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Esta é a nossa fé [42]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

A última palavra do «Credo» é comum à maioria das orações: «termina com a palavra hebraica Ámen, palavra que se encontra com frequência no final das orações do Novo Testamento. Do mesmo modo, a Igreja termina com um ‘Ámen’ as suas orações» (Catecismo da Igreja Católica [CIC], 1061). [Para ajudar a compreender melhor, ler: 2Coríntios 1, 18-22; Catecismo da Igreja Católica, números 1061-1065]

«Graças a Ele, nós podemos dizer o ‘ámen’ para glória de Deus» — explica Paulo no início da Segunda Carta aos Coríntios. O termo «ámen» faz parte do património linguístico da Sagrada Escritura e, consequentemente, da Igreja. «Se considerarmos a Sagrada Escritura, vemos que este ‘ámen’ é pronunciado no fim dos Salmos de bênção e de louvor, como por exemplo no Salmo 41: ‘Tu me ajudarás, porque vivo com sinceridade, e me farás viver sempre na tua presença. Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, desde agora e para sempre. Ámen, ámen!» (versículos 13-14). Ou então exprime adesão a Deus, no momento em que o povo de Israel regressa cheio de alegria do exílio babilónico e diz o seu ‘sim’, o seu ‘ámen’ a Deus e à sua Lei. No Livro de Neemias narra-se que, depois deste regresso, ‘Esdras abriu o livro (da Lei) à vista de todo o povo, pois achava-se num lugar elevado, acima da multidão. Quando o escriba abriu o livro, todo o povo se levantou. Então, Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e e todo o povo respondeu, levantando as mãos: Ámen, ámen!’ (Neemias 8, 5-6).Por conseguinte, desde os primórdios o ‘ámen’ da liturgia judaica tornou-se o ‘ámen’ das primeiras comunidades cristãs» (Bento XVI, Audiência Geral de 30 de maio de 2012). Por fim, o último livro da Sagrada Escritura começa (cf. Apocalipse 1, 6) e termina (cf. Apocalipse 22, 21) com o «ámen» da Igreja.

Ámen. A raiz hebraica e aramaica («‘aman»), tem o significado de «tornar estável», «consolidar», «estar certo», «dizer a verdade». A partir da tradução grega, tornou-se comum associar «ámen» a «assim seja». Na linguagem popular, tomou o sentido de desejo ou resignação. Contudo, na oração não é resignação nem desejo, mas manifestação de segurança e de consentimento: era a resposta que os noivos pronunciavam perante a pergunta se queriam aceitar-se como marido e esposa. Por isso, o «ámen» não é uma mera conclusão: é também expressão de compromisso e segurança. Por outro lado, o «ámen» expressa a fidelidade recíproca entre Deus e o ser humano, entre Deus e nós (cf. CIC 1062). Neste sentido, dizer «ámen», no final do Credo, é repetir a primeira palavra — «Creio» —, reconhecendo a Trindade como único fundamento e sentido da vida. Então, eu acredito porque antes Deus acreditou e acredita em mim, amou-me e ama-me em cada momento da vida. Assim se exprimiu o papa Bento XVI (Audiência Geral de 30 de maio de 2012): «No ‘sim’ fiel de Deus insere-se o ‘ámen’ da Igreja que ressoa em cada gesto da liturgia: ‘ámen é a resposta da fé que encerra sempre a nossa oração pessoal e comunitária, e que expressa o nosso ‘sim’ à iniciativa de Deus. Muitas vezes respondemos por hábito com o nosso ‘ámen’ na oração, sem entender o seu significado profundo. [...] A oração é o encontro com uma Pessoa viva que deve ser ouvida e com a qual dialogar; é o encontro com Deus que renova a sua fidelidade inabalável, o seu ‘sim’ ao ser humano, a cada um de nós, para nos doar a sua consolação no meio das tempestades da vida e para nos levar a viver, unidos a Ele, uma existência cheia de alegria e de bem, que encontrará o seu cumprimento na vida eterna. Na nossa oração somos chamados a dizer ‘sim’ a Deus, a responder com este ‘ámen’ da adesão, da fidelidade a Ele de toda a nossa vida. Esta fidelidade nunca a podemos conquistar com as nossas próprias forças, não é apenas fruto do nosso compromisso quotidiano; ela vem de Deus e está fundada no ‘sim’ de Cristo, que afirma: o meu alimento é cumprir a vontade do Pai. É neste ‘sim’ que devemos entrar, entrar neste ‘sim’ de Cristo, na adesão à vontade de Deus, para chegar a afirmar com Paulo que já não somos nós que vivemos, mas é o próprio Cristo que vive em nós. Então, o ‘ámen’ da oração pessoal e comunitária envolverá e transformará toda a nossa vida de consolação de Deus, uma vida mergulhada no Amor».

A nossa fé não pode ser só uma fé professada. Tem de ser também uma fé celebrada, vivida, anunciada, contemplada. «A vida cristã de cada dia será, então, o ‘Ámen’ ao ‘Creio’ da profissão de fé do nosso Batismo: ‘Que o teu Símbolo seja para ti como um espelho. Revê-te nele, para ver se crês tudo quanto dizes crer. E alegra-te todos os dias na tua fé’» (CIC 1064).

© Laboratório da fé, 2013

Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé  Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 1.8.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [41]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

O «Credo» termina com a definição da meta para a qual caminha a existência humana: a esperança da ressurreição (tema 40) e da vida eterna, «a vida do mundo que há de vir». «O cristão, que une a sua morte à de Jesus, encara a morte como uma chegada até junto d’Ele, como uma entrada na vida eterna» (Catecismo da Igreja Católica, 1020). Aliás, esta não é só a meta da existência humana; é também a meta de toda a Criação. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Apocalipse 21, 1-5a; Catecismo da Igreja Católica, números 1020-1060]

«Vi, então, um novo céu e uma nova terra» — refere o autor do livro Apocalipse. A Bíblia termina com uma grandiosa afirmação de novidade. Numa visão, em linguagem simbólica, João vislumbra a meta: céu e terra são renovados (cf. tema 5: céu e terra simbolizam todas as coisas). Os perigos imprevisíveis, simbolizados pelo mar, desaparecem. Toda a Criação recebe uma dinâmica de mudanças positivas. Vencida a morte, eliminados os sofrimentos e as lágrimas, neutralizadas as forças hostis e negativas, começa uma vida nova em Jesus Cristo: «Eu renovo todas as coisas». Eis o resultado da vitória definitiva de Jesus Cristo (cf. temas 23 a 29). A novidade do Evangelho atinge a plenitude. Estamos perante uma nova Criação, em que tudo volta à situação original, tudo volta a ser vida e comunhão gozosa com Deus. Neste sentido, o texto bíblico destaca também a imagem de uma nova cidade: a «nova Jerusalém» que é sinal da instauração definitiva do Reino de Deus, sinal da presença («morada») de Deus. «No fim dos tempos, o Reino de Deus chegará à sua plenitude. [...] O próprio Universo material será transformado. Deus será, portanto, ‘tudo em todos’ (1Coríntios 28), na vida eterna» (Catecismo da Igreja Católica, 1060).

E a vida do mundo que há de vir. Ao refletirmos sobre a esperança da «vida do mundo que há de vir» ou da «vida eterna», a primeira barreira que temos de ultrapassar é pensar que se trata de uma vida e de um mundo iguais à vida e ao mundo em que nos encontramos agora. Não se trata de fazer perdurar para sempre a vida deste mundo ou algo semelhante. Bento XVI, na Carta Encíclica sobre a esperança cristã — «Spe Salvi», ao falar da vida eterna, explicita: «É uma expressão insuficiente, que cria confusão. Com efeito, ‘eterno’ suscita em nós a ideia do interminável, e isto nos amedronta; ‘vida’, faz-nos pensar na existência por nós conhecida, que amamos e não queremos perder, mas que, frequentemente, nos reserva mais canseiras que satisfações, de tal maneira que se por um lado a desejamos, por outro não a queremos. A única possibilidade que temos é procurar sair, com o pensamento, da temporalidade de que somos prisioneiros e, de alguma forma, conjeturar que a eternidade não seja uma sucessão contínua de dias do calendário, mas algo parecido com o instante repleto de satisfação, onde a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade» (12). Não se trata de um tempo sem fim, mas da ausência de tempo. «A eternidade não é semelhante ao tempo e a verdadeira definição de eternidade não é a duração prolongada, mas a presença» (Jean Guitton, citado por Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 140). Por isso, a expressão mais apropriada será plenitude: «é plenitude de participação na vida do ‘Eterno’» (João Paulo II, Carta Encíclica sobre o valor e a inviolabilidade da vida humana — «Evangelium Vitae» [EV], 37). Há também outra barreira que precisamos de ultrapassar: pensar em espaço, lugar. Ora, a «vida do mundo que há de vir» não é um local superior, não é um local fora do mundo; não é um local, mas uma maneira de ser: «é a própria vida de Deus e simultaneamente a vida dos filhos de Deus» (João Paulo II, EV 38). Esta maneira de ser consiste na presença plena de Deus em nós e de nós em Deus. Por isso, «a vida eterna não é algo apenas futuro; é uma realidade que já começou e que já está em fase de crescimento. Na medida em que nos confiamos a Cristo, na medida em que o seu Espírito já nos guia, já começamos a viver na Jerusalém do Céu» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 147).

Então, «não deixemos que nos roubem a esperança, nem permitamos que esta seja anulada por soluções e propostas imediatas que nos bloqueiam no caminho, que ‘fragmentam’ o tempo transformando-o em espaço. O tempo é sempre superior ao espaço: o espaço cristaliza os processos, ao passo que o tempo projeta para o futuro e impele a caminhar na esperança» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «Lumen Fidei», 57).

© Laboratório da fé, 2013

Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé  Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.7.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [37]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

No «Credo niceno-constantinopolitano», existem quatro atributos relacionados com a Igreja: una, santa, católica e apostólica. Interligados entre si, estes atributos indicam os aspetos essenciais da Igreja e da sua missão. Já apresentamos os dois primeiros (cf. temas 35 e 36). Agora, vamos refletir sobre a catolicidade e a apostolicidade da Igreja. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Marcos 16, 15-16.20; Catecismo da Igreja Católica, números 830-870; para um aprofundamento sobre a Igreja propomos a leitura da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» — do II Concílio do Vaticano]

«Proclamai o Evangelho a toda a criatura» — é a missão que Jesus Cristo ressuscitado confia aos Apóstolos, tal como está narrado no evangelho segundo Marcos. Este convite também está presente no evangelho segundo Mateus (28, 19): «Fazei discípulos de todos os povos». Em ambos os casos, as palavras pronunciadas por Jesus Cristo são uma síntese dos evangelhos. Neste contexto, importa destacar a missão universal dos discípulos. Hoje, continua a ser o essencial da missão da Igreja. «Cristo ressuscitado enviou os seus discípulos para dar testemunho da sua presença salvífica a todos os povos, porque Deus, no seu amor superabundante, quer que todos sejam salvos e ninguém se perca. Com o sacrifício de amor na Cruz, Jesus abriu o caminho para que todo o homem e mulher possa conhecer a Deus e entrar na comunhão de amor com Ele. E constituiu uma comunidade de discípulos para levar o anúncio salvífico do Evangelho até os confins da terra, a fim de alcançar os homens e as mulheres de todos os lugares e de todos os tempos. Façamos nosso esse desejo de Deus!» (Bento XVI, Mensagem para a XXVIII Jornada Mundial da Juventude).

Católica. O sentido original do termo («católica») evoca a plenitude, a totalidade da Igreja. Opõe-se a tudo o que é divisão. «Professar na fé a ‘catolicidade’ da Igreja é recusar a atitude de quem seleciona algumas partes da experiência e da verdade de fé em desfavor de outras, mantendo somente as que lhe agradam mais. É empenhar-se num diálogo e numa comunhão universais» (Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 120-121). O Catecismo da Igreja Católica (número 830) afirma que o atributo da catolicidade possui um duplo sentido: a Igreja «é católica porque nela está presente Cristo [...]; é católica porque Cristo a enviou em missão à universalidade do género humano» (Catecismo da Igreja Católica, 830). Na verdade, a catolicidade da Igreja não está associada a uma dimensão espacial. Em primeiro lugar, a catolicidade remete para a sua identidade, cujo fundamento é Jesus Cristo. Em segundo lugar, aponta para a sua vocação que é ser universal. Ora, é o primeiro sentido (plenitude) que dá fundamento ao segundo (universalidade). Jesus Cristo envia a Igreja em missão a toda a humanidade. Em ambos os sentidos, podemos constatar que a catolicidade da Igreja está relacionada com a sua unidade (cf. tema 35). «Catolicidade e unidade caminham lado a lado. E a unidade tem um conteúdo: a fé que os Apóstolos nos transmitiram da parte de Cristo» (Bento XVI, «A alegria da fé», Paulinas Editora, Prior Velho 2011, 79).

E apostólica. «A Igreja é apostólica, porque está fundada sobre os Apóstolos» (Catecismo da Igreja Católica, 857), «porque confessa a fé dos Apóstolos e tenta vivê-la» (Bento XVI, 80). Este (quarto) atributo é o fundamento de todos os outros: «uma Igreja só é verdadeiramente una, santa e católica, quando é apostólica. [...] A apostolicidade da Igreja é a garantia da sua fidelidade no Espírito à missão confiada» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 158). Ao referir este atributo («apostólica») podemos cair no equívoco de o associar ao contexto da «sucessão apostólica», remetendo para os bispos, cuja tradição aponta como os sucessores dos Apóstolos. No entanto, precisamos de tomar consciência de que «seguir os apóstolos não é um privilégio de alguns, mas sim a tarefa de toda a Igreja. Somente a Igreja que vive universalmente na sucessão apostólica pode ser considerada apostólica, ou seja, em harmonia com o testemunho apostólico, tal como chegou até nós no Novo Testamento» (Hans Küng, «Credo. A Profissão de Fé Apostólica explicada ao Homem Contemporâneo», Instituto Piaget, Coleção «Crença e Razão» 14, Lisboa 1997, 158).

«Esta é a única Igreja de Cristo, que no Credo confessamos ser una, santa, católica e apostólica» (Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium», 8).

© Laboratório da fé, 2013

Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé  Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.7.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [36]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

«Desde o século IV, todas as comunidades cristãs fazem, na sua profissão de fé, esta afirmação: ‘Creio na Igreja santa’. Qual é o verdadeiro significado desta ‘verdade’ que ganhou lugar no credo dos cristãos?» (Manuel Madureira Dias, «Igreja, que dizes de ti mesma? Reflexões sobre a Lumen Gentium», Paulinas Editora, Prior Velho, 2013, 170). [Para ajudar a compreender melhor, ler: Efésios 5, 25-27; Catecismo da Igreja Católica, números 823-829; para um aprofundamento sobre a Igreja propomos a leitura da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» — do II Concílio do Vaticano]

«Santa e imaculada» — são as duas características que a Carta aos Efésios relaciona com a Igreja em virtude do amor de Jesus Cristo. Ao falar da relação entre os esposos, Paulo sugere como modelo a relação de Jesus Cristo com a Igreja. Ele amou-a e entregou-se por ela, «para a santificar». Neste contexto, o autor da Carta aos Efésios retoma o simbolismo nupcial utilizado pelos profetas (Oseias, Jeremias, Isaías) para descrever o amor de Deus pelo seu povo. É este amor de Deus que se torna a fonte da santidade da Igreja. «A Igreja é, no dizer da Lumen Gentium, constituída por Cristo como ‘novo Povo de Deus, como nação santa, que, agora, é verdadeiro Povo de Deus’, na sequência do Povo da Antiga Aliança, e que foi constituído por Deus ‘para que o servisse na santidade’. [...] O plano de Deus em relação ao seu Povo é um só: que esse Povo seja santo. Aliás, as afirmações sobre a santidade de Deus, feitas pelo Antigo Testamento, têm sempre, unido a elas, o convite para que ele seja santo, porque Deus é Santo. E, para que não restem dúvidas [...], os apelos à santidade repetem-se, para eles, com boas razões, em diversas passagens dos livros do Novo Testamento (Manuel Madureira Dias, 156-157).

Santa. A santidade da Igreja é resumida, no Catecismo da Igreja Católica (número 867), com esta afirmação: «A Igreja é santa: é seu autor o Deus santíssimo; Cristo, seu Esposo, por ela se entregou para a santificar; vivifica-a o Espírito de santidade. Embora conte no seu seio pecadores, ela é ‘sem pecado feita de pecadores’». Em primeiro lugar, a Igreja é santa na sua origem. Ela tem a sua fonte na santidade de Deus. «A Igreja é santa, antes de mais, pela sua pertença a Deus, em Cristo, pelo Espírito Santo. Deus escolheu-a em Cristo, fez aliança com ela, consagrou-a, e fez dela lugar da sua habitação. Esta é, pois, a grande razão da santidade da Igreja» (Manuel Madureira Dias, 171). Aliás, qualquer abordagem sobre a Igreja tem sempre como primeira referência o próprio Deus. Por isso, o que dissemos sobre a unidade da Igreja (cf. tema 34), dizemos também sobre a sua santidade. «A unidade da Igreja não tem origem em si mesma, mas na santidade de Deus que a envia em missão ao coração do mundo. A santidade da Igreja não é mais evidente que a sua unidade. É aos olhos da fé que a Igreja é indefetivelmente santa. Não é santa pelas pessoas que a compõem e que seriam melhores que os outros. É a Igreja que Deus santifica sem cessar. É, ao mesmo tempo, santa e chamada a purificar-se vivendo do perdão do Pai. [...] A Igreja deve pedir cada dia a Deus a santificação e a santidade» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 155-156). A origem da Igreja é também a sua meta. «A Igreja, à qual todos somos chamados e na qual por graça de Deus alcançamos a santidade, só na glória celeste alcançará a sua realização acabada, quando vier o tempo da restauração de todas as coisas» (Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» [LG], 48). Entretanto, como membros, não podemos afirmar a santidade da Igreja sem assumirmos, pessoal e comunitariamente, um compromisso de conversão, de permanente arrependimento e uma disponibilidade para renovar a nossa maneira de viver. «A Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação» (LG 4). Neste sentido, podemos afirmar que a Igreja também é santa na sua missão, ou melhor, é «santificante»: tem como finalidade contribuir para a santificação de todos os seus membros. «A Igreja, unida a Cristo, é santificada por Ele. Por Ele e n’Ele torna-se também santificante» (Catecismo da Igreja Católica, 824). O II Concílio do Vaticano, na Constituição Dogmática sobre a Igreja («Lumen Gentium»), apresenta um capítulo (número 39 a 42) onde recorda a «vocação de todos à santidade na Igreja».

Una e santa na sua origem, a Igreja tem como missão levar a unidade e a santidade a todos os seres humanos. A sua missão é universal, isto é, católica.

© Laboratório da fé, 2013

Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé  Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.7.13 | Sem comentários

Esta é a nossa fé [35]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

A fé no Espírito Santo continua com a proclamação: «Creio na Igreja una»... Na verdade, o «Credo» ensina-nos que há uma ligação profunda entre o Espírito Santo e a Igreja. «A missão de Cristo e do Espírito Santo completa-se na Igreja» — afirma o Catecismo da Igreja Católica (número 737). Por isso, o Espírito Santo é também a fonte da unidade na Igreja. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Atos dos Apóstolos 2, 42-47; Catecismo da Igreja Católica, números 731-741 e 813-822]

«Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum» — relata o livro dos Atos dos Apóstolos. «Os crentes é um modo de designar os ‘cristãos’. Viviam unidos. Sublinha-se fortemente o que caracteriza a comunidade primitiva: a união, a unanimidade, a comunhão fraterna, a partilha dos bens. A comunidade de Jerusalém tornou-se, assim, um exemplo para todos os crentes e para todas as igrejas. Estes versículos constituem o primeiro sumário relativo à vida da comunidade de Jerusalém. [...] É posta em evidência a unidade de uma comunidade, os seus elementos característicos, a partilha dos bens e a atividade miraculosa dos Apóstolos. As primeiras componentes da vida de comunidade são o ensino dos Apóstolos e a união fraterna. O espaço dessa realização comunitária era o culto, do qual faziam parte a fração do pão, a Eucaristia, e as orações» (Bíblia Sagrada. Notas ao texto dos Atos dos Apóstolos, Difusora Bíblica, 1780). Este relato do livro dos Atos dos Apóstolos (cf. capítulo 2) aparece na sequência do dom do Espírito Santo (Pentecostes) e do primeiro discurso de Pedro. Agora, o Espírito Santo continua a animar os cristãos que procuram viver da melhor maneira o ideal comunitário proposto por Jesus Cristo. No texto, percebe-se que a unidade é uma caraterística essencial da comunidade cristã.

Creio. «No Credo, imediatamente depois de ter professado a fé no Espírito Santo, dizemos: ‘Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica’. Há um vínculo profundo entre estas duas realidades de fé: com efeito, é o Espírito Santo que dá vida à Igreja, guiando os seus passos. Sem a presença e a obra incessante do Espírito Santo, a Igreja não poderia viver nem cumprir a tarefa que Jesus ressuscitado lhe confiou, de ir e ensinar todas as nações» (Francisco, Audiência Geral de 22 de maio de 2013). Portanto, apesar deste apartado sobre a Igreja começar com a afirmação «Creio», como acontece em relação à Trindade — «Creio em um só Deus (cf. tema 1)... Creio em um só Senhor, Jesus Cristo (cf. tema 7)... Creio no Espírito Santo» (cf. tema 30) —, convém não esquecer que o «Credo» possui uma estrutura trinitária assente na Trindade: Pai, Filho, Espírito Santo. «O artigo sobre a Igreja depende inteiramente do artigo sobre o Espírito Santo. [...] A Igreja é o lugar ‘onde floresce o Espírito’» (Catecismo da Igreja Católica, 749).

Na Igreja. «A Igreja é a primeira obra do Espírito em que se confessa a sua presença ativa no coração dos homens. [...] A Igreja é a comunidade de crentes convocada e reunida pelo Espírito. A palavra ‘ecclesia’, de onde vem ‘Igreja’, significa quer a convocação, quer a assembleia reunida» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 134).

Una. O Catecismo da Igreja Católica (número 813) afirma que a igreja é una, graças à sua fonte (Trindade), graças ao seu fundador (Jesus Cristo), graças à sua «alma» (Espírito Santo). É da própria essência da Igreja o ser una. «Há um primeiro efeito importante da obra do Espírito Santo que guia e anima o anúncio do Evangelho: a unidade, a comunhão. Em Babel, segundo a narração bíblica, tiveram início a dispersão dos povos e a confusão das línguas, fruto do gesto de soberba e de orgulho do ser humano [...]. No Pentecostes, estas divisões são superadas. Já não há orgulho em relação a Deus, nem fechamento de uns aos outros, mas abertura a Deus [...]. A língua do Espírito, do Evangelho, é a língua da comunhão, que convida a superar fechamentos e indiferenças, divisões e oposições» (Francisco, Audiência Geral de 22 de maio de 2013). No entanto, a realidade (ontem como hoje) mostra-nos que há ainda um caminho a percorrer para a unidade plena. Por isso, a Igreja tem de se empenhar para conservar o dom da unidade (cf. Catecismo da Igreja Católica, número 820).

«Cada um deve perguntar: como me deixo guiar pelo Espírito Santo, de modo que a minha vida e o meu testemunho de fé seja de unidade e comunhão? [...] Que faço na minha vida? Crio unidade ao meu redor? Ou divido com mexericos, críticas e inveja. O que faço? Pensemos nisto» (Francisco, Audiência Geral de 22 de maio de 2013).

© Laboratório da fé, 2013

Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé  Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.6.13 | Sem comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano — 

No mistério da Encarnação do Filho de Deus há a participação de uma jovem de Nazaré: Maria. Não podemos separar Maria de Jesus, a Mãe do Filho. «O que a fé católica crê, a respeito de Maria, funda-se no que crê a respeito de Cristo. Mas o que a mesma fé ensina sobre Maria esclarece, por sua vez, a sua fé em Cristo» — refere o Catecismo da Igreja Católica (número 487). No «Credo» proclamamos que Jesus «encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria». O grande acontecimento da Encarnação do Filho tem origem no Pai e concretiza-se pela ação do Espírito Santo «no seio da Virgem Maria». [Para ajudar a compreender melhor, ler: Lucas 2, 1-20; Catecismo da Igreja Católica, números 487 a 511]

«Completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho» — eis o culminar do mistério da Encarnação concretizado no nascimento. No relato do evangelista Lucas, estando em Belém, Maria deu à luz o seu filho, a quem será posto o nome de Jesus. Podemos dizer que a vinda de Deus ao nosso mundo através de Jesus, um ser humano, um ser de carne e osso, é o resultado natural da forma como se desenrola toda a História da Criação e da Salvação. Deus quis precisar da colaboração livre da jovem de Nazaré, Maria. Através do seu «sim» descrito na «Anunciação», tem início a geração do Filho de Deus «no seio da Virgem Maria».

No seio (maternidade). A maternidade de Maria é a garantia do nascimento de Jesus como ser humano. Ele é dado à luz por uma mulher. «Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher» (Carta aos Gálatas 4, 4). O mistério da Encarnação está intimamente ligado à maternidade de Maria. Nas discussões que se geraram sobre a identidade de Jesus Cristo, a Igreja proclama também a maternidade divina de Maria. Não existem dois Jesus Cristo (um humano e outro divino). «Jesus, nascido de Maria, é plenamente homem e plenamente Deus, sem confusão nem divisão, como especificará o Credo de Calcedónia no ano 451» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Prólogo — A infância de Jesus», Princípia Editora, Cascais 2012, 48). A união, em Jesus Cristo, do humano e do divino acontece «no seio da Virgem Maria». Por isso, Maria é «Mãe de Deus», é mãe daquele que assume em si a natureza humana e divina. Entre a muita bibliografia sobre este assunto, tomamos a reflexão do Papa João Paulo II: «Quando o Concílio de Éfeso aplicou a Maria o título de ‘Theotokos’, Mãe de Deus, a intenção dos Padres do Concílio era garantir a verdade do mistério da Encarnação. Queriam afirmar a unidade pessoal de Cristo, Deus e Homem, uma unidade de tal forma única que a maternidade de Maria em relação a Jesus era, por isso mesmo, maternidade em relação com o Filho de Deus. Maria é ‘Mãe de Deus’ porque o seu Filho é Deus; embora seja mãe só na ordem da geração humana, dado que o Menino, que ela concebeu e deu à luz, é Deus, deve ser chamada ‘Mãe de Deus’. A afirmação da maternidade divina ilumina-nos sobre o sentido da Encarnação. Demonstra que o Verbo, Pessoa divina, se tornou humano: fez-se homem graças à participação de uma mulher na obra do Espírito Santo. Uma mulher foi associada de forma singular ao mistério da vinda do Salvador ao mundo. [...] Graças a Maria, Ele tem um verdadeiro nascimento e a sua vida na terra começa de maneira semelhante à de todos os outros humanos. Com a sua maternidade, Maria permite ao Filho de Deus ter — depois da conceção extraordinária pela ação do Espírito Santo — um desenvolvimento e uma inserção normal na sociedade humana» (www.vatican.va — Audiência Geral de 4 de janeiro de 1984).

Virgem Maria. A maternidade de Maria é excecional na conceção e no parto. Em ambos, Maria permanece «virgem». Muito se tem escrito, não faltando opiniões a favor e contra a virgindade de Maria (antes e depois do parto). Trata-se de uma realidade de difícil compreensão para a nossa inteligência. Mas não quer dizer que seja falso! Deus que criou o mundo não pode realizar tal milagre? «A conceção e o nascimento de Jesus da Virgem Maria são elementos fundamentais da nossa fé e um luminoso sinal de esperança» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Prólogo — A infância de Jesus», 52).

Em resumo podemos dizer: «A virgindade de Maria manifesta ‘a iniciativa absoluta de Deus na Encarnação’. A maternidade manifesta a fiel participação de Maria na obra do Espírito Santo. [...] Juntos, virgindade e maternidade, manifestam aquilo que a Igreja e cada cristão devem ser: anunciadores e portadores de Cristo» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 107).



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 27.12.12 | Sem comentários
— reflexão semanal sobre o credo niceno-constantinopolitano —

A omnipotência de Deus é caracterizada no Catecismo da Igreja Católica como universal, amorosa e misteriosa. Tudo isto está condensado no «Credo» na afirmação «todo-poderoso». [Para ajudar a compreender melhor, ler: Segunda Carta aos Coríntios 6, 16b.18; Catecismo da Igreja Católica, números 268 a 278] 

«Serei para vós um pai e vós sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor Todo-Poderoso» — assim se expressa Paulo, na Segunda Carta aos Coríntios. A primeira verdade que temos de acolher é a seguinte: Deus é todo-poderoso enquanto Deus e enquanto Pai. Deus Pai está primeiro. Assim dizemos: «Deus Pai todo-poderoso». Por isso, a omnipotência de Deus tem de ser sempre interpretada a partir da paternidade. «Deus é o Pai todo-poderoso. A sua paternidade e o seu poder esclarecem-se mutuamente» (Catecismo da Igreja Católica, 270). 

Omnipotente, Todo-poderoso. A versão latina do «Credo» utiliza a expressão «omnipotentem» («omnia» significa «todo»; «potens» significa «poderoso»). Uma tradução literal também possível em português seria «omnipotente». Em vez de traduzir por «Deus Pai todo-poderoso», também poderíamos dizer «Deus Pai omnipotente». Em qualquer dos casos, «para os nossos contemporâneos esta fórmula não é bem aceite. Até pode se objeto de dois tipos de crítica. Por um lado, nós opomo-nos à ideia de um Deus que demonstra uma omnipotência sobre o ser humano; que liberdade permanece ao ser humano se Deus é omnipotente? Por outro lado, verificamos que Deus não é omnipotente porque não consegue eliminar todos os males da terra. Quantas pessoas, na provação do mal e do sofrimento, deixaram de acreditar em Deus porque, dizem, ele não atende as suas preces! ‘Se Deus existisse, não deixaria que existisse todo este mal’. ‘Se Deus fosse todo-poderoso, não teria deixado morrer esta pessoa que eu amava’. Ficamos tocados no coração por esta pergunta radical. Também as crianças a põem. Os adolescentes igualmente. Os que acompanham os doentes e os ouvem ficam impressionados no mais íntimo do coração. E muitos outros a sentem em si profundamente» (Mons. Christophe Dufour, «Cinco pequenas catequeses sobre o Credo», Edições Salesianas, Porto 2012, 16).

Deus não é rival do ser humano. A imperfeição da nossa linguagem para falar de Deus torna-se mais evidente quando pretendemos colocar Deus como rival do ser humano. E inventamos um Deus «controlador» da nossa liberdade. A omnipotência de Deus não se assemelha aos desejos humanos de poder, de querer subjugar os outros, às vezes, a todo o custo, recorrendo, se necessário, à violência. A omnipotência de Deus não se manifesta pela subjugação. O poder de Deus manifesta-se na fraqueza — diz São Paulo na Segunda Carta aos Coríntios (12, 9). Por isso, a questão essencial que perturba e prejudica o nosso entendimento não é o tema da omnipotência de Deus, mas a imagem ou imagens que temos de Deus. Purificadas as falsas imagens, que influenciam a forma como entendemos a religião, o atributo omnipotente de Deus será acolhido de uma outra forma, essa sim mais próxima da verdade sobre Deus e o seu poder. 

O mal. Outra das dificuldades está relacionada com a existência do mal no mundo. Exatamente porque Deus não «controla» a nossa liberdade, o ser humano pode ir até ao limite máximo de negar e aniquilar a dignidade do outro. Um Deus que impedisse o ser humano de agir, mesmo que fosse para impedir o mal, estaria a negar-se a si mesmo. O homem e a mulher tornar-se-iam numa espécie de «fantoches» manobrados por Deus de acordo com o que lhe aprouvesse em cada instante. Quando dizemos que Deus é «todo-poderoso» não estamos a afirmar que se trata de um poder arbitrário e intervencionista, para impedir o mal ou o sofrimento sempre que fosse necessário. Não é essa a identidade de Deus! «O teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer, executado pelos nazis, afirmou que ‘Deus é impotente e débil no mundo e só assim está connosco e nos ajuda’. É seguindo o exemplo de Deus que assume a debilidade humana, mas sem renunciar a combater o mal, que o ser humano aprende o seu ofício, combatendo o mal até ao extremo, sem nunca se resignar diante dele» (Marcel Neusch, «El enigma del mal», ed. Sal Terrae, Santander 2010, 184). 

A omnipotência de Deus só pode agir «através da mediação da resposta livre daquele que é amado, daquele que diz: ‘Sim, eu creio’. [...] A fé invoca sobre nós o amor. A fé invoca sobre a humanidade a omnipotência do amor de Deus» (Mons. Christophe Dufour, 19).



 

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 31.10.12 | Sem comentários
— a Igreja alimenta-se da Palavra de Deus —

— Evangelho segundo Marcos 10, 46-52
Naquele tempo, quando Jesus ia a sair de Jericó com os discípulos e uma grande multidão, estava um cego, chamado Bartimeu, filho de Timeu, a pedir esmola à beira do caminho. Ao ouvir dizer que era Jesus de Nazaré que passava, começou a gritar: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim». Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele gritava cada vez mais: «Filho de David, tem piedade de mim». Jesus parou e disse: «Chamai-o». Chamaram então o cego e disseram-lhe: «Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te». O cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus. Jesus perguntou-lhe: «Que queres que Eu te faça?». O cego respondeu-Lhe: «Mestre, que eu veja». Jesus disse-lhe: «Vai: a tua fé te salvou». Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.

— A tua fé te salvou
A cura do cego Bartimeu, narrada pelo evangelista, tem um propósito pedagógico. É um episódio central no evangelho segundo Marcos. Curiosamente, um cego torna-se no modelo do verdadeiro discípulo. Recordando os textos evangélicos dos domingos anteriores (passagens do evangelho segundo Marcos), percebemos que aqueles que até agora acompanharam Jesus ouvem as suas palavras, mas não entendem a proposta de vida feita por Jesus. Têm o coração fechado ao estilo de vida de Jesus Cristo. Ao contrário, o cego Bartimeu tem consciência que não vê. E, ao saber que Jesus ia a passar junto dele, não perde a oportunidade para abrir o coração. Perante os gritos insistentes, Jesus diz: «chamai-o». Então, «o cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus». Um cego tem de andar devagar e com cuidado. Mas agora há qualquer coisa que altera a normalidade. Ele dá «um salto»! O que muda é a confiança. Mesmo sem ver, aquele homem confia em Jesus Cristo, isto é, acredita que Jesus pode mudar a sua vida. Por isso, o manto, sinal da vida anterior, é atirado fora. Todas as suas esperanças fixam-se em Jesus. Este é o milagre, que é realizado pelo próprio cego: deita fora tudo o que lhe impede de abrir o coração a Jesus Cristo. Já nada o prende. Então, pode saltar, pode dar um salto (de alegria) para ir ao encontro da vida. Jesus apenas confirma o milagre já realizado: «A tua fé te salvou». Agora, aquele homem que antes estava «à beira do caminho», salta e segue Jesus «pelo caminho». Este caminho não é topográfico, mas é um caminho existencial.
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 28.10.12 | Sem comentários
A reflexão sobre o «Credo» limita-se, muitas vezes, a constatar que o texto é muito complicado... Não poderemos olhar de outra forma para as palavras que expressam a nossa identidade cristã?! Este ano pastoral, durante quarenta e duas semanas, vamos apresentar as expressões do «Credo» para, a partir do texto, aprendermos a «dizer» (melhor) qual é a nossa fé. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Segunda Carta a Timóteo 1, 6-14; Catecismo da Igreja Católica, números 185 a 197] 

«Sei em quem acreditei» — esta afirmação de Paulo «ajuda-nos a compreender que ‘antes de mais, a fé é uma adesão pessoal do homem a Deus. Ao mesmo tempo, e inseparavelmente, é o assentimento livre a toda a verdade revelada por Deus’. A fé como confiança pessoal no Senhor e a fé que professamos no Credo são inseparáveis, se atraem e se exigem reciprocamente. Existe uma ligação profunda entre a fé vivida e os seus conteúdos: a fé das testemunhas e dos confessores é também a fé dos apóstolos» (Congregação para a Doutrina da Fé, «Nota com indicações pastorais para o Ano da Fé»).

Sinal de identidade. O «Credo» é designado símbolo da fé. Esta denominação está conforme com a origem etimológica da palavra, porque o símbolo, originalmente, era um objeto partido em dois, permitindo o reconhecimento entre as duas partes de um pacto, de um contrato. Cada parceiro conservava consigo uma metade desse objeto, e quando se juntavam as duas partes, podiam reconhecer-se ligados pelo pacto que anteriormente tinham assinado. O símbolo tem o valor do reconhecimento. Da mesma forma, o «Credo» é um símbolo porque, ao recitarmos este texto, reconhecemo-nos cristãos e parceiros de todas as gerações cristãs que nos precederam. É a expressão de uma fé comum, a fé da Igreja.

Existem três fórmulas «oficiais» para a profissão de fé, para o «Credo».


Credo batismal. A mais antiga é a profissão de fé nascida da liturgia batismal, que se faz sob a forma de pergunta/resposta, que permite proclamar, por um lado a renúncia ao mal, e, por outro lado, a profissão de fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Esta forma, muito litúrgica, porque estava ligada à tripla imersão no batismo, é a mais simples. 

Símbolo dos Apóstolos. O nome desta fórmula nasce de uma lenda que atribuiu aos Apóstolos a autoria do texto. Este Símbolo é considerado a «regra da fé, breve e grande» (Santo Agostinho): breve pelo número das palavras, grande pelo alcance capaz de evocar em poucas palavras a totalidade da fé cristã. 

Símbolo Niceno-Constantinopolitano. Este texto não foi escrito, inicialmente, para uso na liturgia; resulta de discussões teológicas complicadas. O nome deste símbolo está relacionado com o Primeiro Concílio de Niceia (no ano 325) e com o Primeiro Concílio de Constantinopla (no ano 381), onde foi feita uma revisão do texto anterior. O «Credo» possui uma tríplice estrutura: a primeira estrutura é trinitária (Deus é confessado como único, mas também como comunhão de três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo), a segunda estrutura é narrativa (conta a História da Salvação); a terceira estrutura é enunciativa (não se refere apenas ao conteúdo da fé, mas também aos sujeitos que dele se apropriam, para o viver e testemunhar).

«O Credo está no coração da liturgia pascal, batismal e dominical. Está no coração da catequese no catecumenado dos adultos, na profissão de fé dos jovens, na confirmação como também nos materiais catequéticos (catecismos). Ele está também no coração da teologia» (André Fossion, «Dieu désirable», Novalis; Lumen Vitae, Bélgica 2010, 121).

Creio. «Com a palavra ‘creio [acredito em ti]’, manifestamos um modo pessoal, nosso, de nos pormos diante de uma determinada pessoa: consideramo-la digna de confiança, convencidos de que diz a verdade» (Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 12). Dizer «creio» é afirmar a nossa confiança, apesar da dúvida ou do risco. Por isso, há uma (grande) diferença entre o crer, o ver e o saber. Como escreveu Jean Guitton, «saber é mais belo do que ver. Mas crer é ainda mais belo do que saber, porque no ato de crer há muito amor. Ver é uma operação feita pela vontade, e até pelo mais alto grau da vontade, que é o amor. Pois bem, há mais na inteligência do que nos sentidos; e há mais no amor do que na inteligência». Dizer «creio» é manifestar a nossa adesão livre e pessoal. Por isso, exige o envolvimento e o empenho da razão. Assim, torna-se útil e importante saber o que dizemos no «Credo» de modo a (re)descobrirmos a sua beleza e significado; e a fazer com que se torne um «sinal distintivo» da identidade cristã.


 
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.10.12 | Sem comentários
«Esta é a nossa fé» — é o título geral da iniciativa que se vai concretizar em quarenta e duas reflexões sobre o «Credo Niceno-Constantinopolitano». A partir de textos bíblicos e do Catecismo da Igreja Católica vão ser publicadas, nesta página, ao ritmo de uma por semana, até finais de julho de dois mil e treze. Em breve, estas reflexões estarão também disponíveis em audio através de uma parceria com as edições salesianas.



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 14.10.12 | Sem comentários
— Arquidiocese de Braga, Portugal —

— Redescobrir a identidade cristã para uma fé (melhor) professada
Um novo ano pastoral! Um novo plano pastoral! Nos próximos cinco anos, a nossa Arquidiocese vai seguir um caminho de redescoberta da identidade cristã, alicerçado numa fé melhor professada, celebrada, vivida, anunciada e contemplada. Este é o objectivo geral para os próximos cinco anos: redescobrir a identidade cristã e o dom da fé, para uma «autêntica e renovada conversão ao Senhor» Jesus Cristo. A motivação fundamental deste objectivo é esta: «Não podemos aceitar que o sal se torne insípido e a luz fique escondida» (Bento XVI, «A Porta da Fé», 3). E, concretamente, neste ano teremos também estes objectivos: Celebrar o Ano da Fé de forma digna e fecunda; Intensificar a reflexão sobre a fé; Confessar a fé no Senhor Ressuscitado; Estudar a Constituição Dogmática sobre a Igreja («Lumen Gentium»); Aprofundar os conteúdos do «Credo», a partir do Catecismo da Igreja Católica.


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 7.10.12 | Sem comentários
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