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Anunciar a alegria da fé! [8]


O segundo «aspeto fundamental» que, de acordo com o Documento de Aparecida (DAp), marca o caminho na formação do discípulo missionário é a conversão. Este é uma consequência direta do primeiro: o encontro pessoal com Jesus Cristo (cf. tema 7). «Em nossa Igreja devemos oferecer a todos os nossos fiéis um ‘encontro pessoal com Jesus Cristo’, uma experiência religiosa profunda e intensa, um anúncio ‘querigmático’ e o testemunho pessoal dos evangelizadores, que leve a uma conversão pessoal e a uma mudança de vida integral» (DAp 226).

Conversão

A conversão é entrar num caminho «que não pode deixar as coisas como estão» (EG 25). Esta mudança não se propõe como uma vergonha, algo a esconder, mas como um desafio a reconhecer o desajuste entre a graça divina e as nossas opções humanas. Tal como o encontro com Jesus Cristo, que o Papa convida a renovar diariamente (cf. EG 3), a conversão é um processo contínuo que há de ser proposto a todos. Neste «todos» estão, por exemplo, aqueles e aquelas que «‘não vivem as exigências do Batismo’, não sentem uma pertença cordial à Igreja e já não experimentam a consolação da fé. Mãe sempre solícita, a Igreja esforça-se para que elas vivam uma conversão que lhes restitua a alegria da fé e o desejo de se comprometerem com o Evangelho. (EG 14). Os bispos da América Latina e do Caribe explicitam assim este aspeto essencial na formação do discípulo missionário: «É a resposta inicial de quem escutou o Senhor com admiração, crê nEle pela ação do Espírito, decide ser seu amigo e ir após Ele, mudando sua forma de pensar e de viver, aceitando a cruz de Cristo, consciente de que morrer para o pecado é alcançar a vida. No Batismo e no sacramento da Reconciliação se atualiza para nós a redenção de Cristo» (DAp 278).

Escuta

Em primeiro lugar, diz-se que a conversão «é a resposta inicial de quem escutou o Senhor». Por isso, torna-se «necessário propor aos fiéis a Palavra de Deus como dom do Pai para o encontro com Jesus Cristo vivo, caminho de ‘autêntica conversão e de renovada comunhão e solidariedade’» (DAp 248). É a escuta do Senhor Jesus Cristo, a Palavra de Deus Pai descida ao coração do crente, que conduz à fé, que proporciona o acreditar. «Uma vez escutada, a palavra de Cristo, pelo seu próprio dinamismo, transforma-se em resposta no cristão, tornando-se ela mesma palavra pronunciada, confissão de fé. [...] São Paulo usará uma fórmula que se tornou clássica: ‘fides ex auditu’ — ‘a fé vem da escuta’ ( Romanos 10, 17)» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «Lumen Fidei» [LF], 22.29). Mas o encontro não acontece apenas pela escuta da Palavra; também há (ou tem de haver) outros «encontros». Então, «levanta-se a mesma pergunta cheia de expectativa: “Mestre, onde vives?” (João 1,38), onde te encontramos de maneira adequada para ‘abrir um autêntico processo de conversão, comunhão e solidariedade?’. Quais são os lugares, as pessoas, os dons que nos falam de ti, que nos colocam em comunhão contigo e nos permitem ser discípulos e missionários teus?» (DAp 245).

Iniciação Cristã

«Sentimos a urgência de desenvolver em nossas comunidades um processo de iniciação na vida cristã que comece pelo ‘querigma’ e que, guiado pela Palavra de Deus, conduza a um encontro pessoal, cada vez maior, com Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito homem, experimentado como plenitude da humanidade e que leve à conversão, ao seguimento em uma comunidade eclesial e a um amadurecimento de fé na prática dos sacramentos, do serviço e da missão» (DAp 289).

Reconciliação

No processo de conversão refere-se também a importância do Sacramento da Reconciliação. Este potencia «a conversão que todos necessitamos para combater o pecado que nos faz incoerentes com os compromissos batismais» (DAp 175).

Sociedade

«A conversão pessoal desperta a capacidade de submeter tudo ao serviço da instauração do Reino da vida» (DAp 366). De facto, «já não se pode afirmar que a religião deve limitar-se ao âmbito privado e serve apenas para preparar as almas para o céu. Sabemos que Deus deseja a felicidade dos seus filhos também nesta terra, embora estejam chamados à plenitude eterna, porque Ele criou todas as coisas ‘para nosso usufruto’ (1Timóteo 6, 17), para que ‘todos’ possam usufruir delas. Por isso, a conversão cristã exige rever ‘especialmente tudo o que diz respeito à ordem social e consecução do bem comum’» (EG 182).

Quero ser discípulo missionário da alegria do Evangelho? Que estilo de vida quero assumir? Estou disposto a viver em estado de conversão?

© Laboratório da fé, 2015 












Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.11.15 | Sem comentários
Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Segundo o evangelho de Marcos, o primeiro verbo que Jesus usa é «converter-se». E emprega-o no imperativo: «convertei-vos e acreditai no Evangelho». A razão desta necessidade é que «o Reino de Deus está próximo». Como está prestes a chegar há que estar bem preparados para o receber. Que significa e que implica a conversão? Converter-se é mudar. Mudar de atitudes e de pensamentos, porque o que costumamos pensar e o que costumamos fazer não favorece a chegada do Reino de Deus. Converter-se é dar a volta, virar as costas a algo, deixar de olhar uma coisa para olhar outra. Deixar de se olhar a si mesmo para olhar as necessidades do próximo e perguntar-se qual é a vontade de Deus sobre si e sobre os outros.
Estas palavras que o evangelista põe na boca de Jesus são usadas na liturgia no rito da imposição das cinzas. A Quaresma começa recordando o convite de Jesus a nos convertermos. Porque converter-se è uma tarefa permanente. Não é um gesto que se realiza uma vez, algo assim como quando alguém dá uma volta e deixa de olhar para uma coisa já tivesse resolvido o problema. Dar a volta, no nosso caso, não é um movimento físico, mas uma tarefa existencial, que é preciso renovar em cada momento. Porque enquanto vivemos neste mundo, Deus não é uma evidência. O evidente são os prazeres e as seduções do mundo que nos inclinam a buscar-nos a nós mesmos em detrimentos dos outros. Por isso, o crente está em permanente estado de conversão: está sempre voltando para Deus. A conversão não é só uma decisão inicial, é um estilo de vida. Com o amor acontece algo parecido: nunca acabamos de amar. Amar é crescer continuamente no amor.
Para se converter é necessário sentir-se atraído por «outra realidade» ou, pelo menos, intuir que a realidade em que se está não é boa e que há outra melhor. Não é uma chamada em abstrato ou vazia. É um convite a entrar num mundo novo, a acreditar no Evangelho. Supõe a apresentação de Jesus. Olhando-o, fixando os olhos em Jesus, podemos entender o que significa converter-se, o que devemos deixar e o que devemos acolher. A conversão concretiza-se em atitudes diferentes segundo a situação de cada um. Em qualquer caso, é um convite a libertar-se dos costumes, das pressões sociais, das opiniões públicas, para se deixar levar pelo sopro do Espírito.
A conversão adquire uma forma concreta olhando e escutando a Jesus: trata-se do respeito aos pequenos e aos débeis, da compaixão pelos que sofrem, de praticar o perdão, de abandonar os caminhos da violência, de entrar no caminho do amor e do serviço. Em determinadas ocasiões, a conversão pode dar-se sem que se esteja consciente disso: algumas pessoas que dedicam o seu tempo a obras sociais, talvez não apresentam a sua atitude em termos de conversão, mas o que fazem é o correlativo humano do que o evangelho classifica de conversão.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2015
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor


Primeiro domingo da Quaresma



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.2.15 | Sem comentários

CELEBRAR A QUARTA-FEIRA DE CINZAS


Eis o tempo da Quaresma! Tempo em que a Igreja é convidada à «conversão»: não é esta a primeira afirmação da primeira leitura deste primeiro dia? «Convertei-vos a Mim de todo o coração» (primeira leitura) — diz o nosso Deus. Um caminho a percorrer, pessoal e comunitariamente, interior e exteriormente, física e espiritualmente, em todas as dimensões do nosso ser. Um caminho para redescobrir a alegria da salvação (salmo). Assim, aprenderemos a praticar as boas obras «em segredo» (evangelho), como agrada a Deus, ao serviço dos irmãos. Não há tempo a perder: «este é o tempo favorável, este é o dia da salvação» (segunda leitura).

«Convertei-vos a Mim de todo o coração»
Quase nada se sabe sobre o profeta Joel, nem sobre o momento histórico ou as crises em que viveu. É provável que se situe num período posterior ao exílio na Babilónia, entre os séculos quinto e quarto, antes de Cristo. Portanto, no texto proposto para primeira leitura de Quarta-feira de Cinzas, não sabemos quem são os primeiros destinatários a quem se dirige o profeta.
Ouve-se a trombeta em sinal de alarme, na cidade de Jerusalém. A crise é muito grave. O oráculo quer despertar os habitantes adormecidos. Diz o que é preciso fazer: «Convertei-vos a Mim de todo o coração». Deus pede, não uma simples mudança de roupa, mas uma mudança sincera, «de todo o coração» (de toda a vida).
A resposta, que se inicia com o toque da trombeta, é um ato de religiosidade profunda, que há de romper a indiferença em que se tinha vivido. Na reunião do povo, é necessário expressar a conversão. Isto significa rever a situação. Há que se colocar diante de Deus e «rasgar o coração». Parece que o povo de Jerusalém se tinha esquecido de Deus. Quando isto acontece, a vida perde o sentido e a orientação. Quando nos convertemos a Deus, recordarmos de quem se trata: o Deus «clemente e compassivo, paciente e misericordioso». Quando quebramos a fidelidade para com Deus, as relações humanas tornam-se infiéis e a sociedade fica desintegrada. Então, ganham sentido os atos religiosos que são propostos: servem para recordar quem é Deus realmente, quais são as suas promessas e o que pede ao seu povo. 

A Quarta-feira de Cinzas é um convite a rever a nossa situação perante Deus e perante o mundo. Somos convidados a reinterpretar e a reorganizar a nossa vida, a assumir uma nova atitude de escuta, a «retornar à audição» (José Tolentino Mendonça) dos desafios atuais. «Há tanta coisa que nos está a ser dita e que nós simplesmente não escutamos!».
O rito típico deste dia — a imposição das cinzas — tem uma origem judaica e significa arrependimento e dor pelos pecados; mas, para nós, cristãos, vem acompanhado com as palavras de Jesus Cristo: «Converte-te e acredita no Evangelho». É um convite decisivo à mudança (conversão) para acolher a «alegria do Evangelho» que «enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus» (Francisco, Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual — «A Alegria do Evangelho», 1).

© Laboratório da fé, 2015

Celebrar a quarta-feira de cinzas, no Laboratório da fé, 2015

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.2.15 | Sem comentários

Mistério da fé! [24]


«A vida nova recebida na iniciação cristã não suprimiu a fragilidade e a fraqueza da natureza humana, nem a inclinação para o pecado, a que a tradição chama concupiscência, a qual persiste nos batizados, a fim de que prestem as suas provas no combate da vida cristã, ajudados pela graça de Cristo. Este combate é o da conversão, em vista da santidade e da vida eterna» (Catecismo da Igreja Católica [CIC], 1426). [Para ajudar a compreender melhor, ler: Mateus 4, 12-17; Catecismo da Igreja Católica, números 1422 a 1439]

«Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu»

— é o primeiro apelo de Jesus Cristo ao iniciar a sua missão, a chamada «vida pública». A mensagem de Jesus Cristo pede conversão. Isto significa deixar as seguranças e as rotinas para assumir uma vida nova, ou melhor, deixar-se surpreender pela novidade que é o próprio Jesus Cristo. Por isso, é Evangelho, isto é, Boa Nova.

Reconciliação

«Reconciliar é voltar a conciliar, fazer a união do que estava separado. A mensagem fundamental de Cristo foi a reconciliação com Deus, a conversão e o perdão. E também foi este o conteúdo básico, desde o princípio, da evangelização por parte da Igreja» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia» [DEL], ed. Paulinas, Prior Velho 2007, 252). Este Sacramento de Cura toma, entre outros, o nome de Sacramento da Reconciliação «porque dá ao pecador o amor de Deus que reconcilia: ‘Deixai-vos reconciliar com Deus’ (2Coríntios 5, 20). Aquele que vive do amor misericordioso de Deus está pronto para responder ao apelo do Senhor: ‘Vai primeiro reconciliar-te com teu irmão’ (Mateus 5, 24)» (CIC 1424). Neste sacramento, desde sempre, estão presentes duas dimensões que nunca se podem separar: a reconciliação com Deus e a reconciliação com a comunidade cristã.

Conversão

«É chamado sacramento da conversão, porque realiza sacramentalmente o apelo de Jesus à conversão e o esforço de regressar à casa do Pai da qual o pecador se afastou pelo pecado» (CIC 1423). Este apelo de Jesus Cristo não se circunscreve a um abandono dos pecados anteriores ou à confissão desses pecados. O que está em causa é uma mudança de direção, a situar-se num novo conjunto de valores, a mudar de critérios, a deixar-se conduzir pelo Evangelho. Este é o núcleo da pregação de Jesus Cristo e há de ser também o núcleo da pregação dos seus discípulos e da Igreja. «Este convite à conversão constitui a conclusão vital do anúncio feito pelos Apóstolos depois do Pentecostes. [...] Já não é genericamente o ‘reino’, mas a própria obra de Jesus, inscrita no plano divino prenunciado pelos profetas. Ao anúncio de quanto ocorreu com Jesus Cristo, morto, ressuscitado e vivo na glória do Pai, segue o premente convite à ‘conversão’» (João Paulo II, Audiência Geral de 15 de setembro de 1999). Por isso, a Igreja, ao anunciar a Palavra de Deus, «visa a conversão cristã, isto é, a adesão plena e sincera a Cristo e ao seu Evangelho» (João Paulo II, Carta Encíclica sobre a validade permanente do mandato missionário — «Redemptoris Missio» [RM], 46). Historicamente, «este apelo dirige-se, em primeiro lugar, àqueles que ainda não conhecem Cristo e o seu Evangelho. Por isso, o Batismo é o momento principal da primeira e fundamental conversão. É pela fé na boa-nova e pelo Batismo que se renuncia ao mal e se adquire a salvação, isto é, a remissão de todos os pecados e o dom da vida nova. Ora, o apelo de Cristo à conversão continua a fazer-se ouvir na vida dos cristãos. Esta ‘segunda conversão’ é uma tarefa ininterrupta para toda a Igreja, que ‘contém pecadores no seu seio’ e que é, ‘ao mesmo tempo, santa e necessitada de purificação, prosseguindo constantemente no seu esforço de penitência e de renovação’. Este esforço de conversão não é somente obra humana. É o movimento do ‘coração contrito’ atraído e movido pela graça para responder ao amor misericordioso de Deus, que nos amou primeiro» (CIC 1427-1428). Neste sentido, «a consciência das grandes obras que o Senhor realizou para a nossa salvação dispõe a nossa mente e o nosso coração para uma atitude de ação de graças a Deus, pelo que Ele nos concedeu, por tudo aquilo que leva a cabo em benefício do seu Povo e da humanidade inteira. É aqui que tem início a nossa conversão: ela é a resposta reconhecida ao mistério maravilhoso do amor de Deus. Quando nos damos conta deste amor que Deus tem por nós, sentimos a vontade de nos aproximarmos dele: é nisto que consiste a conversão» (Francisco, Audiência Geral de 5 de março de 2014).

«Não podemos pregar a conversão, se nós mesmos não nos convertermos todos os dias» (RM 47).






Reflexões semanais sobre a «fé celebrada» (liturgia e Sacramentos) — Laboratório da fé, 2014
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.3.14 | Sem comentários

PREPARAR O DOMINGO: vigésimo quarto domingo

15 DE SETEMBRO DE 2013

Evangelho segundo Lucas 15, 1-32

Naquele tempo, os publicanos e os pecadores aproximavam-se todos de Jesus, para O ouvirem. Mas os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». Jesus disse-lhes então a seguinte parábola: «Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar? Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’. Eu vos digo: Assim haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa e nove justos, que não precisam de arrependimento. Ou então, qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e tendo perdido uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente a moeda até a encontrar? Quando a encontra, chama as amigas e vizinhas e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida’. Eu vos digo: Assim haverá alegria entre os Anjos de Deus por um só pecador que se arrependa». Jesus disse-lhes ainda: «Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. O pai repartiu os bens pelos filhos. Alguns dias depois, o filho mais novo, juntando todos os seus haveres, partiu para um país distante e por lá esbanjou quanto possuía, numa vida dissoluta. Tendo gasto tudo, houve uma grande fome naquela região e ele começou a passar privações. Entrou então ao serviço de um dos habitantes daquela terra, que o mandou para os seus campos guardar porcos. Bem desejava ele matar a fome com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Então, caindo em si, disse: ‘Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores’. Pôs-se a caminho e foi ter com o pai. Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. Disse-lhe o filho: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’. Mas o pai disse aos servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha. Ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o. Comamos e festejemos, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’. E começou a festa. Ora o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. O servo respondeu-lhe: ‘O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque ele chegou são e salvo’. Ele ficou ressentido e não queria entrar. Então o pai veio cá fora instar com ele. Mas ele respondeu ao pai: ‘Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. E agora, quando chegou esse teu filho, que consumiu os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo’. Disse-lhe o pai: ‘Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’».



Segunda, 9: OS OUVINTES DE JESUS

Examinemos os ouvintes de Jesus: publicanos e pecadores; uns são suspeitos de enriquecer, em conivência com a ocupação romana; outros são censurados pela sociedade, que os julga separados de Deus por causa das suas atitudes. Jesus não julga porque vem para todos. Contemplo-o, dirigindo-se aos que os bem-pensantes recusam...



Terça, 10: MEMBROS DE UM GRUPO

100 ovelhas: alegro-me com o espetáculo! Mas não esqueço que cada uma tem a sua particularidade. Já reparei naquela que arrasta a pata e corre o risco de se perder?! Se sou pai, qual dos meus filhos precisa de mais afeto? Se sou responsável num empresa, qual dos empregados sob a minha responsabilidade necessita discretamente do meu incentivo? Se trabalho no ensino, qual dos meus alunos requer mais atenção? Não tenho um «grupo» informe diante de mim. Senhor, ajuda-me a distinguir a ajuda que cada um precisa de mim.



Quarta, 11: INCANSÁVEL PROCURA

Uma perdeu-se... uma perdeu-se! O pastor do rebanho, a mulher com moedas de prata, não podem contentar-se com o efeito do grupo. Madre Teresa, a quem perguntaram como é que tinha forças necessárias para se ocupar das crianças necessitadas na Índia, respondeu: «acolho um por um». Contemplo a energia do pastor, a mesma da mulher que vai «revirar» a sua casa para encontrar a moeda: deixo-me tocar pela obra misericordiosa de Deus que não veio converter as multidões mas tocar o coração de cada um.



Quinta, 12: CONVERSÕES EM AÇÃO

A ovelha foi recuperada para o rebanho, as dez moedas estão juntas. Um sentimento de dever cumprido, de totalidade, invada-me alegremente... Hoje, a conversão acontece diariamente: antigos prisioneiros são reintegrados e voltam a constituir família. Os filhos recuperam o contacto com os seus pais depois de um longo tempo de rutura. Milhares de pessoas descobrem a beleza do rosto de Cristo e pedem a preparação para celebrar o batismo. Senhor, ajuda-me a não ignorar a conversão em ação no mundo de hoje!



Sexta, 13: AVISAR A VIZINHANÇA

Nas duas parábolas, reúnem-se os amigos e vizinhos. Isto pode-nos distrair: é mesmo necessário envolver assim toda a gente? E porque não?! A alegria autêntica partilha-se. Habitados pelo medo da confusão, fechados dentro dos nossos muros, talvez não ousemos muitas vezes dizer aos que nos estão próximos a alegria que nos habita... A próxima vez que eu for testemunha de uma acontecimento alegre, não me esquecerei de o transmitir a alguém próximo de mim.



Sábado, 14: A ALEGRIA NO CÉU

Jesus fala da «alegria no Céu» ou dos «Anjos de Deus». Esta alegria não é um sentimento fugaz! Está enraizada nos céus, onde impera a Cruz gloriosa que a Igreja celebra neste dia. Senhor, ajuda-me a experimentar esta alegria: a alegria de estar em união contigo como tu estás em união com o Pai e o Espírito.



Domingo, 15: OS PECADORES SALVOS EM PRIMEIRO LUGAR!

Todos temos direito a uma segunda oportunidade: na eucaristia, escutemos atentamente a releitura de vida que Paulo dirige a Timóteo (segunda leitura): a palavra «digna de fé», que é «merecedora de toda a aceitação», é esta boa nova de Cristo que veio salvar os pecadores, com a maior amplitude possível! Longe de elogiar ou criticar os nossos atos, Cristo, que celebramos na eucaristia, vem penetrar o coração de cada um: Paulo anuncia-o com o máximo vigor com que antes o tinha perseguido. À nossa volta, recordemos e proclamemos que aqueles que parecem perdidos aos olhos humanos são os primeiros a ser salvos por Deus e a suscitar a alegria celeste.



© www.versdimanche.com
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

Preparar o vigésimo quarto domingo, ano C, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.9.13 | Sem comentários
— palavra para o dia da conversão de paulo, 25 de janeiro —



— Evangelho segundo Marcos 16, 15-18

Naquele tempo, Jesus apareceu aos Onze e disse-lhes: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado. Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados».

— Expulsarão os demónios em meu nome

A liturgia da Igreja celebra hoje a conversão de Paulo. É um dia «especial», certamente devido à forte influência de Paulo no anúncio de Jesus Cristo, na evangelização. A solenidade litúrgica em honra de Paulo é no dia 29 de junho, juntamente com Pedro. 
Este dia é marcado com o final do evangelho segundo Marcos, onde Jesus confia aos discípulos um mandato universal. Ora, este mandato foi totalmente acolhido por Paulo: após a sua conversão, contribuiu para que a pequena seita cristã se torna-se numa verdadeira religião universal independente do judaísmo.
Paulo teve o grande mérito de colaborar na inculturação do cristianismo nas sociedades gregas e romanas daquele tempo. É bem verdade — embora não possamos dizer que a culpa foi de Paulo — que nem tudo se tornou positivo. Devido ao crescimento rápido do cristianismo e ao uso permanente dos mesmos conceitos, ficamos agarrados a normas e linguagem que se desviaram do Evangelho. Precisamos de novos «Paulos» capazes de contribuir para a inculturação atual da Boa Nova de Jesus Cristo!
Hoje, Jesus continua a convidar os seus discípulos a viverem o mandato referido no evangelho: ir por todo o mundo, anunciar o Evangelho, celebrar o Batismo, apresentar os «sinais» da fé. Entre esses sinais estão a libertação das forças do mal («Expulsarão os demónios em meu nome»), o uso de uma linguagem compreendida por todos, a coragem para vencer todos os medos e o contributo para libertar os outros da dor e do sofrimento.

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.1.13 | Sem comentários
— Leonardo Boff —

Há mais de quinze anos atrás publiquei no Jornal do Brasil um artigo sob o título “Rejuvenescer como águias”. Relendo aquelas reflexões me dei conta como de elas são ainda atuais nos tempos maus sob os quais vivemos e sofremos. Retomo-as para alimentar nossa esperança enfraquecida e ameaçada pelas ameaças que pesam sobre a Terra e a Humanidade. Se não nos agarrarmos a alguma esperança, perdemos o horizonte de futuro e corremos o risco de nos entregarmos ao desamparo imobilizador ou à resignação estéril.
Neste contexto lembrei-me de um mito da antiga cultura mediterrânea sobre o rejuvenescimento das águias.
De tempos em tempos, reza o mito, a águia, como a fênix egípcia, se renova totalmente. Ela voa cada vez mais alto até chegar perto do sol. Então as penas se incendeiam e ela toda começa a arder. Quando chega a este ponto, ela se precipita do céu e se lança qual flecha nas águas frias do lago. E o fogo se apaga. Mas através desta experiência de fogo e de água, a velha águia rejuvenesce totalmente: volta a ter penas novas, garras afiadas, olhos penetrantes e o vigor da juventude. Seguramente este mito constitui o substrato cultural do salmo 103 quando diz:”O Senhor faz com que minha juventude se renove como uma águia”.
E aqui precisamos ser um pouco psicólogos da linha de C.G. Jung que tanto se ocupou do sentido dos mitos. Segunda esta interpretação, fogo e água são opostos. Mas quando unidos, se fazem poderosos símbolos de transformação.
O fogo simboliza o céu, a consciência e as dimensões masculinas no homem e na mulher. A água, ao contrário, a terra, o inconsciente e as dimensões femininas no homem e na mulher.
Passar pelo fogo e pela água significa, portanto, integrar em si os opostos e crescer na identidade pessoal. Ninguém ao passar pelo fogo ou pela água permanece intocado. Ou sucumbe ou se transfigura, porque a água lava e o fogo purifica.
A água nos faz pensar também nas grandes enchentes como conhecemos em 2010 nas cidades serranas do Estado do Rio. Com sua força tudo carregam, especialmente o que não tem consistência e solidez. São os infortúnios da vida.
E o fogo nos faz imaginar o cadinho ou as fornalhas que queimam e acrisolam tudo o que não é ganga e não é essencial. São as notórias crises existenciais. Ao fazermos esta travessia pela “noite escura e medonha”, como dizem os mestres espirituais, deixamos aflorar nosso eu profundo sem a ilusões do ego. Então amadurecemos para aquilo que é autenticamente humano e verdadeiro. Quem recebe o batismo de fogo e de água rejuvenesce como a águia do mito antigo.
Mas abstraindo das metáforas, que significa concretamente rejuvenescer como águia? Significa entregar à morte todo o velho que existe em nós para que o novo possa irromper e fazer o seu curso. O velho em nós são os hábitos e as atitudes que não nos engrandecem: a vontade de ter razão e vantagem em tudo, o descuido para com o lixo, o desperdício da água e o desrespeito para com a natureza, bem como a falta de solidariedade para com os necessitados, próximos e distantes. Tudo isso deve ser entregue à morte para podermos inaugurar uma forma de convivência com os outros que se mostre generosa e cuidadosa com a nossa Casa Comum e com o destino das pessoas. Numa palavra, significa morrer e ressuscitar.
Rejuvenescer como águia significa também desprender-se de coisas que um dia foram boas e de ideias que foram luminosas mas que lentamente, com o passar dos anos, se tornaram ultrapassadas e incapazes de inspirar o caminho da vida. Temos que nos renovar na mente e no coração.
Rejunecer como águia significa ter coragem para recomeçar e estar sempre aberto a escutar, a aprender e a revisar. Não é isso que nos propomos a cada novo ano?
Que o ano de 2013 que se inaugura, seja oportunidade de perguntar o quanto de galinha existe em nós que não quer outra coisa senão ciscar o chão e o quanto de águia há ainda em nós, disposta a rejuvenescer ao confrontar-se valentemente com os tropeços e as crises da vida. Só então cresceremos e a vida valerá a pena.
E não podemos esquecer aquela Energia poderosa e amorosa que sempre nos acompanha e que move o inteiro universo. Ela nos habita, nos anima e confere permanente sentido de lutar e de viver.

Que o Spiritus Creator nunca nos falte!
Feliz Ano novo de 2013.

© Leonardo Boff






Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 10.1.13 | Sem comentários
— por Alfredo Dinis, sj — «Igreja Viva» do «Diário do Minho», 27 de dezembro de 2012 —

A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes, as nossas casas religiosas estão vazias e a burocracia da Igreja aumenta, os nossos ritos religiosos e as vestes que usamos são pomposos. Mas será que tudo isto exprime aquilo que somos hoje?

Faleceu recentemente o Cardeal Carlo Maria Martini, um Jesuíta perito em Sagrada Escritura, que foi Arcebispo de Milão. O Cardeal era uma figura internacionalmente admirada. Na última entrevista publicada no jornal italiano Corriere della Sera (01.19.12, p. 4) manifestou algumas preocupações relativas à situação actual da Igreja, afirmando que ela necessita de uma reforma profunda: “A Igreja está cansada, na Europa do bem-estar e na América. A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes, as nossas casas religiosas estão vazias e a burocracia da Igreja aumenta, os nossos ritos religiosos e as vestes que usamos são pomposos. Mas será que tudo isto exprime aquilo que somos hoje?” Martini propõe três vias de reforma para a Igreja.

A primeira é a conversão: “a Igreja deve reconhecer os próprios erros e deve percorrer um caminho radical de mudança, começando pelo Papa e pelos Bispos.” Um dos temas desta conversão tem a ver com a posição da Igreja em matéria de sexualidade: “As questões sobre a sexualidade e sobre todos os temas relacionados com o corpo são um exemplo desse caminho de conversão. … Devemos perguntar-nos se as pessoas ainda ouvem os conselhos da Igreja em matéria de sexualidade. Neste campo, a Igreja é ainda uma autoridade de referência ou apenas uma caricatura nos meios de comunicação?”

A segunda via é a Palavra de Deus. “A Palavra de Deus é simples… Nem o clero nem o Direito eclesial podem substituir a interioridade do seu humano. Todas as regras externas, as leis, os dogmas, são-nos dados para clarificar a voz interior e para o discernimento de espíritos.”

A terceira via é a dos sacramentos. Devemos responder a uma questão fundamental: “Para quem são os sacramentos?” Segundo Martini, “os sacramentos não são um instrumento ao serviço da disciplina, mas sim uma ajuda aos seres humanos nas etapas do seu caminho e nas fraquezas da vida. Estaremos a levar os sacramentos àqueles que precisam de renovar as forças?” O Cardeal afirma-se preocupado com os divorciados que se sentem excluídos de uma participação plena na vida da Igreja e do socorro que a graça de Deus lhes pode dar através dos sacramentos. Trata-se, aparentemente, de uma questão encerrada, a da impossibilidade de estas pessoas receberem a absolvição e a comunhão sacramentais. Mas o Cardeal questiona a actual posição da Igreja para com estas pessoas: “A pergunta sobre se os divorciados podem receber a Comunhão deveria ser invertida. Como pode a Igreja ajudar com a força dos sacramentos quem vive em situações familiares complexas?” Para muitos a resposta já foi dada pela Igreja, mas não para o Cardeal, que nos deixou, a terminar, outras questões incómodas mas fundamentais: “A Igreja atrasou-se duzentos anos. Porque não se mexe? Temos medo? Medo em vez de coragem? Mas a fé é o fundamento da Igreja. A fé, a confiança, a coragem.” No Ano da Fé e da Nova Evangelização, as palavras do Cardeal Martini deveriam ser objecto de profunda e séria reflexão, se a Igreja verdadeiramente se reconhece semper reformanda.



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.12.12 | Sem comentários
— pergunta e resposta — 

— Porque é que o Papa decidiu promulgar um Ano da Fé?
«Para dar um renovado impulso à missão de toda a Igreja, de conduzir os homens para fora do deserto em que muitas vezes se encontram, rumo ao lugar da vida, da amizade com Cristo que nos dá a vida em plenitude, gostaria de anunciar nesta Celebração eucarística que decidi proclamar um 'Ano da Fé' [...]. Será um momento de graça e de compromisso para uma conversão a Deus cada vez mais completa, para fortalecer a nossa fé n’Ele e para O anunciar com alegria ao homem do nosso tempo» (Homilia do Papa a 16 de outubro de 2011).



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.10.12 | Sem comentários
— pergunta e resposta —

— O que é o Ano da Fé?

«O Ano da Fé é convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo» (Bento XVI, «A Porta da Fé», 6).


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.10.12 | Sem comentários
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