MANUAL BÁSICO DE ASTRONOMIA
O Natal é um tempo estranho: olhamos uns para os outros com menos indiferença e, juntos, sentimo-nos impelidos a partilhar a alegria, mesmo sob as incertezas da crise. A luz vacilante de uma estrela perdida na imensidade do céu é capaz de guiar a sabedoria dos três magos. O Deus da pobreza incarna na simplicidade de uma manjedoura, enquanto o deus da riqueza, aquele que pretendemos adorar com a mesma devoção, materializa-se nas ruas comerciais, debaixo da fria luz dos escaparates. Tal como fazemos hoje com tantas famílias de deslocados e desfavorecidos, naqueles dias decidimos fechar a nossa porta à família de Belém. Agora, concedemos-lhe apenas um lugar simbólico entre os bonequinhos de plástico e as refeições exageradas, no conforto suave do aquecimento das nossas casas.
Viver o Natal não requer preparativos supérfluos. É, sobretudo, uma disposição interior: significa estar especialmente atentos aos sinais de esperança que existem nos acontecimentos e nas coisas que nos rodeiam, a qualquer raio de luz que possa iluminar as nossas trevas pessoais. A partir da escuridão da nossa vida, como os Magos do Oriente, também nós somos convidados a seguir a estrela. Não é fácil. Requerem-se qualidades de astrónomo, mas vale a pena tentá-lo. Aqui vão algumas pistas.
Em primeiro lugar: é preciso sentir a nossa própria escuridão e reconhecê-la. Só quem se sabe necessitado da luz de Deus pode colocar-se no caminho da procura. Quem pensa que já a tem dentro de si como num cofre fechado à chave não precisa de Deus; basta-se a si mesmo. Assim, para começar faz falta ter consigo um saudável desejo de ir à procura.
Segundo: procuremos ver mais além. Há tantos que pensam que a lamparina da sua casa é a estrela que procuram. Infelizmente, perdem a vastidão eterna que separa as galáxias. Se queremos encontrar a estrela, procuremos ver mais além de nós mesmos, mais além do nosso umbigo, mais além da nossa janela, mais além dos nossos preconceitos.
Terceiro: sejamos mais otimistas. Há quem nunca procure, porque parte sempre da convicção desanimada de que não vai encontrar nada de novo. Não sejas incrédulo, toma o olho do telescópio e observa a noite dos astros. Procura especialmente próximo dos sem-sentido e das desolações, porque são lugares pródigos em estrelas. Só um bom astrónomo conhece o tamanho enorme de uma estrela, embora não pareça mais do que um ponto vacilante no meio da noite. «Grande» e «pequeno» são termos muito relativos. Não há nada grande para o universo, não há nada pequeno para Deus.
Quarto: sejamos perseverantes. Quando encontrares a tua estrela, segue-a sem hesitações. O caminho pode durar muitos anos ou até a maior parte da tua vida. Às vezes, poderá parecer uma travessia inútil, porque haverá noites de nevoeiro; ou porque, a cada passo que damos na procura, a estrela parecerá afastar-se outro tanto de nós e, embora desejemos a sua luz, parecer-nos-á cada vez mais longe. Mas se aprendemos a olhar o horizonte duma estrela, poderemos atravessar com esperança até o deserto mais inóspito. É para isso que servem as estrelas: para nos animar na caminhada.
E quinto: logo que a tua estrela te mostre o caminho, aprende, como os Magos, a deixar-te tocar pelo mistério, a adorar em silêncio e a reconhecer que há enigmas tão grandes que silenciam a alma. Quando isto acontecer, não digas nada. Apenas contempla em silêncio. E depois oferece, como os Magos, o melhor do que honestamente guardas no teu coração.










