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INICIAR À ORAÇÃO 


Bento XVI, ao pronunciar a catequese no dia um de junho de dois mil e onze, descreve Moisés como «homem de oração». Para o confirmar, socorre-se de vários momentos e circunstâncias em que, no livro do Êxodo e dos Números, podemos encontrar Moisés em oração.
O episódio comentado (Êxodo 32, 7-14) está em relação com aquilo que aconteceu junto do monte Sinai: enquanto Moisés sobe ao monte para receber as tábuas da Lei, o povo pede a Aarão que construa um bezerro de metal fundido. «Trata-se de uma tentação constante no caminho de fé: eludir o mistério divino, construindo um deus compreensível, correspondente aos próprios esquemas, aos próprios programas».
Então, estabelece-se um diálogo entre Deus e Moisés, com destaque para a intercessão deste em favor do povo. «A súplica de Moisés está inteiramente centrada na fidelidade e na graça do Senhor. […] Moisés apela-se a Deus, à vida interior de Deus, contra a sentença exterior».
Moisés «não apresenta desculpas para o pecado do seu povo, não enumera méritos presumíveis, nem do povo nem seus, mas apela para a gratuidade de Deus: um Deus livre, totalmente amor, que não cessa de procurar quem se afastou, que permanece sempre fiel a Si mesmo e oferece ao pecador a possibilidade de voltar para Ele e de se tornar, mediante o perdão, justo e capaz de fidelidade. Moisés pede a Deus que se mostre até mais forte do que o pecado e a morte e, com a sua oração, suscita este revelar-se divino».



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Laboratório da fé celebrada: iniciar à oração, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.8.14 | Sem comentários

INICIAR À ORAÇÃO 


O relato do livro do Génesis (32, 23-33) sobre a luta de Jacob com Deus é um texto «importante para a nossa vida de fé e de oração» — diz Bento XVI, na catequese sobre a oração proferida a vinte e cinco de maio de dois mil e onze.
Apesar de difícil interpretação, «o texto bíblico fala-nos da longa noite da busca de Deus, da luta para conhecer o seu nome e para ver o seu rosto; trata-se da noite da oração que, com tenacidade e perseverança, pede a Deus a bênção e um nome novo, uma renovada realidade, fruto de conversão e perdão».
A luta de Jacob e o encontro com Deus, como refere o Papa, serve de «ponto de referência para compreender a relação com Deus que, na oração, encontra a sua máxima expressão. A oração exige confiança, proximidade, quase num corpo a corpo simbólico não com um Deus adversário, inimigo, mas com o Senhor que abençoa, que permanece sempre misterioso, que parece inalcançável. Por isso, o autor sagrado utiliza o símbolo da luta, que implica força de espírito, perseverança e tenacidade para alcançar aquilo que se deseja. E se o objeto do desejo é a relação com Deus, a sua bênção e o seu amor, então a luta não poderá deixar de culminar no dom pessoal a Deus, no reconhecimento da própria debilidade, que vence precisamente quando consegue entregar-se nas mãos misericordiosas de Deus».
Em resumo, «toda a nossa vida é como esta longa noite de luta e de oração, que deve ser consumida no desejo e na busca de uma bênção de Deus».



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Laboratório da fé celebrada: iniciar à oração, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.8.14 | Sem comentários

INICIAR À ORAÇÃO 


Na terceira catequese sobre a oração, Bento XVI inicia um «percurso bíblico» cujo primeiro exemplo é retirado da intercessão de Abraão pelas cidades de Sodoma e Gomorra (Génesis 18, 16-33).
Abraão «põe em jogo uma nova ideia de justiça: não aquela que se limita a punir os culpados, como fazem os homens, mas uma justiça diferente, divina, que busca o bem e o cria através do perdão que transforma o pecador, o converte e o salva. Portanto, com a sua oração, Abraão não invoca uma justiça meramente retributiva, mas uma intervenção de salvação que, tendo em consideração os inocentes, liberte da culpa inclusive os ímpios, perdoando-os». Abraão exprime o desejo de Deus: «misericórdia, amor e vontade de salvação».
Infelizmente, «as cidades estavam fechadas num mal totalizador e paralisador, sem sequer poucos inocentes, a partir dos quais começar para transformar o mal em bem. Pois é precisamente este o caminho da salvação, que também Abraão pedia: ser salvos não quer dizer simplesmente evitar a punição, mas ser libertados do mal que habita em nós. Não é o castigo que deve ser eliminado, mas o pecado, aquela rejeição de Deus e do amor que já traz em si o castigo».
Então, é fundamental «uma transformação a partir de dentro, uma grande ocasião de bem, um início a partir do qual começar para mudar o mal em bem, o ódio em amor e a vingança em perdão. […] É uma palavra dirigida também a nós: que nas nossas cidades se encontre o germe do bem».



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Laboratório da fé celebrada: iniciar à oração, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.8.14 | Sem comentários

INICIAR À ORAÇÃO 


Apesar deste tempo ser dominado pelo secularismo, Bento XVI, na segunda catequese sobre a oração, realça o aparecimento de «muitos sinais que nos indicam um despertar do sentido religioso, uma redescoberta da importância de Deus».
Não é de estranhar, porque, como afirma o Catecismo da Igreja Católica, «o desejo de Deus está inscrito no coração do homem» (número 27). É uma «sede de infinito, uma saudade de eternidade, uma busca de beleza, um desejo de amor, uma necessidade de luz e de verdade, que o impelem rumo ao Absoluto». S. Tomás de Aquino define a oração como «expressão do desejo que o homem tem de Deus».
O Papa fala da oração como uma «atitude interior» que, mais do que uma «série de práticas e fórmulas» é «um modo de ser diante de Deus, e não só o cumprir gestos de culto ou o pronunciar palavras. A oração tem o seu centro e afunda as suas raízes no mais profundo da pessoa; por isso não é facilmente decifrável. Também neste sentido podemos entender a expressão: rezar é difícil. […] Por isso, a experiência da oração é para todos um desafio, uma ‘graça’ a invocar, um dom d’Aquele ao qual nos dirigimos. [... ] Todavia, só no Deus que se revela encontra pleno cumprimento a busca do homem. A oração, que é a abertura e elevação do coração a Deus, torna-se assim relação pessoal com Ele. E mesmo que o homem se esqueça do seu Criador, o Deus vivo e verdadeiro não cessa de chamar primeiro o homem ao misterioso encontro da oração».



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Laboratório da fé celebrada: iniciar à oração, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.8.14 | Sem comentários

INICIAR À ORAÇÃO 


Bento XVI iniciou a quatro de maio de dois mil e onze uma série de catequese sobre a oração cristã: «aproximando-nos da Sagrada Escritura, da grande tradição dos Padres da Igreja, dos Mestres de espiritualidade e de Liturgia, queremos aprender a viver ainda mais intensamente a nossa relação com o Senhor, quase uma ‘Escola de oração’. Com efeito, sabemos que a oração não se deve dar por certa: é preciso aprender a rezar, quase adquirindo esta arte sempre de novo; mesmo aqueles que estão muito avançados na vida espiritual sentem sempre a necessidade de se pôr na escola de Jesus para aprender a rezar autenticamente. Recebemos a primeira lição do Senhor através do seu exemplo. Os Evangelhos descrevem-nos Jesus em diálogo íntimo e constante com o Pai: é uma profunda comunhão daquele que veio ao mundo não para fazer a sua vontade, mas a do Pai que O enviou para a salvação do homem».
Na primeira catequese, apresenta exemplos de oração «para relevar como, praticamente sempre e em toda a parte, o homem se dirigiu a Deus»: no antigo Egito; nas religiões da Mesopotâmia; na religiosidade grega e romana. Os textos mostram que o ser humano «reza porque não consegue deixar de se interrogar sobre o sentido da sua existência, que permanece obscuro e desolador, se não se puser em relação com o mistério de Deus e do seu desígnio acerca do mundo».
O ponto de partida desta «Escola de oração» é o pedido dos discípulos: «Senhor, ensina-nos a rezar».



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Laboratório da fé celebrada: iniciar à oração, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 3.8.14 | Sem comentários

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O DIA MUNDIAL DA PAZ


Resumo do número 5
Bento XVI afirmou que a ausência de fraternidade é causa da pobreza. Então, a fraternidade é «premissa para vencer a pobreza». Esta constatação serve de referência para apresentar dois tipos de pobreza: «pobreza relacional, devido à carência de sólidas relações familiares e comunitárias»; «pobreza relativa», «desigualdades entre pessoas e grupos» da mesma sociedade. A pobreza relacional pode ser ultrapassada com a «redescoberta e valorização de relações fraternas no seio das famílias e das comunidades, através da partilha das alegrias e tristezas, das dificuldades e sucessos». A pobreza relativa desaparece com o recurso a «políticas eficazes que promovam o princípio da fraternidade, garantindo às pessoas – iguais na sua dignidade e nos seus direitos fundamentais – acesso aos ‘capitais’, aos serviços, aos recursos educativos, sanitários e tecnológicos, para que cada uma delas tenha oportunidade de exprimir e realizar o seu projeto de vida». Na mesma linha, não se pode «esquecer o ensinamento da Igreja sobre a chamada hipoteca social»: as «coisas exteriores» que cada um possui legitimamente não se podem considerar «só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si mas também aos outros». Tudo isto ganha ainda mais sentido a partir da vivência do «desapego»: assumir «estilos de vida sóbrios e essenciais»; partilhar os bens como expressão de «comunhão fraterna». «Isto é fundamental, para seguir Jesus Cristo e ser verdadeiramente cristão».

© Laboratório da fé, 2014



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Fraternidade, fundamento e caminho para a paz, Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.1.14 | Sem comentários

A porta da fé [10]


Estamos a seis semanas de concluir o Ano da Fé, que se iniciou em outubro de 2012 e terminará em novembro de 2013. Semanalmente, apresentamos um número da Carta Apostólica do papa Bento XVI com a qual proclamou o Ano da Fé — «A porta da fé» («Porta Fidei»). E juntamos uma proposta de reflexão elaborada por Pedro Jaramillo. O objetivo é dar um contributo para uma avaliação mais cuidada sobre a forma como estamos a viver o Ano da Fé. Bom proveito!

Queria agora delinear um percurso que ajude a compreender de maneira mais profunda os conteúdos da fé e, juntamente com eles, também o ato pelo qual decidimos, com plena liberdade, entregar-nos totalmente a Deus. De facto, existe uma unidade profunda entre o ato com que se crê e os conteúdos a que damos o nosso assentimento. O apóstolo Paulo permite entrar dentro desta realidade quando escreve: «Acredita-se com o coração e, com a boca, faz-se a profissão de fé» (Romanos 10, 10). O coração indica que o primeiro ato, pelo qual se chega à fé, é dom de Deus e ação da graça que age e transforma a pessoa até ao mais íntimo dela mesma.
A este respeito é muito eloquente o exemplo de Lídia. Narra São Lucas que o apóstolo Paulo, encontrando-se em Filipos, num sábado foi anunciar o Evangelho a algumas mulheres; entre elas, estava Lídia. «O Senhor abriu-lhe o coração para aderir ao que Paulo dizia» (Atos 16, 14). O sentido contido na expressão é importante. São Lucas ensina que o conhecimento dos conteúdos que se deve acreditar não é suficiente, se depois o coração – autêntico sacrário da pessoa – não for aberto pela graça, que consente ter olhos para ver em profundidade e compreender que o que foi anunciado é a Palavra de Deus.
Por sua vez, o professar com a boca indica que a fé implica um testemunho e um compromisso públicos. O cristão não pode jamais pensar que o crer seja um facto privado. A fé é decidir estar com o Senhor, para viver com Ele. E este «estar com Ele» introduz na compreensão das razões pelas quais se acredita. A fé, precisamente porque é um ato da liberdade, exige também assumir a responsabilidade social daquilo que se acredita. No dia de Pentecostes, a Igreja manifesta, com toda a clareza, esta dimensão pública do crer e do anunciar sem temor a própria fé a toda a gente. É o dom do Espírito Santo que prepara para a missão e fortalece o nosso testemunho, tornando-o franco e corajoso.
A própria profissão da fé é um ato simultaneamente pessoal e comunitário. De facto, o primeiro sujeito da fé é a Igreja. É na fé da comunidade cristã que cada um recebe o Batismo, sinal eficaz da entrada no povo dos crentes para obter a salvação. Como atesta o Catecismo da Igreja Católica, «“Eu creio”: é a fé da Igreja, professada pessoalmente por cada crente, principalmente por ocasião do Baptismo. “Nós cremos”: é a fé da Igreja, confessada pelos bispos reunidos em Concílio ou, de modo mais geral, pela assembleia litúrgica dos crentes. “Eu creio”: é também a Igreja, nossa Mãe, que responde a Deus pela sua fé e nos ensina a dizer: “Eu creio”, “Nós cremos”» [17].
Como se pode notar, o conhecimento dos conteúdos de fé é essencial para se dar o próprio assentimento, isto é, para aderir plenamente com a inteligência e a vontade a quanto é proposto pela Igreja. O conhecimento da fé introduz na totalidade do mistério salvífico revelado por Deus. Por isso, o assentimento prestado implica que, quando se acredita, se aceita livremente todo o mistério da fé, porque o garante da sua verdade é o próprio Deus, que Se revela e permite conhecer o seu mistério de amor [18].
Por outro lado, não podemos esquecer que, no nosso contexto cultural, há muitas pessoas que, embora não reconhecendo em si mesmas o dom da fé, todavia vivem uma busca sincera do sentido último e da verdade definitiva acerca da sua existência e do mundo. Esta busca é um verdadeiro «preâmbulo» da fé, porque move as pessoas pela estrada que conduz ao mistério de Deus. De facto, a própria razão do ser humano traz inscrita em si mesma a exigência «daquilo que vale e permanece sempre» [19]. Esta exigência constitui um convite permanente, inscrito indelevelmente no coração humano, para caminhar ao encontro d’Aquele que não teríamos procurado se Ele mesmo não tivesse já vindo ao nosso encontro [20]. É precisamente a este encontro que nos convida e abre plenamente a fé.

[17] Catecismo da Igreja Católica, 167
[18] Cf. Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católica Dei Filius, cap. III: DS 3008-3009; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Revelação divina Dei Verbum, 5
[19] Bento XVI, Discurso no «Collège des Bernardins» (Paris, 12 de Setembro de 2008):AAS 100 (2008), 722
[20] Cf. Santo Agostinho, Confissões, 13, 1

A porta da fé [Carta Apostólica para o Ano da Fé - «Porta Fidei»]

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Aspetos que se podem sublinhar

  • A distinção entre o «ato de fé» e os conteúdos de fé. O ato de fé é a entrega total e livre de tudo o que somos a Deus. Mas ato de fé e conteúdos de fé não se podem separar.
  • O Papa vê refletida esta união no texto de Paulo: «Acredita-se com o coração e, com a boca, faz-se a profissão de fé» (Romanos 10, 10). E vê-o confirmado no exemplo de Lídia: «O Senhor abriu-lhe o coração para aderir ao que Paulo dizia» (Atos 16, 14). Os conteúdos das verdades não é suficiente, se o coração não está aberto à graça. A fé não se resume a palavras «crentes»; precisa também de um «coração crente».
  • A «profissão com a boca» indica também que a fé implica um testemunho e um compromisso públicos. Contra a tendência da «privatização» da fé: o cristão não pode pensar que acreditar é um ato privado. A fé tem necessariamente repercussões na vida pública.
  • Por ser um ato da liberdade, a fé exige também uma responsabilidade social daquilo em que se acredita.
  • É o dom do Espírito Santo que capacita para a missão e fortalece o nosso testemunho tornando-o franco e corajoso.
  • A própria profissão de fé é, ao mesmo tempo, um ato pessoal e comunitário. O primeiro sujeito da fé é a Igreja. Na fé da comunidade, recebemos o batismo, entrando assim na comunidade dos que acreditam. Por isso, dizemos «creio» e «cremos».
  • Em que é que acreditamos? Na fé da Igreja. Daí a importância de conhecer os conteúdos da fé. Porque não acreditamos por conta própria, mas com e na fé da Igreja. O conhecimento da fé não é parcial (escolho o que me interessa), mas por ele somos introduzidos na totalidade do mistério salvador de Deus. Ao crer, aceitamos livremente a totalidade do mistério da fé.
  • É preciso olhar com simpatia e proximidade para as muitas pessoas que não reconhecem dentro de si e para si o dom da fé, mas procuram com sinceridade o sentido último e a verdade definitiva da sua existência e do mundo. Esta procura é um verdadeiro «preâmbulo da fé», como uma «sala de espera», porque leva as pessoas ao caminho que conduz ao mistério de Deus.

Interiorizando

  • Examino se confundo a minha fé com o facto de «saber muitas coisas», mas sem me preocupar que essas coisas desçam ao meu coração. Pode-se saber muita teologia (ter muitos conhecimentos sobre Deus), mas não viver uma vida teologal (de acordo com a fé que se professa, na entrega generosa a Deus).

  • Examino se penso que a fé é um assunto puramente privado, que não deve ter nenhum tipo de reflexo nos aspetos sociais da minha vida (família, trabalho, política, economia...). Esta maneira de pensar, que se chama «privatização da fé», entra tão facilmente em nós que acabamos por pensar que a fé nos serve apenas para «arrumar» os nossos assuntos com Deus. E nada mais!

  • Examino se me apercebo de que uma verdadeira «confissão de fé» é profundamente missionária. Não acredito «sozinho», mas acredito, pessoalmente, «na comunidade». «Esta é a nossa fé. Está é a fé da Igreja»... acredito nisto? Ou ando por aí inventando verdades que não correspondem à fé da Igreja de quem sou membro? Parece mentira, mas é muito fácil «inventar verdades» (sobretudo, aqueles que se dedicam à pregação), porque «as pessoas gostam».

  • Examino se dou importância aos conteúdos da fé, que não são os meus conteúdos, mas os conteúdos da fé da Igreja. Às vezes, não apresentamos os conteúdos da fé eclesial, mas fazemos as pessoas acreditar em coisas que não pertencem à fé da Igreja (muita gente confunde isso com «ser mais crente»).

  • Examino se, a partir da minha fé, estou próximo daqueles que, embora não sendo crentes, procuram com sinceridade o sentido da vida... Às vezes, ficamos fechados e não abrimos o coração a quem sinceramente procura Deus, embora não o saiba... Não serve dizer: só os católicos é que me interessam. Uma atitude pouco missionária!

© Pedro Jaramillo
© Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

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Bento XVI, Carta Apostólica «A porta da fé»
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 17.10.13 | Sem comentários

A porta da fé [4]


Estamos a doze semanas de concluir o Ano da Fé, que se iniciou em outubro de 2012 e terminará em novembro de 2013. Semanalmente, apresentamos um número da Carta Apostólica do papa Bento XVI com a qual proclamou o Ano da Fé — «A porta da fé» («Porta Fidei»). E juntamos uma proposta de reflexão elaborada por Pedro Jaramillo. O objetivo é dar um contributo para uma avaliação mais cuidada sobre a forma como estamos a viver o Ano da Fé. Bom proveito!

À luz de tudo isto, decidi proclamar um Ano da Fé. Este terá início a 11 de Outubro de 2012, no cinquentenário da abertura do II Concílio do Vaticano, e terminará na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, a 24 de Novembro de 2013. Na referida data de 11 de Outubro de 2012, completar-se-ão também vinte anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica, texto promulgado pelo meu Predecessor, o Beato Papa João Paulo II [3], com o objectivo de ilustrar a todos os fiéis a força e a beleza da fé. Esta obra, verdadeiro fruto do Concílio Vaticano II, foi desejada pelo Sínodo Extraordinário dos Bispos de 1985 como instrumento ao serviço da catequese [4] e foi realizado com a colaboração de todo o episcopado da Igreja Católica. E uma Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos foi convocada por mim, precisamente para o mês de Outubro de 2012, tendo por tema «A nova evangelização para a transmissão da fé cristã». Será uma ocasião propícia para introduzir o complexo eclesial inteiro num tempo de particular reflexão e redescoberta da fé. Não é a primeira vez que a Igreja é chamada a celebrar um Ano da Fé. O meu venerado Predecessor, o Servo de Deus Paulo VI, proclamou um ano semelhante, em 1967, para comemorar o martírio dos apóstolos Pedro e Paulo no décimo nono centenário do seu supremo testemunho. Idealizou-o como um momento solene, para que houvesse, em toda a Igreja, «uma autêntica e sincera profissão da mesma fé»; quis ainda que esta fosse confirmada de maneira «individual e coletiva, livre e consciente, interior e exterior, humilde e franca» [5]. Pensava que a Igreja poderia assim retomar «exata consciência da sua fé para a reavivar, purificar, confirmar, confessar» [6]. As grandes convulsões, que se verificaram naquele Ano, tornaram ainda mais evidente a necessidade duma tal celebração. Esta terminou com a Profissão de Fé do Povo de Deus [7], para atestar como os conteúdos essenciais, que há séculos constituem o património de todos os crentes, necessitam de ser confirmados, compreendidos e aprofundados de maneira sempre nova para se dar testemunho coerente deles em condições históricas diversas das do passado.

[3] Cf. João Paulo II, Const. ap. Fidei depositum (11 de Outubro de 1992): AAS 86 (1994), 113-118
[4] Cf. Relação final do Sínodo Extraordinário dos Bispos (7 de Dezembro de 1985), II, B, a, 4: L’Osservatore Romano (ed. port. de 22/XII/1985), 650
[5] Paulo VI, Exort. ap. Petrum et Paulum Apostolos, no XIX centenário do martírio dos Apóstolos São Pedro e São Paulo (22 de Fevereiro de 1967): AAS 59 (1967), 196
[6] Ibid.: o.c., 198
[7] Paulo VI, Profissão Solene de Fé, Homilia durante a Concelebração por ocasião do XIX centenário do martírio dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, no encerramento do «Ano da Fé» (30 de Junho de 1968): AAS 60 (1968), 433-445

A porta da fé [Carta Apostólica para o Ano da Fé - «Porta Fidei»]

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Aspetos que se podem sublinhar

  • Os dois acontecimentos que influenciaram Bento XVI a declarar este Ano da Fé foram os 50 anos da inauguração do II Concílio do Vaticano e os 20 anos do Catecismo da Igreja Católica. No mesmo contexto, surgiu a convocação do Sínodo dos Bispos sobre «a nova evangelização para a transmissão da fé cristã». A recordação de acontecimentos passados não é só para «que não sejam esquecidos», mas para voltar a retomá-los com o mesmo espírito e convicção com que nasceram.
  • A finalidade é introduzir toda a Igreja num tempo especial de reflexão e redescoberta da fé. Uma fé não refletida torna-se numa fé infantilizada; uma fé não redescoberta torna-se numa fé não atualizada. 
  • Não é o primeiro Ano da Fé convocado na Igreja: Paulo VI já tinha convocado um, no ano de 1967.
  • Esse Ano da Fé foi concluído com uma profissão de fé do Povo de Deus, para testemunhar que os conteúdos essenciais da fé têm necessidade de: ser reafirmados; ser compreendidos; ser aprofundados de maneira sempre nova; com a finalidade de dar um testemunho coerente em condições históricas distintas do passado. Necessidade de uma «fidelidade criativa».
  • Recordamos, também, a reflexão de Paulo VI: «Na mensagem que a Igreja anuncia, há certamente muitos elementos secundários. A sua apresentação depende, em larga escala, das circunstâncias mutáveis. Também eles mudam. Entretanto, permanece sempre o conteúdo essencial, a substância viva, que não se poderia modificar nem deixar em silêncio sem desnaturar gravemente a própria evangelização» (Exortação Apostólica sobre a evangelização no mundo contemporâneo — «Evangelli Nuntiandi», 25).

Interiorizando

  • A minha fé tem necessidade de ser refletida (tenho que saber dar «razões da minha esperança») e ser descoberta de novo (pode estar adormecida ou infantilizada ou ser uma nostalgia do passado...). Não me posso ficar pelo que aprendi na primeira comunhão, não posso ter a minha fé «armazenada», como «em conserva»: preciso de uma fé ativa e viva.

  • Para ter uma «fidelidade criativa», preciso de: ter uma visão clara d'Aquele a quem tenho de ser fiel e daquilo a que tenho de ser fiel (a formação na fé é uma das grandes carências da nossa situação religiosa); ter a criatividade suficiente não para «inventar» novas verdades, mas para apresentar as verdades de sempre de uma maneira diferente (as novas linguagens, o «novo ardor, novo fervor, novos modos de expressão» de que falava João Paulo II para nos dizer o que é a «nova evangelização»: não é um «novo evangelho»; é uma «nova forma» de apresentá-lo ao nosso mundo de hoje). 

© Pedro Jaramillo
© Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

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Bento XVI, Carta Apostólica «A porta da fé»
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 5.9.13 | Sem comentários

A porta da fé [3]


Estamos a treze semanas de concluir o Ano da Fé, que se iniciou em outubro de 2012 e terminará em novembro de 2013. Semanalmente, apresentamos um número da Carta Apostólica do papa Bento XVI com a qual proclamou o Ano da Fé — «A porta da fé» («Porta Fidei»). E juntamos uma proposta de reflexão elaborada por Pedro Jaramillo. O objetivo é dar um contributo para uma avaliação mais cuidada sobre a forma como estamos a viver o Ano da Fé. Bom proveito!

Não podemos aceitar que o sal se torne insípido e a luz fique escondida (cf. Mateus 5, 13-16). Também o ser humano contemporâneo pode sentir de novo a necessidade de ir como a samaritana ao poço, para ouvir Jesus que convida a crer n’Ele e a beber na sua fonte, donde jorra água viva (cf. João 4, 14). Devemos readquirir o gosto de nos alimentarmos da Palavra de Deus, transmitida fielmente pela Igreja, e do Pão da vida, oferecidos como sustento de quantos são seus discípulos (cf. João 6, 51). De facto, nos nossos dias ressoa ainda, com a mesma força, este ensinamento de Jesus: «Trabalhai, não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida eterna» (João 6, 27). E a questão, então posta por aqueles que O escutavam, é a mesma que colocamos nós também hoje: «Que havemos nós de fazer para realizar as obras de Deus?» (João 6, 28). Conhecemos a resposta de Jesus: «A obra de Deus é esta: acreditar n’Aquele que Ele enviou» (João 6, 29). Por isso, acreditar em Jesus Cristo é o caminho para se poder chegar definitivamente à salvação.

A porta da fé [Carta Apostólica para o Ano da Fé - «Porta Fidei»]

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Aspetos que se podem sublinhar

  • A força testemunhal das imagens de Jesus: o sal e a luz. São duas imagens missionárias e muito estimulantes. Se o sal perde o sabor, já o sabemos: a comida fica insossa; se a luz se apaga, vivemos nas trevas. A nossa fé tem que «dar ao mundo o sabor de Cristo» e tem que ser uma verdadeira iluminação de toda a da nossa vida. As curas dos cegos por parte de Jesus ensinam-nos que é necessária a «iluminação» de toda a nossa vida. Não podem existir «espaços escuros», de costas voltadas para o Evangelho.
  • A necessidade de responder com a evangelização aos desejos mais íntimos e mais profundos das pessoas. A evangelização, quando é verdadeira, não é um «acrescento» externo, como quem tem um guarda-sol que usa ou não conforme convém. A evangelização tem de tocar os problemas e aspirações mais íntimos da pessoa. Diz Paulo VI, na Exortação Apostólica sobre a evangelização no mundo contemporâneo — «Evangelii Nuntiandi»: a evangelização tem de «chegar a atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade» (19). E acrescenta: «importa evangelizar, não de maneira decorativa, como que aplicando um verniz superficial, mas de maneira vital, em profundidade e isto até às suas raízes, a civilização e as culturas humanas» (20).
  • Os dois grandes alimentos da vida do crente: a Palavra e a Eucaristia. A «mesa da Palavra» e a «mesa da Eucaristia» estão sempre presentes na celebração da Missa. Contudo, muitas vezes, acontece que somos ouvintes «esquecidos». Expressa-o muito bem a Carta de São Tiago: «Quem se contenta com ouvir a palavra, sem a pôr em prática, assemelha-se a alguém que contempla a sua fisionomia num espelho; mal acaba de se contemplar, sai dali e esquece-se de como era» (1, 23-24). E a Eucaristia tem de ser celebrada com autenticidade, não como uma simples obrigação. Escutamos São Paulo: «todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do corpo e do sangue do Senhor. [...] Aquele que come e bebe, sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a própria condenação» (1Coríntos 11, 27-29).
  • A Eucaristia como «impulso para a missão» («trabalhai pelo alimento que perdura»). O impulso missionário da Eucaristia está muito bem expresso no evangelho segundo João como dádiva para a vida do mundo: «O pão que eu hei de dar pela vida do mundo é a minha carne» (João 6, 51).

Interiorizando

  • Examino se, com o meu testemunho, estou a ser sal e luz. Ou tenho a fé tão apagada que nem salga nem alumia...  quase como se não a tivesse. Afinal, em nada se nota o facto de ser crente. Sou como as outras pessoas, até mesmo como as não crentes, na minha maneira de pensar, nos meus juízos, nos interesses que movem a minha vida...

  • Examino se a minha fé chega a tudo o que sou e faço, de tal maneira que desperta nos outros o desejo de, pelo mesmo caminho, encontrar resposta para as interrogações humanas que são comuns a todos. Para isso, tenho que estar muito próximo das pessoas. Não partilho a minha fé com os anjos, mas com as pessoas que são companheiras no caminho da vida. 

  • Examino a minha relação com a Palavra e a Eucaristia: rotina, convicção, fazer por fazer, escutar por escutar, encontro real, «cumplicidade com o Senhor»... Não podemos ficar com a afirmação: «temos a Palavra e a Eucaristia». Temos de perguntar: o que significa, nas nossas vidas, escutar a Palavra e celebrar a Eucaristia? São realidades transformadoras ou ficamos sempre na mesma como estávamos?

© Pedro Jaramillo
© Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

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Bento XVI, Carta Apostólica «A porta da fé»
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.8.13 | Sem comentários

A porta da fé [2]


Estamos a catorze semanas de concluir o Ano da Fé, que se iniciou em outubro de 2012 e terminará em novembro de 2013. Semanalmente, apresentamos um número da Carta Apostólica do papa Bento XVI com a qual proclamou o Ano da Fé — «A porta da fé» («Porta Fidei»). E juntamos uma proposta de reflexão elaborada por Pedro Jaramillo. O objetivo é dar um contributo para uma avaliação mais cuidada sobre a forma como estamos a viver o Ano da Fé. Bom proveito!

Desde o princípio do meu ministério como Sucessor de Pedro, lembrei a necessidade de redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo. Durante a homilia da Santa Missa no início do pontificado, disse: «A Igreja no seu conjunto, e os Pastores nela, como Cristo devem pôr-se a caminho para conduzir os homens fora do deserto, para lugares da vida, da amizade com o Filho de Deus, para Aquele que dá a vida, a vida em plenitude» [1]. Sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária. Ora um tal pressuposto não só deixou de existir, mas frequentemente acaba até negado [2]. Enquanto, no passado, era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes sectores da sociedade devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas.

[1] Homilia no início do ministério petrino do Bispo de Roma (24 de Abril de 2005): AAS97 (2005), 710
[2] Cf. Bento XVI, Homilia da Santa Missa no Terreiro do Paço (Lisboa – 11 de Maio de 2010): L’Osservatore Romano (ed. port. de 15/V/2010), 3


A porta da fé [Carta Apostólica para o Ano da Fé - «Porta Fidei»]

  • A porta da fé — números publicados no Laboratório da fé > > >



Aspetos que se podem sublinhar

  • Caminho da fé e encontro vivo com Cristo. A meta do ato de fé é o nosso encontro pessoal com Jesus Cristo. Sem este encontro, não passamos de batizados a discípulos.
  • Um caminho salvador: «conduzir os homens [para] fora do deserto, para lugares da vida». Bento XVI gosta muito de falar dos «desertos» pessoais. São aquelas zonas da nossa vida que ainda não foram «fecundadas pela graça». Examino os meus «desertos pessoais».
  • Não dar como suposto, sem o explicitar, que a fé é a fonte de todos os compromissos crentes. Temos de nos comprometer com a vida? SIM. E o mais maravilhoso é que a raiz desse compromisso é a nossa própria fé. Não temos que pedir emprestadas outras motivações. É a mesma fé que temos que nos leva ao compromisso.
  • A crise de fé manifesta-se, especialmente, na falta de evangelização da cultura e das culturas. Quando conseguimos evangelizar as culturas (fazer que sejam mais conformes ao Evangelho) é muito mais fácil «respirar» a fé. Quando as culturas perdem a inspiração evangélica, muitas vezes temos de «nadar contra a corrente».

Interiorizando

  • Examinamos se a fé já desceu da cabeça ao coração e é «geradora de vida». Não é suficiente «saber» os conteúdos da fé. A fé tem de descer ao coração para, a partir dele, influenciar os meus comportamentos.

  • Examinamos se a fé nos converte em «espaço de vida», para onde podemos convidar aqueles que andam pelos «desertos da morte». A fé faz-nos crescer, amadurecer e viver em plenitude. É como a semente: nasce, cresce, faz dos nossos campos «espaços de vida». Que diferença quando há seca! Tudo parece um deserto.

  • Examinamos se a fé está na fonte dos nossos compromissos de vida. Temos que nos dedicar aos compromissos familiares e sociais. Mas, para um crente, a raiz desse compromisso é a fé. Com mais fé, mais compromisso.

  • Examinamos se a nossa ação evangelizadora é individualista (interessa-nos apenas «salvar almas») ou procura chegar à evangelização das culturas. O que temos de mudar pessoal e pastoralmente, para que seja assim? Para poder «salvar pessoas» temos que «salvar» as situações em que essas pessoas vivem. Já dizia São Tomás: «não se podem evangelizar estômagos vazios».

© Pedro Jaramillo
© Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

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Bento XVI, Carta Apostólica «A porta da fé»
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.8.13 | Sem comentários

Carta encíclica sobre a fé [7]


Estas considerações sobre a fé — em continuidade com tudo o que o magistério da Igreja pronunciou acerca desta virtude teologal [7] — pretendem juntar-se a tudo aquilo que Bento XVI escreveu nas cartas encíclicas sobre a caridade e a esperança. Ele já tinha quase concluído um primeiro esboço desta carta encíclica sobre a fé. Estou-lhe profundamente agradecido e, na fraternidade de Cristo, assumo o seu precioso trabalho, limitando-me a acrescentar ao texto qualquer nova contribuição. De facto, o Sucessor de Pedro, ontem, hoje e amanhã, sempre está chamado a «confirmar os irmãos» no tesouro incomensurável da fé que Deus dá a cada ser humano como luz para o seu caminho.
Na fé, dom de Deus e virtude sobrenatural por Ele infundida, reconhecemos que um grande Amor nos foi oferecido, que uma Palavra estupenda nos foi dirigida: acolhendo esta Palavra que é Jesus Cristo — Palavra encarnada –, o Espírito Santo transforma-nos, ilumina o caminho do futuro e faz crescer em nós as asas da esperança para o percorrermos com alegria. Fé, esperança e caridade constituem, numa interligação admirável, o dinamismo da vida cristã rumo à plena comunhão com Deus. Mas, como é este caminho que a fé desvenda diante de nós? Donde provém a sua luz, tão poderosa que permite iluminar o caminho duma vida bem sucedida e fecunda, cheia de fruto?

[7] Cf., por exemplo, Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católica Dei Filius, III: DS 3008-3020; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a divina Revelação Dei Verbum, 5; Catecismo da Igreja Católica, 153-165

A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»]
A luz da fé [Carta Encíclica sobre a fé - «Lumen Fidei»] — pdf

  • A luz da fé — números publicados no Laboratório da fé > > >



Refletir... saborear

  • Este documento foi escrito a «quatro mãos»: Bento XVI e Francisco
  • Dá continuidade às reflexões de Bento XVI sobre a esperança e a caridade, as outras virtudes teologais, juntamente com a fé: constituem «o dinamismo da vida cristã, rumo à plena comunhão com Deus»
  • A fé é o reconhecimento do Amor que nos é oferecido
  • A fé é o reconhecimento da Palavra que nos é dirigida: Jesus Cristo
  • A fé é o acolhimento dessa Palavra que, pelo Espírito Santo, transforma, ilumina, faz crescer a esperança para percorrer o caminho com alegria
  • Conheço os dois documentos de Bento XVI sobre a caridade e a esperança?
  • O que entendo por virtudes teologais (fé, esperança e caridade)?
© Laboratório da fé, 2013

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Papa Francisco, Carta Encíclica sobre a fé (Lumen Fidei — A luz da fé)
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.8.13 | Sem comentários

A porta da fé [1]


Estamos a quinze semanas de concluir o Ano da Fé, que se iniciou em outubro de 2012 e terminará em novembro de 2013. Semanalmente, apresentamos um número da Carta Apostólica do papa Bento XVI com a qual proclamou o Ano da Fé — «A porta da fé» («Porta Fidei»). E juntamos uma proposta de reflexão elaborada por Pedro Jaramillo. O objetivo é dar um contributo para uma avaliação mais cuidada sobre a forma como estamos a viver o Ano da Fé. Bom proveito!

A PORTA DA FÉ (cf. Atos 14, 27), que introduz na vida de comunhão com Deus e permite a entrada na sua Igreja, está sempre aberta para nós. É possível cruzar este limiar, quando a Palavra de Deus é anunciada e o coração se deixa plasmar pela graça que transforma. Atravessar esta porta implica embrenhar-se num caminho que dura a vida inteira. Este caminho tem início no Batismo (cf. Romanos 6, 4), pelo qual podemos dirigir-nos a Deus com o nome de Pai, e está concluído com a passagem através da morte para a vida eterna, fruto da ressurreição do Senhor Jesus, que, com o dom do Espírito Santo, quis fazer participantes da sua própria glória quantos crêem n’Ele (cf. João 17, 22). Professar a fé na Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo – equivale a crer num só Deus que é Amor (cf. 1 João 4, 8): o Pai, que na plenitude dos tempos enviou seu Filho para a nossa salvação; Jesus Cristo, que redimiu o mundo no mistério da sua morte e ressurreição; o Espírito Santo, que guia a Igreja através dos séculos enquanto aguarda o regresso glorioso do Senhor.

A porta da fé [Carta Apostólica para o Ano da Fé - «Porta Fidei»]

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Aspetos que se podem sublinhar

  • A fé é como uma porta, que está sempre aberta para entrarmos por ela na vida
  • Como cruzamos essa porta para entrar na vida? Pela Palavra de Deus e pela Graça.
  • Onde nos conduz a «porta da fé»? Abre-nos à entrada de um «caminho», que começa com o batismo, termina com a ressurreição e introduz-nos no mistério amoroso de Deus: o Pai que nos envia o seu Filho por amor; o Filho que nos salva com a sua entrega; o Espírito Santo que nos guia, como Igreja, até que o Senhor volte.

Interiorizando

  • Examinamos se realmente já entramos pela porta da fé ou ainda estamos sem tomar uma decisão. Pode ser que nos digamos crentes, mas não tenhamos fé. Parece impossível? É! Mas acontece quando ficamos em cumprimentos de coisas externas e não chegamos a «gozar» de uma adesão pessoal a Jesus Cristo.

  • Examinamos se a fé nos abre para um caminho a percorrer ou pensamos que já nos colocou na meta e não precisamos de progredir. Esse é, muitas vezes, o nosso «pecado», porque pensamos que já somos «muito crentes» e não pedimos ao Senhos que aumenta a nossa fé: «Creio, Senhor, mas aumenta a minha fé» (Marcos 9, 24).

  • Examinamos se a meta — a vida dentro do mistério de Deus Trino — nos «atrai» realmente ou fica fora dos nossos «projetos de vida», como algo que em nada nos influencia. Pela fé, participamos na própria vida de Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo. Recordamos as palavras de Jesus: «se alguém me ama, viremos a ele e faremos nele a nossa morada» (João 14, 23).

© Pedro Jaramillo
© Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

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Bento XVI, Carta Apostólica «A porta da fé»
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.8.13 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: décimo sétimo domingo

28 DE JULHO DE 2013

Bento XVI, «Jesus de Nazaré», A Esfera dos Livros, 2007, 177-179


O «Pai Nosso» no evangelho segundo Lucas aparece no contexto do caminho de Jesus para Jerusalém. Lucas introduz a oração do Senhor com a seguinte anotação: «Sucedeu que, estando Ele algures a orar, disse-Lhe, quando acabou, um dos Seus discípulos: 'Senhor, ensina-nos a orar'» (11, 1). Assim, o contexto é o encontro com a ato de orar de Jesus, que desperta nos discípulos o desejo de aprenderem com Ele a rezar. Trata-se de um elemento característico de Lucas, que reserva à oração de Jesus um lugar particularmente relevante no seu evangelho. O conjunto da atividade de Jesus brota da sua oração, é sustentado por ela. Assim, factos essenciais do seu caminho, nos quais progressivamente se revela o seu mistério, aparecem como acontecimentos de oração. A confissão que Pedro faz de Jesus como o Santo de Deus está ligada a um encontro com Jesus orante (Lucas 9, 19s); a transfiguração de Jesus é um acontecimento de oração (Lucas 9, 28s). Por isso, é significativo que Lucas coloque o «Pai Nosso» em relação com a oração pessoal de Jesus. Desta maneira, Ele torna-nos participantes do seu rezar, introduz-nos no diálogo interior do Amor trinitário, eleva por assim dizer as nossas necessidades humanas até ao coração de Deus. Mas isto significa também que as palavras do «Pai Nosso» indicam o caminho para a oração interior, representam orientações fundamentais para a nossa existência, querem conformar-nos à imagem do Filho. O significado do Pai Nosso ultrapassa a mera comunicação de palavras de oração; quer formar o nosso ser, quer exercitar-nos nos sentimentos de Jesus (Filipenses 2, 5). Para a interpretação do «Pai Nosso», isto encerra um duplo significado. Em primeiro lugar, é muito importante escutar com a maior fidelidade possível a palavra de Jesus, tal como a Escritura no-la transmite. Devemos procurar reconhecer, verdadeiramente e o melhor que pudermos, os pensamentos de Jesus que Ele nos queria transmitir com estas palavras. Em segundo lugar, devemos ter presente também que o «Pai Nosso» provém da sua oração pessoal, do diálogo do Filho com o Pai. Isso quer dizer que o mesmo alcança uma profundidade tal que está para além das palavras. Abrange toda a extensão da existência humana de todos os tempos e, portanto, não se pode sondar com uma interpretação meramente histórica, por mais importante que seja. Os grandes orantes de todos os séculos, através da sua íntima união com o Senhor, puderam mergulhar nas profundezas que estão para além da palavra, conseguindo assim desvendar ainda mais a riqueza escondida da oração. E cada um de nós, com a sua relação absolutamente pessoal com Deus, pode encontrar-se acolhido e guardado nesta oração. Incessantemente deve com a sua «mens» — com o próprio espírito — ir ao encontro da «vox», da palavra que nos vem do Filho, deve abrir-se a ela e deixar-se conduzir por ela. Assim abrir-se-nos-á também o coração do Senhor, dando a conhecer a vontade que Ele tem de rezar precisamente com cada um.



  • Reflexão diária a partir do evangelho > > >
  • É de vida partilhada que as nossas vidas se alimentam > > >
  • O Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem > > >
  • O pão nosso de cada dia nos dai hoje [1] > > >
  • O pão nosso de cada dia nos dai hoje [2] > > >
  • Lucas 11, 1-13 — notas exegéticas > > >



Preparar o décimo sétimo domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.7.13 | Sem comentários

Jornada Mundial da Juventude


Entre os dias 23 e 28 de julho de 2013, realiza-se, no Rio de Janeiro, Brasil, a XXVIII Jornada Mundial da Juventude, sob o tema: «Ide e fazei discípulos entre todas as nações». O papa Bento XVI escreveu uma mensagem de preparação para este encontro mundial de jovens, onde destaca a importância da evangelização feita pelos jovens aos outros jovens. Para concretizar este apelo urgente à evangelização, refere a necessidade primeira do encontro pessoal com Jesus Cristo.

Queridos jovens,
[...] A conhecida estátua do Cristo Redentor, que se eleva sobre aquela bela cidade brasileira, será o símbolo eloquente deste convite: os seus braços abertos são o sinal do acolhimento que o Senhor reservará a todos quantos vierem até Ele, e o seu coração retrata o imenso amor que Ele tem por cada um e cada uma de vós. Deixai-vos atrair por Ele! Deixai-vos amar por Ele e sereis as testemunhas de que o mundo precisa.
«Ide e fazei discípulos entre todas as nações» (cf. Mateus 28, 19). Trata-se da grande exortação missionária que Cristo deixou para toda a Igreja e que permanece atual ainda hoje, dois mil anos depois. Agora este mandato deve ressoar fortemente no vosso coração. [...]

1. Um apelo urgente

A história mostra-nos muitos jovens que, através do dom generoso de si mesmos, contribuíram grandemente para o Reino de Deus e para o desenvolvimento deste mundo, anunciando o Evangelho. Com grande entusiasmo, levaram a Boa Nova do Amor de Deus manifestado em Cristo, com meios e possibilidades muito inferiores àqueles de que dispomos hoje em dia. Penso, por exemplo, no Beato José de Anchieta, jovem jesuíta espanhol do século XVI, que partiu em missão para o Brasil quando tinha menos de vinte anos e se tornou um grande apóstolo do Novo Mundo. [...]
Hoje, não poucos jovens duvidam profundamente que a vida seja um bem, e não veem com clareza o próprio caminho. De um modo geral, diante das dificuldades do mundo contemporâneo, muitos se perguntam: E eu, que posso fazer? A luz da fé ilumina esta escuridão, fazendo-nos compreender que toda existência tem um valor inestimável, porque é fruto do amor de Deus. Ele ama mesmo quem se distanciou ou esqueceu d’Ele: tem paciência e espera; mais que isso, deu o seu Filho, morto e ressuscitado, para nos libertar radicalmente do mal. E Cristo enviou os seus discípulos para levar a todos os povos este alegre anúncio de salvação e de vida nova.
A Igreja, para continuar esta missão de evangelização, conta também convosco. Queridos jovens, vós sois os primeiros missionários no meio dos jovens da vossa idade! No final do II Concílio Ecuménico do Vaticano, cujo cinquentenário celebramos neste ano, o Servo de Deus Paulo VI entregou aos jovens e às jovens do mundo inteiro uma Mensagem que começava com estas palavras: «É a vós, rapazes e raparigas de todo o mundo, que o Concílio quer dirigir a sua última mensagem, pois sereis vós a recolher o facho das mãos dos vossos antepassados e a viver no mundo no momento das mais gigantescas transformações da sua história, sois vós quem, recolhendo o melhor do exemplo e do ensinamento dos vossos pais e mestres, ides constituir a sociedade de amanhã: salvar-vos-eis ou perecereis com ela». E concluía com um apelo: «Construí com entusiasmo um mundo melhor que o dos vossos antepassados!» (Mensagem aos jovens, 8 de dezembro de 1965).
Queridos amigos, este convite é extremamente atual. Estamos a passar por um período histórico muito particular: o progresso técnico deu-nos oportunidades inéditas de interação entre os seres humanos e entre os povos, mas a globalização destas relações só será positiva e fará crescer o mundo em humanidade se estiver fundada não sobre o materialismo mas sobre o amor, a única realidade capaz de encher o coração de cada um e unir as pessoas. Deus é amor. O ser humano que esquece Deus fica sem esperança e torna-se incapaz de amar o seu semelhante. Por isso, é urgente testemunhar a presença de Deus para que todos possam experimentá-la: está em jogo a salvação da humanidade, a salvação de cada um de nós. Qualquer pessoa que entenda essa necessidade, não poderá deixar de exclamar com São Paulo: «Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho» (1Coríntios 9, 16).

2. Tornai-vos discípulos de Cristo

Este apelo missionário é dirigido a vós também por outro motivo: é necessário para o nosso caminho de fé pessoal. O Beato João Paulo II escrevia: «É dando a fé que ela se fortalece» (Encíclica Redemptoris missio, 2). Ao anunciar o Evangelho, vós mesmos cresceis num enraizamento cada vez mais profundo em Cristo, tornais-vos cristãos maduros. O compromisso missionário é uma dimensão essencial da fé: não se crê verdadeiramente, se não se evangeliza. E o anúncio do Evangelho não pode ser senão consequência da alegria de ter encontrado Cristo e ter descoberto n’Ele a rocha sobre a qual construir a própria existência. Comprometendo-vos no serviço aos outros e no anúncio do Evangelho, a vossa vida, muitas vezes fragmentada entre tantas atividades diversas, encontrará no Senhor a sua unidade; construir-vos-eis também a vós mesmos; crescereis e amadurecereis em humanidade.
Mas, que significa ser missionário? Significa acima de tudo ser discípulo de Cristo e ouvir sem cessar o convite a segui-Lo, o convite a fixar o olhar n’Ele: «Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração» (Mateus 11, 29). O discípulo, de facto, é uma pessoa que se põe à escuta da Palavra de Jesus (cf. Lucas 10, 39), a quem reconhece como o Mestre que nos amou até ao dom da sua vida. Trata-se, portanto, de cada um de vós deixar-se plasmar diariamente pela Palavra de Deus: ela vos transformará em amigos do Senhor Jesus, capazes de fazer outros jovens entrar nesta mesma amizade com Ele.
Aconselho-vos a guardar na memória os dons recebidos de Deus, para poder transmiti-los ao vosso redor. Aprendei a reler a vossa história pessoal, tomai consciência também do maravilhoso legado recebido das gerações que vos precederam: tantos cristãos que nos transmitiram a fé com coragem, enfrentando obstáculos e incompreensões. Nunca o esqueçamos! Fazemos parte de uma longa cadeia de homens e mulheres que nos transmitiram a verdade da fé e contam connosco para que outros a recebam. Ser missionário pressupõe o conhecimento deste património recebido que é a fé da Igreja: é necessário conhecer aquilo em que se crê, para podê-lo anunciar. Como escrevi na introdução doYouCat, o Catecismo para jovens que vos entreguei no Encontro Mundial de Madrid, «tendes de conhecer a vossa fé como um especialista em informática domina o sistema operacional de um computador. Tendes de compreendê-la como um bom músico entende uma partitura. Sim, tendes de estar enraizados na fé ainda mais profundamente que a geração dos vossos pais, para enfrentar os desafios e as tentações deste tempo com força e determinação» (Prefácio).

3. Ide!

Jesus enviou os seus discípulos em missão com este mandato: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura! Quem crer e for batizado será salvo» (Marcos 16, 15-16). Evangelizar significa levar aos outros a Boa Nova da salvação, e esta Boa Nova é uma pessoa: Jesus Cristo. Quando O encontro, quando descubro até que ponto sou amado por Deus e salvo por Ele, nasce em mim não apenas o desejo, mas a necessidade de fazê-lo conhecido pelos demais. No início do Evangelho de João, vemos como André, depois de ter encontrado Jesus, se apressa em conduzir a Ele o seu irmão Simão (cf. 1, 40-42). A evangelização parte sempre do encontro com o Senhor Jesus: quem se aproximou d’Ele e experimentou o seu amor, quer logo partilhar a beleza desse encontro e a alegria que nasce dessa amizade. Quanto mais conhecemos a Cristo, tanto mais queremos anunciá-lo. Quanto mais falamos com Ele, tanto mais queremos falar d’Ele. Quanto mais somos conquistados por Ele, tanto mais desejamos levar outras pessoas para Ele.
Pelo Batismo, que nos gera para a vida nova, o Espírito Santo vem habitar em nós e inflama a nossa mente e o nosso coração: é Ele que nos guia para conhecer a Deus e entrar em uma amizade sempre mais profunda com Cristo. É o Espírito que nos impulsiona a fazer o bem, servindo os outros com o dom de nós mesmos. Depois, através do sacramento da Confirmação, somos fortalecidos pelos seus dons, para testemunhar de modo sempre mais maduro o Evangelho. Assim, o Espírito de amor é a alma da missão: Ele nos impele a sair de nós mesmos para «ir» e evangelizar. Queridos jovens, deixai-vos conduzir pela força do amor de Deus, deixai que este amor vença a tendência de fechar-se no próprio mundo, nos próprios problemas, nos próprios hábitos; tende a coragem de «sair» de vós mesmos para «ir» ao encontro dos outros e guiá-los ao encontro de Deus.

4. Alcançai todos os povos

Cristo ressuscitado enviou os seus discípulos para dar testemunho de sua presença salvífica a todos os povos, porque Deus, no seu amor superabundante, quer que todos sejam salvos e ninguém se perca. Com o sacrifício de amor na Cruz, Jesus abriu o caminho para que todo o homem e toda a mulher possa conhecer a Deus e entrar em comunhão de amor com Ele. E constituiu uma comunidade de discípulos para levar o anúncio salvífico do Evangelho até os confins da terra, a fim de alcançar os homens e as mulheres de todos os lugares e de todos os tempos. Façamos nosso esse desejo de Deus!
Queridos amigos, estendei o olhar e vede ao vosso redor: tantos jovens perderam o sentido da sua existência. Ide! Cristo também precisa de vós. Deixai-vos envolver pelo seu amor, sede instrumentos desse amor imenso, para que alcance a todos, especialmente aos «afastados». Alguns encontram-se geograficamente distantes, enquanto outros estão longe porque a sua cultura não dá espaço para Deus; alguns ainda não acolheram o Evangelho pessoalmente, enquanto outros, apesar de o terem recebido, vivem como se Deus não existisse. A todos abramos a porta do nosso coração; procuremos entrar em diálogo com simplicidade e respeito: este diálogo, se vivido com uma amizade verdadeira, dará seus frutos. Os «povos», aos quais somos enviados, não são apenas os outros Países do mundo, mas também os diversos âmbitos de vida: as famílias, os bairros, os ambientes de estudo ou de trabalho, os grupos de amigos e os locais de lazer. O jubiloso anúncio do Evangelho destina-se a todos os âmbitos da nossa vida, sem exceção.
Gostaria de destacar dois campos, nos quais deve fazer-se ainda mais solícito o vosso empenho missionário. O primeiro é o das comunicações sociais, em particular o mundo da internet. Como tive já oportunidade de dizer-vos, queridos jovens, «senti-vos comprometidos a introduzir na cultura deste novo ambiente comunicador e informativo os valores sobre os quais assenta a vossa vida! [...] A vós, jovens, que vos encontrais quase espontaneamente em sintonia com estes novos meios de comunicação, compete de modo particular a tarefa da evangelização deste “continente digital”» (Mensagem para o XLIII Dia Mundial das Comunicações Sociais, 24 de maio de 2009). Aprendei, portanto, a usar com sabedoria este meio, levando em conta também os perigos que ele traz consigo, particularmente o risco da dependência, de confundir o mundo real com o virtual, de substituir o encontro e o diálogo direto com as pessoas por contatos na rede.
O segundo campo é o da mobilidade. Hoje são sempre mais numerosos os jovens que viajam, seja por motivos de estudo ou de trabalho, seja por diversão. Mas penso também em todos os movimentos migratórios, que levam milhões de pessoas, frequentemente jovens, a se transferir e mudar de Região ou País, por razões económicas ou sociais. Também estes fenómenos se podem tornar ocasiões providenciais para a difusão do Evangelho. Queridos jovens, não tenhais medo de testemunhar a vossa fé também nesses contextos: para aqueles com quem vos deparareis, é um dom precioso a comunicação da alegria do encontro com Cristo.

5. Fazei discípulos!

Penso que já várias vezes experimentastes a dificuldade de envolver os jovens da vossa idade na experiência da fé. Frequentemente tereis constatado que em muitos deles, especialmente em certas fases do caminho da vida, existe o desejo de conhecer a Cristo e viver os valores do Evangelho, mas tal desejo é acompanhado pela sensação de ser inadequados e incapazes. Que fazer? Em primeiro lugar, a vossa solicitude e a simplicidade do vosso testemunho serão um canal através do qual Deus poderá tocar o seu coração. O anúncio de Cristo não passa somente através das palavras, mas deve envolver toda a vida e traduzir-se em gestos de amor. A ação de evangelizar nasce do amor que Cristo infundiu em nós; por isso, o nosso amor deve conformar-se sempre mais ao d’Ele. Como o bom Samaritano, devemos manter-nos solidários com quem encontramos, sabendo escutar, compreender e ajudar, para conduzir, quem procura a verdade e o sentido da vida, à casa de Deus que é a Igreja, onde há esperança e salvação (cf. Lucas 10, 29-37). Queridos amigos, nunca esqueçais que o primeiro ato de amor que podeis fazer ao próximo é partilhar a fonte da nossa esperança: quem não dá Deus, dá muito pouco. Aos seus apóstolos, Jesus ordena: «Fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei» (Mateus 28, 19-20). Os meios que temos para «fazer discípulos» são principalmente o Batismo e a catequese. Isto significa que devemos conduzir as pessoas que estamos evangelizando ao encontro com Cristo vivo, particularmente na sua Palavra e nos Sacramentos: assim poderão crer n’Ele, conhecerão a Deus e viverão da sua graça. Gostaria que cada um de vós se perguntasse: Alguma vez tive a coragem de propor o Batismo a jovens que ainda não o receberam? Convidei alguém a seguir um caminho de descoberta da fé cristã? Queridos amigos, não tenhais medo de propor aos jovens da vossa idade o encontro com Cristo. Invocai o Espírito Santo: Ele vos guiará para entrardes sempre mais no conhecimento e no amor de Cristo, e vos tornará criativos na transmissão do Evangelho.

6. Firmes na fé

Diante das dificuldades na missão de evangelizar, às vezes sereis tentados a dizer como o profeta Jeremias: «Ah! Senhor Deus, eu não sei falar, sou muito novo». Mas, também a vós, Deus responde: «Não digas que és muito novo; a todos a quem eu te enviar, irás» (Jeremias 1, 6-7). Quando vos sentirdes inadequados, incapazes e frágeis para anunciar e testemunhar a fé, não tenhais medo. A evangelização não é uma iniciativa nossa nem depende primariamente dos nossos talentos, mas é uma resposta confiante e obediente à chamada de Deus, e portanto não se baseia sobre a nossa força, mas na d’Ele. Isso mesmo experimentou o apóstolo Paulo: «Trazemos esse tesouro em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós» (2Coríntios 4, 7).
Por isso convido-vos a enraizar-vos na oração e nos sacramentos. A evangelização autêntica nasce sempre da oração e é sustentada por esta: para poder falar de Deus, devemos primeiro falar com Deus. E, na oração, confiamos ao Senhor as pessoas às quais somos enviados, suplicando-Lhe que toque o seu coração; pedimos ao Espírito Santo que nos torne seus instrumentos para a salvação dessas pessoas; pedimos a Cristo que coloque as palavras nos nossos lábios e faça de nós sinais do seu amor. E, de modo mais geral, rezamos pela missão de toda a Igreja, de acordo com a ordem explícita de Jesus: «Pedi, pois, ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!» (Mateus 9, 38). Sabei encontrar na Eucaristia a fonte da vossa vida de fé e do vosso testemunho cristão, participando com fidelidade na Missa ao domingo e sempre que possível também durante a semana. Recorrei frequentemente ao sacramento da Reconciliação: é um encontro precioso com a misericórdia de Deus que nos acolhe, perdoa e renova os nossos corações na caridade. E, se ainda não o recebestes, não hesiteis em receber o sacramento da Confirmação ou Crisma preparando-vos com cuidado e solicitude. Juntamente com a Eucaristia, é o sacramento da missão, porque nos dá a força e o amor do Espírito Santo para professar sem medo a fé. Encorajo-vos ainda à prática da adoração eucarística: permanecer à escuta e em diálogo com Jesus presente no Santíssimo Sacramento, torna-se ponto de partida para um renovado impulso missionário.
Se seguirdes este caminho, o próprio Cristo vos dará a capacidade de ser plenamente fiéis à sua Palavra e de testemunhá-Lo com lealdade e coragem. Algumas vezes sereis chamados a dar provas de perseverança, particularmente quando a Palavra de Deus suscitar reservas ou oposições. Em certas regiões do mundo, alguns de vós sofrem por não poder testemunhar publicamente a fé em Cristo, por falta de liberdade religiosa. E há quem já tenha pagado com a vida o preço da própria pertença à Igreja. Encorajo-vos a permanecer firmes na fé, certos de que Cristo está ao vosso lado em todas as provas. Ele vos repete: «Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus» (Mateus 5, 11-12).

7. Com toda a Igreja

Queridos jovens, para permanecer firmes na confissão da fé cristã nos vários lugares onde sois enviados, precisais da Igreja. Ninguém pode ser testemunha do Evangelho sozinho. Jesus enviou em missão os seus discípulos juntos: o mandato «fazei discípulos» é formulado no plural. Assim, é sempre como membros da comunidade cristã que prestamos o nosso testemunho, e a nossa missão torna-se fecunda pela comunhão que vivemos na Igreja: seremos reconhecidos como discípulos de Cristo pela unidade e o amor que tivermos uns com os outros (cf. João 13, 35). Agradeço ao Senhor pela preciosa obra de evangelização que realizam as nossas comunidades cristãs, as nossas paróquias, os nossos movimentos eclesiais. Os frutos desta evangelização pertencem a toda a Igreja: «um é o que semeia e outro o que colhe», dizia Jesus (João 4, 37).
A propósito, não posso deixar de dar graças pelo grande dom dos missionários, que dedicam toda a sua vida ao anúncio do Evangelho até os confins da terra. Do mesmo modo bendigo o Senhor pelos sacerdotes e os consagrados, que ofertam inteiramente as suas vidas para que Jesus Cristo seja anunciado e amado. Desejo aqui encorajar os jovens chamados por Deus a alguma dessas vocações, para que se comprometam com entusiasmo: «Há mais alegria em dar do que em receber!» (Atos 20, 35). Àqueles que deixam tudo para segui-Lo, Jesus prometeu o cêntuplo e a vida eterna (cf. Mateus 19, 29).
Dou graças também por todos os fiéis leigos que se empenham por viver o seu dia-a-dia como missão, nos diversos lugares onde se encontram, tanto em família como no trabalho, para que Cristo seja amado e cresça o Reino de Deus. Penso particularmente em quantos atuam no campo da educação, da saúde, do mundo empresarial, da política e da economia, e em tantos outros âmbitos do apostolado dos leigos. Cristo precisa do vosso empenho e do vosso testemunho. Que nada – nem as dificuldades, nem as incompreensões – vos faça renunciar a levar o Evangelho de Cristo aos lugares onde vos encontrais: cada um de vós é precioso no grande mosaico da evangelização!

8. «Aqui estou, Senhor!»

Em suma, queridos jovens, queria-vos convidar a escutar no íntimo de vós mesmos o chamamento de Jesus para anunciar o seu Evangelho. Como mostra a grande estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, o seu coração está aberto para amar a todos sem distinção, e seus braços estendidos para alcançar a cada um. Sede vós o coração e os braços de Jesus. Ide testemunhar o seu amor, sede os novos missionários animados pelo seu amor e acolhimento. Segui o exemplo dos grandes missionários da Igreja, como São Francisco Xavier e muitos outros.
No final da Jornada Mundial da Juventude em Madrid, dei a bênção a alguns jovens de diferentes continentes que partiam em missão. Representavam a multidão de jovens que, fazendo eco às palavras do profeta Isaías, diziam ao Senhor: «Aqui estou! Envia-me» (Isaías 6, 8). A Igreja tem confiança em vós e vos está profundamente grata pela alegria e o dinamismo que trazeis: usai os vossos talentos generosamente ao serviço do anúncio do Evangelho. Sabemos que o Espírito Santo se dá a quantos, com humildade de coração, se tornam disponíveis para tal anúncio. E não tenhais medo! Jesus, Salvador do mundo, está connosco todos os dias, até o fim dos tempos (cf. Mateus 28, 20). [...]
A Virgem Maria, Estrela da Nova Evangelização, também invocada sob os títulos de Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora de Guadalupe, acompanhe cada um de vós na vossa missão de testemunhas do amor de Deus. A todos, com especial carinho, concedo a minha Bênção Apostólica.

Vaticano, 18 de outubro de 2012.
© Copyright 2012 - Libreria Editrice Vaticana

Jornada Mundial da Juventude, Rio de Janeiro, Brasil, 23 a 28 de julho de 2013


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.7.13 | Sem comentários
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