarística [sobre as divisões desta parte ver o tema 18]. Após o alimento da Palavra, os cristãos são convidados a receber o alimento do Pão. Ambos (Palavra e Pão) constituem o mesmo e único Corpo de Cristo (cf. tema 19). «O ato de comer tem a ver com a atividade cultural do homem: implica o trabalho, a preparação do alimento, a sociabilidade (tanto na aquisição e preparação do alimento, como no seu consumo), o convívio. Com efeito, o homem come com outros homens, e o ato de comer está ligado a uma mesa, lugar primordial de criação e de amizade, de fraternidade, de aliança e de sociedade. À mesa não se partilha apenas o alimento, mas também se trocam palavras e discursos, alimentando assim as relações, ou seja, aquilo que dá sentido à vida sustentada pelo alimento» (Luciano Manicardi, «A caridade dá que fazer», ed. Paulinas, Prior Velho 2011, 79). Tudo isto está presente na Eucaristia. Acresce ainda a dimensão sacramental da presença de Jesus Cristo, que confirma e plenifica o significado do pão partido e repartido.

Altar

A mesa do Pão, no espaço litúrgico, designa-se com o termo «altar», «centro do espaço celebrativo, seu princípio de unidade e ponto de referência mais imediato. O seu primeiro sentido foi o sacrifício: a ara onde se sacrificavam as vítimas à divindade. Por isso, a etimologia do nome latino ‘altare’ parece que vem de ‘adolere’, ‘arere’ (arder: o lugar onde pelo fogo se queima a vítima do sacrifício). Também poderia provir de ‘altus’ (alto), porque os altos (sobretudo as colinas e montes) sempre se consideraram lugar de encontro dos humanos com a divindade. [...] Para os cristãos, o altar tem, antes de mais, uma conotação sacrificial [...]. Mas predomina o sentido de refeição eucarística [...]. Junto ao carácter de ‘ara’, acentua-se o de ‘mesa’ [...]. Ao princípio, esta mesa era de madeira: um trípode para os dons eucarísticos. Mas mais tarde, preferiu-se que fosse de pedra. [...] Nos primeiros séculos, o altar era independente. Na Idade Média, encostou-se à parede ou ábside do fundo, e agora de novo se pede que esteja separado da parede, para poder celebrar de frente para a comunidade e rodear processionalmente o altar.[...] Prefere-se que o altar principal seja fixo» (DEL, 24-26).

«Ir à Missa não só para rezar, mas para receber a Comunhão, o pão que é o corpo de Jesus Cristo que nos salva, nos perdoa e nos une ao Pai. É bom fazer isto!» (Francisco, Audiência Geral de 5 de fevereiro de 2014).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2013
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.2.14 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo sétimo domingo

28 DE JULHO DE 2013

Leonardo Boff, «O Pai-nosso. A oração da libertação integral», Vozes, 1991, 101-103


Dai-nos hoje: o trabalho e a Providência
A Escritura está cheia de passagens que expressam a convicção de que é Deus quem dá o pão ou dá de comer. Todo o alimento é dádiva divina. Ao ser humano cabe agradecer. A primeira das orações à mesa dos judeus piedosos começa assim: «Bendito sois Vós, Senhor nosso Deus, Rei do universo, que alimentais todo mundo por Vossa bondade. Por graça, amor e misericórdia dá Ele o pão a toda criatura, pois sua graça permanece para sempre». Somente um pagão ou um ateu não sabe a quem agradecer pelo alimento quotidiano. Neste contexto devemos entender a petição: dai-nos hoje o pão nosso de cada dia.
Mas o que significa concretamente pedir a Deus o pão necessário? Não é o trabalho humano que traz o pão à mesa? Jesus sabe da importância do trabalho. Paulo recorda-nos muito realisticamente: «Se alguém não quiser trabalhar, também não coma» (2Tessalonicenses 2, 10). Mas o trabalho humano não é tudo no pão. Dependemos de tantas condições prévias, face às quais— eada ser humano se sente impotente e se vê remetido à Providência divina. É Ele que nos dá as estações favoráveis de tempo e de chuva; é Ele que garante as forças com as quais podemos trabalhar; é Ele que misteriosamente faz crescer a semente; é Ele o Senhor da criação, criação que nós modificamos com nosso trabalho mas que não geramos. Em cada pedaço de pão há mais presença da mão de Deus do que da mão do humano. Por isso o fiel tem sua razão em pedir o pão ao Pai do céu.
Além disso, o pedido pelo pão possui em nossos dias um sentido concretíssimo. Há milhões que vasculham o lixo em busca do mínimo necessário. Milhares morrem de fome cada ano por falta do pão suficiente. O espectro da subnutrição e da fome ameaça mais e mais a humanidade inteira. Para estes milhões de esfomeados a súplica pelo pão possui um sentido direto e imediato. Eles recordam aos saciados a súplica do próprio Deus: «Reparte com os famintos o teu pão» (cf. Isaías 58, 7). Como contundentemente apostrofava S. Basílio Magno (379) : «Ao faminto pertence o pão que se estraga em tua casa. Ao descalço pertence o sapato que cria bolor debaixo de tua cama. Ao nu pertencem as vestes que ficam em teus baús. Ao miserável pertence o dinheiro que desvaloriza em teus cofres»!
Na versão de S. Mateus se pede-se o pão para hoje; na de S. Lucas para cada dia. Ambos os sentidos são verdadeiros. A primeira versão (hoje) atende ao sentido imediato da súplica: pede-se o pão necessário para agora, para hoje. A segunda, implica um propósito do discípulo: de pedir dia após dia e cada dia o pão necessário e assim confiar-se à Providência divina.

A santidade do pão
Está presente na memória dos povos o facto de que diante do pão estamos face a uma realidade santa. O pão é tratado com respeito e veneração. Não se joga fora o pão; somente sociedades dessacralizadas o fazem porque perderam a referência básica para com o Santo e o Sublime do homem e do mundo. O pão é santo porque está associado ao mistério da vida que é sacrossanta. Para o homem bíblico o pão é um dos sinais primordiais da graça e do amor com que Deus nos sustenta e nos cerca. Por ele Deus exorciza os demónios da fome e da morte. Para o homem de fé cristã o pão é ainda mais santo porque simboliza a reconciliação terminal de todos os justos no banquete com Deus no Reino futuro. Ele é também o símbolo real de Jesus, pão da vida, que salvou a vida para sempre. O pão quotidiano é santo por um título ainda: é a matéria que, transubstanciada, constitui o sacramento da Eucaristia, o pão dos peregrinos com o qual se alimenta a vida para que ela seja ressuscitada e feliz eternamente.

  • O pão nosso de cada dia nos dai hoje [1] > > >



  • Reflexão diária a partir do evangelho > > >
  • O «Pai nosso» no evangelho segundo Lucas > > >
  • É de vida partilhada que as nossas vidas se alimentam > > >
  • O Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem > > >
  • Lucas 11, 1-13 — notas exegéticas > > >



Preparar o décimo sétimo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.7.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo sétimo domingo

28 DE JULHO DE 2013

Leonardo Boff, «O Pai-nosso. A oração da libertação integral», Vozes, 1991, 91-95


Com esta petição produz-se uma viragem na oração do Senhor. Na primeira parte o olhar dirigia-se ao céu: à rea­lidade divina de Deus como Pai, transcendente (nos céus) e ao mesmo tempo próximo (nosso) que deve ser sempre santificado, ao Reino que deve vir e se historizar entre os homens, realizando assim a vontade última de Deus; o tom era solene e as frases cadenciadas. Agora na segunda parte o olhar volta-se para a terra e para o homem nas suas necessidades: o pão necessário à vida, o perdão às quebras da fraternidade, a força contra a tentação e a libertação do mal; as frases são longas e o tom traduz a aflição em que se encontra a vida humana. Na primeira parte trata-se da causa de Deus; na segunda da causa do homem. Ambas são objeto de oração. Nesta segunda parte não notamos nenhuma mistificação ou espiritualização: é a vida humana na sua concretização histórica, infra-estrutural, biológica, social e sem­pre ameaçada. Ela não preocupa somente o homem; interessa também a Deus. Por isso é feita material de oração e de súplica. Não há, portanto, concorrência nenhuma entre o ver­tical de Deus e b horizontal do homem. Ambos se encontram sob o arco-íris da oração. A união inconfundível do material com o espiritual, do humano com o divino constitui a força do mistério da Encarnação. No Reino de Deus se encontram abraçados matéria e espírito, homem e cosmos, criação e Criador. Não nos admira, pois, se na oração do Senhor uma e outra coisa venham unidas; ao lado do mais sublime de­paramos com o mais banal. O que é quotidiano, evidente e banal como o pão tem o seu direito tanto diante de Deus quanto diante do homem. 0 pai-nosso reafirma vigorosa­mente esta verdade contra todos os espiritualismos.

O pão: a dimensão divina da matéria
A petição começa com a palavra pão. Precisamos ouvir a palavra nua e crua antes de ouvirmos as qualificações que a acompanham (nosso, de cada dia). A palavra pão possui um conteúdo de significação dos mais profundos; aí se re­sume parte importante da antropologia, vale dizer, da dou­trina sobre a realidade humana. Pão exprime mais do que o conglomerado físico-químico. Ele é símbolo do alimento huma­no, «do alimento necessário e suficiente», como se diz nas Escrituras (Provérbios 30, 8) ou do alimento simplesmente (Salmo 146, 7; Levítico 26, 5; Eclesiástico 9, 7; Eclesiastes  31, 27; Provérbios 6, 8). O pão é «pão da vida» (João 6, 35). A vida humana está indissociavelmente li­gada a uma infra-estrutura material. Por mais altos que forem os voos do espírito, por mais profundos os mergulhos da mística, por mais metafísicos os pensamentos abstratos, o ser humano depende sempre de um pouco de pão, de um copo de água, enfim de uma pequena porção de matéria. A infra-estrutura material é tão importante que ela se encon­tra, em última instância, na raiz e na base de tudo o que se pensar, projetar ou fizer. É como o fundamento de um edifício: a ele estão referidos, em última instância, tanto os andares todos, quanto cada objeto que se encontrar nas salas, as pessoas que moram nele. Ele é a condição de possi­bilidade de que tudo exista e persista. Assim é com o ali­mento humano simbolizado no pão: a vida depende dele, de sua materialidade opaca, de sua substância material. A vida é mais do que o pão, mas em nenhum momento pode dis­pensar o pão. Em termos teológicos a infra-estrutura humana é tão importante que Deus associou a salvação e a perdição ao atendimento justo e fraterno que fizermos dela ou não. Assim seremos julgados definitivamente pelo Juiz Supremo pelos critérios da infra-estrutura: se tivermos ou não aten­dido o faminto, o nu, o sedento e o encarcerado. No pão, na água, nas vestes, na solidariedade joga-se, finalmente, o destino eterno do ser humano (cf. Mateus 25, 31-46).
O estômago possui, portanto, o seu direito assegurado face à importância do coração e da cabeça. Nenhuma oração, nenhum ato espiritual dispensa o pão e o trabalho, muitas vezes oneroso, de ganhá-lo e de trazê-lo para a mesa dos famintos. Também nenhuma pia palavra matou a fome de um esfomeado. Deus quis que ganhássemos o pão com o trabalho que implica tempo, suor, lágrimas e um certo distanciamento de Deus, porque nos ocupamos com a terra e não com o céu. Deus quis que não houvesse apenas a Sua causa, o Seu Reino, a Sua vontade, o Seu nome, mas também a causa do homem, suas necessidades, sua fome, suas urgências de proteção e de salvação. O homem não está aí somente para Deus. Está também para si mesmo. É Deus que o quis assim. Ao rezar ele deve incluir tudo e apresentá-lo ao Pai, a causa de Deus e a causa do homem.
Se observarmos atentamente percebemos que na oração do Senhor verifica-se uma troca. Nas três primeiras petições (santificação do nome, vinda do Reino, realização da vontade divina) é o homem que se ocupa e preocupa com a causa de Deus. Nas quatro outras petições (pão, perdão das ofensas, tentação e libertação do mal) é Deus que se ocupa e preocupa da causa do homem. Estas duas dimensões não devem jamais ser dissociadas, porque o Senhor as uniu em sua oração. Não precisamos nos envergonhar de nossas necessidades; a fome preocupa a Deus; Ele quer atender a súplica do homem e saciar a boca faminta. Destarte a vida, o dom mais precioso que recebemos de Deus, é assegurada. A matéria, pois, é portadora de uma realidade divina; ela é sacramental; isto é tanto mais evidente quanto é certo que para as Escrituras o pão constitui o símbolo histórico do Reino de Deus representado como uma grande ceia; é o sinal temporal do alimento eterno que garantirá a eternidade da vida; o pão carrega a promessa da plenitude da vida; mais ainda, ele é a presencialização já agora, no meio do caminhar dos famintos e dos peregrinos, daquele pão que sacia completamente a fome salvífica do homem, vale dizer, de Jesus e de seu Reino. Tudo isto está presente na pequenina palavra, quotidiana, natural e simples: pão.

Nosso: o pão que traz a felicidade
A necessidade do pão é individual; a sua satisfação, no entanto, não pode ser individual, mas comunitária. Por isso não se reza: o pão meu, mas o pão nosso. Nisso vai um profundo significado presente na pregação de Jesus. É verdade que o Antigo Testamento conhece a satisfação individual: «Come com alegria o teu pão» (Eclesiastes 9, 7); «reparte o teu pão com o faminto» (Isaías 58, 7). Mas com Jesus alcançou-se a plena consciência da fraternidade humana. Temos um Pai que é de todos os homens, por isso é nosso Pai; somos todos filhos e por isso todos irmãos. A mera satisfação pessoal da fome sem tomar em consideração os demais irmãos seria quebra da fraternidade. O homem não quer apenas matar a fome e sobreviver de qualquer maneira. Comer nunca significa um mero nutrir-se; é sempre um ato comunitário e um rito de comunhão. Não come feliz, não se alimenta humanamente quem mata a fome vendo a miséria dos outros e os lázaros sentados ao pé da mesa esperando os restos de nossa abundância. O pão quotidiano produz a parca e necessária felicidade da vida. Toda a felicidade para ser felicidade precisa de se comunicar e ser compartida. Assim é com o pão: é pão humano enquanto é pão repartido e feito laço de comunhão. Então traz felicidade e sacia a fome humana.
O pão que consumimos diariamente esconde toda uma rede de relações anónimas que sempre devem ser recordadas. Antes de chegar à nossa mesa, passou pelo trabalho de muitos braços. Foi semente jogada na terra; houve quem tomou o cuidado de seu crescimento. Muitas mãos colheram os grãos ou muitos dedos manejaram potentes máquinas. Outras tantas mãos amassaram o trigo e confeccionaram o pão. Milhares de postos de distribuição. Em tudo isto vai grandeza e miséria humana. Pode ter havido relações de exploração; há lágrimas escondidas em cada pão que se come tranquilamente; mas há também sentido de fraternidade e de partilha. O pão quotidiano encerra todo o universo humano em sua luz e em sua sombra.
O pão que é produzido junto deve ser repartido junto e consumido junto. Só então podemos, verdadeiramente, pedir o pão nosso de cada dia. Deus não escuta a oração que apenas pede o pão para mim. A relação verdadeira para com Deus depende da relação que mantivermos para com os outros. Deus quer que ao apresentar-Lhe as nossas necessidades incluamos também aquelas de nossos irmãos. Caso contrário estaríamos desligados da fraternidade e viveríamos no egoísmo. A mesma necessidade básica nos iguala a todos; a satisfação coletiva nos confraterniza.
O pão que comermos, fruto da exploração do irmão, não é pão abençoado por Deus. É pão que apenas nutre mas não alimenta a vida humana que é somente humana enquanto vive na reta ordem da justiça e da fraternidade. O pão injusto não é nosso, mas é roubo; pertence ao outro. Bem dizia o grande místico medieval Mestre Eckhart: «Quem não dá ao outro o que é do outro não come o seu próprio pão, mas come o seu e também aquele do outro». Os milhares de famintos de nossas cidades e os milhões de esfomeados de nosso mundo acusam a qualidade do nosso pão: é pão amargo porque contém dentro de si demasiadas lágrimas de crianças; é pão duro porque encerra em sua substância o tormento de tantos estômagos vazios. Ele não pode ter a dignidade de ser considerado o nosso pão. O pão para ser nosso exige que transformemos o mundo e libertemos a sociedade de seus mecanismos de riqueza feita à custa do pão tirado da boca do outro. O pão convoca-nos para a conversão coletiva. É a condição necessária para que nossa oração não seja vazia e farisaica. O evangelho interdita-me de pedir apenas para mim, com descaso das necessidades dos irmãos que estão à minha volta. Unicamente o pão nosso é pão de Deus.

  • O pão nosso de cada dia nos dai hoje [2] > > >



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  • O «Pai nosso» no evangelho segundo Lucas > > >
  • É de vida partilhada que as nossas vidas se alimentam > > >
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  • Lucas 11, 1-13 — notas exegéticas > > >



Preparar o décimo sétimo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.7.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo sétimo domingo

28 DE JULHO DE 2013

José Tolentino Mendonça, «Pai-nosso que estais na Terra», Paulinas, 2011, 99-102


É impressionante constatar, num mundo hipertecnológico e sofisticado como o nosso, a força simbólica que continuam a ter as coisas simples. Pensemos no pão. O seu apelo e significado atravessam culturas e gerações. O pão tornou-se um símbolo extraordinário e univer­sal... foi assim para os nossos avós, é assim para nós... Lembro-me quando era miúdo, se um pão caía da mesa, apanhávamo-lo e dávamos um beijo, mesmo se já não o pudéssemos comer. Para lá da carga simbólica, o pão revestia-se de um sentido sagrado. Penso que é assim, porque o pão é uma expressão concreta da nossa própria humanidade. O pão não é só farinha, fermento, água e sal. É muito mais do que isso. O pão é sinal do que é essencial à vida, de tudo aquilo de que a nossa sobrevi­vência depende, e sem o qual não conseguiríamos existir. Representa os fios que nos atam à vida e que nos mantêm à flor da terra. Por isso, descobrimos que o seu significado se alarga continuamente.
O pão também traduz a condivisão, a comunhão, a fraternidade... Haver um único pão e poder-se dividi-lo em frações; tomar dum mesmo pão para alimentar os diferentes comensais que rodeiam uma mesa... O pão não é só pão. Ele é também o testemunho visível da arte da fraternidade. Na raiz de palavras que nos são tão caras, como «companhia», «companheiro», «acompanha­mento» está o pão, o «com-panis», o comer o mesmo pão. Dizer a alguém, «Tu és o companheiro ou companheira da minha vida», significa que há uma partilha do que é alimento, do que dá vida. E do trabalho, que nos torna cocriadores com Deus, e coartífices da criação, dizemos: é o meu ganha-pão. O pão é alguma coisa de vital.
Por vezes, ocupamo-nos a pedir a Deus coisas secun­dárias, uma espécie de berloques ou de espuma. E a nossa oração aprisiona-se à vidinha que vai correndo... E esquecemo-nos muitas vezes de colocar Deus no meio das lutas, no meio das procuras por aquilo que nos é mais essencial. Nós podemos perguntar: «Mas vou pedir a Deus o pão? O pão, se eu não trabalhar, não é Deus que mo vai dar. Tenho de pedir a Deus é o que não consigo pelas minhas forças!» Porém, o que Jesus nos ensina é que temos de pedir a Deus aquilo que conseguimos, ou dito de outra maneira, pedir que Ele dê um sentido outro àquilo que nós vamos conseguindo e o torne genuinamente essencial.
Jesus ensina-nos a pedir a Deus, a pedir ao Pai, que o pão não seja apenas pão, pura materialidade, mas que o nosso pão fale, seja uma espécie de sacramento, seja expressão de tudo aquilo que, no fundo, procuramos e que o Senhor nos vai dando, também em termos espirituais. Temos de pedir a Deus que o nosso pão reúna e não separe. Que o nosso pão seja verdadeiramente «Pão»: lugar onde as pessoas se sentam à volta e não o que acontece tantas vezes, quando o pão se torna aquilo que distingue e afasta. Pedir a Deus que o nosso pão celebre, evidencie a gratidão por Deus e o nosso Amor pelos outros.
Pedir a Deus que o «pão de cada dia» não faça bem só ao estômago, mas também à alma e ao coração. Isto é, que o pão se possa revestir de um sentido tão humano que seja divino. Que o que em cada dia vamos construindo tenha um sentido transcendente e não seja apenas uma coisa muda, que nada diz. Que o trabalho não seja apenas uma atividade mecânica e obrigatória, mas que se pressinta nele algo mais: o Amor de Deus, o coração de Deus, a vida de Deus.
Nós rezamos: «o pão nosso» porque, quando só eu tenho pão, é uma coisa muito triste. É um pão que não nos desce pela garganta. O pão da solidão não tem metade do sabor, ou um centésimo da alegria. Nós pedimos a Deus o nosso pão, o pão de todos, o pão para todos.
Uma das mais antigas imagens da Igreja, guardadas na «Didaqué», desenha-a assim: «Tal como as várias espigas de trigo nascem em campos muito diferentes e depois são moídas para fazer um único pão, vindo de searas diferentes, assim, Senhor, é a tua Igreja, que, vinda de lugares muito diferentes, se reúne num único pão, o pão do Senhor.» Pedir o «pão nosso» é pedir por esta fraternidade. É rogar não apenas pela minha seara, mas por todas as searas. E é comprometer-se em amassar um único pão, capaz de saciar os outros.



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Preparar o décimo sétimo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.7.13 | Sem comentários
— palavra para terça-feira depois da epifania —

— Evangelho segundo Marcos 6, 34-44

Naquele tempo, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-se deles, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou então a ensiná-los demoradamente. Como a hora ia já muito adiantada, os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram-Lhe: «O local é deserto e a hora já vai adiantada. Manda-os embora, para irem aos casais e aldeias mais próximas comprar de comer». Jesus respondeu-lhes: «Dai-lhes vós mesmos de comer». Disseram-Lhe eles: «Havemos de ir comprar duzentos denários de pão, para lhes darmos de comer?» Jesus perguntou-lhes: «Quantos pães tendes? Ide ver». Eles foram verificar e responderam: «Temos cinco pães e dois peixes». Ordenou-lhes então que os fizessem sentar a todos, por grupos, sobre a verde relva. Eles sentaram-se, repartindo-se em grupos de cem e de cinquenta. Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao Céu e pronunciou a bênção. Depois partiu os pães e foi-os dando aos discípulos, para que eles os distribuíssem. Repartiu por todos também os peixes. Todos comeram até ficarem saciados; e encheram ainda doze cestos com os pedaços de pão e de peixe. Os que comeram dos pães eram cinco mil homens.

 — Todos comeram até ficarem saciados

Dois mais cinco é igual a cinco mil (5 + 2 = 5000). Esta é a matemática do Evangelho. É assim que Jesus faz contas. Os discípulos só sabem a lógica matemática habitual. Para eles, cinco pães e dois peixes apenas serviriam para saciar a fome de alguns dos presentes. Com Jesus, dá para todos. «Todos comeram até ficarem saciados». E ainda sobram doze cestos!
Este milagre da divisão dos pães e dos peixes remete-nos quase sempre para a categoria da caridade, para a partilha com os mais pobres. Mas, na verdade, é muito mais do que isso. É preciso sentar-se à mesma mesa com todos, para partilhar a alegria da refeição. Era o sentido primeiro da «Eucaristia». Hoje, é cada vez mais difícil perceber o verdadeiro sentido do Sacramento da Eucaristia.
A crise que estamos a atravessar prova que, nós, cristãos, continuamos tão longe da matemática do Evangelho. Enquanto não formos capazes de pôr à disposição de todos os nossos cinco pães e dois peixes, para que todos possam comer até ficarem saciados (e ainda sobrarem doze cestos), continuaremos a fazer as contas numa lógica muito distante daquela que é proposta e vivida por Jesus Cristo. Será que me posso chamar cristão sem partilhar tudo o que tenho?!

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.1.13 | Sem comentários
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