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— texto semanal publicado no «Diário do Minho» —

A reduplicação da divindade de Jesus Cristo expressa no «Credo» não acrescenta, apenas reforça a doutrina trinitária acerca de Deus. O que se proclama, de novo, é a natureza divina de Jesus Cristo por inteiro. Jesus Cristo é Deus a partir do próprio Deus: «Deus verdadeiro de Deus verdadeiro». [Para ajudar a compreender melhor, ler: 1João 2, 21-25; Catecismo da Igreja Católica, números — os mesmos do tema anterior — 249-256; 261-262] 

«Todo aquele que nega o Filho fica sem o Pai; aquele que confessa o Filho tem também o Pai» — este comentário da Primeira Carta de João revela as linhas essenciais da falsa doutrina defendida pelos «anticristos», como os classifica o autor da Carta. Esta heresia considerava impossível o mistério da Encarnação. Mas, para o autor da Carta, negar a divindade de Jesus significava não estar em comunhão com o Pai (Deus). Negar a identidade de Jesus Cristo (verdadeiro Deus e verdadeiro homem) significava ser «anticristo». Podemos depreender através de toda a Primeira Carta de João que se tratava de uma doutrina bastante difundida e com muita aceitação entre os cristãos. 


Deus verdadeiro de Deus verdadeiro. Esta reduplicação do «Credo» sugere de novo uma ligação profunda na Trindade de Deus; aqui, entre o Pai e o Filho (Jesus Cristo). «O essencial não é que Cristo tenha pregado uma verdade divina, mas que ele, real e fisicamente, é a própria verdade divina. Não é unicamente profeta e pregador, mas realidade fisicamente existente sobre a Terra. Ele é o próprio Deus. Com isso, o acesso a Deus não é simplesmente a aceitação de umas verdades pela via da transcendência. É algo mais profundo. É que a via mística da transcendência é ele» (Xavier Zubiri, «El problema filosófico de la historia de las religiones», Alianza Ed., Madrid, 1993, 329-330). 

Como já vimos em temas anteriores, foram várias as (falsas) doutrinas que puseram em causa a identidade divina e humana de Jesus Cristo. Agora, apresentamos mais uma falsa doutrina, uma «heresia» (doutrina ou linha de pensamento que é contrária ao ensino oficial). 

Gnosticismo. A doutrina gnóstica ultrapassa a dimensão cristã. É uma conceção religiosa muito antiga e que se infiltrou na Igreja gerando uma heresia com a qual já se defrontaram os Apóstolos e os primeiros cristãos, entre os quais podemos assinalar Santo Ireneu (130-200) na obra «Contra os Hereges». Existem diversas correntes de gnosticismo. Em geral, os adeptos desta doutrina (gnósticos) acreditam que existem dois deuses: um deus bom e outro mau. O mundo foi criado pelo deus mau. Por isso, para eles tudo o que é material tem de ser desprezado. O espiritual é o que interessa, porque é obra do deus bom. Para compreender a totalidade desta doutrina é necessário um aprofundamento maior. Aqui, situamo-nos apenas no âmbito da afirmação da divindade de Jesus Cristo. Ora, para os gnósticos, Jesus Cristo não é nem Deus nem humano. O deus bom enviou ao mundo o seu mensageiro, Jesus Cristo. Este seria uma espécie de «avatar» portador da «gnose» (um conhecimento revelado a alguns escolhidos e que leva à salvação, que consiste na libertação da carne, da matéria). Por isso, Jesus não teria tido um corpo de verdade, mas apenas um corpo aparente (docetismo: doceta quer dizer aparente). Esta doutrina põe em causa a identidade de Jesus Cristo, porque nega quer a divindade quer a humanidade. Um conhecimento destas afirmações gnósticas ajuda-nos não só a perceber a dinâmica da elaboração do «Credo niceno-constantinopolitano», mas também a compreender melhor alguns dos escritos do Novo Testamento. A Primeira Carta de João foi escrita para combater esta heresia. «A Carta não foi escrita apenas para reavivar a fé em Cristo e o amor aos irmãos; parece ser, antes de mais, um escrito polémico: perante a ameaça de erros graves, apresenta fórmulas claras e confissões obrigatórias da fé, como garantia da fé genuína e sinal da ortodoxia (4, 1-3). Parece que se enfrenta com os gnósticos, que afirmavam ter um conhecimento direto de Deus e negavam tanto a vinda de Deus ‘em carne mortal’ (4, 2) como a identidade entre o Cristo celeste e o Jesus terreno (2, 22). Para eles, o Jesus não passava de um mero instrumento de que o Cristo celeste se tinha servido para comunicar a sua mensagem, descendo a Ele por ocasião do Batismo e abandonando-o por ocasião da Paixão; e assim negavam a Incarnação e a morte do Filho de Deus, e o seu valor redentor» (Bíblia Sagrada, Introdução às Cartas de João, ed. Difusora Bíblica, Fátima 2008, 2013). 

O gnosticismo (cristão) é uma falsa doutrina que tem ganho ascendente nas novas formas de religiosidade.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.2.13 | Sem comentários
— texto semanal publicado no «Diário do Minho» —

O «Credo Niceno-constantinopolitano» contém várias expressões relativas à divindade de Jesus Cristo, o Filho, a Segunda Pessoa da Trindade, como mostram as reflexões anteriores (cf. temas 8 a 11). No Concílio realizado em Niceia, no ano 325, introduz-se no «Credo» uma nova terminologia, que pretende estabelecer uma distinção muito clara entre «gerado» e «criado». Daí resultou a expressão atribuída a Jesus Cristo quando proclamamos o «Credo»: «gerado, não criado». [Para ajudar a compreender melhor, ler: Salmo 2; Catecismo da Igreja Católica, números 238-242] 

«Tu és meu filho, Eu hoje te gerei» — é uma frase original do Salmo 2, que o Novo Testamento e a tradição cristã utilizam para se referirem a Jesus Cristo; e desta forma atestam a geração do Filho, a Segunda Pessoa da Trindade. O Salmo 2 está relacionado com a entronização do rei; utiliza o termo «filho» em sentido figurado aplicado ao rei. Para o salmista, no dia da sua entronização, o rei era «gerado» por Deus. Vários exegetas explicam este versículo dizendo que «eu hoje te gerei», quer dizer «neste dia eu te designei para seres ungido como rei». Assim, de acordo com esta interpretação, estabelecia-se uma relação direta entre a realeza e a divindade. Digamos que, para o povo bíblico, o rei não era apenas uma escolha humana, mas também uma eleição divina. O profeta Natan, aquando da revelação das promessas de Deus a David, usa uma terminologia idêntica: «eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho». Também esta expressão será retomada pelo autor da Carta aos Hebreus (1, 5) para aplicá-la a Jesus Cristo. A citação do Salmo 2 — «Tu és meu filho, Eu hoje te gerei» — é aplicada a Jesus Cristo por três vezes no Novo Testamento: uma no livro dos Atos dos Apóstolos (13, 33); e duas na Carta aos Hebreus (1, 5; 5, 5). 

Esta frase aplicada a Jesus Cristo tem sido relacionada, pela tradição cristã, com momentos diferentes da vida do Filho de Deus. Alguns referem-na unida à Encarnação; outros ao Batismo, no Jordão; outros à Ressurreição; outros à Ascensão; outros à própria afirmação de Filho de Deus. Todas estas ligações não se opõem e, por isso, são válidas. E, em qualquer caso, não contradizem, antes contribuem para dar sentido ao que estamos a refletir: Jesus Cristo é Deus, gerado pelo Pai e não resultado do ato criador. 


Gerado, não criado. Esta afirmação é consequência das reflexões provocadas no Concílio de Niceia (325). No contexto da divindade de Jesus Cristo, nesse Concílio, dá-se destaque, pela primeira vez, à distinção entre geração e criação. Perante doutrinas que pretendiam afirmar o contrário, o Concílio afirma que Jesus Cristo faz parte de Deus. Ele não é criado por Deus. O Filho é gerado pelo Pai. Através do uso destes dois termos — gerado e criado — estabelece-se a distinção entre a criação de «de todas as coisas visíveis e invisíveis» (cf. temas 5 e 6) e a geração do Filho no «seio» do Pai. É claro que esta linguagem não é exata para expressar a realidade de Deus (e da Trindade). É, como todas as linguagens humanas, uma aproximação possível ao indizível que é Deus. O uso do termo «gerado» está intimamente relacionado com a expressão anterior do «Credo»: «nascido do Pai antes de todos os séculos» (cf. tema 9). A esse propósito relembramos a reflexão de Hilário de Poitiers: «Se alguém quiser zangar-se com a sua própria inteligência por não conseguir compreender o mistério dessa geração, que saiba, pelo menos, que eu também sofro ainda mais que ele por o ignorar. Não sei, mas não me inquieto...». A distinção entre a geração do Filho e a criação do universo é decisiva para compreender a identidade de Jesus Cristo: «o Filho está do lado de Deus que cria, é a Sua Palavra, o Seu Verbo, eterno como Ele. [...] A verdadeira aposta destas primeiras reflexões da Igreja sobre a identidade de Jesus consiste em perceber que a filiação não é, de per si, uma inferioridade. ‘Vir de’, ‘tender, ir para’, é uma relação. E, para Cristo, não é uma relação acrescentada ao que Ele é, como as relações que podemos adquirir. Esta relação de origem e de vocação (o Filho vem do Pai e vai para o Pai) constitui-O, é o Seu próprio ser. [...] O Pai a quem o Novo Testamento continua a dar como próprio o nome de Deus, é também relacional. Se não há Filho sem Pai, também não há Pai sem Filho. [...] Esta interdependência não é inferioridade, mas partilha e comunhão» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 69). 

A divindade de Jesus Cristo, o Filho, nada tira à divindade do Pai. Pelo contrário, revela a própria natureza divina que é relação e comunhão interpessoal: o Filho é «consubstancial ao Pai».

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.2.13 | Sem comentários
— texto semanal publicado no «Diário do Minho» —

A convocação do Concílio de Niceia, em 325, teve como principal objetivo definir a divindade de Jesus Cristo, sem qualquer reserva. Esta foi uma tentativa de fazer desaparecer as doutrinas que colocavam em causa a natureza divina de Jesus Cristo. Por isso, de forma reduplicativa, o «Credo» resultante desse Concílio sublinha que Jesus Cristo é Deus a partir do próprio Deus: «Deus de Deus, Luz da Luz». [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 1, 1-14; Catecismo da Igreja Católica, números 249-256; 261-262] 

«O Verbo estava em Deus; e o Verbo era Deus» — esta proclamação inicial do evangelho segundo João faz parte de um dos hinos mais belos existentes em todo o Novo Testamento. Não são expressões abstratas ou simples enunciados filosóficos; para o evangelista — e para as comunidades que já conheciam este hino — são afirmações de fé sobre a divindade de Cristo. O «Verbo» é a tradução latina do grego «Logos» que significa «Palavra». Com este termo, o hino refere-se à pessoa divina de Jesus Cristo. Neste hino estão elencados os principais temas que vão ser desenvolvidos ao longo de todo o evangelho segundo João (cf. Bíblia Sagrada, notas ao «Prólogo» do evangelho segundo João, Difusora Bíblica). Entre outros, o tema da Luz referido no «Credo» é um dos que está em destaque: «E a Vida era a Luz dos homens. A Luz brilhou nas trevas. O Verbo era a Luz verdadeira» (cf. João 1, 4-9). 

«Deus de Deus, Luz da Luz» é uma das proclamações do «Credo niceno-constantinopolitano» que reforça a divindade de Jesus Cristo (cf. tema anterior — «nascido do Pai antes de todos os séculos»). Curiosamente, a afirmação «Deus de Deus, Luz da Luz» não é original do Concílio; foi utilizada pela primeira vez pelo filósofo Plotino (205-270) considerado o fundador do neoplatonismo. 

Deus de Deus. A afirmação da natureza divina e humana de Jesus Cristo tem uma história longa e difícil. Muitas das tentativas para explicar a relação entre Jesus e Deus procuraram salvaguardar a transcendência de Deus, pondo em causa a natureza divina do Filho. Entre estas tentativas, destaca-se a doutrina defendida por Ario, que se transformou numa heresia (arianismo). 

Arianismo. Ario (256-336) era um presbítero cristão de Alexandria, que se mostrou insatisfeito com as afirmações do «Prólogo» do evangelho segundo João, bem como outras afirmações de fé semelhantes difundidas entre os cristãos. Na tentativa de explicar a relação entre Jesus e Deus, Ario tinha dificuldade em aceitar que Jesus Cristo é Deus, da mesma natureza de Deus, faz parte de Deus (Trindade na Unidade: Um só Deus; Três Pessoas: Pai, Filho, Espírito Santo). Então chegou às seguintes afirmações: «O Filho não tem o ser ao mesmo tempo que o Pai»; «Deus, querendo criar-nos, criou primeiramente um determinado ser, que chamou Verbo, Sabedoria e Filho, a fim de nos criar por Ele»; «Jesus não é Filho de Deus por natureza e a falar com rigor, mas somente por designação e adoção, como as criaturas»; «Deus, tendo previsto que Ele seria bom, deu-lhe antecipadamente a glória que mereceu mais tarde pela sua virtude». Para Ario era inútil chamar Deus a Jesus Cristo. Aliás, essa afirmação era lesiva para a divindade. Seria suficiente apresentar Jesus como uma criatura intermédia que foi capaz de atingir uma perfeição especial. A intenção de Ario era encontrar uma linguagem de fé capaz de integrar as doutrinas filosóficas daquele tempo. Nessa tentativa foi longe demais esquecendo o Deus bíblico (revelado na Escritura) para dar mais destaque às representações filosóficas existentes na sua época. Mas Ario não foi o único. Entre outras, destaca-se também negativamente as doutrinas «adocionistas»: Jesus era um ser humano adotado por Deus. Estas doutrinas provocaram uma profunda crise dentro da Igreja. Foram vários os bispos que se deixaram seduzir pelas afirmações contrárias à divindade de Jesus Cristo. O mundo cristão esteve em perigo de «acordar» ariano, porque (como era costume naquela época) o problema não era apenas religioso; era também um problema político, em que se envolviam os responsáveis das nações. Por isso, a Igreja teve necessidade de convocar o Concílio de Niceia, em 325, para definir a natureza divina de Jesus Cristo (sobre este tema cf. AA. VV., «A fé dos católicos», Gráfica de Coimbra, Coimbra 1991, 280-282). 

Luz da Luz. Esta terminologia corresponde à filosofia defendida por Platão, onde a luz aparece como um dos predicados da divindade. Por isso, reforça a primeira afirmação: Deus é a Luz; Jesus Cristo é Deus, é Luz da Luz. 

A história da definição doutrinal da divindade de Jesus Cristo continua...

© Laboratório da Fé, 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.2.13 | Sem comentários
— texto semanal publicada no «Diário do Minho» —

A afirmação da identidade divina de Jesus Cristo ocupa uma parte significativa do «Credo Niceno-constantinopolitano». Nos outros «Credos» (Batismal e Símbolo dos Apóstolos) essa referência está apenas associada à filiação («seu único Filho»). As discussões posteriores sobre a divindade de Jesus Cristo levaram a Igreja a explicitar com mais ênfase essa mesma realidade, tal como está expressa no «Credo» que surgiu dos Concílios de Niceia e Constantinopla. [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 17, 1-26; Catecismo da Igreja Católica, números 249-256]

«Aquela glória que eu tinha junto de ti, antes de o mundo existir» — é uma das afirmações que encontramos no evangelho segundo João para referir a existência do Filho, a Segunda Pessoa da Trindade, antes do ato criador. Logo no início o evangelista afirma: «No princípio existia o Verbo; o Verbo estava em Deus; e o Verbo era Deus» (João 1, 1). E a terminar este prólogo acrescenta: «A Deus jamais alguém O viu. O Filho Unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem o deu a conhecer» (João 1, 18). «Eu e o Pai somos um» — afirma Jesus numa das controvérsias com os dirigentes judaicos. E, num dos diálogos com os discípulos, concluiu: «Eu saí de Deus. Saí do Pai e vim ao mundo» (João 16, 27-28). É desnecessário elencar aqui todas as referências bíblicas. O mais importante é reforçar a ideia de que há uma profunda relação entre o Pai e o Filho.

As afirmações do «Credo» que rementem para a divindade de Jesus Cristo tornam quase inevitável a repetição dos conceitos. Por outro lado, é também difícil evitar as terminologias e as categorias filosóficas que estão associadas à elaboração do «Credo niceno-constantinopolitano». O objetivo é sempre ajudar a entender melhor o que dizemos ao professar a fé na recitação do «Credo».

Nascido do Pai antes de todos os séculos. A referência a Jesus Cristo, pelo menos para nós cristãos, é facilmente associada aos mistérios da Encarnação e da Ressurreição, Natal e Páscoa. São acontecimentos centrais que têm ligação estreita com o ciclo anual das celebrações litúrgicas. Por isso, para nós, não há qualquer reserva em afirmar que Jesus nasceu da Virgem Maria (cf. tema 18). Mas, antes disso, no «Credo», referimos um outro nascimento. Jesus Cristo é Filho de Deus, «nascido do Pai antes de todos os séculos». Esta afirmação remete para a existência eterna do Filho e conjuntamente para a sua eterna presença no seio da Trindade. Então, há dois nascimentos de Jesus Cristo? O bispo Máximo de Turim, um santo do século quinto, afirma num sermão sobre o Natal (a partir da tradução de «Année en fêtes», Migne 2000): «Caríssimos irmãos, há dois nascimentos em Cristo, e tanto um como o outro são a expressão de um poder divino que nos ultrapassa absolutamente. Por um lado, Deus gera o Seu Filho a partir de Si mesmo; por outro, Ele é concebido por uma virgem por intervenção de Deus. [...] Uma e outra formas de nascimento são propriamente inexprimíveis e ao mesmo tempo inseparáveis. [...] Quando ensinamos que há dois nascimentos em Cristo, não queremos com isto dizer que o Filho de Deus nasça duas vezes; mas afirmamos a dualidade de natureza num só e mesmo Filho de Deus. [...] Deus não nasce duas vezes; mas, por estes dois géneros de nascimentos – a saber, o de Deus e o do homem –, o Filho único do Pai quis ser, a um tempo, Deus e homem na mesma pessoa». Na reflexão sobre a Trindade, Hilário de Poitiers afirma: «O Pai e o Filho guardam cada qual o segredo deste nascimento. Se alguém quiser zangar-se com a sua própria inteligência por não conseguir compreender o mistério dessa geração, que saiba, pelo menos, que eu também sofro ainda mais que ele por o ignorar. Não sei, mas não me inquieto... [...] Compreendes do Filho que é a imagem, a sabedoria, o poder, a glória de Deus. [...] Então penetra neste segredo, um só Deus não gerado, um Filho único, e mergulha no mistério desse nascimento inconcebível. Começa, avança, persiste: bem sei que não conseguirás, mas, apesar de tudo, felicitar-te-ei por teres começado» (citação retirada de Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993,68).

As expressões do «Credo» são consequência das discussões teológicas que vão culminar nas formulações doutrinais dos Concílios de Niceia (325), Constantinopla (381) e Calcedónia (451). Com os recursos filosóficos ao seu alcance, procuraram um modo de expressar a fé na divindade de Jesus Cristo, sem quaisquer reservas: «Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai».

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.1.13 | Sem comentários
— texto semanal publicado no «Diário do Minho» —

A segunda parte do (segundo) artigo do «Credo» sobre Jesus Cristo termina com a afirmação: «e se fez homem». Em Jesus Cristo, Deus humaniza-se e vive a condição humana na sua totalidade, exceto no pecado. Jesus Cristo leva à plenitude a nossa humanidade. É modelo para todo o ser humano que deseja alcançar a plena realização pessoal. Nesta simples afirmação — «e se fez homem» — está condensada toda a vida (privada e pública) de Jesus Cristo. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Lucas 2, 39-52; Catecismo da Igreja Católica, números 512 a 570]

«Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens» — assim resume o evangelho segundo Lucas a vida de Jesus entre os doze e os trinta anos de idade. Para perceber o que é relatado pelo evangelista, é preciso ter em conta que, na mesma casa, viviam os avós, os pais, os filhos, os tios, os primos, todos os que constituíam o mesmo núcleo familiar. É este grande clã familiar que se desloca a Jerusalém. Assim, já não é tão estranho que Jesus tenha ficado no Templo, «sem que os pais o soubessem». Seria possível apenas Maria e José perderem Jesus?! Este relato é muito rico em ensinamentos teológicos. Trata-se de um episódio que nos ajuda a perceber que Jesus começa a assumir a sua própria perspetiva de vida. O início da vida adulta acontecia aos doze anos. A maioria dos rapazes e raparigas casavam por volta dessa idade, num tempo em que aos quarenta anos já se era «velho». Ao colocá-lo «no meio dos doutores», o evangelista prepara-nos para o que vai ser a vida de Jesus: a fidelidade à sua missão.


E se fez homem. Jesus esteve com os seus pais, Maria e José, em Nazaré, até ao início da sua pregação, chamada «vida pública». Durante esse tempo, viveu de forma humildade e discreta, de tal modo que não existe qualquer dado bíblico sobre essa etapa da sua vida (privada). Jesus permanece em Nazaré aproximadamente até aos trinta anos de idade. A partir daí, começa a sua intensa pregação e ação. Uma atividade que vai levar à condenação à morte. Após a Páscoa de Jesus Cristo, a Ressurreição, ficaremos a saber que não se trata de um fracasso, mas de uma vitória do amor, consequência da fidelidade à sua missão: dar a conhecer o amor de Deus. No entanto — ao contrário dos relatos dos evangelhos que são extensos e detalhados —, o «Credo» nada diz sobre a forma como Jesus viveu nem sobre o que disse e fez até à crucificação. No «Credo» apenas recordamos os mistérios da Páscoa e do Natal. «Relativamente à vida de Cristo, o Símbolo da Fé apenas fala dos mistérios da Encarnação (conceção e nascimento) e da Páscoa (paixão, crucifixão, morte, sepultura, descida à mansão dos mortos, ressurreição, ascensão). Nada diz explicitamente dos mistérios da vida oculta e pública de Jesus. Mas os artigos que dizem respeito à Encarnação e à Páscoa de Jesus esclarecem toda a vida terrena de Cristo. ‘Tudo o que Jesus fez e ensinou desde o princípio até ao dia em que foi elevado ao céu’ (Atos dos Apóstolos 1, 1-2) deve ser visto à luz dos mistérios do Natal e da Páscoa» (Catecismo da Igreja Católica [CIC], 512). O Catecismo da Igreja Católica resume em quatro aspetos a vida (pública) de Jesus: toda a vida de Cristo é revelação do Pai (CIC 516); toda a vida de Cristo é mistério de redenção (CIC 517); toda a vida de Cristo é mistério de recapitulação (CIC 518); toda a vida de Cristo é modelo de perfeição (CIC 519-521). Talvez uma (próxima) revisão do texto do «Credo» possa incluir uma referência à vida de Jesus!

«Toda a vida de Cristo foi um ensinar contínuo: os seus silêncios, os seus milagres, os seus gestos, a sua oração, o seu amor pelo humano, a sua predileção pelos pequeninos e pelos pobres, a aceitação do sacrifício total na cruz pela redenção do mundo e a sua ressurreição, são a atuação da sua palavra e o cumprimento da sua revelação» (João Paulo II, Exortação Apostólica sobre a catequese, 9).

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.1.13 | Sem comentários
— reflexão semanal publicada no «Diário do Minho» — 

No mistério da Encarnação do Filho de Deus há a participação de uma jovem de Nazaré: Maria. Não podemos separar Maria de Jesus, a Mãe do Filho. «O que a fé católica crê, a respeito de Maria, funda-se no que crê a respeito de Cristo. Mas o que a mesma fé ensina sobre Maria esclarece, por sua vez, a sua fé em Cristo» — refere o Catecismo da Igreja Católica (número 487). No «Credo» proclamamos que Jesus «encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria». O grande acontecimento da Encarnação do Filho tem origem no Pai e concretiza-se pela ação do Espírito Santo «no seio da Virgem Maria». [Para ajudar a compreender melhor, ler: Lucas 2, 1-20; Catecismo da Igreja Católica, números 487 a 511]

«Completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho» — eis o culminar do mistério da Encarnação concretizado no nascimento. No relato do evangelista Lucas, estando em Belém, Maria deu à luz o seu filho, a quem será posto o nome de Jesus. Podemos dizer que a vinda de Deus ao nosso mundo através de Jesus, um ser humano, um ser de carne e osso, é o resultado natural da forma como se desenrola toda a História da Criação e da Salvação. Deus quis precisar da colaboração livre da jovem de Nazaré, Maria. Através do seu «sim» descrito na «Anunciação», tem início a geração do Filho de Deus «no seio da Virgem Maria».


No seio (maternidade). A maternidade de Maria é a garantia do nascimento de Jesus como ser humano. Ele é dado à luz por uma mulher. «Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher» (Carta aos Gálatas 4, 4). O mistério da Encarnação está intimamente ligado à maternidade de Maria. Nas discussões que se geraram sobre a identidade de Jesus Cristo, a Igreja proclama também a maternidade divina de Maria. Não existem dois Jesus Cristo (um humano e outro divino). «Jesus, nascido de Maria, é plenamente homem e plenamente Deus, sem confusão nem divisão, como especificará o Credo de Calcedónia no ano 451» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Prólogo — A infância de Jesus», Princípia Editora, Cascais 2012, 48). A união, em Jesus Cristo, do humano e do divino acontece «no seio da Virgem Maria». Por isso, Maria é «Mãe de Deus», é mãe daquele que assume em si a natureza humana e divina. Entre a muita bibliografia sobre este assunto, tomamos a reflexão do Papa João Paulo II: «Quando o Concílio de Éfeso aplicou a Maria o título de ‘Theotokos’, Mãe de Deus, a intenção dos Padres do Concílio era garantir a verdade do mistério da Encarnação. Queriam afirmar a unidade pessoal de Cristo, Deus e Homem, uma unidade de tal forma única que a maternidade de Maria em relação a Jesus era, por isso mesmo, maternidade em relação com o Filho de Deus. Maria é ‘Mãe de Deus’ porque o seu Filho é Deus; embora seja mãe só na ordem da geração humana, dado que o Menino, que ela concebeu e deu à luz, é Deus, deve ser chamada ‘Mãe de Deus’. A afirmação da maternidade divina ilumina-nos sobre o sentido da Encarnação. Demonstra que o Verbo, Pessoa divina, se tornou humano: fez-se homem graças à participação de uma mulher na obra do Espírito Santo. Uma mulher foi associada de forma singular ao mistério da vinda do Salvador ao mundo. [...] Graças a Maria, Ele tem um verdadeiro nascimento e a sua vida na terra começa de maneira semelhante à de todos os outros humanos. Com a sua maternidade, Maria permite ao Filho de Deus ter — depois da conceção extraordinária pela ação do Espírito Santo — um desenvolvimento e uma inserção normal na sociedade humana» (www.vatican.va — Audiência Geral de 4 de janeiro de 1984).

Virgem Maria. A maternidade de Maria é excecional na conceção e no parto. Em ambos, Maria permanece «virgem». Muito se tem escrito, não faltando opiniões a favor e contra a virgindade de Maria (antes e depois do parto). Trata-se de uma realidade de difícil compreensão para a nossa inteligência. Mas não quer dizer que seja falso! Deus que criou o mundo não pode realizar tal milagre? «A conceção e o nascimento de Jesus da Virgem Maria são elementos fundamentais da nossa fé e um luminoso sinal de esperança» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Prólogo — A infância de Jesus», 52).

Em resumo podemos dizer: «A virgindade de Maria manifesta ‘a iniciativa absoluta de Deus na Encarnação’. A maternidade manifesta a fiel participação de Maria na obra do Espírito Santo. [...] Juntos, virgindade e maternidade, manifestam aquilo que a Igreja e cada cristão devem ser: anunciadores e portadores de Cristo» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 107).

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.1.13 | Sem comentários
— reflexão semanal publicada no «Diário do Minho» — 

Nós, cristãos, acreditamos que o menino a quem foi dado o nome de Jesus (filho de José e de Maria), que nasceu (em Belém) e viveu (em Nazaré) num determinado contexto histórico (no tempo do rei Herodes) e geográfico (na Palestina) é o próprio Deus que se humaniza, que vem habitar na nossa história. A este mistério, que nunca seremos capazes de compreender na totalidade, chamamos «Encarnação» (também se pode utilizar o termo «Incarnação»). Este grande acontecimento tem origem no Pai e concretiza-se pela ação do Espírito Santo. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Lucas 1, 26-35; Catecismo da Igreja Católica, números 461 a 486]

«O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra» — comunica o anjo Gabriel a Maria, no episódio da «Anunciação» relatado pelo evangelista Lucas. No diálogo, Maria parece pedir ajuda para compreender o que acaba de lhe ser dito: «Como será isso [...]?». O mensageiro de Deus explica-lhe as circunstâncias especiais desta conceção: «O Espírito Santo virá sobre ti». A presença do Espírito remete-nos para o ato criador de Deus (cf. tema 5). Agora, com este «anúncio» Deus realiza uma nova criação! Também a afirmação seguinte — «e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra» — está profundamente ligada a referências bíblicas: a «nuvem» que cobre a tenda da reunião (no livro do Êxodo 40, 34) ou a «nuvem» que enche o templo (no Primeiro livro dos Reis 8, 10), são alguns exemplos. Agora, Deus inaugura uma nova forma de presença: a «nuvem» dá lugar a uma Pessoa, Jesus Cristo. Trata-se de uma presença inédita na história: Deus humaniza-se, vive e partilha a nossa condição humana. Jesus, que é verdadeiramente Deus, é também verdadeiramente homem (ser humano).

 E encarnou. A palavra «encarnou» significa «entrar na carne». Afirmamos que Deus entra na nossa «carne», isto é, assume a natureza humana. É claro que reconhecimento da natureza humana de Jesus não foi o problema inicial. As pessoas que contactavam com ele não tinham qualquer dúvida quanto à sua condição humana; mas, ao contrário, não tinham consciência de estarem perante o próprio Deus. Para os seus contemporâneos, Jesus era o filho de José e de Maria, uma família de Nazaré (cf. Marcos 6, 3). É o acontecimento pascal que ilumina a presença histórica de Jesus: Ele não é apenas um ser humano enviado por Deus (como são muitos dos personagens bíblicos); Jesus (de Nazaré) é o próprio Deus presente na história humana. Esta união entre a natureza divina e a natureza humana numa única Pessoa (Jesus Cristo) tem o nome de «encarnação» ou «incarnação». A partir daqui é preciso ter consciência de que se trata de uma realidade que, por mais esforço que possamos fazer, nunca compreenderemos na totalidade; e nunca conseguiremos expressá-la com aquela máxima clareza reclamada pelo pensamento moderno. A «Encarnação» permanecerá sempre um «mistério» que produziu e continuará a produzir discussões infindáveis em dois blocos distintos: os que se fecham na pura racionalidade; os que defendem a transcendência divina incompatível com a natureza humana. O pensamento cristão fez e continua a fazer o maior esforço para encontrar, em cada época, a melhor expressão ou expressões que ajudem a compreender esta realidade que só pode ser acolhida pela fé: em Jesus Cristo unem-se totalmente as naturezas divina e humana. «No entanto, precisamos de compreender. A conceção de Jesus Cristo como o crente a acolhe pela fé não é incompatível com a razão humana. Muito ao contrário, esta conceção é o cumprimento perfeito do que a razão é capaz de pensar; mas pela fé, ela remete isso para a iniciativa de Deus» (Mons. Christophe Dufour, «Cinco pequenas catequeses sobre o Credo», ed. Salesianas, Porto 2012, 31).

Pelo Espírito Santo. A referência ao Espírito Santo na conceção de Jesus ensina-nos que se trata de uma ação divina; não é uma conceção fruto da união do homem e da mulher. O Espírito Santo é a garantia da intervenção direta de Deus que proporciona uma «nova criação». Jesus Cristo, o Filho, é o «novo início» operado pelo Pai, através do Espírito Santo. Assim, na «Anunciação» está presente a Trindade de Deus: Pai, Filho, Espírito Santo.

Jesus Cristo «foi concebido, não por uma suprema inteligência humana, nem pela imaginação criativa de um artista genial, nem pela vontade de um fundador de religião [...]. Jesus Cristo foi concebido por Deus. Mas como podia ele surgir na história dos homens? O Credo responde: nasceu da Virgem Maria» (Mons. Christophe Dufour, 31).

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.1.13 | Sem comentários
— texto semanal publicado no «Diário do Minho» —

A afirmação da causalidade («E por nós, homens») completa-se com o motivo: «e para nossa salvação desceu dos Céus». Jesus vem para salvar, para nos reconciliar com Deus. É preciso dizer que «não faz sentido a ideia que Cristo arranca a nossa salvação a um Deus vingador e justiceiro que, desde a origem do tempo, esperava a reparação por todos os pecados acumulados pela humanidade: o Deus que tudo criou em seu Filho é o mesmo que nos acolhe e nos perdoa no seu mesmo Filho» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 95). [Para ajudar a compreender melhor, ler: Mateus 1, 18-25; Catecismo da Igreja Católica, números 422 e 423, 456 a 460]

«Darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados» — esta indicação dada pelo anjo a José (cf. tema 7) revela a identidade e a missão do menino: ser o «Salvador».

 
 E para nossa salvação. Anuncia-se uma «boa notícia»! Jesus Cristo vem ao mundo para nos salvar. Deus quer o nosso bem, quer que sejamos felizes. A presença de Jesus Cristo no meio de nós é um sinal do amor de Deus. O que acontece agora é uma revelação, um gesto visível da salvação que Deus oferece a todos. Aliás, toda a história é um desenrolar da salvação. Não é por acaso que a designamos como «História da Salvação». Ao afirmar que Jesus Cristo é o Salvador, tornamos presente toda a História. Recordamos «a pedagogia de Deus que, ao longo de toda a história de Israel, renova o seu oferecimento de aliança, a fim de acostumar os seres humanos a viverem da sua vida. [...] Ao tomar nos seus braços o filho de Maria, o velho Simeão tem realmente consciência de tocar, finalmente, a promessa feita a Israel e a salvação do mundo inteiro: ‘Os meus olhos viram a tua salvação’ (Lucas 2, 30)» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 79). É isto mesmo que a Igreja diz, na celebração da Eucaristia, quando se reza a Oração Eucarística IV: «Repetidas vezes fizestes aliança com os homens e pelos profetas os formastes na esperança da salvação. De tal modo amastes o mundo, Pai santo, que chegada a plenitude dos tempos, nos enviastes como Salvador o vosso Filho Unigénito». Em Jesus Cristo, a Criação atinge a plenitude. Podemos dizer que Aquele «por quem todas as coisas forma feitas» é o mesmo que leva à plenitude todas as coisas, tornando «presente» a salvação. Por isso, é um erro pensar que a salvação é um ato restaurador de algo perdido. Não é um regresso ao passado. Ela dá-nos algo que não existia: «Adão não comungava na vida de Deus como nós somos convidados a fazê-lo em Jesus Cristo. [...] A salvação é real participação na vida que Deus propõe e que não é outra coisa que a participação na vida trinitária: aderir fortemente a Jesus para se deixar amar pelo Pai na iluminação do Espírito Santo» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, 82). Então, na sequência do que referimos no início desta reflexão, podemos agora dizer que ser salvo é muito mais do que deixar de ser pecador. É ter acesso a um dom de Deus, que a fé nos diz que é suficientemente forte para acabar com as nossas fugas e as nossas recusas: «é o que chamamos a graça de Deus, isto é, o fascínio da sua gratuidade que transforma a nossa vida» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, 82). O Filho de Deus «desceu dos Céus [...] e se fez homem», para que os homens se tornem filhos de Deus (cf. Catecismo da Igreja Católica, 460). Por isso, todas as tentativas para explicar a salvação (justificação, resgate, redenção, satisfação, libertação, reconciliação) são sempre imperfeitas; são isto mesmo «tentativas» para exprimir um dom de Deus. Ele anula todas as distâncias, mesmo aquelas que são fruto da nossa recusa em amar. 

Desceu dos Céus. É Deus que toma a iniciativa de vir ao nosso encontro, por amor. Com a expressão «desceu dos Céus» queremos afirmar que Jesus tem uma origem divina. Na linguagem bíblica, os «Céus» não são a abóboda celeste. Os «Céus» designam a vida de Deus e a vida em Deus. Jesus «desceu dos Céus» porque vive em Deus, é Deus. Além disso, «descer dos Céus» ou «vir de Deus» não significa um lugar. Não se trata de uma viagem que Jesus fez de um lugar (Céus) para outro (terra). É uma afirmação possível na nossa linguagem do grande mistério que torna real a Encarnação: Deus humaniza-se, assume a natureza humana. 

Jesus Cristo, o Filho Unigénito de Deus, que vive desde sempre com o Pai, vem habitar a nossa história, assume a nossa humanidade. E assim continuaremos nos próximos temas: «E encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem».

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.1.13 | Sem comentários
— texto semanal publicado no «Diário do Minho» —

Jesus Cristo, Filho de Deus, vem ao mundo, habita a nossa história, para nos dar a conhecer o próprio Deus. Jesus Cristo revela-nos um Deus que ama a sua Criação, que ama os seres criados, de modo particular o ser humano. Apesar das (nossas) infidelidades, Deus nunca volta as costas, mas sempre se dispõe a amar. O Pai, que ama infinitamente todos os seus filhos, envia ao mundo o Seu Filho, Jesus Cristo, «por nós homens» — como afirmamos no «Credo». [Para ajudar a compreender melhor, ler: Primeira Carta de João 4, 7-11; Catecismo da Igreja Católica, números 385 a 421]

«O amor de Deus manifestou-se desta forma no meio de nós: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que, por Ele, tenhamos a vida» — esta afirmação da Primeira Carta de João destaca (de novo) o tema do amor de Deus pelos seres humanos. É, na verdade, um tema muito presente nos escritos joaninos. O autor da Carta reforça toda a sua convicção a partir de uma afirmação central: «Deus é amor». A mais bela (e até talvez a única) definição de Deus que encontramos em toda a Escritura. Esta revelação de Deus não é uma mera afirmação especulativa. É uma experiência histórica concreta. O amor de Deus não é uma realidade para explicar. «Deus é amor» através do seu agir, que se descobre de modo evidente na vida do Seu Filho, Jesus Cristo. Ele vem ao mundo, «por nós homens», para nos dar a conhecer o amor. E para nos chamar a viver nesse mesmo amor.

 
 E por nós, homens. No centro do «Credo» (niceno-constantinopolitano) irrompe uma afirmação da causalidade humana. Até parece «que fazemos mexer qualquer coisa do lado de Deus e do Filho por quem e para quem tudo foi feito» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 78). Deus não fica nem está indiferente ao ser humano. Jesus Cristo, o Filho Unigénito de Deus, vem habitar a nossa história. «Por nós, homens». Por mim. Por ti. Por todos. «Doravante, escreve François Mauriac, no destino de todo o homem Deus estará à espreita» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray,78).

O pecado. A causalidade da vinda de Jesus Cristo ao mundo — «por nós homens» — assume uma dupla dimensão: do lado de Deus e do lado dos seres humanos. Da parte de Deus, como já vimos, revela-nos o seu infinito amor. Da parte dos humanos, confronta-nos com a resposta a esse amor, que pode ser uma não resposta, isto é, a infidelidade, o pecado. A plena realização do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, só pode acontecer no amor. Infelizmente, pode não acontecer assim. O amor não se impõe. É uma escolha livre e pessoal. Pode ser recusado. Esta de recusar o amor concretiza-se no que, em linguagem religiosa, chamamos pecado. O Catecismo da Igreja Católica afirma (número 386): «O pecado está presente na história do homem. Seria vão tentar ignorá-lo ou dar outros nomes a esta obscura realidade. Para tentar compreender o que é o pecado, temos primeiro de reconhecer o laço profundo que une o homem a Deus, porque, fora desta relação, o mal do pecado não é desmascarado na sua verdadeira identidade de recusa e oposição a Deus, embora continue a pesar na vida do homem e na história». O pecado é tudo aquilo que nos impede de acolher o amor de Deus. É tudo aquilo que nega o amor: o egoísmo, o ódio, a violência, a mentira, a injustiça, a opressão, a rejeição, a intolerância, o mal... A recusa do amor desfaz a nossa harmonia interior. A relação com Deus e com os outros «fica transformada num jogo de poder, controlo e desconfiança. [...] Custa-nos acreditar num Deus que seja amor verdadeiro. E as nossas relações com os outros começam a ser dominadas pela desconfiança, pela indiferença e pela agressão» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 97). Esta possibilidade de se deixar vencer pelo mal faz-nos solidários no pecado. É o que a Igreja chama de «pecado original», relatado na Bíblia de forma poética através da desobediência de Adão e Eva. O autor do livro do Génesis tem uma intenção clara: o ser humano pode deixar de confiar em Deus, pode «esconder-se» de Deus; o homem e a mulher podem usar mal a liberdade que lhe foi dada pelo Criador, recusando-se a viver no amor.

«Apesar de a humanidade ter voltado as costas a Deus, Ele não desistiu de nós. Deus nunca abandonou a humanidade. Deus comprometeu-se ao longo de toda a história em nos dar sinais, pistas, que nos permitissem reencontrar a alegria e a salvação. E esta aposta de Deus realiza-se de forma perfeita quando Jesus vem até nós e dá a sua vida para nos salvar (Rui Alberto, 97).

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.12.12 | Sem comentários
— texto semanal publicada no «Diário do Minho» —

No «Credo» proclamamos que o ser humano Jesus, que nasceu e viveu num momento histórico documentado, é o próprio Filho de Deus. Estamos a refletir (às vezes repetindo) sobre a identidade divina de Jesus Cristo. Esta repetição patente no texto do «Credo» é consequência das discussões que marcaram — e porventura ainda marcam — a história da nossa fé cristã. [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 3, 16-21; Catecismo da Igreja Católica, números 441 a 445]

«Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna» — esta afirmação de Jesus no diálogo com Nicodemos destaca um tema muito presente no evangelho segundo João: o carácter universal da obra salvadora realizada através de Jesus Cristo. O ponto de partida é o amor de Deus pelos seres humanos. Perante esta lógica divina, o ser humano pode acolher ou recusar o amor de Deus Pai, que se revela na Pessoa do Filho, Jesus Cristo. Aqueles que acolhem pela fé este amor divino encontram o que ninguém pode alcançar pelas suas próprias forças: a vida eterna, isto é, a vida em Deus. E recebem o «poder de se tornarem filhos de Deus» (João 1, 12). Diz o Papa Bento XVI: «A nossa verdadeira ‘genealogia’ é a fé em Jesus, que nos dá uma nova proveniência, nos faz ‘nascer de Deus’» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Prólogo — A infância de Jesus», Princípia Editora, Cascais 2012, 18) 

Filho Unigénito de Deus. Esta proclamação reforça a identidade divina de Jesus de Nazaré. Dissemo-lo no encontro anterior na explicitação dos títulos de «Senhor» e «Cristo». Voltamos a referir esta identidade divina no título de «Filho Unigénito de Deus». E vamos repeti-lo nas próximas expressões. Eis a fórmula completa: «Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai». O Símbolo dos Apóstolos é mais sintético: «[Creio] em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor». Para explicitar o tema que ocupa esta reflexão — «Filho Unigénito de Deus» — é importante começar por perceber que, historicamente, «filho de Deus» não se trata de uma afirmação atribuída pela primeira vez ou apenas a Jesus. Vários povos e culturas utilizavam este título («filho de Deus») para designar alguém que gozava de uma especial relação com a divindade. Em primeiro lugar, é uma expressão que tem origem na teologia política do antigo Oriente. No Egito, por exemplo, o rei era chamado «filho de Deus»; e «o ritual da entronização era considerado como a sua ‘geração’ como filho de Deus» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré», Esfera dos Livros, Lisboa 2007, 414). O povo de Israel vai assumir e transformar esta terminologia. São várias as narrações contidas no Antigo Testamento que testemunham esta apropriação do termo por parte do povo bíblico. Mas, ao contrário dos outros povos, em Israel, o rei é fruto de uma eleição divina (e não de uma geração). Em rigor, não é o rei que é designado como «filho de Deus», mas todo o povo hebreu. Mais tarde, os primeiros cristãos apoiam-se nesta cultura judaica para a dizer plenamente realizada em Jesus Cristo. Mas, agora, na cultura cristã, «a expressão ‘filho de Deus’ separa-se da esfera do poder político e torna-se expressão de uma união particular com Deus, que se manifesta na cruz e na ressurreição» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré», 416). E há ainda outra clarificação a fazer. Entre os romanos, é o próprio Imperador que se autoproclama «filho de Deus». Numa mesma época histórica e geográfica (convém lembrar que os primeiros cristãos vivem sob o domínio do Império Romano), gera-se o conflito e a colisão entre os súbditos romanos e os cristãos, quanto ao destinatário do título de «filho de Deus». Entre outros motivos, torna-se assim necessário para os primeiros cristãos exprimir e reforçar a divindade de Jesus através do recurso a vários títulos e expressões, que mais tarde hão de ficar gravadas no «Credo». O que para nós, cristãos do século XXI, pode parecer uma mera repetição de palavras e expressões não o foi nos primeiros tempos cristãos e aquando da elaboração do «Credo». 

«O título Filho de Deus revela e indica a relação única e eterna de Jesus com Deus Pai. Reconhecendo o carácter transcendente da filiação divina de Jesus, mostra-se também o carácter inclusivo: também os homens se tornam ‘filhos de Deus’ e rezam a Deus (‘meu Pai e vosso Pai’, diz Jesus) com as palavras do Mestre: ‘Pai nosso’» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 106).

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.12.12 | Sem comentários
— texto semanal publicado no «Diário do Minho» —

O segundo artigo do «Credo» é dedicado a Jesus Cristo, a segunda Pessoa de Deus (Uno e Trino). «Jesus Cristo é o Senhor» é uma afirmação de fé comum aos primeiros cristãos. É também a afirmação inicial sobre Jesus Cristo presente no «Credo», como vamos acolher no tema desta semana. [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 13, 3-15; Catecismo da Igreja Católica, números 422 a 440 e 446 a 455]

«Vós chamais-me ‘o Mestre’ e ‘o Senhor’, e dizeis bem, porque o sou» — ao dizer isto, o próprio Jesus mostra aos Apóstolos qual é o seu senhorio, através do gesto de lhes lavar os pés. Na cultura daquele tempo e lugar, ser o «Mestre e o Senhor» equivalia a dizer que era aquele que tinha o controlo, o domínio sobre todos os outros, a total autoridade para tomar uma decisão. O «senhor» designava o dono dos servos e dos escravos. Em maiúscula, os romanos utilizavam-no para se referirem ao Imperador. Os judeus atribuíam este título a Deus. Ora, no texto joanino, Jesus revela algo de «escandaloso». Ao contrário das regras sociais, o que é designado como «Senhor» é o que se ajoelha para lavar os pés aos servos. E é desta forma que Jesus Cristo se dá a conhecer como «Senhor», acrescentando: «Se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros».  

 Creio. No segundo artigo do «Credo» repete-se a expressão inicial: «Creio». Nele está o centro da nossa fé cristã: a Pessoa de Jesus. Afirma o beato João Paulo II, no texto de referência para este milénio: «Certamente não nos move a esperança ingénua de que possa haver uma fórmula mágica para os grandes desafios do nosso tempo; não será uma fórmula a salvar-nos, mas uma Pessoa, e a certeza que Ela nos infunde: Eu estarei convosco!» (Carta Apostólica «No Início do Novo Milénio», 37).

Em um só Senhor. O nome de Deus, para os hebreus, merecia uma tal veneração que não se atreviam a pronunciá-lo. Na leitura das Escrituras, onde estava escrito «YHWH» (Yahweh, Javé) pronunciavam «Adonai», isto é, «Senhor». Mais tarde, na tradução grega da Bíblia converte-se no nome próprio de Deus (Kyrios, Senhor). Dizer que Jesus Cristo é o «Senhor» (Kyrios) é proclamar a sua divindade: «ninguém pode dizer: ‘Jesus é Senhor’, senão pelo Espírito Santo» — diz Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (12, 1). Deus, em Jesus Cristo, faz-se um ser humano. Por isso, Jesus Cristo é o nosso único Senhor.

Jesus. Na Bíblia, o nome de uma personagem não é dado ao acaso. A atribuição de um nome levanta um pouco o véu sobre a missão. É o que acontece também com Jesus. A palavra «Jesus» (em hebreu Yehoshua, Yoshua, Josué, Jesus) significa «Deus salva», «Deus é salvação». É o nome revelado pelo anjo a Maria e a José, «porque Ele salvará o povo dos seus pecados (Mateus 1, 20). O nome diz a identidade e a missão: ser o «Salvador». Ao atribuir o nome ao menino, José exerce a paternidade legal sobre Jesus e insere-o na descendência de David. Neste processo, a salvação de Deus toma corpo na nossa história. Na linha das profecias do Antigo Testamento, o evangelista acrescenta «que hão de chamá-lo Emanuel, que quer dizer: Deus connosco» (Mateus 1, 23). «Em suma, Jesus é o nome que recorda [...] um encontro benéfico com Deus. ‘Crer em Jesus’ significa reconhecer que Deus não é indiferente [...] à nossa vida quotidiana, mas quer entrar nela para levar libertação, consolação, salvação e verdade» (Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 43).

Cristo. Os discípulos de Jesus, após a Ressurreição, começam a utilizar com mais frequência o título de «Cristo» para se referirem ao Mestre. Os próprios discípulos passam a ser designados de «cristãos» (Atos dos Apóstolos 11, 26). A palavra «Cristo» traduz para o grego o título hebraico de «Messias» (Mashiah): a pessoa consagrada por uma unção de óleo para uma missão particular (o rei, os sacerdotes, os profetas). Ao nome de Jesus é acrescentado este título (Cristo), para expressar que Ele é o «Ungido», o cumprimento vivo de todas as profecias. Em Jesus, o «Cristo», torna-se plena a História da Salvação. Os escritos dos evangelhos mostram-nos que, tal como acontece no título de «Senhor», Jesus tem de ajudar os discípulos e todo o povo a reformular a conceção de «Messias». Não se trata de um político, de um restaurador da independência de Israel, um chefe revolucionário. Ele é o Messias que se revela no Senhor que lava os pés aos seus servos, que dá a vida para salvar o povo de todos os seus pecados.

Bento XVI exorta-nos: «O Ano da Fé é convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo» («A Porta da Fé», 6).

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.12.12 | Sem comentários
— texto semanal publicado no «Diário do Minho» —

«Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso» — assim começa o «Símbolo Niceno-Constantinopolitano». Também o início da primeira pergunta que — na fórmula batismal — se faz aos catecúmenos (adultos que se preparavam para celebrar o Batismo) ou aos pais e padrinhos no batismo de uma criança é: «Credes em Deus Pai [...]? Mas como é que sabemos que Deus é Pai? [Para ajudar a compreender melhor, ler: Mateus 6, 5-15; Catecismo da Igreja Católica, números 232 a 240 e 268 a 278] 

«Pai nosso que estás no Céu» — é a primeira expressão da oração que Jesus ensina aos discípulos. «Não é propriamente novo o pedido que os discípulos fazem. A novidade, a bem dizer, está do lado de Jesus. ‘Rezai, pois, assim: Pai nosso’» (José Tolentino Mendonça, «Pai-nosso que estais na Terra», Paulinas, Prior Velho 2011, 23). 

Esta novidade sobre Deus revelada por Jesus aparece nos (quatro) evangelhos, que usam 170 vezes a palavra «Pai» para designar ou invocar Deus. 

Pai. Esta bela expressão usada por Jesus para designar ou invocar Deus pode, contudo, provocar equívocos. O principal é a comparação com a paternidade humana, com o nosso progenitor masculino. Em consequência, surgem antropomorfismos (imagens humanas de Deus) que deturpam a realidade divina. E dão origem a falsas imagens de Deus. Ninguém pode negar que a palavra «pai» contém uma carga emocional, positiva ou negativa, conforme a experiência concreta de cada um. Por isso, o uso do termo «Pai» em relação a Deus não pode ser senão analógico. De facto, não existe nenhuma palavra humana capaz de abarcar a totalidade do Mistério de Deus. Todas as expressões, mesmo que tenham sido pronunciadas por Jesus Cristo, só podem ser uma ajuda (e nunca um entrave) para nos aproximar do Mistério divino. Por outro lado, a utilização do termo «Pai» para designar a primeira pessoa de Deus pode levar-nos a pensar, consciente ou inconscientemente, que se trata de uma figura masculino. Ora, isto não pode corresponder à verdade. Deus não é homem nem mulher. O que na verdade Jesus Cristo nos ensina é que Deus é a origem e a fonte da vida. 
Chamar a Deus «Pai» é um convite ao silêncio contemplativo e ao amor. É um convite a entrar numa relação filial. Até que dentro de nós possam ecoar as palavras: tu és o meu filho muito amado! 


Omnipotente, Todo-poderoso. A versão latina do «Credo» utiliza a expressão «omnipotentem» («omnia» significa «todo»; «potens» significa «poderoso»). Uma tradução literal também possível em português seria «omnipotente». Em vez de traduzir por «Deus Pai todo-poderoso», também poderíamos dizer «Deus Pai omnipotente». Em qualquer dos casos, «para os nossos contemporâneos esta fórmula não é bem aceite. Até pode se objeto de dois tipos de crítica. Por um lado, nós opomo-nos à ideia de um Deus que demonstra uma omnipotência sobre o ser humano; que liberdade permanece ao ser humano se Deus é omnipotente? Por outro lado, verificamos que Deus não é omnipotente porque não consegue eliminar todos os males da terra. Quantas pessoas, na provação do mal e do sofrimento, deixaram de acreditar em Deus porque, dizem, ele não atende as suas preces! ‘Se Deus existisse, não deixaria que existisse todo este mal’. ‘Se Deus fosse todo-poderoso, não teria deixado morrer esta pessoa que eu amava’. Ficamos tocados no coração por esta pergunta radical. Também as crianças a põem. Os adolescentes igualmente. Os que acompanham os doentes e os ouvem ficam impressionados no mais íntimo do coração. E muitos outros a sentem em si profundamente» (Mons. Christophe Dufour, «Cinco pequenas catequeses sobre o Credo», Edições Salesianas, Porto 2012, 16). A omnipotência de Deus não se assemelha aos desejos humanos de poder, de querer subjugar os outros, às vezes, a todo o custo, recorrendo, se necessário, à violência. O poder de Deus manifesta-se na fraqueza — diz São Paulo na Segunda Carta aos Coríntios (12, 9). Quando dizemos que Deus é «todo-poderoso» não estamos a afirmar que se trata de um poder arbitrário e intervencionista, para impedir o mal ou o sofrimento sempre que fosse necessário. Não é essa a identidade de Deus! O teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer, executado pelos nazis, afirmou que «Deus é impotente e débil no mundo e só assim está connosco e nos ajuda». 

A omnipotência de Deus só pode agir «através da mediação da resposta livre daquele que é amado, daquele que diz: ‘Sim, eu creio’. [...] A fé invoca sobre nós o amor. A fé invoca sobre a humanidade a omnipotência do amor de Deus» (Mons. Christophe Dufour, 19).


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.12.12 | Sem comentários
— texto semanal publicado no «Diário do Minho» — 

A ciência impõe-nos um critério evolucionista sobre as origens do ser humano e do universo. A tradição religiosa judaica e cristã fundamentam-se num critério criacionista. Será que estamos a falar de duas «teorias» diferentes? Aceitar a evolução obriga a negar o ato criador de Deus? Não pode haver negação, mas complementaridade. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Génesis 1, 1 — 2, 4a; Catecismo da Igreja Católica, números 279 a 384] 

«Esta é a origem da criação dos céus e da Terra» — conclui a (primeira) narrativa bíblica do livro do Génesis. «Todos os povos se perguntaram alguma vez: Donde viemos? Qual foi a nossa origem? Quem foi o fundador do nosso povo? Qual o nosso destino? Umas vezes, essas perguntas eram formuladas a partir de situações de desgraça coletiva: Que sentido tem o nosso fracasso e o nosso sofrimento? Que sentido tem a morte irremediável? Há um Alguém que possa responder a todas as interrogações do ser humano? [...] O GÉNESIS é, pois, o livro das grandes interrogações e das grandes respostas, não só do povo de Deus, mas de toda a humanidade» (Bíblia Sagrada, Introdução ao Livro do Génesis, Difusora Bíblica). O relato da Criação não é uma informação histórica, mas uma profecia que aponta para a resposta mais profunda às questões sobre as origens: o próprio Deus. O autor do texto apresenta todas as coisas criadas pela bondade de Deus: «E Deus viu que isto era bom». Como numa língua a gramática serve para ordenar o uso das palavras, assim também a Criação é a gramática que dá sentido a todas as coisas a partir do Criador, orientando-as para o ser humano, «imagem e semelhança de Deus». 


Evolução e Criação. Durante muito tempo, houve o interesse (em alguns meios ainda hoje se mantém) em colocar em oposição supostamente duas teorias sobre as origens: criacionista e evolucionista. Afirmar que Deus é «Criador do céu e da terra» não põe em causa a possibilidade de uma evolução das coisas criadas. O ato criador não pretende explicar o ‘como’, mas dar-lhe sentido. «Se a afirmação de Deus criador é parte fundamental da revelação bíblica, o ‘como’ da criação fica sempre aberto a novas interpretações, em função das aquisições da ciência» (AA. VV., «A fé dos católicos», Gráfica de Coimbra, Coimbra 1991, 191). Assim, a teoria evolucionista ganha em sentido e em significado: é o contínuo ato criador de Deus que proporciona a evolução dos seres e do universo. «Assim como a explicação científica do nascimento de uma criança não contradiz a afirmação de que ela é o fruto do livre dom de amor dos seus pais, assim também acontece com a criação do mundo e do ser humano» (Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 36). A Criação é um ato de amor, livre e gratuito. 

A nossa profissão de fé começa com as palavras: «Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra». «Se omitirmos este primeiro artigo do Credo, toda a história da salvação se torna demasiado restrita e demasiado pequena» (Bento XVI, «A alegria da fé», ed. Paulinas, Prior Velho 2012, 18-19). 

Criador. O ato criador narrado na Bíblia e professado no «Credo» não é um conceito histórico, algo que aconteceu em determinado momento. Na Criação, Deus não atua como «fabricante», como construtor. Deus não fez o universo, num determinado momento; e depois deixou-o por sua conta e risco! O ato criador é um conceito teológico, isto é, faz parte de Deus. E, por isso, está sempre a acontecer: Deus cria e recria continuamente todas as coisas, a partir de si mesmo. Dizer que é o Criador é não só expressar que Deus está na origem de todas as coisas, mas também que se compromete de forma ativa e contínua com toda a Criação. São Tomás de Aquino — um grande pensador do século XIII — disse que não podemos pensar no ato criador como um acontecimento temporal, com um antes e um depois. Deus existe desde sempre, fora do tempo. O tempo começa a existir precisamente quando Deus fala e chama à existência o universo. O autor do Génesis refere-o por diversas vezes na narrativa teológica e catequética: «Deus disse: faça-se [...]. E assim aconteceu».

Do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis. Uma bela forma de dizer que Deus é o Criador de todas as coisas, de tudo o existe, seja ou não visto ou conhecido pelo ser humano. Visualmente, o céu e a terra eram os extremos onde acontecia a experiência humana. 

A Criação engloba muito mais do que aquilo que somos capazes de ver, transcende aquilo que podemos entender. Nada está fora do ato criador de Deus.


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 28.11.12 | Sem comentários
— texto semanal publicado no «Diário do Minho» —

O programa pastoral da nossa Arquidiocese de Braga, cujo tema é a «fé professada», apresenta o «Credo» como sinal da identidade cristã. «O ‘Credo’ é um símbolo porque, ao recitarmos este texto, reconhecemo-nos cristãos e parceiros de todas as gerações cristãs que nos precederam. É a expressão de uma fé comum, da fé da Igreja, e, por isso, tem de ser devidamente respeitado por todos. Esta dimensão eclesial da fé exige uma linguagem comum, ‘uma linguagem normativa para todos, que a todos une na mesma confissão de fé» (Catecismo da Igreja Católica, 185). Por isso, este ano pastoral será uma oportunidade para aprofundar os conteúdos do ‘Credo’, a partir do Catecismo da Igreja Católica». Esta iniciativa está em sintonia com o convite do Papa Bento XVI ao proclamar o «Ano da Fé»: «Refletir sobre o próprio ato com que se crê, é um compromisso que cada crente deve assumir, sobretudo neste Ano» (Bento XVI, «A Porta da fé», 9).

A partir de hoje, o «Diário do Minho» — em parceria com o projeto «Laboratório da fé» (www.laboratoriodafe.net) da responsabilidade do arciprestado de Braga — vai publicar, semanalmente, uma reflexão sobre o «Símbolo niceno-constantinopolitano», o «Credo» que habitualmente se proclama nas eucaristias dominicais. 


[Para ajudar a compreender melhor, ler: Segunda Carta a Timóteo 1, 6-14; Catecismo da Igreja Católica, números 185 a 197]

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.11.12 | Sem comentários
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